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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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Israel & Palestina
Uma viagem às raízes da fé ocidental e à área mais explosiva do conflito árabe-israelense. Textos, fotos e vídeos por JOMAR MORAIS
Jerusalém! Jerusalém!
JM gravando um vídeo junto à muralha de Jerusalém: "Eu não poderia morrer sem tê-la conhecido"
Diante de mim, a muralha imponente da Jerusalém histórica, dourada pelos últimos raios de Sol. Não é um monumento com a idade desta cidade de 3 000 anos, pois foi construída pelos otomanos no século 16, mas se encaixa e se sobressai no tesouro de registros da saga humana encravado neste lugar. Na brisa fria da tarde de inverno,  regozijo-me e, solitário, murmuro para o paredão: shalom!

A expressão hebraica, usada entre os judeus como saudação cotidiana, é densa de significados e pode ser aplicada a pessoas e a nações. Quer dizer paz, harmonia, prosperidade, conexão com Deus.

Seja qual for o motivo - espiritual, histórico, artístico -, a verdade é que ninguém fica indiferente ante esta antiga vila canaanita que, conquistada pelo rei Davi em 997 a.C., tornou-se capital de um povo e um dos pilares do pensamento ocidental. Shalom é o que ela me inspira com o seu passado e o seu presente complexos, marcados pelas paixões contraditórias.

Dentro da muralha, o espaço dividido em quatro distritos onde judeus, cristãos, muçulmanos e armênios vivem e zelam por relíquias ali plantadas por seus ancestrais evoca  ambições e fúria - e dores, muitas dores! - mas fala-nos também de tolerância e esperança. A mesquita Al Aqsa, a terceira mais importante do islamismo, colada ao Muro Oeste (a parede que restou do segundo templo de Jerusalém, altar sagrado para onde peregrinam judeus de todo o mundo) e a Igreja do Santo Sepulcro geminada à mesquita de Omar, com o seu cartaz no qual versos do Corão citam Jesus, reafirmam a proximidade de nossas diferenças e a possibilidade de diálogo e respeito.

Diante do Dome of the Rock, a cúpula de ouro que se destaca no Monte do Templo, penso na insensatez que nos faz perder o senso da unidade e nos atira às disputas mesquinhas. O domo, por exemplo, remete a crenças  e tradições comuns. O local, segundo os judeus, assinala o mítico Jardim do Éden e o ponto onde Abraão teria preparado o holocausto para sacrificar seu filho, mais tarde sinalizado por um santuário erguido por Davi, o qual deu origem ao primeiro templo (o de Salomão, destruído em 586 a.C. pelos babilônios). E é  sob a cúpula que está a pedra de onde, segundo os muçulmanos - que veneram “pai” Abraão e mesmo Jesus -, Maomé teria ascendido ao Céu.

Em Jerusalém oro no muro com judeus e, no mesmo local, sob a Lua cheia, partilho com eles da alegria do sabbath. Sinto Jesus no lugar provável de sua sepultura, segundo a tradição, e me curvo diante de Alá junto à cúpula da Al Aqsa. Mas também me entristeço com as vielas do distrito muçulmano tomadas por soldados israelenses no início da noite, sinal de que a intolerância e a fúria ainda nos separa e nos afunda nas ilusões que erguem a glória efêmera dos dominadores, como aos romanos, cruzados, otomanos, britânicos e todos os que algum dia tiveram o mando desta cidade.

Então, para mim mesmo, repito Jesus: “Jerusalém! Jerusalém!...”  Eu não poderia morrer sem tê-la conhecido.

                  [ Publicado na edição do Novo Jornal de 26/01/16 ]
O esplendor da fé, de Abraão a Jesus
A joia oculta do
lado muçulmano
Galileia: descobertas
na trilha de Jesus
De Belém a Jericó: marcas cristãs na Palestina
Hebron, o drama palestino
numa cidade ocupada
Jafa, uma cidade cobiçada e seus 4 000 anos
Toda a beleza da Galileia de Jesus
O mar da Galileia visto de Cafarnaum: cenário dos grandes momentos e ensinamentos de Jesus
A Galileia conquistou o meu coração. Jerusalém tem pompa e barulho, é exuberante. A Galileia é simplicidade, natureza e, pelo menos nesta época do ano - inverno e baixa estação turística - é tranquila e quase silenciosa.

Jerusalém provocou-me e me fez perguntar, comparar. A Galileia arrastou-me para dentro de mim mesmo, onde encontrei as tardes suaves - mas não menos impactantes - dos dias de Jesus e seus amigos pescadores. Jerusalém me fez pensar, a Galiléia me deixou ver e sentir.

Jerusalém enredou-me no mundo dos homens, do ego, com suas normas, suas certezas e seus temores e me levou a perceber, com clareza, a impermanência de tudo. A Galileia me deu liberdade e tirou-me a necessidade de perguntas e respostas. Abandonei-me à vida e ao perfume dos êxtases e dores da jornada das formas, na vivência possível do aqui e agora.

Na Galileia tive a sorte de alojar-me de frente para o lago (o Mar da Galileia!) e ao lado do Old Cemetery, cenário de cerimônias noturnas junto a túmulos de rabinos mártires (nos duros tempos da dominação romana) e sábios que tiveram a acuidade de reinterpretar a Torá e a tradição quando a vida impôs seu movimento. Fui também abençoado com a chance de percorrer as trilhas do Nazareno em soledade e paz, o que me favoreceu a meditação e o insight junto às águas do lago.

A Galileia. Ah! A Galileia. Meu momento culminante nesse mochilão inesquecível, o segundo melhor de minha vida, atrás apenas de meu primeiro périplo através da Índia em 2006!
Afinal, por que Cafarnaum?
JM diante do Cardo romano (mercado) e da sinagoga de Cafarnaum: porque Jesus começou aqui
Depois do mochilão de 45 dias que realizei pela Índia em 2006, nenhum outro mexeu tanto comigo e com minhas referências quanto o que realizei há pouco em Israel e Palestina. Andarilho solitário, percorrendo lugares associados às nossas crenças fora da agitação das temporadas turísticas, pude viver também uma intensa experiência introspectiva e, assim, enxergar além do óbvio, chacoalhado pela sucessão de eventos que vem em ondas como o mar.

Entrar em contato com a realidade atual dos povos judeu e palestino fez-me perceber nuances que não aparecem nos recortes imprecisos e, não raro, ideologizados, do noticiário sobre as complexas relações humanas no Oriente Médio. Mais: abriu-me uma janela através da qual o passado se me apresenta mais vívido e menos adulterado pelas tintas aplicadas por doutrinas e mitologias.

Jerusalém, por exemplo, provocou-me e me fez perguntar, comparar, levando-me ao inevitável porto da impermanência, cujo desconhecimento nos atira frequentemente às dores das vaidades e da avareza. A Galileia, porém, com sua simplicidade e beleza natural, levou-me ao ápice de minha andança. Em suas trilhas vazias junto ao lago (o “mar” de apenas 21km x 12km, cercado de montes verdejantes), encontrei bem mais que marcos fisicos do Cristianismo nascente, resíduos de uma época efervescente.

Jerusalém me fez pensar. A Galileia deixou-me sentir. Jerusalém enredou-me no mundo dos homens, do ego, com suas normas, certezas e temores. A Galiléia ofereceu-me a liberdade e tirou-me a necessidade de perguntas e respostas.

Galileia dos Gentios! Assim a chamava a elite judaica de Jerusalém ao tempo de Jesus. Ortodoxa e orgulhosa, ela não conseguia compreender o caldeirão étnico e cultural que se formara na fronteira dos domínios de Herodes Antipas, onde judeus conviviam com a “raça impura” dos estrangeiros.

Cafarnaum, a cidade que Jesus escolheu para viver e realizar a maior parte de seu ministério, era uma vila cosmopolita onde cerca de 1500 judeus, gregos e dissidentes como Jesus e os 12 interagiam em debates que esquentavam tardes e noites, enriquecendo a vida de perspectivas e cores. Não há notícia de que Jesus tenha sofrido ali alguma ameaça à sua liberdade ou à sua integridade física, apesar do calor das discussões.

Tiberíades, o balneário hedonístico dos romanos, 16 quilômetros antes de Cafarnaum, seria mais tarde refúgio para doutores da lei e sábios judeus que, após a queda de Jerusalém e a destruição do templo, encontrariam ali a paz e a tolerância necessárias à reinterpretação do Judaísmo.

Passados 2000 anos, a Galileia dos Gentios parece conservar o seu melhor traço. Em sua paisagem serena, judeus e árabes israelenses convivem bem entre si e com os poucos cristãos que moram na área. O som de chifres de carneiro, ecoado das sinagogas, mistura-se ao canto de muezins das mesquitas e às badaladas dos sinos das igrejas.

Então, em Cafarnaum, num domingo ensolarado, ante o lago salpicado de pássaros, observo o local onde um dia meu mestre pregou, inclusivo e compassivo, e sinto vontade de bradar ao mundo: A Paz do Cristo! Namastê! Om Mani Padme Hum! Shalom! Salaam Aleikum! Axé!

                  [ Publicado na edição do Novo Jornal de 16/02/16 ]
Hebron, a dura realidade
da Palestina ocupada
Soldados garantem o assentamento de colonos judeus e restringem o movimento de palestinos
Percebi que estava indo para um lugar tenso e perigoso tão logo embarquei no ônibus que parte da Rodoviária de Jerusalém. Não há vidros comuns nas janelas do veículo, mas uma dupla lâmina com película escura. Não há paisagem a observar durante 1h30 de viagem até Hebron, cidade de 183 mil habitantes na antiga Cisjordânia, território palestino capturado por Israel na guerra de 1967.

Observo as poltronas e, então, compreendo o fato insólito: o ônibus leva soldados que moram em Jerusalém e trabalham em Hebron e podem ser alvo de pedradas, apesar dos muros e dos check-points que limitam a locomação de palestinos em áreas ocupadas por colonos e o exército israelenses.

Cidade de 5 mil anos, Hebron é o berço da religião organizada para judeus, muçulmanos e cristãos. É lá que estão as tumbas dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob e suas mulheres (exceto Raquel), encravadas entre uma mesquita e uma sinagoga geminadas, de onde se pode vê-las através de grades. E é lá que o conflito israelense-palestino exibe uma de suas faces mais violentas e degradantes, azeitado pelo fundamentalismo religioso.

Hebron é o único lugar dos territórios ocupados onde colonos  - a maioria judeus que acreditam estarem vivendo tempos messiânicos - instalaram um assentamento na área urbana, agora dividida em H1 e H2. Ali, uma paz artificial é mantida ao custo da movimentação permanente de milhares de soldados com seus fuzis automáticos, muros e check-points segregadores.

Para entrar e sair de suas casas, os palestinos enfrentam catracas, raios X e, se necessário, revistas feitas por militares. Em vielas antigas, onde colonos apossaram-se de residências nos andares superiores, os palestinos que insistem em ficar embaixo com suas casas e lojas são protegidos por redes de arame para conter pedras e lixo atirados pelos invasores.

Todo esse aparato garante a Israel o controle militar da Cisjordânia (o comando político é da Autoridade Palestina, fruto dos acordos assinados ao tempo de Yasser Arafat e Ytizak Rabin), mas é insuficiente para conter a indignação dos palestinos e os atos radicais, dos homens-bomba dos anos 80 aos ataques com faca dos dias atuais.

Depois da Faixa de Gaza (hoje uma enorme favela de 1,8 milhão de habitantes, cuja infraestrutura foi devastada por bombardeios israelenses em represália a ataques do radical Hamas), Hebron, onde o moderado Fatah é a força política predominante, apresenta-se como o nó mais complicado desse conflito interminável.

Lá, almocei com palestinos e tomei café com colonos israelenses. Ambos operam argumentos históricos para reivindicar a posse dessa terra disputada por tantos há milhares de anos.

Nesse momento, o governo conservador de Israel, incentivador dos assentamentos, está preocupado com ataques praticados por jovens judeus fundamentalistas contra a vida e o patrimônio de palestinos (*). Jornais de Israel falam até na aplicação de tortura pelas forças de segurança na caça a esses extremistas.

Não há, contudo, nenhum sinal de que dias melhores virão. Jerusalém (que israelenses e palestinos reivindicam como sua capital), Hebron e as desapropriações de terras invadidas por colonos inviabilizam qualquer aceno de paz.

                   [ Publicado na edição do Novo Jornal de 02/02/16 ]
NOS DOIS LADOS DO MURO


Igreja das Beatitudes, erguida no lugar onde Jesus fez o Sermão do Monte, na Galileia
Ruínas da Mensa Christi: aqui Jesus encontra Pedro e outros apóstolos após a crucificação
Neste local, em Tabgha, Jesus realizou o prodígio da multiplicação dos pães e peixes
Tumba de rabino mártir em Tiberíades: veneração, pedidos e rituais noturnos


JM gravando vídeo no Santo Sepulcro,
no distrito cristão de Jerusalém
Celebração do início do sabbath junto ao Muro das Lamentações, em Jerusalém...
O domo já foi de ouro maciço, vendido para pagar dívidas dos califas. Hoje é só folheado
... e em Tiberíades, onde judeus cantam junto ao Yam Kinneret, o Mar da Galileia
Neste ponto da Via Dolorosa (à esquerda), Jesus foi julgado e condenado por Pilatos
Mesquita Al Aqsa, em Jerusalém: a terceira mais importante do mundo muçulmano
JM, à direita, ora no Muro Oeste: vibração pela fraternidade e a paz entre os homens


Vista da tumba do patriarca Abraão
a partir da mesquita de Hebron
Posto militar controla entrada e saída de palestinos em rua do centro de Hebron
Após chuva de granizo, soldados israelenses brincam sobre o gelo em rua de Hebron
Gruta da Natividade, em Belém:  2% dos palestinos da Cisjordânia são cristãos
JM na praça Almanara, no centro de Ramallah, sede da Autoridade Palestina
Monte da Tentação, em Jericó: aqui Jesus meditou e orou durante 40 dias e 40 noites
A figueira de Zaqueu: numa árvore como esta, neste local, ele subiu para ver Jesus
Ruínas da antiga muralha de Jericó, uma cidade que existe há 10 mil anos

JM em Jafa: 4 000 anos de história
Pôr-do-sol no Mediterrâneo visto de Tel Aviv
Orla central de Tel Aviv vista da colina de Jafa: mar tranquilo e praias que encantam europeus
Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Nepal, Grécia, Colômbia,
Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos, Marrocos, Canadá, Portugal, Espanha, Itália, Suiça,
França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba, Israel, Palestina, Nepal, Turquia, Albânia, África do Sul, Moçambique

(*) Há também registro de ataques a templos cristãos.
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