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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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Funchal, a capital da Madeira, vista do alto do Forte da Pontinha e, à direita, o casario de uma rua da Cidade Velha, onde há restaurantes e bares típicos e são preservadas tradições seculares

Um paraíso no coração do Atlântico
A Ilha da Madeira é um pedaço de Portugal, próximo ao norte da África, que se
destaca por suas belezas naturais e o clima ameno. Aqui, Cristóvão Colombo
descansou, antes de seguir na aventura que culminou na descoberta da América.
E até hoje milhares de europeus preferem refugiar-se do inverno na ilha.
por Jomar Morais
LIÇÃO DO EXÍLIO
[Texto escrito em Lisboa na manhã de 02/02/2010 e publicado na edição do Novo Jornal do dia seguinte]
A ilha da Madeira é um paraíso. No inverno, velhinhos europeus deslocam-se para a linda Funchal em busca de temperaturas amenas.
No verão, jovens aventureiros chegam para desbravar as montanhas e apreciar sua rica fauna. Na semana passada, estive nesta jóia portuguesa no Atlântico mas, além de apreciar os seus encantos naturais, detive-me a meditar sobre um brasileiro que ali morreu, solitário e deprimido, após ajudar a escrever uma das páginas relevantes de nossa história. Diante do penhasco onde brilha há 116 anos o Hotel Reid - hoje um spa luxuoso - lembrei-me de André Pinto Rebouças, o baiano tímido e reservado, que por mérito conquistou a amizade do imperador Pedro II, tornando-se importante articulador no processo de libertação dos escravos.

Ao falarmos da abolição, costumamos citar tribunos, como Joaquim Nabuco, mas esquecemos os que sustentaram a campanha nos bastidores, com recursos financeiros e um programa ideológico, como é o caso de André Rebouças. Para ele, não bastava a alforria dos negros. Era preciso uma reforma agrária que lhes assegurasse o acesso à terra e ao trabalho. A elite escravocrata certamente tentaria perpetuar a subjugação por meio da exclusão social.

Negro, celibatário e “excêntrico”, André sentia na pele o que é conviver numa sociedade preconceituosa e utilitarista. Jovem, tornara-se brilhante engenheiro militar,  mas foi o único a não obter o custeio oficial de uma viagem de estudos à Europa, financiada, afinal, por seu pai, o rábula Antonio. Ao formular o plano que solucionou o abastecimento de água no Rio de Janeiro e construir portos no país, enfrentou o boicote da burocracia racista e corrupta, sem jamais deixar-se corromper. Muitos de seus projetos feneceram no nascedouro, sob sabotagem velada ou explícita.

André era ético, autêntico e transparente. E tinha na amizade um de seus valores mais caros. Foi assim que, ao contrário de seus companheiros, preferiu abjurar o pragmatismo político e ficar ao lado de Pedro II, quando este foi deposto em nome da República. Optou pelo exílio em Lisboa, de onde passou a incomodar os novos governantes republicanos com os seus artigos no The Times, de Londres. Depois, perambulou pela África e, por último, em Funchal, instalou-se no Hotel Reid, onde permaneceu até morrer, sozinho e amargurado.

Na noite de 8 de maio de 1898, André despencou do penhasco sobre o qual vivera seus últimos sete anos. Sua morte mereceu notas de não mais que oito linhas nos jornais locais, com a ressalva de que “o infeliz apresentava sinais de desequilíbrio intelectual”, fato confirmado por seu amigo Carlos Gomes. Dois dias depois, os mesmos jornais dedicariam páginas inteiras a Campos Sales, o novo presidente do Brasil, que aportara em Funchal a caminho da Europa... O mundo continuava em seu cotidiano non sense, mas, em todos os tempos, princípios éticos como os de André Rebouças, sempre ressurgem da escuridão.
Acima,  reprodução de quadro da galeria histórica do atual spa: imagem do Hotel Reids no início da década de 1890, pouco depois de sua construção sobre o penhasco onde André Rebouças, à direita, iria encontrar a morte, em 8 de maio de 1898.
ONDE FIQUEI EM FUNCHAL
Residencial Pina, Trav. do Pina, 8. A 500 m. da orla, vista excelente da baía, ap. confortável com banheiro, piscina, internet grátis, bom café da manhã. Diária: 38 euros.
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JM recorda vida
passada na Madeira
ISTO É MADEIRA
JM na Cidade Velha e, ao fundo, a Fortaleza de São Tiago, construída no século XVI para proteger o Funchal dos ataques de piratas. Atualmente abriga o Museu de Arte Contemporânea.
Acima, o Paço do Concelho (com c), no centro, exibe edifícios históricos com sua bela arquitetura do século 16. Ao lado, uma escultura de Vênus no jardim da Câmara Municipal.
A tradição e a modernidade convivem em harmonia nas ruas da Madeira. Neste calçadão do Funchal esculturas seculares dividem espaço com as ousadias de artistas contemporâneos.
Antigo meio de transporte para descer a montanha até o Funchal, surgido em 1850, os carrinhos de vime ("carrinho do monte") agora deslizam a 48km por hora conduzindo turistas que curtem aventura.
JM no forte da Ilha da Pontinha. O ilhéu foi vendido por Portugal à família inglesa Blandy, em 1903. O atual proprietário, Renato Barros, quer que a área seja reconhecida como um principado.
Acima, a fachada preservada do Hotel Reids, que abriga um spa luxuoso com diárias de até 2200 euros. Ao lado, a orla vista da Fortaleza de São Tiago. No penhasco ao fundo, fica o Reids.



Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba, Nepal,
Turquia, Israel e Palestina, Albânia, África do Sul, Moçambique

07/2011
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