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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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No tapete mágico do Marrocos
Descobrir o Marrocos é uma aventura inesquecível: medinas que preservam tradições seculares, o Saara e seus beduínos, a cordilheira gelada...
Por Jomar Morais
JM na solidão da Duna de Chegaga, no Saara, e no jantar na tenda berbere, com Fátima Morais
Medina de Fès: atrás da muralha de 14 km2, a vida como era no século 8
A travessia do canal que separa a Europa da África: ao fundo, Gibraltar
Minarete da Koutobia, a mesquita de 800 anos: farol espiritual de Marrakesh
Na Duna do Judeu, primeiro encontro com os camelos do deserto
JM entre o jovem Karim (esq.) e seu pai, Mohammed: expedição ao Saara
Mesquita Hassan II, em Casablanca:
ela só é menor que a de Meca
 

Sob o céu do Islã
As gaivotas chegam em bandos para disputar peixes no cáis de Essaouíra
JM com traje ocidental na Medina de Marrakesh: contraste com as djelabas
Fátima em Casablanca: menos charme que no clássico do cinema americano
Porta principal da mesquita Hassam II: entrada paga e mulheres sem véu
Pausa nas tendas berberes no Saara: 45ºC ao meio-dia; 5ºC à meia-noite
Canhões da muralha da medina de Essaouíra: presença portuguesa
O Saara às 18h de um dia de inverno: impressionante contraste luz-escuridão
Baía de Casablanca: edifícios brancos refletem a luz solar intensamente

Outro cenário
Pôr-do-sol na pequena ilha de Mogador (nome antigo de Essaouíra), em frente à cidade atual: no passado foi campo de quarentena para navegadores e prisão
Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba, Turquia, Israel, Palestina, Nepal, África do Sul, Moçambique

04/2004
La illáha ila Al-lah. Mohammedan rassulalul-lah. Al-akba. São poucos mais de 4h30 da manhã quando eu e minha mulher, Fátima, somos acordados pelo canto rouco do muezim. Do alto do minarete da mesquita, os altofalantes ecoam a exortação em árabe que expressa o primeiro verso do Alcorão: "Não existe divindade senão Deus. Maomé é o profeta de Deus. Deus é grande". Aos poucos, o mesmo apelo é repetido em altofalantes de outras mesquitas, numa cantilena suave e envolvente. Quando os primeiros raios de sol despontam no céu, multidões de homens, a maioria metidos em modestas túnicas com capuz (as djelabas) seguem em direção aos templos para a primeira das cinco orações diárias de um muçulmano.

Emociono-me com o que ouço e vejo. E será que alguém conseguiria permanecer imune a tais sons e gestos? Não entendo o canto nostálgico e, ao mesmo tempo, fervoroso dos muezins (só depois traduziram para mim), mas sinto a sua força e a dos movimentos arquetípicos. Há fé, há uma estranha presença no ar neste que é um mundo para lá de misterioso para qualquer ocidental. Senhores, estamos na medina de Fès, patrimônio da humanidade tombado pela Unesco, relicário de um tempo de glórias da civilização muçulmana. Senhores, estamos no reino islâmico do Marrocos.

Como nos dias de Maomé

Há poucas horas desembarcamos de um ônibus velho e mal-cheiroso, sem bancos reclináveis, após 9 horas de trajeto a partir de Tânger, passando por planícies de cedro e terras áridas. Mas que recompensa por nosso cansaço! Somos deixados a alguns passos de um dos portais de Fés, a antiga, às 19h30 de 6 de janeiro de 2004, dia de Reis. A luz da Lua cheia sobre a muralha realça os detalhes do monumento de 14 quilômetros quadrados. As portas arqueadas, as torres de vigia, os desenhos geométricos... tudo ganha um brilho especial. Lá dentro, o labirinto de 9 400 ruelas e becos onde a vida transcorre como nos dias de Maomé. O pão, preparado em casa, é ainda assado em fornos comunitários. A água, distribuída em chafarizes. As passarelas estreitas abrigam um comércio esfuziante, onde se vende de ervas a tapetes e onde nada tem preço fixo. Cansaço? Para onde ele foi?

Faz frio, 13 graus. Não temos reserva em hotel. Saímos em busca de um, driblando o assédio de guias improvisados. Mas nesse país de língua enrolada e gente simpática, é tudo tão fácil e tão barato, pelo menos em janeiro, longe da alta temporada de julho. Encontro levas de forasteiros de vários países, estudantes europeus duros e dispostos a economizar centavos (e apenas um casal de brasileiros em 13 dias e 2.200 quilômetros de peregrinação). A informação flui e tudo acaba em pizza - ou melhor em cuscuz marroquino, o prato típico do lugar. Há pobreza e pouca higiene, mas também história, muita história (desde a antiga civilização fenícia), tradição e... Internet em todo lugar.

Cada cidade tradicional marroquina tem sua medina (a cidade antiga, medieval) e cada medina tem sua medersa (escola corânica), o mellah (bairro judeu) e os souks (mercados). Não visitá-los é como viajar a Roma e não ir ao Vaticano. No Marrocos não se vende bebidas alcoólicas (exceto em alguns hotéis). Não há grandes embalos noturnos. Também quase não existem homicídios e assaltos. Em compensação, é comum visitantes serem abordados por indivíduos que oferecem “something special”,  que neste caso significa haxixe. Ou serem cercados por jovens sorridentes que propõem "savah" - isto é, praticar sexo com você, seja você mulher ou homem. Ambas as propostas inusitadas me foram feitas em Fès, à luz do dia.

Pra lá de Marrakesh

Fès, na verdade, é a terceira rodada de emoções e descobertas neste nosso périplo. Tudo começou com a nossa opção de alcançar o Marrocos, a partir da Europa, cruzando o estreito de Gibraltar, o braço de mar que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa a África do continente europeu. De Algeciras, no sul da Espanha, a Ceuta, um enclave espanhol em território marroquino, são apenas 50 minutos em ferryboat equipado com restaurante e lojas duty-free. Preferimos, no entanto, o roteiro mais romântico e mais longo (2 horas e 30 minutos de navegação) e descemos em Tanger, onde tivemos nosso primeiro choque cultural.

É surpreendente ser cercado na chegada por  vendedores gritando ofertas no dialeto darija, o árabe marroquino, e ver cafés e restaurantes tomados por homens que chegam de mãos dadas e se cumprimentam com beijos no rosto enquanto as mulheres, cobertas da cabeça aos pés, trafegam nas ruas como figuras fugidias. Surpreende ver bancos funcionando à noite e homens estendendo pequenos tapetes em qualquer lugar para cumprirem o compromisso de orar voltado para Meca cinco vezes ao dia. Impressiona o fato de apenas 14 quilômetros de lâmina d´agua separarem civilizações tão diferentes.

A segunda rodada começou na mahata (estação rodoviária) de Tânger, ao subirmos num ônibus de linha normal, rumo a Fès, sem poltronas reclináveis, e onde a gente humilde transporta no colo potes, cestas, colchões dobrados e até galinhas, enquanto no teto um bagageiro abriga móveis e cargas em geral. É claro que existem ônibus turísticos fazendo a mesma linha, mas que graça isso tem para um mochileiro interessado em viver o dia-a-dia de um povo?

Agora estamos a caminho de Marrakesh, a cidade que já deu nome ao país. De Fés até lá são mais 500 quilômetros e 10 horas de estrada. Dureza. Mas que importa quando se está diante da soberba cidade avermelhada ao pé da cordilheira Atlas? Nas cidades marroquinas os edifícios, casas e muros têm uma mesma cor - a cor da cidade. Tanger é azul. Fès, amarela. Marrakesh se impõe pelo tom ocre que destaca suas muralhas e o minarete da Koutobia, a grande mesquita de  800 anos. Aqui há luz e alegria. E tudo converge para a praça Djemaa El Fna, onde se misturam músicos, bailarinos, encantadores de serpentes, contadores de histórias e incontáveis barracas de alimentos. Charretes transportam turistas pelos jardins da cidade, repletos de palmeiras. Ficamos apenas dois dias em Marrakesh. Nossa meta é mais além. 

Neve e casbahs

O ônibus range, varando as eternas montanhas brancas. Há sujeira e desconforto no veículo. Algumas mulheres, enjoadas com a altitude, vomitam. Mas o show acontece lá fora e é possível apreciá-lo pela janela: os picos nevados do Atlas, as gargantas abismais por onde escorrem rios límpidos, as impressionantes esculturas naturais em rochas coloridas. Paramos em vilas de pastores, agricultores e artesãos. Exageramos no consumo de amêndoas e chocolate para aliviar o frio. Aqui, nas alturas, as tradições árabes e berberes se cruzam e na babel que resulta desse encontro às vezes não se consegue achar uma única alma que entenda inglês, francês ou espanhol. Nessas horas descobrimos o valor da velha e utilíssima mímica e, sobretudo, o da boa vontade entre os homens.

Ouarzazate, a cidade em cujas cercanias estão algumas das mais belas casbahs medievais, - castelos de barro suntuosos erguidos em campos de amendoeiras ou no sopé de montes - surge logo depois do Atlas. Duzentos quilômetros à frente, aportarmos em Zagora, a pequena e empoeirada cidade, às portas do deserto, onde finalmente iremos definir nossa aventura no Saara. Com Ait Sousi Karim, jovem berbere organizador de expedições, acertamos um pacote que  inclui um Land Rover e uma equipe que nos servirá durante dois dias: o motorista Mohammed, seu pai, o cozinheiro Ali e ele próprio na função de guia. Nosso destino são as dunas de Chegaga, uma área que não está no mapa turístico do Marrocos nem no roteiro das agências (que preferem Merzouga e Tinfou), mas tem a vantagem de estar situada na região mais típica do deserto, o chamado Grande Saara.

No esplendor do Saara

Chegaga fica a cinco horas de Zagora. A caminho, passamos por pedregais e montanhas rochosas - sim, o deserto não é só areia! -, conhecemos a vida de beduínos e descansamos da refrega no oásis Sacre, local onde uma pequena nascente e algumas palmeiras contrastam com a aridez do Saara. Quando alcançamos o acampamento de Chegaga quase já não há tendas disponíveis. Deixo, porém, que a equipe negocie com os nativos berberes e me atiro sozinho (a mulher não topou o desafio) ao mais duro momento dessa viagem: a escalada da grande duna de 360 metros de altura, em cujo topo posso apreciar a cadeia de morros avermelhados. Para corpos sedentários, como o meu, o esforço é hercúleo. É preciso força para desenterrar os pés da areia, água para aliviar a sede intensa e algumas pausas para o coração não explodir. A recompensa, porém é um espetáculo de luz e cores: os raios dourados do crepúsculo esparramados sobre a cadeia de dunas, produzindo na areia ocre efeitos dignos de uma superprodução do cinema.

Chegaga é a porta de entrada do Grande Saara, o enorme areal do deserto e a contemplação do pôr-do-sol aqui é um prazer que atrai forasteiros de toda parte. Dois deles, os franceses Jean e Yves, venceram a pé mais de 200 quilômetros desde a cidade mais próxima, Zagora, só para experimentar a amplidão dessa “erg”, espécie de cordilheira de morros. Luigi e Sarah, italianos equipados com esquis, deslizam na massa movediça de 360 metros de altura. Lá embaixo está o acampamento berbere - povo nômade que há milênios habita a região -, e é em suas tendas rústicas que eu e  Fátima logo iremos desfrutar de momentos inesquecíveis.

O calor do Saara desaparece com o Sol. À noite é gelada, próximo do zero grau Celsius, mas o céu estrelado e a Lua sorrateira valem o desconforto. Na tenda forrada com tapetes artesanais, à luz de velas, somos brindados com um legítimo jantar nativo: o tagine (cozido preparado em forma de argila), frutas e chá. Uma delícia! Depois, a roda em torno da fogueira, o papo descontraído e velhas canções árabes que contam histórias de animais falantes e de amores ardentes. Habib, habibit... meu amor, meu amorzinho. O tempo passa e nem percebemos. Quando, por fim, o cansaço nos dobra, os colchonetes sobre a areia macia servem a um sono profundo e restaurador, até que a sinfonia uivante de uma caravana de camelos nos desperta para o dia seguinte.

Gaivotas de Essaouíra

Do deserto para o litoral! Essaouíra, cidade fortificada junto ao Atlântico, é o nosso alvo. Um lugar perfeito para o relax. Trata-se de um porto milenar, hoje tombado pela Unesco, que na antiguidade serviu aos fenícios e a partir do século XVIII foi dominado por europeus, especialmente os portugueses, responsáveis pelas fortificações. A medina de Essaouíra com suas ruas retas e seus bulevares reflete essa influência. A cidade é limpa, florida e conservada e por aqui quase não há assédio de pedintes e biscateiros, uma raridade no Marrocos. Mochileiros de toda parte enchem de cores e alegria locais como o mercado do peixe e o cáis, onde é possível contracenar com gaivotas pacíficas no crepúsculo. Um programa imperdível aqui é o passeio de barco à ilha do Mogador, na baía de Essaouíra, para apreciar o espetáculo do por-do-sol. 

Na contra-mão dos pacotes turísticos deixamos para o final a visita a Casablanca, a grande cidade marroquina, de 5 milhões de habitantes. Além de sua linda enseada, praticamente, não há atrativos nessa metrópole que, nem de longe, exala o romantismo do clássico Casablanca do cinema. Mas vale a pena visitar a mesquita Hassan II, a segunda maior do mundo (só perde para a de Meca), com capacidade para 25 000 fiéis. Na construção desse monumento, em que sobressaem a beleza da arquitetura e dos mosaicos árabes, foram investidos 600 milhões de dólares na década passada. Talvez por isso, a mesquita é a única que permite visitas guiadas (e pagas), sem restrições a não-muçulmanos e a mulheres com a cabeça descoberta.
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