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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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tv sapiens
O poder do mito


Em todas as épocas e em toda parte, o homem compartilhou a idéia do sagrado e
encontrou nas mitologias uma forma de resolver seus conflitos


Há 50 000 anos, os nossos ancestrais conhecidos como homens de Neandertal, nômades que
vagaram entre a África, a Ásia e a Europa, tornaram-se as primeiras criaturas a sepultar seus
mortos com cerimônia. Junto com os corpos, eles enterraram ferramentas, armas, roupas e
outros suprimentos que deixaram para a posteridade uma dúvida: teriam os nossos primos da
Idade da Pedra equipado os defuntos com utensílios por acharem que, além do túmulo, eles
continuariam a viver?

É significativo que tais esboços de prática religiosa, os mais antigos de que se tem notícia na
pré-história, estejam associados a esse grupo de homo sapiens. Segundo Andrew Newberg, em
seu estudo sobre o "circuito espiritual" do cérebro, eles foram os primeiros a possuir uma
estrutura cerebral suficientemente poderosa para compreender a morte, dotada de um lobo
parietal semelhante ao nosso e, portanto, habilitada a processar a função causal e binária
necessária às construções mitológicas. Em resumo: sabiam diferenciar a vida da morte e
transcender a esta com a crença na imortalidade. Milhões de anos antes, outro ancestral
humano, o macaco australopithecus, também chegou a exibir um lobo parietal desenvolvido
mas, ao que parece, jamais foi capaz de produzir algum tipo de cerimônia elaborada. Faltava-lhe
a estrutura neuronial necessária à linguagem, outro detalhe fundamental no desenvolvimento
dos mitos.

Com o lobo parietal, possibilidades opostas - como, por exemplo, vida-morte, existência do
predador-não existência do predador -, foram resolvidas através das mesmas funções
cognitivas que permitem à mente perceber o mundo físico, fato que resultou na transformação
de idéias em convicções e de possibilidades lógicas em crenças viscerais. As narrativas
elaboradas nessas ocasiões formataram assim os mitos, em cuja moldura simbólica seres e
situações opostos, como heróis e monstros ou céu e inferno, são reconciliados pela ação de
poderes espirituais, liberando o ser humano de suas preocupações.

O temor da morte criou as religiões, acredita a maioria dos antropólogos. Uma das poucas
vozes discordantes é a de Pascal Boyer, professor da Universidade Washington, em Saint
Louis, Estados Unidos, embora também ele reafirme a universalidade de algumas imagens
mitológicas. No livro Religion Explained (A Religião Explicada), ainda não traduzido para o
português, Boyer contesta os que vêem nos mitos quase uma fatalidade biológica e considera a
suposta universalidade de tais conceitos apenas o efeito de uma seleção aleatória de
ocorrências. A experiência, afirma, teria gerado um gigantesco domínio de informação que o
homem só parcialmente conseguiu preservar, em meio a milhões de mensagens perdidas,
esquecidas, ignoradas, distorcidas e algumas vezes inventadas por nada. Formou-se então,
segundo Boyer, uma sopa de representações e mensagens das quais só algumas acabaram se
fixando no imaginário coletivo e se apresentando, senão de forma idêntica, pelo menos
conforme certos padrões em diferentes épocas e lugares. Seria o caso de alguns mitos
religiosos.

O caráter universal das mitologias, porém, é destacado por Joseph Campbell, o renomado
especialista em religiões comparadas, autor dos livros As máscaras de Deus e O poder do
mito. Virgens que concebem enviados divinos, dilúvios, expulsões do paraíso, regiões celestes e
infernais, tentações demoníacas e ressureições não são exclusividade da Bíblia judaico-cristã.
São argumentos mitológicos que se repetem nas diversas tradições religiosas do planeta e têm
origem, segundo Campbell, em aspirações e crenças comuns. Veja-se, por exemplo, o episódio
da tentação de Cristo. O Evangelho narra que Jesus retirou-se para orar no deserto e, ali,
durante 40 dias foi assediado por Satanás, disposto a desviá-lo de seu propósito mediante a
oferta de poder e prazeres. Cristo sobreviveu ao cerco e retornou fortalecido para cumprir sua
missão. Cinco séculos antes, conforme a tradição budista, o jovem príncipe Sidarta enfrentou
provação semelhante. Ao exilar-se na floresta para meditar, durante 40 dias ele combateu as
insinuações do demônio Mara, obstinado em tirá-lo de sua busca. Sidarta resistiu e alcançou a
meta da iluminação espiritual, tornando-se Buda.

São igualmente universais certos elementos da ritualística religiosa, como a música e os
movimentos ritmados, importantes na estimulação do sistema límbico. E o transe, o ápice do
processo de estimulação, apesar de sua discriminação pelo racionalismo ocidental e por parte
das religiões organizadas. No passado remoto, toda a humanidade experimentou transes
provocados pelo canto, pela dança ou por plantas alucinógenas. A decadência do costume -
ainda preservado pelo espiritismo, os cultos afro-brasileiros, os evangélicos pentecostais e os
católicos carismáticos - pode ser nociva ao homem, segundo alguns estudiosos.

"Trata-se de uma perda perigosa", diz o doutor em antropologia da religião José Jorge de
Carvalho, da Universidade Brasília. "As pessoas que praticam o transe formam uma grande
reserva de autocontrole. Muitas são capazes de enfrentar situações de adversidade extrema
sem se estressarem." A ênfase dada à racionalidade na civilização moderna privilegia as
atividades do córtex cerebral mas, de acordo com José Jorge, o córtex é eficiente para mapear
e controlar o mundo externo, não para lidar com o mundo interior, o mundo das emoções. No
transe, o "cérebro emocional" é exercitado.

No passado, acredita Newberg, o sentimento e as práticas místicas foram fundamentais para a
própria sobrevivência e evolução da humanidade, ainda que as religiões estejam associadas
aos conflitos mais sangrentos da civilização. Os rituais ajudaram a reduzir a agressividade dos
membros do grupo e a estabelecer laços sociais fortes entre eles. Evitaram a dispersão e
facilitaram o esforço coletivo como nenhum outro recurso. "O poder dos mitos está no fato de
que seus símbolos e temas nos conectam à parte mais essencial de nós próprios de um modo
que a lógica e a razão, sozinhas, não conseguem fazer", diz Newberg.
Programado para a fé


Imagens do cérebro, obtidas durante sessões de preces
e meditação, ajudam a neuroteologia a desvendar os mistérios
dos fenômenos espirituais e explicar a sua base biológica
Por Jomar Morais   
No início, é só uma sensação de crescente tranqüilidade. Pequenos incômodos ambientais,
como o zumbido de um mosquito ou a elevação da temperatura, deixam de ser obstáculos à
concentração. A ansiedade cede lugar à observação serena da vida, a uma paz indefinível.
Então, numa súbita e indelével onda tem-se a impressão de que o corpo e a própria
individualidade se dissolveram. Não mais existe limite entre o indivíduo e o resto do mundo, não
mais há tempo nem espaço. É como se o universo inteiro pulsasse no fundo do ser sem
fronteiras. Uma "iluminação" repentina parece esclarecer todas as coisas.
Delírio? Mergulho numa dimensão que está além da realidade concreta? Estranha experiência
essa na qual a mais básica das percepções humanas - a própria noção da existência do "eu" e
sua separação do mundo físico - evapora-se como a neblina numa manhã de sol. O Dalai Lama
já passou por isso (E, muito à vontade, repete a dose diariamente). No século XII, São Francisco
de Assis, o santo do mundo natural, experimentou as mesmas sensações. Chico Xavier, o
médium brasileiro falecido no dia 30 de junho passado, conhecia o fenômeno desde criancinha.
Na verdade, não existe uma única religião no planeta sem casos do gênero para narrar. Mas,
afinal, o que é esse estado alterado de consciência tão constante nos fundamentos de todos os
credos e no da própria civilização? A resposta pode estar na mais recente iniciativa da ciência
para explicar os eventos místicos, antes rotulados de sobrenaturais: a neuroteologia.
O hábito de cientistas estudarem as experiências religiosas não é novo, mas durante
muito tempo o rigor do método científico foi utilizado praticamente para sepultar as tentativas de
se levar a sério a ocorrência dos chamados fenômenos espirituais. A psiquiatria e a psicologia
do início do século XX os incluíram entre as patologias da mente. Pesquisadores da área
biomédica raramente se preocuparam com o assunto. "Apesar de sua importância na vida das
pessoas, a religião sempre foi tratada com indiferença ou apatia pela maioria dos psicólogos e
neurocientistas", diz David Wulff, psicólogo e professor do Wheaton College em
Massachussets, Estados Unidos. Com a neuroteologia, está em curso uma mudança de atitude
radical. A partir de imagens obtidas na intimidade do organismo por equipamentos de última
geração - como é o caso dos tomógrafos guiados por feixes de pósitrons, as antipartículas de
elétrons -, um grupo de pesquisadores procura agora entender o complexo relacionamento entre
espiritualidade e cérebro, lançando as bases do que vem sendo considerado uma biologia da fé.
Não se trata de conversão dos homens de ciência às crenças milenares. Eles continuam
exigentes como antes e buscam provas factuais, passíveis de confirmação em experimentos
realizados por laboratórios independentes. A diferença consiste nas novas técnicas de
investigação e na importância crescente atribuída a esse tipo de pesquisa, num esforço para
decifrar alguns dos maiores enigmas da humanidade. Para isso, certos cientistas não têm
hesitado sequer em se transformar em cobaias de seus próprios estudos. Eles se submetem
ao fenômeno da consciência alterada durante transes naturais ou provocados, a fim de
avaliarem nas entranhas a sensação de estar fora do espaço e do tempo relatada pelos
religiosos. E ao retornarem à normalidade, quase sempre trazem consigo alguma descoberta.
Nessas ocasiões, um místico sempre dirá, de imediato, que se encontra na presença de Deus
ou de uma entidade espiritual. Um cientista pode ter uma resposta diversa, como ocorreu ao
neurologista americano James Austin, que há 20 anos experimentou a percepção de unicidade
com o universo - tal como descrita no início desta reportagem -, enquanto esperava o metrô
numa estação de Londres.
Austin apreciava o rio Tâmisa fluir quando tudo aconteceu, de repente: sumiram o senso
de individualidade e separação do mundo físico e ele sentiu-se fundido aos edifícios, ao rio e às
nuvens, em meio a uma sensação de eternidade. Foram segundos infindáveis de
deslumbramento. "Todos os meus receios, inclusive o medo da morte, desapareceram. Eu
havia alcançado a compreensão da natureza última das coisas", revelou Austin, há três anos, no
livro Zen and the brain (O Zen e o Cérebro), publicado pelo Instituto de Tecnologia de
Massachussetts, o MIT, e ainda não traduzido para o português. Para o neurologista, no entanto,
o extraordinário fenômeno só o conduziu a uma conclusão: "Eis aí uma prova da existência do
cérebro".
O estudo de Austin tem o mérito de ser um dos pioneiros na nova vertente de pesquisas dos
eventos místicos, mas está longe de encerrar o assunto. De lá para cá, vários outros
experimentos foram anunciados por cientistas de universidades renomadas, como Harvard e
Columbia, a maioria baseada no mapeamento do território cerebral durante os estados de
meditação profunda e oração. Uma das incursões mais bem sucedidas foi realizada por dois
pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, também nos Estados Unidos: o radiologista
Andrew Newberg, e o psiquiatra Eugene d´Aquili, falecido há dois anos, cujos dados e
conclusões estão reunidos no livro Why God won´t go away (Por que Deus não vai embora),
ainda sem tradução no Brasil. Graças às imagens de tomografia, eles conseguiram identificar o
que seria o circuito espiritual do cérebro e esclarecer como os rituais religiosos e similares
costumam ativar esse conjunto de componentes. É um passo muito além das técnicas que
vinham sendo utilizadas desde os anos 60, quando as pesquisas dos fenômenos místicos se
intensificaram. Antes, podia-se medir a alteração das ondas cerebrais - de beta para alfa -
durante as experiências contemplativas, mas não se sabia porque a mudança ocorria nem que
áreas do cérebro eram responsáveis por isso.
Newberg e Aquili avaliaram o desempenho cerebral de oito praticantes budistas, durante sessões de meditação, e o de um grupo de freiras franciscanas, enquanto estas rezavam fervorosamente durante 45 minutos. A maior novidade surgiu por conta das imagens do lobo parietal superior, a área do cérebro localizada na parte traseira do crânio. Constatou-se que, no transcorrer das meditações, a região reduzia gradualmente sua atividade até mostrar-se totalmente bloqueada no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de unicidade, cerca de uma hora após o início da concentração. Surpresa! Afinal, é exatamente essa a área do cérebro que, em estado normal, proporciona ao indivíduo o senso de orientação no espaço e no tempo, bem como a diferenciação entre o próprio corpo e a individualidade e os demais seres e coisas. É como se, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal - os quais, imaginava-se, nunca dormiam - desligassem os mecanismos das funções visuais e motoras do organismo. Quando a experiência foi repetida com as franciscanas - cujas rezas enfatizam mais palavras que imagens -, registrou-se uma excitação da região associada à linguagem, na base do lobo parietal, mas também elas tiveram os impulsos da área de orientação bloqueados ao atingirem o êxtase místico.
O que os budistas e as freiras sentiram não é resultado de auto-sugestão ou de um quadro
patológico, asseguram os pesquisadores. É algo real, baseado em eventos biológicos. "O
sentimento de unicidade parece paralisar os receptores sensórios da região parietal", diz
Newberg. Com isso, não há saída para o cérebro impossibilitado de traçar ou identificar
fronteiras senão perceber o "eu" como um ente expandido, ilimitado e unido a todas as coisas. A
sensação de unicidade, porém, é apenas uma - certamente a mais marcante - das impressões
causadas pelas experiências místicas profundas. Os êxtases incluem ainda uma intensa
alteração emocional, com expressões de alegria e pavor diante de algo que se afigura de
enorme significação para quem vivencia o fenômeno. E, nesse aspecto, as imagens da
intimidade cerebral fazem mais revelações.
As tomografias dos lobos temporais, onde repousa o chamado "cérebro emocional" ou sistema
límbico, mostram uma atividade redobrada dessas áreas durante as experiências
contemplativas, o que ajuda a explicar as marcas deixadas por tais eventos na personalidade
dos praticantes. Formado numa etapa remota da evolução, quando surgiram os répteis, o
sistema límbico está relacionado às emoções e reações instintivas. Nos humanos, os
sentimentos primitivos processados por seus três componentes - o hipotálamo, a amígdala e o
hipocampo - são integrados com as funções cognitivas superiores produzindo assim uma
ampla, complexa e variada experiência emocional. Cabe ao sistema límbico monitorar nossas
experiências, atribuindo a cada uma delas um valor sentimental, o traço emotivo que permanece
na memória e, não raro, pode ser a causa de fortes mudanças de atitude.
Você certamente já ouviu falar de alguém que alterou radicalmente os hábitos e o modo de ver a
vida depois de escapar ileso de um acidente ou após ser alvo de uma demonstração extrema de
amor num momento de dificuldade. Em escalas diferentes, eu e você certamente já fomos
protagonistas de cenas do gênero, nas quais o sistema límbico assume o papel de diretor da
peça. No terreno da religião isso é ainda mais freqüente e decisivo. O judeu Saulo, por exemplo,
comandava uma blitz policial para prender líderes cristãos, no século I, quando experimentou
um transe durante o qual viu o próprio Cristo a propor-lhe uma nova vida. Depois disso,
convertido, tornou-se o apóstolo Paulo, o grande responsável pela propagação global do
cristianismo.
A participação do sistema límbico nos fenômenos espirituais é tão evidenciada que alguns
estudiosos o rotulam como o "transmissor de Deus". Sabe-se agora que uma intensa atividade
elétrica nos lobos temporais acompanha o êxtase místico, detalhe que leva certos
pesquisadores a considerar uma conexão entre o fenômeno religioso e o ataque de epilético,
quando idêntica atividade dos lobos é registrada. Não existe nada conclusivo sobre tal hipótese,
mas uma engenhoca concebida para testá-la - um capacete que emite descargas elétricas,
inventado por Michael Persinger, da Universidade Laurentian, em Sudbury, Canadá -, confirmou
que estímulos elétricos na estrutura do sistema límbico podem provocar alucinações, a
sensação de estar fora do corpo e o senso do divino. Outras experiências de estimulação da
estrutura límbica, feitas durante cirurgias do cérebro, também constataram a ocorrência de
sentimentos religiosos em alguns pacientes.
A influência decisiva do "cérebro emocional" nos eventos místicos, diz Newberg, pode
esclarecer ainda por que os rituais são uma prática tão importante nas religiões. Os
movimentos estilizados e repetitivos, os símbolos como a cruz e as imagens sagradas e os
cânticos usados nas cerimônias religiosas as diferenciam das ações cotidianas. Assim,
segundo Newberg, ajudam o cérebro a percebê-las como eventos mais significativo. Esses
acessórios disparam o mecanismo do sistema límbico, ora produzindo alegria e harmonia, ora
tensão e medo, facilitando a transição para os estados alterados de consciência. O mesmo
ocorre quando se medita, pois a meditação tanto pode acalmar quanto excitar a estrutura
límbica, contribuindo para a intensidade da experiência.
Os fenômenos transcendentais, ao contrário do que se imagina, não estão restritos aos círculos
de iniciados. Repetem-se corriqueiramente entre pessoas comuns, mesmo aquelas que não
têm a prática religiosa como hábito. Na década passada, uma pesquisa do Instituto Gallup
apurou que 53% dos americanos adultos admitiam já ter vivenciado um momento de súbito
despertar espiritual ou insight, um lampejo intuitivo. Os relatos dessas experiências
aumentavam com a idade, a educação e a renda das pessoas ouvidas. No Brasil não existem
estudos específicos sobre o tema, mas é razoável admitir-se que uma sondagem do gênero
poderia registrar percentuais ainda maiores que os da pesquisa americana, se considerarmos
que a crença em Deus é praticamente uma unanimidade entre os brasileiros - 99% da
população, segundo apurou o Instituto Vox Populi no semestre passado - e o país é um celeiro
mundial de religiões mediúnicas.
Quando se esmiuça a ação do cérebro nos estados transcendentais, como fazem agora os
cientistas, pode-se então dizer que certamente não existe um só homem com as funções
cerebrais em dia que não tenha experimentado um estado de êxtase semelhante aos dos
místicos. Lembra aquele grito de gol que você deixou sair no meio da torcida organizada de seu
time? Pois é, aquela impressão de que o tempo parou e você ficou maior que o estádio,
enquanto berrava, é a mesma que desde o início deste texto estamos chamando de sensação
de unicidade. E aquele arrepio que tomou conta de você ao cantar o hino nacional na passeata
de seu partido? Até quando você dança ou escuta um discurso patriótico - enfim, quando está
diante de algum recurso que desperte o sistema límbico - é possível entrar em transe suave e
sentir pelo menos parcialmente o que os místicos costumam vivenciar quando buscam Deus.
Newberg e Aquili estudaram essas variantes e concluíram que isso acontece com pessoas
absolutamente saudáveis. Os portadores de psicoses, como os esquizofrênicos, podem até
entrar em transe, ter visões e ouvir vozes mas, nesse caso, segundo os pesquisadores, o
fenômeno, relacionado a processos obsessivos, é repetitivo e torturante e não espontâneo e
criativo como ocorre nas experiências místicas.
Os eventos místicos acontecem numa escala que vai da resistência a qualquer alteração da
consciência aos momentos de pico, nos quais o indivíduo perde totalmente a noção do ego. A
maioria dos praticantes encontra-se no meio desse continuum. "Nem todos os meditadores
alcançam o estado de unicidade", ressalta Robert Formam, especialista em religiões
comparadas do Hunter College de Nova York. "E isso sugere que algumas pessoas podem ser
geneticamente predispostas à experiência espiritual". Segundo Forman, tais indivíduos, na
maioria das vezes, se mostram mais abertos a inovações e apresentam um grau maior de
tolerância com a ambigüidade e a incerteza. Têm também mais dificuldade em distinguir o que é
imaginação do que é real, acrescenta David Wullf.
Ao apresentar com mais clareza a conexão entre cérebro e espiritualidade, a ciência dá um
salto adiante também na compreensão dos mitos, os elementos imaginários que em todas as
épocas nortearam as religiões e a organização social (veja a matéria seguinte). A existência de
um lobo parietal desenvolvido no cérebro dos humanos foi fundamental para a emergência da
mitologia. É nessa área que está a estrutura neurológica que proporciona a noção de
causalidade e oposição, bem como o centro da linguagem, ambos necessários à formação da
narrativa mítica. Um chimpazé, que possui um lobo parietal rudimentar, é hábil para dominar
alguns conceitos matemáticos e manifestações de linguagem não verbal. Mas incapaz de
formular pensamentos abstratos, aqueles que conduzem à arte, à tecnologia e aos mitos.
OK. Então não há mais dúvida de que o funcionamento do cérebro explica toda a fenomenologia
que, ao longo de milênios, o homem tem atribuído aos deuses e outras forças imponderáveis,
certo? Não é bem assim. Na verdade, o velho enigma persiste e o que mudou são as novas
possibilidades de leituras trazidas pela neuroteologia.
Proponha-se a questão a um neurofisiologista convencional, como o professor Luis
Eugênio Mello, da Universidade Federal de São Paulo, e a resposta virá, taxativa: "As
experiências místicas têm relação direta com o efeito placebo, que pode ser gerado por
condicionamento ou por expectativa. O fato de se acreditar que alguma coisa vai acontecer
acaba gerando conseqüências sobre as reações fisiológicas". Luis Eugênio não aceita que o
cérebro tenha sido "meticulosamente preparado" para a experiência transcendental e acha que
se temos essa percepção ela se estabeleceu "por acaso" usando áreas relevantes para outros
processos neurais. Idéia semelhante têm muitos ateístas e materialistas, para os quais o
denominador comum de todos aqueles fenômenos é o cérebro e nada mais.
"Não podemos dizer que eles estão errados", afirma Newberg. "Nem que estão errados os que
acreditam na existência de algum tipo de interação do cérebro com algo divino". Indiscutível, a
essa altura, é que todas as nossas experiências, sejam as da realidade concreta ou as
místicas, ocorrem em nossa estrutura cerebral. A neuroteologia, no entanto, levanta suspeitas
sobre o que poderia ser uma dimensão da consciência além dos lobos e feixes de neurônios, a
partir da constatação de que a consciência persiste quando o indivíduo perde a noção do "eu" e
os sentidos deixam de funcionar. O fato de as experiências espirituais serem associadas à
atividade neuronial não quer dizer necessariamente que tais experiências são meras ilusões
neurológicas, segundo Newberg, mas certamente que a engrenagem cerebral possui um
mecanismo para a transcendência. "A questão central é determinar se a atividade neurológica
associada à experiência espiritual significa que o cérebro é a causa dessa experiência ou se,
em vez disso, está percebendo uma realidade além do corpo", acrescenta o cientista.
Apesar da interação entre o sagrado e o laboratório nos dias atuais, ainda por muito tempo
ciência e religião acenarão com explicações exclusivas ao se debruçarem sobre o cérebro e os
fenômenos transcendentais. Até que se alcance o consenso, só a fé, numa teoria ou num
dogma, será capaz de responder se foi a maquinaria cerebral que criou Deus ou se Deus criou
o cérebro para que o homem pudesse percebê-lo.
PARA SABER MAIS
Na Livraria:
Why God won´t go away, Andrew Newberg e Eugene D´Aquili, Ballantine Books, Nova York, EUA, 2001
Religion Explained, Pascal Boyer, Basic Books, Nova York, EUA, 2001
O Universo Autoconsciente, Amit Goswami, Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2001
O Tao da Física, Fritjof Capra, Cultrix, São Paulo, 1999

Texto publicado na revista Super  de agosto de 2002

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