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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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Blog do Guto
Guto de Castro é escritor, formado em filosofia e pós-graduando
em Filosofia Clínica pelo Instituto Lúcio Packter, Porto Alegre-RS
Somos o que podemos ser e não contrário?
Somos o que podemos ser e não contrário?
04/10/2018

Bom dia Planeta!!! Eu tenho visitado ambulatórios e hospitais psiquiátricos na cidade e acompanhado de perto casos bem interessantes e que ilustram um pouco o conteúdo que nós vamos tratar neste tópico sobre os enganos existenciais.

O primeiro deles diz respeito a um caso que acompanhei durante alguns dias em um hospital universitário na cidade. O cenário de uma enfermaria mostrava um senhor na cadeira de rodas ao lado de um jovem muito bonito e que confidenciava algo no ouvido do primeiro personagem da cena.

Qual seria a primeira impressão desta imagem para você?

Provavelmente diria que se trata de um momento especial na vida daqueles dois seres e temos aí um garoto cuidando de seu pai, tio, parente, amigo, etc. Todavia, com o passar dos dias, você se aproxima do caso em tela e percebe que nenhuma das hipóteses postas anteriormente tem validade. Trata-se, na verdade, de um pai, que é cadeirante e que acompanha seu filho na área psiquiátrica de um hospital. Um bonito exemplo para os nossos dias de hoje.

Na Filosofia Clínica, tratamos esses enganos existenciais como termos equívocos, ou seja, quando a pessoa em determinado contexto da vida, interpreta um símbolo, um cenário, que não parece ser de fato o que é.

Vejamos outro caso. Na academia estudamos que tudo nasceu no caos e posteriormente foi se organizando, ou caminha em vias de organização. É um tratado bem interessante. Mas, questionável.

Perceba que certas coisas estão justamente no processo contrário a essa trajetória.  Uma pessoa, por exemplo, apresenta um comportamento confuso, equivocado, distante da realidade, e logo é posta em quarentena e submetida a pesados tratamentos complexos e químicos. E isso pode significar mutilações em sua alma, traumas irreparáveis diante daquele processo que poderia ser vivido naturalmente dentro do que definimos como área de passagem.

Essa certamente é uma das maiores características de nossa época. Desde o Renascimento, as vivências equívocas, aquelas que não são consideradas unívocas, tornaram-se extremamente “problemáticas” para o sistema e o pensamento padronizados. Em sua obra “História da Loucura”, o filósofo Michel Foucault coloca isso de uma forma bem clara ao defender a ideia de que as pessoas são cobradas a terem pensamentos maquinizados, padronizados dentro de um cabresto ideológico. Pensar fora desta caixa prisional pode ser muito perigoso. Daí tantos conflitos, tantas confusões. Mas, que terão que ser vividas, experimentadas para o aprimoramento das relações como elas são entre as coisas, as pessoas e o Cosmo.

Bem nós temos insistido muito em falar sobre esse tema aqui.  Na verdade, tenho tratado dele em doses homeopáticas. Pois, trata-se de um tópico muito complexo. Mas, que serve como analogia no momento tão especial em que vivemos, principalmente aqui no Brasil – onde os discursos extremistas de um lado e do outro geram em nossas mentes tantas confusões, conflitos, distorções e crises existenciais profundas.

E talvez tudo isso seja natural dentro deste processo de maturação, reorganização do sistema coletivo assim como nos processos inerentes a alma, ao espírito e o natural fluxo da vida que temos que percorrer. E tudo isso certamente é o que “somos e o que podemos ser”, por hora, até que possamos chegar a um nível de compreensão mais profundo sobre sem necessariamente navegarmos em águas superficiais, ou muito profundas, profundas demais, que podem colocar a nossa embarcação em risco.

Enfim, sabemos muito pouco o que nós somos e menos ainda sobre o que podemos ser. É isso. É sempre muito bom participar deste momento com você. Até o nosso próximo encontro, se Deus quiser.

Somos livres para escolher?
Somos livres para escolher?
12/09/2018

Bom dia Planeta! Durante um passeio recente à enseada de Ponta Negra - uma linda praia localizada no litoral Sul da cidade do Natal (RN), aqui no Brasil - fui a uma sorveteria que oferecia no anúncio três sabores de sorvetes em máquinas automáticas. Todavia, no caixa fui informado que somente estava disponível o sabor de chocolate, contrariando o meu desejo de experimentar o sabor misto que envolvia cacau e creme.

Lembrei desse momento para falar do período atual, que nos move a tomar importantes decisões, numa época em que estamos tratando de tantas questões relacionadas à política e ao futuro do país. Há elementos no exemplo anterior que devemos considerar.  Um deles diz respeito à ausência de escolha, de opção.  De um lado alguém deseja um sabor de sorvete e do outro lado a opção é um único sabor que não atende o anseio do cliente.  Afinal, quais são de fato as nossas escolhas neste processo: pagar pelo sorvete de chocolate disponível na máquina ou esperar outro momento mais favorável para o primeiro fim?

Outro elemento interessante neste processo é a ausência de diálogos e de ideias.  Não há, por exemplo, uma justificativa sobre o motivo que levou a máquina de sorvete a disponibilizar somente um sabor. Você simplesmente é convidado a participar do processo ou não, embora o anúncio admita que você tenha a opção de escolher entre os três sabores.

Há uma série de outras demandas que poderemos usar neste contexto para uma analogia com o processo político no país.  Vamos imaginar, por exemplo, que ao contrário de uma sorveteria, você participe de um encontro com os candidatos. Neste encontro todos eles aparentam emitir um anúncio, mas não conversam com você.  Eles falam de um tópico, anunciam os seus números e acreditam que realizaram uma razoável comunicação com você. Você por outro lado não tem a oportunidade de manifestar o seu desejo, o que de fato gostaria de falar. Não seria a mesma situação na sorveteria?

Embora o eleitor (consumidor) e o candidato (produto) admitam alguma forma de comunicação,  isso não acontece de fato.  E dependendo do emaranhado desta freqüência de sons e sinais pode até parecer que houve um diálogo comum, uma conversação. Mas, na verdade, tivemos apenas ruídos. São discursos distintos: eles precisam de seu voto para tocar um negócio bem remunerado e você acredita que, elegendo os candidatos postos, eles serão os seus representantes legais para tocar a ideia de um Estado livre e de oportunidade iguais para todos.

Com efeito, há ainda outras variantes bem delicadas e que poderão gerar resultados dramáticos, principalmente quando os discursos e enunciados tendem a roteirizar conflitos que irão muito além da falta de conversação e da ausência de ideias – promovendo a troca de insultos, agressões, prisões e até tentativas de assassinatos.

Olha é um momento muito complexo, muito delicado, que move a todos nós, pela esperança e pela fé no sentido de encontrar um caminho melhor para esta nação que sofre tanto com as ausências de escolhas, a falta de opção e a realização de um programa de ideias verdadeiramente democráticas e fraternas.

Enfim, o sistema até admite que você tem o direito de votar, mas o candidato posto na máquina  tem um único sabor –  o gosto amargo do chocolate. De que serve a nossa famosa liberdade de escolha quando a única escolha que temos não foi construída por nós?  Bem é isso. Até o nosso próximo encontro, se Deus quiser!

Eu não sou o centro do universo
Eu não sou o centro do universo
10/08/2018

Bom dia Planeta!!! Recentemente realizamos uma experiência com alunos de uma escola sobre a ideia do eu. Quem sou eu diante da vida? Quem sou eu diante do Universo? Usamos para auxiliar o experimento um espelho e uma caixa e estimulamos cada educando a realizar essa descoberta individualmente.

Olha, caro partilhante, os resultados alcançados foram os mais diversos. Alguns alunos se encantaram com a própria imagem, outros identificaram traumas em suas histórias de vida e outros mais se emocionaram diante da lâmina de vidro que refletia suas respectivas imagens.

Depois sugeri que cada estudante partilhasse suas experiências com os colegas e nestas narrativas avaliamos que muitos enfrentavam crises existenciais e formas de vidas semelhantes, mas não tinham consciência que os outros também passavam pelos mesmos dilemas. Estavam muito focados no seu próprio eu e tão cegos que não percebiam no outro a existência destes mesmos raciocínios.

Esse é mais um problema da cultura moderna. Uma cultura marcada pela subjetividade, uma cultura do sujeito, centrada no eu, no ego – inclusive nos momentos de profunda crise. É um tema, enfim, que vem sendo estudado na filosofia. E isso tem uma relação com o que nós entendemos como consciência de si ou consciência de mim, deste eu.

E, de fato, a ideia deste eu parece ser soberana, mais importante, do que a ideia da existência do outro. Parece, todavia não é e não deverá ser. Pois, de fato, ao olhar para o próprio umbigo, esse eu torna-se um problema ético.

Vejamos um exemplo muito prático. Temos no mundo mais de 7 bilhões de “seres pensantes”. Acreditar que esse eu – sozinho – é merecedor de um sentimento de alegria, bem-aventurança, satisfação em relação aos outros 6,999 bilhões de indivíduos é uma ideia egoísta, fruto de uma mente egocêntrica e de um ser profundamente individualista.

De fato, eu não sou e nem pretendo ser o centro do Universo. Há vários aspectos que poderíamos colocar nesta construção. Mas, seriam elementos muito particulares do meu eu. E isso iria contaminar uma reflexão mais autêntica e original do outro que lê essas breves linhas. E para não influenciar neste exercício, eu formulei algumas questões que poderão nortear um caminho mais saudável para a relação deste eu com o outro e do outro com o eu. Vamos para elas:

Como seria o mundo onde o centro do Universo fosse o outro? E se esse outro eu não fosse a ideia de ser propriamente o homem mas uma ovelha, um cordeiro, um gato, um coelho, uma árvore, um fruto, uma estrela, o próprio Universo?   O que esse outro significa na minha vida? Por que para o eu viver o outro tem que morrer? Por que eu preciso construir o significado do outro?  Por que o outro não poderia ser o centro do Universo?

Bem é isso! Esse é mais um tema muito complexo. Há vários aspectos neste experimento que irão muito além do eu e do espelho que reflete essa visão de mundo e cujos resultados não depende somente da minha consciência, a consciência do eu, mas de uma construção coletiva. Até o nosso próximo encontro, se Deus quiser.

Medicação existencial: como devemos usá-la?
Medicação existencial: como devemos usá-la?
09/07/2018

Bom dia Planeta!  Estamos enfrentando desafios enormes e os mais distintos dramas humanos em toda Terra.  Não está sendo fácil para humanidade. Há pessoas, na verdade, milhões de pessoas que não estão suportando viver nesta realidade e estão em busca de uma saída química para enfrentar esses processos. É claro que um olhar mais atento a individualidade de cada um poderia nortear o emprego de “medicamentos existenciais” ou de “processos curativos naturais” bem mais interessantes do que os anteriores citados.

O medicamento existencial é um remédio diferente, tem outra densidade, outra composição, com fórmulas elaboradas, equacionadas na própria natureza a partir de uma visão muito superior de tudo que encontramos produzido pelo homem em laboratórios e na indústria química.

Houve um filósofo chamado Emmanuel Lévinas que enfrentou muitos problemas ao longo de sua jornada. Sua vida teve começo na Lituânia, na cidade de Kaunas (em 1906) e posteriormente por ser herdeiro de uma cultura judaica foi perseguido, deixou seu país de origem e seguiu para Ucrânia e posteriormente viveu um período na França, onde se tornou seguidor da filosofia de Henri Bérgson.  O pensamento de Bérgson chamou muito atenção dele pelo conteúdo relacionado com noções sobre bondade, acolhimento, tempo e infinito. E o conjunto destes conceitos do pensador francês serviu como uma medicação de cura para angústia que Lévinas enfrentava.

Entre essa medicação estava o tratado sobre “O Poder do Riso”. De certa maneira, de certo modo, a leitura desta obra de Bérgson foi fundamental para a superação dos problemas que Lévinas enfrentava e os ensinamentos levados a reflexão e posteriormente a prática serviram como uma medicação existencial muito forte e eficiente para cura do pensador.

Com base neste exemplo é que eu queria pontuar aqui algumas questões e que poderão ser fundamentais no processo para evitar o uso de uma farmacologia química. A primeira questão é a ideia que o poder da palavra cura e sempre curou.  E é, um método natural. A segunda questão diz respeito à ideia que além das palavras há outras infinitas combinações que são oferecidas e estão disponíveis nesta farmacologia natural.

O poder do riso, o poder de um abraço, o poder do amor, o poder de elementos naturais como o Sol, o mar, o ar, a terra são imensuráveis no processo de cura de muitas pessoas. Um banho de mar por dia, por exemplo, pode curar uma pessoa de seu drama existencial muito mais do que antidepressivo. O poder de um jardim bem cultivado pode proporcionar ao seu zelador e a quem passeia nele um benefício imensurável. E assim por diante nas infinitas possibilidades que o universo nos oferece.

Então, como saber qual a melhor medicação existencial para cada tipo de problema? Não há uma prescrição de uma medicação existencial específica e imediata para um problema enfrentado por uma pessoa.

A primeira grande lição que aprendemos na Filosofia é que aquilo que um ser humano sente, vive, faz é único e, portanto, deve ser respeitado e levado em consideração. Somente com o estudo aprofundado da historicidade de cada pessoa, pelo contexto que ela viveu e vive, é que será possível trabalhar uma medicação existencial, uma solução natural que ajude a organizar o seu pensamento e promova assim uma melhor qualidade de vida e bem estar para ela.

O que passou, passou. Será?
O que passou, passou. Será?
13/06/2018

Bom dia Planeta!  Tem uma música linda chamada “Amo Você” escrita pelos poetas Luiz Guedes e Tomas Roth e cantada por Peninha que fala “o que passou, passou não importa/Ficou do outro lado da porta/ Pra nunca mais”. Mas, será que o que passou, de fato, passou? Nosso tema de hoje vai decorrer sobre essa questão.

Nem sempre o que passou, passou.  E isso ocorre com muitas pessoas e nos mais diversos lugares da Terra, independente de cor, credo, time de futebol ou etnia. Faz parte da condição existencial humana. E, portanto, se você carrega em seu caminho algo que aconteceu no passado e ainda não foi bem resolvido, não se assuste. Isso é assim mesmo.

Há pessoas, em vários casos, que sofrem muito com as vivências que não foram vencidas pelo tempo, à distância, o cansaço e todas as variáveis que norteiam o teorema que é a vida humana.  Há, entretanto, outras pessoas para as quais certas questões já foram vencidas, ficaram pelo caminho e novos desafios entraram em suas vidas e elas estão bem resolvidas.

Certa ocasião em São Paulo (SP), eu participei de um bate-papo no Café Athenas, na Rua Augusta, no centro da cidade, sobre as memórias que carregamos na nossa mochila existencial.  E lá eu conversei com algumas pessoas que carregavam muito peso em suas costas, fruto das lembranças que foram vividas ao longo de seus caminhos.

Uma pessoa particularmente chamou a atenção. Um empresário que não se perdoava pela quebra da sua empresa por uma série de questões que não estavam diretamente ligadas à avaliação da sua gestão no negócio, mas por fatores externos – como a crise econômica, dificuldades em adquirir a matéria prima para o seu produto, entre outras situações que não dependiam somente de sua boa vontade em tocar o empreendimento.

Os anos passaram e, posteriormente, em outro encontro durante temporada de férias em Natal (RN), ele falou que estava melhor, tinha criado um novo produto para o mercado e sua carreira no negócio caminhava muito bem.  Mas, toda vez que falava sobre sua atividade, surgia em seu pensamento um mundo de sentimentos, mágoas, dores existenciais que não ficaram no caminho. E tudo isso provocava nele um profundo medo, pânico. Ele tinha receio que tudo pudesse se repetir em sua vida.
 
Isso era assim para ele. Outras pessoas não se perdoam, por exemplo, por fracassos no casamento, na vida acadêmica, nas opções de escolhas que fizeram para seus caminhos, entre tantas outras vivências não vencidas.  Não há uma receita pronta para aliviar a dor de cada caso. Tudo isso vai depender da historicidade de cada partilhante e como se processam essas questões na sua estrutura do pensamento.

Lembro de um casal, ambos de boa formação acadêmica, que não podia conviver fora do momento do amor. Ela tocava piano e ele bebia e fumava muito.  Os dados sensoriais, os sentidos, envolvidos em suas relações não eram harmoniosos. O som do piano perturbava a audição dele assim como o cheiro da bebida e do cigarro irritava o olfato dela. Combinaram então de cada um morar em seu próprio apartamento e marcarem encontros de vez em quando para se amarem longe do piano, da bebida e do cigarro. E assim essa relação completara naquele tempo trinta anos de convivência. É interessante observar como essa ruptura, esse afastamento, foi fundamental para aproximação dos dois. Em outros casos, o resultado poderá ser completamente diferente.

Bem é isso! Esse é um tema muito complexo, muito amplo, com muitas variáveis e possibilidades.  Mas, em síntese, em muitos casos essas vivências são o momento, a parte que a pessoa mais vive no seu dia a dia e vai depender muito de cada um deixar isso no passado ou levar em sua mochila existencial ao longo da jornada extraordinária que é a vida. Um abraço para você, querido partilhante, e até o nosso próximo encontro se Deus quiser.

A loucura existe? Algumas considerações.
A loucura existe? Algumas considerações.
07/05/2018

Bom dia planeta! Um jovem de 25 anos anuncia que está ouvindo vozes e visualizando imagens simultaneamente ao contato que mantemos com ele. O mais interessante é que estamos juntos no mesmo quarto de uma unidade de psiquiatria da cidade e não sintonizamos a frequência que nos levaria a audição e a visão deste partilhante.

O que acontece com esse jovem?

Provavelmente as respostas serão as mais variadas nos saberes que estudam esse e outros casos da mente humana. E hoje, mesmo diante de tantos avanços, a principal vítima desta falta de lucidez sobre o tema é o próprio partilhante.

Eu acho tremendamente injusto os rótulos sobre as pessoas. Cada um de nós é uma resposta ao meio em que vive. Podemos passar por crises existenciais enormes, traumas, alienações, felicidade, euforia, e isso não faz de alguém um louco. 

A história humana é rica em literatura sobre o tema.  Erasmo de Rotterdam no seu ensaio “Elogio da Loucura” mostra que os loucos não são aqueles que estão nos hospícios. Esses, de fato, são os mais sensatos. Para o filósofo, a loucura dá ao homem tudo que ele quer e pode fazer e afronta aos outros que pensam diferente.

Em outro ensaio, o filósofo Michel Foucault na belíssima obra “A História da Loucura” mostra que a “insanidade” surgiu muito mais como uma causa política do que saúde pública. Era muito mais interessante ao governo, a sociedade, a instituição, a família desacreditar sobre certas pessoas do que trabalhar com as ideias delas muitas vezes “importunas” e “incomodas”.

Mais recentemente, com a Idade Moderna, nasceu uma literatura voltada para o conceito de medicar com drogas as pessoas como forma de cuidar da “alienação” que vivem.
Mas, será essa uma forma correta?

Não tenho uma resposta para isso. Para alguns é interessante que existam conceitos como a loucura. Para muitas organizações isso gera receita, lucros imensos e é uma grande falta de ética, fora toda incompreensão em torno do assunto que cerca o tema. Todavia percebemos, que assim como no passado, as formas de relacionamentos com este partilhante não são as melhores. Faltam-nos recursos que estão além da própria técnica e as formas de relacionamento com o partilhante. Falo sobre o amor, a paciência, o acolhimento e a aceitação deste ser humano como ele é. E quanto mais natural for esse processo, melhores serão as respostas e a qualidade de vida para a pessoa e seus familiares.

Bem é isso. Não é um caminho fácil falar sobre esse tema que é complexo. Exige muito de todos nós e menos do partilhante que somente que ser respeitado em sua essência e conduta. É claro que desde que essa conduta não prejudique a si mesmo e ao seu semelhante. Até o nosso próximo encontro se Deus quiser.

Entendimentos sobre a fé, a paz e o amor
Entendimentos sobre a fé, a paz e o amor
09/04/2018

Bom dia Planeta! Eu tenho visitado muitos lugares de prática religiosa - igrejas, templos, santuários - construções para experiência do que é sagrado, do transcendente. São lugares especiais, de vivência espiritual, de formação religiosa e experiências ricas com festividades, cultos e peregrinações que celebram a fé, a paz e o amor.

O nosso assunto de hoje vai decorrer um pouco sobre esse tema que está profundamente ligado aos mistérios de Deus. Muitos escritores e pensadores escreveram sobre essa proposição.

Alguns autores, como Agostinho, acreditam “que a fé precisa de compreensão”. E que sem a compreensão a pessoa tem dificuldade de exercer sua fé. Um pensador italiano chamado Ítalo Calvino admitiu que “a fé é uma visão das coisas que não se vêem”.

Há correntes filosóficas que sustentam a ideia de que a fé está muito ligada ao pensamento – aquilo que a pessoa pensa e que, portanto, a prática deste pensamento poderá levar a santidade. E é provado que cada pessoa tem sua forma de acreditar e viver sua crença e essas questões devem ser respeitadas, pois é uma visão muito especial de cada um e sua relação com Deus.

Quando encontro os religiosos nestes espaços sempre gosto de formular algumas perguntas para reflexão:

- Como se deu o processo de sua fé?
- Como se deu o processo de escolha por determinada religião?
- Como chegou até ali?

Os depoimentos são muito ricos. Há pessoas que relatam que conseguiram uma cura para uma enfermidade. Outras que estavam enfrentando grandes dificuldades na vida, outras que perderam tudo, pessoas queridas, que ficaram sozinhas no mundo e que se agarraram com a única esperança de uma vida digna e harmoniosa que é a fé em Deus, entre outras experiências lindas e maravilhosas.

Outro aspecto interessante nesta relação é o bem estar que o exercício espiritual proporciona aos seus praticantes. Há pessoas que focam um objetivo, tem fé e realizam essa chegada com muito esforço e graça divina. Outras pessoas possuem uma relação de cobrança com elas mesmas no sentido de serem humanos melhores, menos hostis, mais acolhedores.

Enfim, esse é um tema muito complexo.  E, certamente, não cabe aqui um exercício mais amplo sobre o assunto.  Todavia, lembro de certa ocasião em que uma senhora me disse que só passou a vivenciar mais sua fé quando deixou de teorizar a respeito e passou a viver sua prática baseada no amor e na paz entre seus semelhantes. Interessante observar que isso aconteceu não porque desistiu de estudar o tema, mas porque ao longo dessa trajetória de busca ela esquecera de viver a prática do que tinha conhecido nas palavras sagradas.

Bem é isso por hoje. Ame mais, promova a paz e o bem e que o Senhor nos ajude em nossas necessidades, corrigindo em nós o que desagrada a Deus, nos ajudando mutuamente e despertando em nós o amor uns para os outros e o amor dos outros para todos. Até o nosso próximo encontro, se Deus quiser.


A mulher é o que é: sinônimo de amor
A mulher é o que é: sinônimo de amor
11/03/2018

Bom dia Planeta! Vivemos um mês dedicado a mulher. Um mês certamente de muitas reflexões. A história humana é cheia de mulheres extraordinárias e que realizaram obras extraordinárias em suas jornadas.  O nosso assunto de hoje vai transcorrer sobre esse tema.

Há mulheres que,  por mais que as pesquisemos, não temos como desvendar o mistério de sua essência. São seres complexos, mas que precisamente sem elas o homem não seria humanizado. Pois é da acolhida no ventre, passando pela catequese para o bem e a paz nos primeiros anos de nascimento e depois na juventude, que o homem levará consigo todos os ensinamentos de sua mãe, avó, tia ou quem dele cuidou para ser gente.

Há homens que não aprenderam com suas mães, avós, tias, por uma série de fatores, todavia se transformaram em grandes esposos amando uma mulher e vivendo a missão de constitui uma família fundamentada na paz e no bem entre os seus e seus semelhantes.

É por meio da mulher que o mundo se humaniza. E nela, por meio de Maria – a representação maior de uma mulher - que o Verbo, em forma de amor pleno, se fez carne e habitou entre nós. 

E somente por meio deste amor é possível transformar o mundo e viver experiências plenas como a fraternidade, a igualdade, o respeito, a solidariedade, a docilidade, a paz na alma, a harmonia entre os corpos, enfim, tudo aquilo que melhor se propõe para a construção humana.

Apesar de sua grandeza, a terminologia e o sinônimo da palavra não foram capazes de definir a altura o significado maior de ser uma mulher. Os dicionários as classificam como: “mamífero, fêmea, bípede, sociável, que, tal como o homem, se distingue de todos os animais, pela linguagem verbal e pelo superior desenvolvimento intelectual e que se distingue do homem pela capacidade de engravidar, ser mãe natural ou adotiva”.

Com lemos, a mulher pode ser tudo isso. Mas, ainda assim, será uma definição singela, humilde, de menor valor diante do maior sentido que a própria palavra e sua ação são. E aqui, ensaio uma máxima – a partir de um anúncio que produzimos em conjunto com o cartunista Hamilton Rangel para uma campanha publicitária na cidade do Natal – e que diz o seguinte: “A mulher é o que é: sinônimo de amor!”

Ora, se a ética, por exemplo, é a imitação do amor. A mulher é a mais pura forma do amor. E sem amor, não chegaremos, ao exercício pleno de ser humano, de viver uma vida harmoniosa e feliz. De fato, o sentimento de amor é maior na mulher. Gostaria de saber amar como ama uma mulher, de viver e ser governado pelo amor em sua forma plena. Que saibamos, enfim, aprender a cada dia mais sobre a mulher e, conseqüentemente, sobre o amor.

Bem é isso! Ame mais, promova a paz e o bem. Até o nosso próximo encontro se Deus quiser!

Ética. Será que é apenas isso que nos falta?
Ética. Será que é apenas isso que nos falta?
16/02/2018

Bom dia Planeta!  Esperei o Carnaval passar para falar um pouco sobre a ideia do tema em tela que muito tem sido discutido nas universidades, na vida pública, na vida privada e entre nós antigos foliões. 

Esse é um conceito bem complexo e vai muito além do certo ou errado, do bem e do mal, da conduta positiva ou negativa e da análise dos critérios que define esse julgamento. Será que o entendimento sobre Ética está somente ligado a um conjunto de regras? Será que de fato precisamos da Ética para viver? É claro que esse é um olhar muito particular de cada um e do coletivo onde estamos inseridos.

Todavia, é preciso avançar neste argumento e propor novas possibilidades. Independente de qualquer código de conduta que norteia um país, uma organização social, o exercício permanente da ética não deve ser dogmático, um método fechado de regras rígidas e inflexíveis, mas um processo construído coletivamente e permanentemente aberto por meio do diálogo e o respeito entre todos.

Há vários momentos, ao longo da história da humanidade, por exemplo, que a Ética não foi nem convidada para participar. A caminhada do homem na Terra é repleta de rupturas neste contexto. Rupturas culturais, geográficas, religiosas, políticas, econômicas, militares, entre outros acontecimentos, que levaram os estudiosos a questionar se, de fato, merecemos ser chamados de “humanos”. 

Em outros momentos, mesmo em face de um grande tormento como é uma vivência em período de guerra, há “lições de humanidades” proferidas em quartéis que ensinam aos soldados, por exemplo, que não se deve atirar em um paraquedista enquanto ele estiver no ar. As contradições neste discurso são enormes  como a própria guerra e a cessação dos preceitos morais.

Escrever sobre ética nunca foi um tema fácil. O ideal é procurar outros caminhos para atingir um fim menos traumático. O valor da Filosofia neste processo está em iluminar não apenas aos que se encontram perdidos nesta busca, mas, sobretudo, desconstruir as certezas dos que estão convictos sobre o que de fato seria ético ou não.

E neste sentido, a filosofia pode propor aqui um novo olhar sobre essa questão realizando uma provocação em forma de pergunta: - Será que se tivéssemos mais consciência sobre o exercicio da igualdade, da fraternidade, da solidariedade, da honestidade, entre outros valores universais e inalienáveis que nos tornam “humanos”, necessitaríamos da Ética?

Enfim, pensar uma possibilidade de valor sobre a Ética no dia a dia das pessoas é pensar em um princípio moral para além dos imperativos ou das emoções, é ir muito além dos postulados e do consenso do que significa a própria Ética. E essa é uma construção que sozinhos não iremos realizar.

Bem é isso.  Depois do Carnaval e tantos excessos, é tempo de repensar a Ética, buscar novos horizontes que nos ajudarão a melhorar nossas relações com o próximo e as nossas condições de vida. Até o nosso próximo encontro se Deus quiser.

Vamos veranear!
Vamos veranear!
13/01/2018

Bom dia Planeta! Tenho recebido alguns e-mails tratando do mesmo tema: as férias. Do latim “feriae” (dies festus), a celebração do ócio.

Algumas pessoas relatam que, mesmo diante de cenários paradisíacos e boa companhia, não conseguem relaxar. Outras pessoas admitem que, mesmo longe da labuta, na temporada de veraneio sentem falta de suas atividades. Já outras pessoas revelam que ficar longe do trabalho ou dos estudos por um tempo do ano é uma bênção. Outros gostariam até de não mais voltar à rotina.

Bem todas as construções são válidas, bem interessantes e dependem muito da visão de cada um. Há pessoas que amam o que realizam e no ambiente em que trabalham são felizes. Outras pessoas estão envolvidas em atividades que nada tem em comum com elas e contam as horas, os dias, para chegar o feriado, o fim de semana e as férias. Isso é assim mesmo e sempre foi ao longo da história humana.

Na Grécia antiga, por exemplo, o ócio era vislumbrado como um momento fundamental à filosofia e as artes. Sem ócio não era possível a filosofia e consequentemente as artes. Para o filósofo Aristóteles, a ideia de ócio estava ligada a condição de estar livre. Posteriormente, os romanos destacaram o ócio como “um intervalo entre suas atividades.”

A ideia de problematizar o “ócio” como atividade menor é mais recente. No senso comum circula um adágio que diz que “o ócio é pai de todos os vícios”. O jornalista e filósofo Benjamin Franklin, aquele da Declaração da Independência e da Constituição dos Estados Unidos, admitiu que “o trabalho dignifica o homem”. Já na Alemanha, durante o regime nazista foi construída uma máxima de que “o trabalho liberta” - frase soldada nos portões na entrada dos campos de concentração.

Todavia, e as férias? O tempo dedicado ao ócio? As férias humanizam o homem. O homem não é uma máquina para trabalhar sem uma pausa. Na teologia, até Deus descansou no sétimo dia! Então, não tenhamos qualquer paranoia de viver o ócio.

O pensador Berthand Russel publicou um fabuloso ensaio denominado de “Elogio ao Ócio” (1935), no qual destaca que é preciso saltar do senso comum para enfrentar a velha sociedade industrial – e porque não a atual era virtual que escraviza mais que a anterior?

Enfim, férias são férias, dias de festas e celebração da vida. Há um verso do poeta Ascenso Ferreira (1939), recitado pelo escritor Júlio Ramenzoni, que diz: “Hora de comer – comer! Hora de dormir – dormir! Hora de brincar – brincar! Hora de Trabalhar? - Pernas pro ar que ninguém é de ferro.”

Bem é isso. É tempo de caminhar na praia, férias, desejo um veraneio bem feliz para todos e até o nosso próximo encontro, se Deus quiser!

Sobre os caminhos anteriores
Sobre os caminhos anteriores
04/12/2017

Bom dia Planeta! No nosso último encontro falei sobre caminhos, trajetórias, trilhas que as pessoas percorrem durante suas buscas existenciais e perguntei:  como seria refazer esse caminho, voltar, retornar?

Na filosofia esse processo é denominado de “retroação” e tem um significado muito especial. Diz respeito ao ato ou efeito de retroagir, de voltar à condição anterior, retornar ao passado.

Na verdade é um processo bem mais seguro do que seguir para o futuro.

Como? Por uma série de fatores, entre eles a máxima que “aquilo que você tem consciência que viveu lhe proporciona um controle se, por ventura, em outro momento ocorrer no futuro. Diferentemente, do inédito, daquilo que você não tem consciência do que virá pela frente.

É claro que essas retroações poderão ser positivas, neutras ou negativas. Uma pessoa, por exemplo, que vive um momento de crise existencial, deseja retornar a um período no qual as disposições lhe pareciam tranquilas. Todavia, para refazer esse percurso, entre outras variáveis, a pessoa precisa ter consciência de onde está existencialmente e o sentido de ir e vir desta jornada rumo ao que objetiva.

Sem essa consciência de onde se situa existencialmente, a pessoa pode caminhar achando que segue para próximo de algo que deseja, enquanto na verdade executa movimentos que a afastarão mais e mais de seus objetivos.

Conheci alguns judeus sobreviventes do Holocausto e que ano a ano – durante suas viagens de férias – retornavam a Alemanha para visitar campos de concentração e extermínio. Estavam livres fisicamente daquela maldição. Todavia, se encontravam presos existencialmente naquele período com a máxima de que “era preciso lembrar sempre o passado, para que ele não se repita – Holocausto nunca mais!”

É claro que para alguns judeus, esse retorno poderá ser motivo de insônia, pesadelo, de reencontro com as atrocidades do Nazismo e isso será muito negativo para eles. Mas, usado para o propósito de denunciar ao mundo o que ocorreu ali, o passado passa a ser vivo no presente e tem a finalidade de conscientizar nações e lideres para que o genocídio nunca mais se repita.

Há, por outro lado, retornos maravilhosos, nascidos em verdadeiros contos de fada. Conheço casais, por exemplo, que de período em período retornam para lugares onde se conheceram ou realizaram viagens de lua de mel. É um momento harmonioso, feliz, de renovação das alianças em torno do amor e que tem o objetivo principal de fundamentar e pavimentar o caminho que se seguirá pela frente.

Enfim, muitas vezes é possível retornar e permanecer neste melhor que passou. Muitas vezes não é.  E em outros momentos não fará nenhum sentindo, principalmente se e essa busca significar perdas tremendas diante de benefícios mínimos. Não valerá a pena.

Bem, é isso! Fim de ano chegando, nascimento de um novo período. O momento é favorável para essa reflexão.  Feliz ano novo e que Deus torne 2018 um ano mais harmonioso, de muita paz e muito amor para todos nós.

Há vida no meio do caminho
Há vida no meio do caminho
04/11/2017

Bom dia Planeta! Tenho caminhado muito neste período do ano. A cidade oferece parques ambientais, uma orla urbana com calçadão, praças, alamedas, enfim, uma estrutura que colabora com as práticas esportivas e que ajuda também na atividade intelectual e nas reflexões sobre a vida, o mundo e como estamos lidando com a realidade de cada um.

Outro dia no Parque da Cidade, caminhei por uma linda escadaria que leva a torre principal de sua estrutura administrativa e durante o percurso alguém falava com o outro sobre a importância de seguir o caminho com os pés no chão e vivendo dentro da realidade.

Interessante como no próprio caminho observei cenas que questionava a construção do diálogo anterior entre os dois amigos. Cada pessoa tem um estilo muito particular de andar em seus caminhos existenciais. Algumas pessoas subiram as escadarias cantando, outras contando cada degrau, outras dançando, outras pessoas aproveitaram para imortalizar o momento numa imagem e outras foram rapidamente ao topo.

É claro que diante desta perspectiva, as possibilidades de fazer esse mesmo caminho são inúmeras e depende da vivência de cada um. Há quem faça outras coisas. Algumas pessoas subiram ao topo, por exemplo, rezando com o terço na mão. E eu meditava sobre o significado de caminhar aqui e como, de fato, cada pessoa tem um estilo muito próprio de realizar seu caminho pelo mundo.

Cada ser humano tem uma forma de caminhar muito particular neste grande labirinto que é a vida e tem a capacidade de escolher a maneira como será realizada essa trajetória. Não há uma fórmula pronta para construção deste caminho.  De fato, não existe um programa pronto que defina qual a melhor maneira de seguir na estrada.  A construção deste caminho é uma experiência única de cada pessoa.

O importante é focar que estamos aqui para passar momentos agradáveis. É bem verdade que não vivemos no melhor mundo possível e que no meio do caminho há pedras, mas também há flores e talvez nenhuma das possibilidades anteriores. E daí? É vida, viva então! Se a realidade não corresponde ao conceito que você escolheu, pior para realidade – desde que sua maneira caminhar não prejudique ao próximo e tudo que existe no meio ambiente. E isso não é nenhum problema.

E descendo as escadas? Refazendo o caminho? Como seria isso para você?

Bem esse é um tema para outro momento. Um abraço em todos e até o nosso próximo encontro, se Deus quiser.


Teorema da primavera
Teorema da primavera
04/10/2017

Bom dia,  Planeta! Hoje eu vou conversar sobre um hábito que gosto muito de realizar. Os encontros e diálogos que realizo com amigos nas praças públicas e parques da cidade, principalmente nesta época do ano com a chegada da Primavera.

Depois da labuta, costumo caminhar nos jardins públicos, ouvindo as pessoas, os passarinhos, observando seus ninhos, os sons de felicidade de seus pequeninos filhotes, tocando as árvores, pousando para uma fotografia, sentido o cheiro das flores, testemunhando o passeio do sol calmamente em direção ao poente, os estudantes retornando para seus lares, outros saindo para estudar, passear, namorar, celebrando a vida em seu sentido mais amplo.

Gosto demais de tudo isso também porque você não precisa pagar nada para entrar, ou quase nada.  A grande sacada é que estamos ali para encontrarmos, de fato, com quem gostamos de conversar, brincar, viver. E esses momentos são sempre festivos e harmoniosos.

Você já reparou como as pessoas são livres na praça pública e no parque?  É impressionante como as pessoas se sentem libertas de suas paredes, habitações, casas, apartamentos, redes sociais e afins.

A cidade onde moro tem praças e parques interessantes e inspiradores. Particularmente, tenho um carinho muito especial pela Praça Cívica – antiga Praça Pedro Velho – no bairro de Petrópolis. O lugar é um imenso espaço aberto cuja vocação principal é promover o encontro das pessoas, das famílias, e que conta com um passeio agradável e um jardim muito bonito.

Muitos filósofos e artistas, em suas homenagens aos espaços públicos, recordam boas lembranças sobre o que esses lugares acrescentaram em suas caminhadas e reflexões. Eu tenho um amigo, o escritor e poeta Júlio Ramezoni (clicado acima por Jacinta Faria) que construiu parte de sua obra em andanças meditativas por esses lugares. Ali ele ouviu “O Extraordinário Grilo Falante”, descobriu “As Aventuras de Panduso” e toda a poesia de suas composições musicais. 

Outro poeta extraordinário, inspirado por um dos seus passeios nos jardins, o compositor Genival Cassiano dos Santos, escreveu os versos da canção Primavera, um clássico da MPB, imortalizada pela voz do Tim Maia e que diz: “Porque (é primavera)... Te amo, meu amor... Trago esta rosa (para te dar)”.  Conheço casais que começaram a namorar depois de um encontro na praça, outras pessoas ficaram amigas depois de uma boa conversa no banco de um largo público.

Tudo isso ajuda a viver, é uma gentileza para o corpo e para a alma. E assim a vida segue em perfeita harmonia nos jardins, embaixo das árvores, na grama, celebrando o amor, tudo que respira e não respira. Tudo que inspira, encanta e fascina e outras possibilidades mais que pelo andar das linhas que escrevo não devo demorar. Pois, é hora de concluir, sair para caminhar. É Primavera.  Há quem faça outras coisas nesta estação. Eu, particularmente, gosto de caminhar nas praças e parques públicos.

Vamos?

De volta para casa
De volta para casa
02/09/2017

Bom dia Planeta! Na crônica de hoje vou falar sobre os caminhos que percorremos em busca de um sentido para a vida.  Há uma reflexão muita bonita do poeta, compositor e cantor Bob Dylan no filme “No Direction Home”, do diretor Martin Scorsese, que trata sobre o tema e acho oportuno compartilhar aqui com vocês:

- Eu pensava em sair pelo mundo e encontrar uma jornada de retorno para algum lugar. Eu tentava encontrar aquele lar que deixei há muito tempo e não conseguia lembrar onde era, mas eu estava a caminho. E depois de tudo que me deparei pelo caminho, percebi tudo. Eu não tinha nenhuma ambição. Nasci muito distante de onde eu deveria estar. Então, estou voltando para casa, entende?

Refletindo sobre esse fragmento é possível imaginar quantos seres humanos passaram por esse momento diante de suas vidas e quantos passarão. De repente, todo aquele mundo lúdico de criança, de brincadeiras, brinquedos, fantasias é retirado e nasce a obrigação de lutar para encontrar um caminho que possa ser viável existencialmente. Muitas pessoas se perderam nesta passagem, outras passaram sem maiores problemas.

Na filosofia é muito usual que a gente encontre associações entre as coisas do ambiente, do cotidiano e as coisas do pensamento. Os filósofos trabalham muito com esses recursos. Nestas relações entre o pensamento e o mundo do dia a dia há elementos que ficam presos na memória, mas que estão muito longe da pauta cotidiana da nossa reflexão. Todavia, é preciso aflorar tudo isso, trazer à superfície.

São memórias adormecidas no tempo da infância e que aparentemente parece não fazer nenhum sentido, mas que podem ser determinantes na busca deste caminho de volta para casa, onde nos sentiremos mais seguros e felizes. E isso não tem nada em comum com possuir ou não riquezas, bens, alcançar o sucesso, etc.

Tenho encontrado muito jovens nas faculdades, por exemplo, que ainda não sabem se seguirão nas áreas que escolheram. Outros que estão realizando determinados cursos porque os pais queriam e outros que na verdade desejavam a poesia das artes, mas que estão diante do dilema de ser ou não ser.

Eu não tenho uma receita para resolver esse dilema. Todavia, é impressionante a diferença que faz a chama de uma vela, tão frágil, diante da escuridão. Um bom exercício neste sentido é examinar melhor a infância. Buscar os lugares onde viveu você menino, os amigos, as brincadeiras, etc. A vivência neste mundo lúdico, tão pequeno diante da imensidão do universo, abre possibilidades inúmeras. Há horizontes imensos mostrando caminhos para um reencontro com uma vida plena e feliz.

Conheço amigos, por exemplo, que adoravam brincar de médicos e que hoje são excelentes profissionais da saúde. Outros que adoravam contar uma história e seguiram escrevendo livros com histórias lindas e maravilhosas. Outros que cantavam desde muito cedo e se tornaram compositores, outras se tornaram bailarinas, atrizes e seguiram para vida vivendo uma eterna infância. Claro que há muitas outras variáveis aqui e que poderão mostrar outras possibilidades para enfrentar melhor essa busca. Todavia, o importante é não perder esse olhar de menino e de menina diante do mundo que nos apresentam. Bem, é isso. Até o nosso próximo encontro.

Sobre limites e armadilhas conceituais
Sobre limites e armadilhas conceituais
06/08/2017

Bom dia planeta! Qual o seu limite? Até onde você pode caminhar? Hoje eu vou falar sobre a ideia de limite e as armadilhas conceituais. Os limites existentes na vida de um ser humano podem ter naturezas completamente distintas e podem ser determinantes conjuntamente com as armadilhas conceituais no aprisionamento existencial de uma pessoa.

É clássica aquela frase em que o partilhante diz:

– Eu nado, nado e não saio do lugar. Parece que minha vida anda em círculos!

Há pessoas também que acreditam que são de fato os conceitos construídos por seus amigos, chefes, colegas de turma, de trabalho, etc. Há pessoas, por exemplo, que foram rotuladas como loucas e elas acreditam que são loucas. Outras foram conceituadas “menos inteligentes” e outras mais como incapazes, etc.

Nestas analogias temos uma série de exemplos que poderão ser bons ou ruins para o partilhante. E, dependo destas definições e como elas são recebidas, isso pode ter uma influência direta na construção ou destruição da estima do indivíduo.

É bem provável que se uma pessoa acreditar que esse conceito, esse limite, é assim mesmo, ele acabe deixando realizar uma série de metas em sua vida. Já a pessoa que acredita que não é bem assim ultrapassará seu próprio limite.

- Mas, afinal como você encara tudo isso?

Eu tenho falado sobre esse tema nas praças públicas, nas escolas e faculdades que visito.  Os limites, as armadilhas conceituais, criam oportunidades para superação. A história dos vencedores é repleta desta validação. E se eles foram além, é possível que você seja capaz de superar também tudo isso.

Há um caminho dividido por um lindo jardim no Campus do IFRN em Natal (RN) que costumo usar como referência para fuga destes conceitos. Trata-se de uma subida íngreme, uma escada que leva ao saber, e que tem que ser enfrentada dia a dia ao longo de anos por seus alunos e uma vida inteira por seus professores e funcionários. É provável nesta perspectiva, compartilhada com esse lindo jardim que é a vida, que ao lidar com essas questões o desafio maior de cada um é vencer a si mesmo assim como os conceitos alheios que nada dizem de fato sobre você. Bem é isso. Até o nosso próximo encontro.

É amor, amizade ou uma relação líquida?
É amor, amizade ou uma relação líquida?
09/07/2017

Bom dia Planeta! Eu tenho recebido alguns emails que tratam do tema central deste texto. Muitas pessoas estranham hoje como o amor, as amizades e as relações se transformaram numa vivência permanente de interesses.

O pensador polonês Zigmunt Bauman no livro “Amor Liquido” fala que “vivemos tempos líquidos, nada é para durar”. É certamente mais uma construção coerente neste mundo contemporâneo.  As relações se caracterizam por sua fragilidade, diluem e escapam diante de qualquer conflito ou com qualquer desculpa e normalmente tem o final mais próximo do que o esperado.

Algumas pessoas, por exemplo, partilham o amor e em troca desejam receber mais amor. Outras pessoas procuram os amigos diante de situações complexas e quando resolvem seus problemas retornam as suas respectivas ilhas de segurança. Há ainda outras pessoas que organizam grandes eventos para celebrar o amor reunindo amigos por meio de uma escala de valor – onde os vetores que apontam essa medida nada têm com a ideia de fraternidade.

Olha, esse é um problema bem complexo para tratar aqui. O mundo vive um tempo bastante distinto e algumas relações são assim e outras não. E, é claro, que neste contexto isso será bom para uns e outros não. Vai depender da visão de cada um.

Certamente há pessoas que não se sentem confortáveis diante dessa realidade. Outras pessoas admitem que o mundo seja assim mesmo. E outros indivíduos entendem que é somente mais uma relação de interesse, etc.

E o amor como fica?

Existe um fragmento de uma antiga canção atribuída a São Francisco de Assis que pode ser usado como analogia nesta reflexão:

“Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado...”

É isso! A possibilidade da vivência do verdadeiro amor, de uma verdadeira amizade deve ser “desprovida” (carente) de qualquer interesse. E essa relação deve ser norteada sempre pela doação, pela entrega e a assistência aos que necessitam da gente – independente de ser o próximo ou não, independente de receber ou não nada por esse amor, essa doação.


O amanhecer para uma nova vida
O amanhecer para uma nova vida
05/06/2017

Bom dia! Junho chegou e muitas pessoas falam que o tempo anda mais curto que antigamente e não encontram mais uma hora para viver dignamente. Trata-se, portanto, de uma questão existencial bem interessante e que merece uma reflexão da filosofia.

- O que de fato acontece?

No mundo contemporâneo, muitas pessoas atuam no piloto automático. Acordam, tomam café, estudam, trabalham, realizam um lanche entre o período da manhã e da tarde, retomam suas jornadas até o final do dia e depois retornam para suas casas cansadas e dormem. Depois acordam e começam tudo outra vez em um desperdício de tempo e de vida que nenhum dinheiro do mundo é capaz de remunerar a altura do tesouro que é própria existência.

Com o passar dos anos, essa rotina é tão cega que as pessoas não percebem mais que estão deixando de viver, perdendo tempo precioso e realizando apenas atividades básicas para manutenção do custeio de suas respectivas rotinas, tornando a vida assim limitada e sem um significado maior de celebração. Exatamente por fazer tudo sempre igual todos os dias, ao longo dos anos, as pessoas vão se entregando, o amor começa a adormecer e a vida começa a morrer.

- O que fazer?

Não é preciso uma revolução para mudar tudo isso. Em geral pequenas atividades fora desta rotina diária podem devolver a dignidade da vida e restabelecer a ideia de viver plenamente o amor.

Um bom exercício para isso, por exemplo, é passar no jardim, antes do desjejum, e colher uma rosa para oferecer a esposa, o esposo, durante o café. Outra possibilidade é o uso da poesia, se isso tiver sentido e um significado muito especial para a pessoa que está do seu lado.

Enfim, existe uma infinidade de exercícios existenciais que podem restabelecer o prazer que é viver o amor em sua plenitude e que nada tem haver com a rotina da jornada que se refere à labuta, à busca por dinheiro, à fama e as coisas do mundo do trabalho.

Há quanto tempo, por exemplo, você não escuta uma música que ouvia com seu amor? E o cinema? Qual foi o último filme que vocês assistiram? E a caminhada na praça? O passeio no calçadão, na praia? A conversa com os amigos?  Estas pequenas ações podem ajudar a devolver o tempo perdido e a recuperar a vitalidade do amor e a celebração da vida.

Experimenta! Aproveita que junho chegou com tantas datas bacanas - o dia dos namorados e as festas juninas - e surpreenda!

Ser ou não espelho meu? Eis a questão!
Ser ou não espelho meu? Eis a questão!
18/05/2017

Bom dia! Eu tenho uma imagem antiga, ainda do tempo da minha infância, de uma garotinha que se vestia muito bem nas tardes de domingo e aparecia lá em casa para alegria da minha avó Geni que elogiava a sua beleza e a sua elegância.

Eu estou falando sobre isso porque é tão natural como usar o espelho para identificar a si mesmo, algumas pessoas recorrem à ajuda externa: clubes de classes, academias, amigos, conhecidos, álbuns de família, fotos, imagens postadas em redes sociais, vídeos, realizações, compras de bens materiais e títulos para validar e justificar a sua existência – feliz ou não.

É claro que tudo isso faz muito bem a alma. Mas, também pode prejudicar. Nem sempre o espelho que uma pessoa usa é o melhor ou é o verdadeiro. Algumas vezes a pessoa se mira em um espelho e o entendimento é completamente diferente do que realmente ela enxerga.

A vida está cheia de exemplos sobre isso. Uma pessoa com anorexia, por exemplo, vai olhar para o espelho e encontrar uma pessoa mais corpulenta do que realmente é. Já um ser corpulento pode muito bem encontrar no reflexo da sua imagem um ser humano mais esguio do que é. Tem uma imagem que circula na internet de um gatinho olhando para o espelho e neste reflexo ele imagina ser um leão.  O conteúdo é uma construção bem clara do que retrato aqui em tela. 

Há outros espelhos bem mais complexos do que os tradicionais. Usamos esses espelhos por meio do olhar dos outros. Na verdade, a partir da ideia do outro sobre si, você é capaz de ser reconhecido e reconhecer. Vamos aos exemplos práticos: o clube de milionários, o baile das mais elegantes e a academia dos notáveis.

Enfim, as analogias e possibilidades sobre esses casos são inúmeras e merecem nossa atenção e uma reflexão mais profunda em momento mais oportuno, principalmente quando envolve riscos à saúde física e mental. Pois podem se tornar um problema ao longo dos anos.

Todavia, com base nestas breves fundamentações, eu pergunto: será que você precisa da aprovação do outro (espelho), ou de qualquer objeto ou instituição, para ser o que é?  Para algumas pessoas isto tem um peso muito grande, sendo inclusive uma orientação para a sua vida. Para outras não e não faz a menor diferença.

Sobre essa questão, o filósofo francês Montaigne dá uma saída notável que estou tentando transcrever nestas breves linhas:

Dentre nossas doenças existenciais, “a mais selvagem é desprezar o nosso próprio ser”. E ele acrescenta que amar a si mesmo é o “auge da sabedoria humana e da felicidade”, independente de qualquer valor material, conceitual, estético ou de qualquer outro validador.

Então, aproveite o momento para ser o que você é no fundo de sua alma – e isso tornará menos complexa e dolorosa a sua jornada – física e mental.

Quantas máscaras você usa para viver?
Quantas máscaras você usa para viver?
11/04/2017

Bom dia! Todos nós já ouvimos a máxima que “a vida imita a arte” e como no teatro, no cinema, na televisão, diariamente usamos máscaras e personagens para nos relacionarmos com os nossos semelhantes.

Você até poderá perguntar:

- Então, é normal, por exemplo, usar várias máscaras ao longo da vida?

Sim. Há pessoas, inclusive, que usam várias máscaras ao longo de um único dia. Elas representam as maneiras como a nossa personalidade se apresenta no mundo. Elas funcionam como um aparelho de proteção e de sedução dentro do espaço onde estamos inseridos. São importantes como elementos de ligação entre a nossa alma e a nossa personalidade.

De fato, somos muitos dentro de um só corpo e de uma só alma. E a toda hora estamos trabalhando essas modelagens no exercício existencial complexo visando harmonizar as nossas relações da melhor forma possível.

Vejamos um exemplo muito prático:

É bem provável que você tenha uma imagem muito boa ou não sobre minha pessoa.  Aqui você lê o que eu escrevo, logo é uma continuidade do que penso. Mas, na minha própria vida existem outros Gutos dentro de um mesmo: existe um Guto que é professor de Filosofia; um Guto escritor e poeta; um Guto esposo e pai de quatro filhas; e um Guto mais próximo dele mesmo.

E isso não é feio, não é um problema, é natural da condição humana. Veja que até um bebê usa do artifício da máscara por meio do riso para ganhar o leite materno da mãe. Experimenta tirar isso dele e ele irá ao choro, aos gritos, até conseguir o que deseja.

E assim quantos sorrisos são oferecidos diante de uma oportunidade de emprego, diante do recebimento de um presente, diante de um elogio, etc. E quantas modelagens faciais são criadas diante de situações contrárias, opostas, ao que desejamos.

Outros poderão até dizer:

– Eu só tenho esse rosto, não tenho duas caras, sou muito verdadeiro, etc.

É bem provável que isso possa ocorrer também. Mas, não é uma regra.

Antes eu reclamava das máscaras das pessoas. Achava uma falta de caráter, uma falta de firmeza e coerência na personalidade de uma pessoa.  Hoje, eu aceito e reconheço como um agir natural do ser humano nesse jogo que faz parte do que definimos como “civilidade”. E penso que sem essas modelagens o mundo seria bem diferente.

Saber ouvir a si mesmo
Saber ouvir a si mesmo
10/03/2017

Bom dia! Tem certas ocasiões, e não são poucas, que nos deparamos com pessoas em situações extremas de estresse, irritação, desconforto, fúria, entre outras excitações emocionais. E parte dessas vivências emotivas tem uma relação direta ou indireta com a ideia de não saber ouvir a si mesmo antes de tomar uma decisão.
Muitas pessoas acreditam que para tomar uma boa decisão, por exemplo, tem que usar a razão. Outras procuram escutar um amigo, e outras mais buscam um terapeuta, enfim, alguém que possa organizar e aconselhar sobre toda complexidade posta. E elas acreditam que isso é assim mesmo.

E isso pode ser assim mesmo. E também pode não ser. Pois, muitas decisões não levam em conta apenas a ideia que surge no pensamento, na razão. É preciso ouvir outras regiões dentro do próprio corpo, como por exemplo, o coração.

É conhecida a história de sabedoria do Rei Salomão. Certo dia, duas mulheres vieram reclamar o direito a posse de um filho. O rei escutou as duas, mandou que trouxessem o menino vivo, uma espada e ordenou que cortassem a criança ao meio e desse cada metade a cada uma das mulheres. Uma delas em meio ao choro gritou rapidamente:

- Por bondade Rei Salomão não faça isso. Deixe o menino viver. Prefiro que ele fique vivo com aquela mulher a vê-lo morto!

Então, o Rei Salomão pegou o menino e mandou que o dessem à mulher que pedira por clemência. Ela sim era a mãe verdadeira, pois queria que seu filho vivesse, mesmo longe dela, se fosse o caso. E assim a questão foi sabiamente resolvida.

Essa analogia mostra que muitas vezes a melhor decisão para agir da melhor forma possível não vem apenas pelo uso da razão. Na verdade apenas uma parte dela participa, a outra diz respeito aos sinais que são manifestados pelo corpo, pelo coração e até mesmo pela alma.

De fato, ouvir o pensamento por si mesmo para tomar uma decisão não é mérito nenhum. Muitas vezes a surdez diante de uma palpitação do coração pode ser o melhor sinal para motivar uma boa decisão. Portanto, que você saiba levar em consideração esses vetores – razão e emoção – além dos fatores externos, antes de tomar qualquer decisão na vida.  Isso irá surpreendê-lo.

Como vai o seu pensamento?
Como vai o seu pensamento?
15/02/2017

- Ano novo, vida nova!

É certamente uma afirmação das mais citadas com a entrada de um novo tempo. Muitas pessoas aproveitam o momento para zerar tudo e começar um novo período de forma diferente.  Todavia, com tanta informação circulando por aí como escolher o que de fato será bom para carreira, para a saúde, para a família, enfim, para vida de cada um?

Vamos a um exemplo prático: uma pessoa que come muito doces, salgados, gorduras, bebidas, etc. Certamente essa pessoa terá sérios problemas com a saúde do corpo.  Com o pensamento não é diferente. Observe como analogia a seguinte cena: Uma pessoa que consome muita informação, informação ruim, que propaga violência, conteúdos pesados, imorais, ruídos, distorções, etc. Com certeza, encontraremos nesta pessoa sérios problemas existenciais e que poderão influenciar na sua saúde física e mental.

Portanto, é uma construção errada, por exemplo, a ideia de que o pensamento é livre. Nunca foi. Em um dos seus ensaios sobre o tema, o psicanalista e filósofo clínico Lúcio Packter diz que “o pensamento é tão limitado quanto o próprio corpo”. O indivíduo é o que consome fisicamente e mentalmente – fruto de seus relacionamentos inicialmente na família, depois na escola, posteriormente na universidade, no trabalho, no lazer, na vida, etc.

Voltando ao início da nossa conversa.

Diante deste questionamento: Como anda seu pensamento? O que você está lendo? Qual a última canção que você escutou? Assistiu a um filme? Foi ao teatro? Comentou algo? O que abordou? Observe que assim como você realiza uma dieta para o corpo, um dia dedicado ao silêncio, é preciso também que você realize sistematicamente uma dieta para o pensamento.

Comece eliminando o excesso de informação. Desligue os programas ruins. Evite os sons distorcidos, as notícias que não acrescentam nada na sua vida, etc. Faça sua própria escolha musical, o que vai assistir, procure ler diretamente em livros.

Outro dia eu escutei o filósofo Mustafary, aquele do “ser humaninho” na rádio Mix, e ele dizia que “ler diretamente no papel é melhor do que ler no computador, na internet”. Não é que Mustafary, o maluco beleza, tem razão.  Pois, quando você lê na internet, a cada instante aparece uma mensagem para você no Face, no Twitter, no Messenger e aí você perde o foco na leitura do texto que tinha programado para estudar. 

E perdendo esse foco, é bem provável que seu pensamento seja levado para outro caminho – e quando você percebe o ano já terminou e tudo que você tinha programado de bom para sua vida prática, o seu crescimento espiritual, intelectual, não aconteceu porque você não conseguiu cuidar bem da sua mente. Daí a importância de uma dieta para o pensamento. Bem é isso. Ano novo com vida nova e bons pensamentos.

Qual nome tem o amanhã?
Qual nome tem o amanhã?
20/12/2016

Gosto muito de caminhar na praia, principalmente neste período em que a primavera fecha o seu ciclo e o verão anuncia a temporada de festas – Natal, Ano Novo, Férias e Carnaval. É certamente também um tempo muito bom para encontrar pessoas de todos os lugares, acolher, contar histórias, inspirar outras, trocar experiências, alimentos, etc.


Neste fim de semana, caminhando pela praia de Búzios (RN), no litoral Sul, conheci Renato e Gabriela. O casal está celebrando 30 anos de vida matrimonial e um pouco desta fórmula para viver um grande amor eu transcrevo aqui nas palavras do próprio Renato.


- Eu fui um homem muito rico, proprietário de empresas, dono de carros luxuosos e apartamentos lindos. Todavia, raras vezes tinha tempo para curtir esse patrimônio junto com a minha família. Estava sempre trabalhando para manter e pagar os custos de uma vida que não vivia...

Por um momento ele parou, contemplou o mar e em seguida falou:

- Um dia, sentindo as dificuldades que atravessava na vida, inclusive financeira, voltei para casa mais cedo e abracei a Gabriela e disse para ela colocar uma roupa de banho.

- Roupa de banho? Perguntou ela.

- Sim roupa de banho. Vamos para praia.

- Mas hoje é terça-feira. Você tem que trabalhar...

- A vida não é somente trabalho. Não nos abraçamos há muitos anos e não tomamos um banho de mar há muito tempo. Vamos! Nada justifica tanto tempo empregado em troca de dinheiro. E nenhum dinheiro do mundo vale a pena sem o seu amor, o amor dos meus filhos. De maneira, que quero ficar mais tempo com você e a nossa família.

E, então, como seguiu a vida de vocês?  Perguntei.

- Passei a trabalhar menos, a ganhar menos dinheiro, é claro. Perdi patrimônio, carros, imóveis. Contudo, recuperei o amor de Gabriela e ganhei mais tempo de vida útil ao lado dela e dos nossos filhos. Hoje, tenho mais tempo para regar o jardim, conversar com os passarinhos, andar com os pés nus na areia da praia, tomar um delicioso café na volta para casa, sem a correria do dia a dia. Essa doce rotina tornou os nossos dias mais longos, os anos já não são tão breves e a vida ficou mais digna de ser vivida.  Reconquistamos também o tempo da nossa infância e hoje brincamos de viver.

E depois de um sorriso largo ao lado de Gabriela, Renato concluiu sua fala:

- Estamos felizes. Obrigado!

Bem é isso amigo, amiga! Felicidade, Amor, Paz, Saúde, Harmonia... Que venha 2017 com muitos nomes. Todavia, quem vai escolher a sua melhor maneira de viver no amanhã é você e que sua escolha seja livre e leve como a vida deve ser.

Sobre o medo e a coragem de viver
Sobre o medo e a coragem de viver
02/11/2016

Marcos era um moço tímido e de poucos amigos, quando o conheci. Veio ao meu encontro durante uma conferência que realizei sobre o medo e a coragem numa universidade em Natal. Numa conversa rápida revelou que tinha medo da vida, de fazer amigos e que lhe faltava coragem de viver plenamente sua vida.

Disse na época que podia contar comigo. E assim em vários outros momentos nos encontramos para tratar sobre o tema, principalmente no mundo de hoje onde as aproximações são inicialmente harmoniosas e posteriormente seguem tendências conflituosas, especialmente se forem muito estreitas.

Todavia, o problema do medo para Marcos não é somente dele. É meu, é de você e de todos nós. Pois, no mundo atual o afeto dominante nas pessoas é o medo. Temos medo da violência, medo de perder o emprego, medo do chefe, medo de perder a esposa, o esposo, medo da crise, medo disso, medo daquilo, etc

E como viver no mundo com tanto medo? A filosofia aponta um caminho: a coragem. Na Antiguidade, a coragem formava com a prudência, a temperança e a justiça o conjunto das quatro virtudes cardeais.

E por ser a mais admirada do mundo, a coragem é também considerada pelos maus, até os animais selvagens não atacam os seres humanos quando estes não demonstram medo em seus olhos durante a possibilidade de confronto.

O exemplo teológico de Daniel na Cova dos Leões pode e deve ser usado como analogia nesta máxima. Outro exemplo: a coragem é a virtude dos heróis e os heróis são sempre admiráveis como o pequeno Davi vencendo o gigante Golias.

Já a falta de coragem, segundo Aristóteles, é a covardia. De fato, se há um antídoto contra o medo, este seria o de enfrentar o temor com coragem. Certamente é mais louvável do que se entregar ao medo covardemente. Mas, um detalhe: existem certos desafios que são maiores de que toda a nossa coragem para vencê-los. Uma boa saída neste caso é recuar um pouco, ganhar tempo, e seguir posteriormente para uma vida gloriosa.  

E, como tudo na vida, a coragem pode ser boa, quando usada para o bem. Citamos o exemplo de Sócrates, Jesus Cristo que aceitaram humildemente as sentenças de morte que lhes foram impostas. E a coragem é ruim, quando usada para o mal. A história recente está cheia de exemplos: 11 de Setembro (EUA), Paris (França), etc.

E o Marcos? Podemos concluir brevemente este ensaio escrevendo a máxima que ele próprio cita hoje em suas andanças por aí, depois de encarar seus temores:

- O medo também tem seu valor, amigo. Afinal, é do medo que nasce à coragem para enfrentar os desafios da vida. Portanto, não tema. Tenha coragem!

É melhor ser alegre do que ser triste?
É melhor ser alegre do que ser triste?
09/10/2016

A alegria é a interrupção da tristeza. Provavelmente cada pessoa tem o seu próprio sentido para a palavra. Todavia, a tristeza tem seu valor. É, inclusive, possível encontrar alegria no meio da tristeza.

Quantas obras (livros, músicas, pinturas, filmes, imagens) foram realizadas em momentos de profunda tristeza? Quantos amores nasceram depois de tantos desencontros? Quantos bons negócios surgiram depois que outros acabaram em meio ao lamento? Quantas moradias novas surgiram depois que a primeira se foi? Quantas alegrias chegaram depois de um momento tristonho?

É clássica, por exemplo, aquela imagem do palhaço triste. Também é um clássico o soneto "A Felicidade" do poetinha Vinicius de Moraes na melodia do Tom Jobim:

Tristeza não tem fim

Felicidade sim

A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor

Brilha tranquila

Depois de leve oscila

E cai como uma lágrima de amor...

Que saibamos, portanto, celebrar também a tristeza como parte desta vida. E assim como o palhaço, quem sabe mais tarde, não ter vergonha de mostrar ao mundo que também somos infelizes – ainda que momentaneamente.

Pois, a alegria e a tristeza passam assim como tudo nesta vida e sua experiência depende apenas de um fio único e muito delicado: a consciência do ser em que aparece. A alegria e a tristeza, portanto, são emoções de quem vive.

À procura da felicidade
À procura da felicidade
18/09/2016

Neste tempo de tanta complexidade (econômica, moral, ética, existencial, etc) costumamos ouvir entre os amigos algumas máximas:

“– Não fui feliz, o destino não quis.”
“– Eu quero ser feliz, mas o mundo não deixa.”
“– A culpa é das estrelas”, etc.

Na verdade, são construções erradas e que impedem você de crescer espiritualmente e ser feliz. O ideal é entender que a vida é assim mesmo e você nunca terá felicidade se realmente não acreditar que é feliz, suportando o que é necessário e amando, inclusive, as próprias adversidades e dores que por ventura aparecem aqui e ali – e que são bem menores do que você imagina comparadas as outras vidas.

Na teologia, um sentido mais amplo desta analogia pode ser visto no próprio exemplo de Jesus Cristo que dedicou sua vida aos desígnios de Deus, cumprindo com amor, coragem e paixão o fim trágico na crucificação. A virgem Maria também suportou todas as angústias e dores desde o nascimento do seu filho até a caminhada pela Via Crucis. E nem por isso deixou de cumprir sua jornada entre nós.

Outro exemplo interessante de entendimento e amor ao destino foi o do líder Mahatma Gandhi, que faleceu saudando o seu assassino, Nathuram Godse. A morte violenta contribuiu para idealizar ainda mais a figura de Gandhi como “pai da nação Índia”.

Na poesia, alguns anos atrás sobre forte angústia existencial, produzi um poema denominado “A Dor” e que depois foi publicado num livro chamado “13 Poemas Muito Ruins” (2013), onde citava parte dos seguintes versos:

O governador governa a dor
O legislador legisla a dor
O vencedor vence a dor
E Maria Dolores?
Continuará com muitas dores...

De fato, a vida de todo mundo é assim mesmo. Cada um tem sua dor. Todavia, a vida é para ser vivida. E viver é engajar-se permanentemente na certeza de que somos felizes quer seja na dor do vencedor, quer seja na sensação penosa e permanente de Maria Dolores. E que, portanto, antes de tomar qualquer decisão extrema devemos amar a vida como ela é - como forma de anular toda e qualquer tentação e diminuir a dor, a tristeza, a angústia, a depressão e o pessimismo. Não seria esse o segredo da felicidade dos santos? A aceitação virtuosa e serena do destino.


Sobre amigos e a importância da amizade
Sobre amigos e a importância da amizade
24/07/2016

Hoje eu vou tratar de um tema muito especial: a importância da amizade. Já dizia a sabedoria grega que “os encontros com bons amigos valorizam a vida”. De fato, quem não necessita dos amigos não precisa viver na cidade, na sociedade, no Estado, de modo que ele deve ser uma fera ou um outro animal de sociabilidade duvidosa.

Na filosofia, a amizade é pois uma virtude extremamente necessária à vida. Na ética aristotélica, por exemplo, a justiça e a amizade possuem os mesmos fins, mas considera-se a amizade superior à justiça, uma vez que a ideia, o conceito da própria justiça é utilizado para contornar atos conflituosos em relação ao próximo. Com os amigos de verdade não precisamos recorrer à justiça, pois a natureza da amizade torna o convívio harmonioso. Epicuro, considerado o filósofo da amizade afirmou que “de todas as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade”. Dai a máxima de que ninguém é feliz sozinho.

Na teologia, o significado da palavra amigo também é muito valorizado. Os antigos já diziam que “o aprender sem amigo nos torna sós e incultos”. No Budismo, por exemplo, o Sutra Foshuo Bei afirma que “há quatro tipos de amigos: os que são como flores, os que são como pratos de balança, os que são como as montanhas e os que são como a terra”. Os amigos que são como flores irão agradá-lo somente quando quiserem alguma coisa de você. Os amigos que são como pratos na balança irão bajulá-lo nos bons tempos, mas, quando você estiver por baixo na vida, eles irão olhá-lo de cima. Já os verdadeiros amigos são como as montanhas e a terra, pois estarão sempre a sua disposição e o irão apoiar em todas as dificuldades.” A ideia central desta máxima é “que mesmo que a época e as circunstâncias da vida mudem, o que nunca se altera é a verdadeira amizade. Quanto mais adversidade encontrar, mais forte e mais profunda se torna a amizade” (Daisaku Ikeda).

No Islã, “ter amigos fiéis é tão importante quanto à satisfação das necessidades da vida. Estar entre um círculo seguro e pacífico de amigos significa encontrar segurança contra riscos e perigos”. Os sábios, ao verem que uma amizade está danificada, removem imediatamente a causa do descontentamento e restabelecem as boas relações.

No Cristianismo, no Antigo Testamento, está escrito que “amigo é fiel proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro. Amigo fiel não tem preço e o seu valor é incalculável. Amigo fiel é um remédio que cura, e os que temem ao Senhor o encontrarão” (Eclesiástico 6, 6-17).

Para os cristãos, os amigos têm muita influência em nossas vidas: “Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau” (Provérbios 13:20). Nossos amigos não envolvem apenas relações, mas decidem a nossa direção na vida e na eternidade. “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15-33).

No mundo contemporâneo, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman fala que “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar, inclusive, a amizade.” O contato virtual, via rede social, tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja a principal marca é ausência de comprometimento. As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis.

E você como tem cultivado os amigos? Qual a importância da amizade na sua vida? Laços humanos são bênçãos ou maldições? Quanto a minha opinião manifesto aqui a máxima de que é muito bom contar com vocês todos os dias, seja no mundo real, no virtual e na vida eterna. Amém.


Platão já foi filósofo
Platão já foi filósofo
03/06/2016

Lembrei desta citação por esses dias depois de assistir um show da banda Plutão Já Foi Planeta. No tempo da faculdade, usava a máxima como analogia para se referir a tudo que já tinha sido alguma coisa, em algum dia, em algum tempo, etc. De fato, nada parece mais o que era. E tudo que já foi um dia não é mais. E o que restou parece desvirtuado, deturpado.

No tempo antigo, por exemplo, o sujeito “ordenava-se” numa determinada profissão e se colocava a disposição para servir o próximo. E assim, por tabela, além do seu local de trabalho, sempre existia na frente de sua residência uma placa indicativa de que ali morava um profissional X ou Y para servir a qualquer hora do dia ou da noite – principalmente no atendimento aos mais humildes. Perceba que o verbo “ordenar” empregado na formação era posto no sentido de ser um verdadeiro sacerdote.

O trabalho, enfim, e suas condições de bem servir ao próximo era tudo que importava e o dinheiro, ou fruto por esse exercício profissional, não tinha tanta importância quanto tem hoje em dia. Não que o homem não tinha o direito de viver dignamente do seu altar, consultório, ofício, mas, a ideia da ética empregada no exercício profissional dizia que não se devia pensar, trabalhar e produzir apenas por dinheiro.

Daí o surgimento das grandes almas que viveram focadas no amor ao próximo, livres de qualquer cupidez por tesouros mensuráveis. Eram pessoas, enfim, desapegadas de qualquer ambição e que usavam os dons de suas respectivas vidas como testemunhos de amor ao próximo. E viviam quase como santos porque não se assemelhavam absolutamente a um mortal, uma vez que estavam focados em bens supremos imortais e imensuráveis.

Hoje, aquele pobre mortal que usa o seu saber como exercício para ganhar dinheiro e ficar rico, por ironia, é mais pobre, miserável e vive em meio a “valores materiais” que minimizam o valor real de seu ofício. É um dos pecados capitais do nosso tempo.

O que se espera, portanto, é que possamos reverter essa máxima que torna a ideia do conceito de humanidade menor entre nós. Afinal, o que se espera de um especialista é antes de tudo que ele use sua habilidade acima de qualquer interesse simplesmente financeiro, que ele saiba compartilhar o saber em prol dos seus pares, e principalmente, os mais humildes. Não ser um lobo solitário e infeliz, e muito menos um ganhador no sentido corporativo, mas um poeta sempre cortês com o semelhante. E esta missão também deveria ser a finalidade do homem político: a de usar sua representação na defesa da comunidade que o elegeu, que o indicou como vereador, prefeito, governador, parlamentar e presidente.

E assim, quando mais tarde o tempo chegar, que possamos acreditar novamente em verdades absolutas e inquestionáveis como as máximas de que Platão é filósofo, Plutão continua sendo planeta e Deus é o que é.

Sobre sonhos e pesadelos
Sobre sonhos e pesadelos
09/04/2016

Toda casa está tomada pela presença da luz. Em cada canto há uma lâmpada e aonde a luz não chega existirá sempre uma vela, uma lamparina, uma lanterna para iluminar as nossas noites mais longas.


E foi numa noite que aconteceu outra vez. Maria Clara decidiu dormir com a luz da sala acesa. Pensei, com os meus botões, a conta de energia vai estourar novamente. E, de prontidão, tentei negociar um acordo bom para os dois lados.

- Filha assim que você dormir posso desligar a lâmpada?

E ela de imediato respondeu:

- Sim papai... Já não estarei mais por aqui. Boa noite e bons sonhos.

A frase de Maria Clara provocou uma inquietude e acabou tirando o meu sono. Afinal, por onde andará Clara em seus sonhos?

Lembro que a maior parte das minhas histórias nasceu entre sonhos e pesadelos. Ainda menino usava os sonhos, por exemplo, para fugir do tempo ruim, do dia difícil e das dificuldades.

Engraçado! Com o passar dos anos aprendi que essa estratégia era interessante e benéfica, embora muitos terapeutas argumentam o contrário.

- Mas, afinal o que será da vida sem os sonhos? Um pesadelo? Mandela, por exemplo, atravessou anos de solidão numa prisão sonhando com uma África livre. No Brasil, Tiradentes morreu sonhando com uma pátria livre. O jornalista e inventor Augusto Severo morreu em pleno sonho voando no seu dirigível Pax, ao lado do mecânico Sachet – em Paris.

Hoje, de fato, já não sei mais separar os dois mundos. Quando acordo, penso que estou sonhando e quando adormeço percebo que estou acordado. E isso tem acontecido todos os dias, desde muito cedo.

- Não será a vida um grande sonho? Outrora um grande pesadelo?

Não tenho respostas. Talvez encontro um Norte no pensamento do escritor Guimarães Rosa que um dia escreveu: “- A vida é sorte perigosa passada na obrigação: toda noite é rio abaixo, todo dia é escuridão.” (Grande sertão: vereda, p. 278). Ou ainda as breves palavras do poeta José Paulo Paes nos versos “sem a pequena morte de toda noite como sobreviver à vida de cada dia?” (Hino ao sono – Livro Versos Livres).

Não sei se Maria Clara tem usado seus sonhos como saída feliz deste mundo que se tornou complicado para viver, quase um pesadelo. Ela é muito nova para pensar sobre essas coisas. De coração, sonho o melhor desta vida para ela, todas as minhas filhas, familiares e vocês. Que possamos, enfim, sonhar e realizar um mundo melhor para todos nós. Inclusive, mais humano, fraterno e solidário.


Sem controle
Sem controle
08/03/2016

De quantos Estados precisamos para viver com segurança?

A insegurança tem sido o assunto principal dos governos em todo mundo. De fato, trata-se de um fenômeno globalizado que caracteriza a vida nas grandes cidades. Paris, Nova York, Londres, Istambu, Cabul, São Paulo, Rio, Natal são cidades hoje que mais parecem campos de batalha entre o Estado público, o Estado privado e as forças opositoras ligadas a grupos com interesses distintos.

De fato, a morte de uma jovem universitária vítima da violência em Natal (RN) é tão imoral e injustificável como a morte violenta de uma jovem estudante palestina em Jerusalém, embora seus algozes operem por motivos alheios.

Observa-se, particularmente, no Brasil que há muito tempo a sociedade já não é mais protegida pelo Estado oficial ou pelo menos é pouco provável que confie na proteção oferecida por este. Limitado, o Estado público como conhecemos tem mantido sobre sua guardar os gestores e os amigos dos gestores que acreditam e falam em nome de um Estado soberano.

Todos lembram que quando o Estado perdeu o controle na Educação nasceu a crença na escola particular; quando o Estado perdeu o controle da Saúde pública, surgiu com força a Saúde privada; e agora, mais recentemente, quando o Estado perde a guerra para insegurança, prosperam a segurança privada, os condomínios residenciais e comerciais – verdadeiras cápsulas de sobrevivência privadas mantidas pelos mais ricos dentro de um Estado público inoperante, inseguro e corrupto.

Uma terceira “via estatal” é operada pelo crime organizado que protege e condena sob sua tutela o cidadão mais simples – morador das famosas áreas de risco. Aquele que não tem moradia, escola, saúde e segurança pública. São os mais vulneráveis.

Nos demais países a violência também é produzida como um escape as pressões. Entre elas a política, a étnica, a religiosa, etc. Recordamos as Brigadas Vermelhas (Itália), o IRA (Irlanda do Norte), mais recentemente a batizada “Al Qaeda” de Bin Laden e toda forma de terror promovida pelo Estado Islâmico. São reações a falta de políticas públicas que atendam aos anseios de todos.

Percebe-se neste contexto a complexidade de um tema que não será resolvido somente com a presença da polícia na rua, mas a própria ideia do Estado Oficial (Público) assumir de fato suas prerrogativas de Estado protetor e único de direito e de dever. E essa não parece ser uma tarefa fácil aqui no Brasil e no resto do mundo.

Em seu estudo sobre a insegurança, o pensador polonês Zigmunt Bauman afirma que “é por essa razão, em primeiro lugar, que os governos dos Estados em luta contra a insegurança e a violência, dia após dia, para resistir às tempestades atuais, caminham aos tropeços de uma campanha ad hoc de administração de crise e de um conjunto de medidas de emergência para o outro, sonhando apenas em permanecer no poder após a próxima eleição, mas desprovidos de programas ou ambições de longo alcance”. (Tempos Líquidos-2007)

O silêncio de um novo começo
O silêncio de um novo começo
20/12/2015

Um homem entra em uma padaria no centro da cidade e pede um café sem leite. O garçom responde: - Desculpe, o leite acabou, só temos café. Posso trazer o café sem leite?

E novamente o homem tenta mais um diálogo: - Gostaria também de uma torrada sem manteiga. O garçom retruca: - Perdão, a manteiga acabou, posso tostar sem manteiga?

O diálogo em questão mostra muito bem como anda nossa relação de atenção com o próximo. Muitas vezes estamos falando do mesmo assunto, mas nossos interlocutores não estão entendendo e retornam com os mesmos chavões que jogamos no ar numa tentativa desesperada de ser compreendido e compreender.

Uma das ironias mais cruéis desta cena é que ambos estão falando da mesma coisa e não conseguem um diálogo lógico para chegar a uma conclusão. Há um caos sob o céu, e a situação talvez seja excelente para praticar o silêncio, para evitar desentendimentos.

Podemos ver que há potencialidades imensuráveis por trás do silêncio. A ausência do som, por exemplo, por si só nos proporciona paz. Ninguém briga quando o outro se cala.

O silêncio também é bom para a saúde mental. Já se sabe, por exemplo, que só a quietude de um silêncio profundo leva a um nível profundo de autoconhecimento, permite a construção de sentimentos positivos e fortalece a autoestima. Existe até uma máxima oriental que diz que: “- A paz que você procura está no silêncio que você não faz.”

Não faz tantos anos, em 1952, o compositor americano John Cage apresentou uma peça musical revolucionária. Ele entrou no palco, sentou-se à frente do piano e durante 4 minutos e 33 segundos, ficou em silêncio. Naquele instante, o único som que se ouvia eram os leves murmúrios da platéia atônita. Ao final da apresentação, Cage levantou-se e agradeceu ao público como se tivesse acabado de apresentar uma de suas obras convencionais.

Então, diante de tantos ruídos no mundo virtual e real contemporâneo, qual será o melhor programa para o ano novo? - Não ter programa, ou melhor, ficar em silêncio.

O silêncio é o início de tudo. De onde surgem o amor, o bem-estar, a saúde física e mental, a criação e a paz. O silêncio será, enfim, um novo começo, uma nova era pela paz e para paz entre todos.

O bom ladrão e os canalhas
O bom ladrão e os canalhas
30/10/2015

No Brasil, o ladrão não está à altura do seu roubo. Penso que o ladrão só é digno de respeito quando não busca o enriquecimento de si mesmo, mas da sua comunidade, da sua cidade, do seu estado e do seu país.

A história é rica em exemplos de ladrões dignos de respeito. Barrabás, Robin Hood e Ali Babá são alguns dos nomes cujos meios justificaram os fins. O primeiro lutou contra o domínio romano em Israel; o segundo se imortalizou como um ladrão do bem que roubava dos ricos para dar aos pobres; o terceiro foi um pobre lenhador árabe que roubou parte do tesouro de um grupo de quarenta ladrões, na floresta onde trabalhava, e distribuiu com os mais necessitados. Daí, à máxima de que "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão".

Aqui no Brasil, não temos ladrão, pelo menos o que definimos como bom ladrão. O que nasce e vive aqui é o canalha. Aquele indivíduo mau caráter, aproveitador, cínico, mentiroso e perigoso. O canalha é homem carnal, amante do prazer que para garantir a felicidade dos seus instintos mais primitivos é capaz de vender a própria mãe. O indivíduo que rouba o coletivo para garantir sua boa vida de individual.

Recentemente, lembrei do famoso Sermão do Bom Ladrão escrito pelo Padre Antônio Vieira em 1655: "O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera (os canalhas); os quais debaixo do mesmo nome, e do mesmo predicamento, distingue muito bem São Basílio Magno”.

E prossegue Vieira: “Não só são ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e reinos”.

Por fim deixo vocês com uma oração também inspirada no padre Antônio Vieira e colhida no balcão do Café São Luiz em Natal (RN), na manhã deste dia tão longo: “Rei dos reis e Senhor dos senhores, que foste crucificado entre dois ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão; e o primeiro a quem prometeste o Paraíso foi outro ladrão, tens misericórdia também dos canalhas, colocando-os em seu devido lugar, longe dos bons ladrões”. Amém!


A cidade e o manicômio
A cidade e o manicômio
05/09/2015

Atravesso a Rua Dr. Múcio Galvão, no antigo bairro do Tirol, e encontro com o núcleo ambulatorial do Hospital Severino Lopes. O endereço abriga também um dos manicômios da cidade, a antiga Casa de Saúde Natal (foto).

Lá dentro um interno grita:

- Doutor... O Sol nasce no Oeste.

Afinal, por que um dia o sol não poderia nascer no Oeste?

Maior gravidade é manter alguém preso por pensar diferente. Tirar a liberdade de um ser sob o pretexto que ele faz um mau uso dela.

É olhando para o manicômio que podemos conhecer também a cidade, suas famílias, os colocados de fora do sistema, os expulsos, os colocados às margens da sociedade, os excluídos dos excluídos.

Uma cidade é civilizada quando trata seus diferentes iguais.

Não seria essa hospedaria uma mesma versão do manicômio na Idade Média que tinha caráter excludente, punitivo e moral?

Em busca da civilidade perdida
Em busca da civilidade perdida
28/07/2015

Falar em ética e civilidade nos tempos atuais parece um tema meio fora de moda da grande mídia e redes sociais que insistem em pautar o dia a dia com conteúdos de gosto duvidoso. Não que a violência, a miséria, a injustiça e a barbárie não existam. Mas, poderíamos minimizar seus efeitos com pautas maximizadas no bem.

De fato, bem que os conteúdos poderiam mostrar que a vida em sociedade é uma maneira do indivíduo se agarrar a um cotidiano mais humano e seguro fundamentado na prática dos bons costumes, regras morais e sistemas racionais que condicionam o homem a uma vida equilibrada e feliz, longe é claro do caos da antiga caverna.

Amizade, companheirismo, solidariedade, paz e amor são antigas e inquestionáveis fórmulas que possibilitam uma saída para o Bem Supremo. Daí, que toda vez que um poeta ou qualquer outro artista fala de amor olhamos com especial interesse sua vivência entre os lobos e cordeiros da Terra. São figuras interessantes, bem místicas e iluminadas que praticam e divulgam sempre o bem. Afinal, os homens não vão melhorar o mundo ateando fogo nele, mas ressuscitando as boas normas de convívio, as boas maneiras, a cortesia, a polidez.

É preciso, portanto, que se busquem antigas virtudes, princípios de civilidade e ética e as tragam de volta à luz. A prática do bem requer um novo olhar, um novo coração em cima de tudo que está sendo vendido como “verdade”.

Em busca da civilidade perdida, teremos um longo caminho pela frente. Muita coisa precisa ser feita. As famílias, os líderes religiosos, os poetas, os artistas, os professores, os jornalistas e formadores de opinião serão instrumentos de propagação desta antiga e boa nova de ensinar as próximas gerações sobre o amor.

Vamos jogar basquete?
Vamos jogar basquete?
01/07/2015

Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras se tornaram falsas. E as falsas se tornaram verdadeiras. Tudo é muito relativo, depende do espaço, do tempo e do objeto.

Imagine um jogador de basquete que atira a bola na tabela, ainda que ele não acerte a cesta e marque os pontos, existe a possibilidade de a bola retornar para suas mãos.

Mas, existe também a possibilidade de não voltar e, inclusive, da bola cair dentro do anel metálico com a rede amarela pendurada, ou simplesmente sair da quadra, chegar às mãos da torcida. Tudo é muito relativo compreende?

O importante, entretanto, é que tudo isso acontece de fato e que você é capaz de compreender que não tem o controle das coisas e que provavelmente também as coisas não tenham o controle das coisas e que o mundo, de fato, é isso que chamamos de um grande milagre.

Então, alegre-se, viva o milagre. Foi presente de Deus.

É chegado o tempo da travessia
É chegado o tempo da travessia
27/05/2015

Alice, Gabriela e Fernanda são três dedicadas e esforçadas alunas que estudam na escola da comunidade. Moram bem longe daqui, é verdade, mas nem por isso se entregam a dura rotina de acessar as avenidas e ruas do bairro em busca de novos saberes. De todas as adversidades que enfrentam nesta travessia, talvez a mais brutal seja encontrar em determinadas dias o portão da escola fechado após as 7h15 da manhã – um choque de autoridade.

Outro dia, fiquei indignado com a insensibilidade do porteiro diante da cena. Embaixo de uma árvore, durante um período de chuva, as três meninas aguardavam fora do colégio, o toque para segunda aula. Tratei do caso com o oficial da portaria na unidade de ensino, que disse que não tinha competência sobre o assunto.  Estava ali para fechar o portão naquela hora e não podia fazer mais nada. Fui ao coordenador, que encaminhou o caso ao diretor, que simplesmente respondeu:

- É norma da escola. Não posso fazer nada.

Argumentei:

- Não, seu diretor, não é normal.

Ele rebateu:

- De fato não é normal. Falo de normas senhor, códigos de condutas.

Ainda em choque com as palavras do diretor, encontrei forças para reagir.

- E quanto a deixar as estudantes embaixo de chuva? É normal castigar desta maneira? Não basta já a falta apontada na caderneta escolar e o conteúdo perdido com a matéria? É preciso humilhar as pequenas e indefesas criaturas? Colocá-las nas ruas?

Não, não é normal seu diretor. É no silêncio de cenas como estas que os estudantes são acolhidos na esquina da escola pelo narcotráfico e toda a indústria do crime.
Não podemos ser ingênuos de achar que a questão é meramente um problema pontual de falta de disciplina das alunas. E, mesmo que fosse, o papel da escola deve ser sempre o de acolher. Daí a necessidade de falar e discutir publicamente esses acontecimentos.

De fato, promover esse debate é retomar o direito de questionar e sugerir melhores práticas de convivência na escola e na sociedade por meio de uma gestão participativa entre o poder constituído e a sociedade. Esse texto convoca cada um de nós a levantarmos as mangas da camisa e darmos uns passos a mais na conquista da cidadania plena. 

“É chegado o tempo da travessia. E, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”, diria o filósofo. Temos, portanto, um longo caminho pela frente no sentido de transformar essa realidade diária com atitudes, ações e modos de vida que contribuam para um mundo melhor e mais humano. Não vejo outro sentido na função da velha escola.

O valor imensurável das pequenas ações
O valor imensurável das pequenas ações
26/04/2015

Diz um ensinamento oriental que não só aos braços foram conferidas as oportunidades de servir ao próximo. Os ouvidos também trabalham em prol do bem quando ouvem a história de dor ou de alegria do próximo. Os pés quando auxiliam o caminhar de alguém na direção ao bem. A boca quando manifesta uma palavra de carinho e consolo ao próximo. O cérebro quando descobre mil formas de colocar em práticas ações que não precisam necessariamente ser extraordinárias e visíveis para que todos possam testemunhar que habita em fulano ou beltrano uma alma boa.

Se nos faltam estruturas financeiras e materiais para agir ajudando o próximo, nos é ampliada a capacidade de servir de outra maneira, na intimidade da alma, manifestando assim o sentimento imensurável do amor.

As grandes figuras humanas se santificaram realizando pequenas ações. Vejamos, por exemplo, a história do magnífico São José, que não foi nem sacerdote e nem religioso, mas o pai adotivo do Menino Jesus e esposo da Santíssima Virgem Maria. Ele viveu ocupando-se da manutenção da Sagrada Família com seu ofício humilde de carpinteiro.

Outro exemplo, o de São João Bosco que dizia: “Seja sempre alegre e faça bem feito todas as coisas. Nisso consiste a Santidade”. Guardo com carinho essa citação do professor catequista Dom Bosco que era alegre e transmitia felicidade para quem não tinha com quem contar.

O que dizer, então, de um enfermeiro que cuida com carinho de um doente? De um filho que cuida com amor da sua mãe idosa? De um irmão que ampara o outro que não conseguiu caminhar com as suas próprias pernas? De um professor que ensina com paciência seus alunos? De um jardineiro que cuida bem do jardim da praça pública? São santos nas pequenas ações. Pois, todos eles receberam da Divina Providência a vocação específica de se santificarem nos afazeres de suas rotinas no mundo.

Vocês já pararam para olhar um jardim na praça pública? Será que o jardineiro tem a noção do tamanho do bem que faz ao outro com seu oficio. Contemplar uma flor, uma rosinha no meio de um caminho cheio de espinhos e pedras pode ser motivo de salvação, alegria e conforto para quem não tem.

De fato, o caminho para prática do bem não é complicado. Basta que cada um faça de suas habilidades um instrumento do bem a serviço da vida coletiva, realizando assim o valor imensurável das pequenas e boas ações que nos foi confiada por Deus.

Um novo tempo luta para nascer
Um novo tempo luta para nascer
01/04/2015

De fato, observamos ainda um mundo cheio de atrocidades, injustiças sociais e misérias. Entretanto, o desejo para que tais fenômenos não se repitam é fundamental para que a humanidade alcance dias melhores no planeta.

Um novo tempo luta para nascer e a esperança assume um papel fundamental para um mundo mais justo e fraterno.

A esperança constitui-se assim num formidável instrumento de mudança. Mas, para que realmente este mundo melhor aconteça é necessário promover uma mudança dentro da gente por meio da prática das boas ações.

Por isso que é fundamental rever posturas e transmitir verdadeiramente de dentro do coração o sentimento mais profundo do amor para com o próximo. Pois, aquilo que você irradia de bom para os outros é bom também para você. Não falo de nenhuma novidade. Trata-se de uma sabedoria milenar: o amor atrai o amor, a alegria atrai a alegria e a paz atrai a paz. Tudo se conecta.

No passado, desejei muito mudar o mundo. Hoje, sonho em mudar o que sou. Quero ser uma criatura melhor.  Luto por isso. Penso que não sou o único. Neste momento, milhares estão assumindo o compromisso de mudar suas respectivas vidas.

Não é tarefa fácil. Pois, a ideia de que o mal está no outro nos impede de reconhecer a nossa própria barbárie interior.  O desafio, portanto, é trabalhar esse conceito e crescer em humanidade, fraternidade, solidariedade e amor.



Das bolinhas de sabão da Manuela
Das bolinhas de sabão da Manuela
08/03/2015

No semáforo aberto, Manuela faz bolinhas de sabão enquanto aguarda a chegada dos clientes. A brincadeira de criança se mistura com a obrigação de limpar os para-brisas dos veículos para sustentar sua mãe e um irmão ainda menor do que ela. 

Não considere a cena digna de uma poesia pós-moderna urbana. A imagem da frágil menina no trânsito, magrinha, despenteada e com pés descalços nos entristece os olhos, o coração e nos dar remorso.

Sim, remorso. Pois, não conseguimos acabar com a corrupção e todas as desigualdades no país. Reside neste contexto à máxima que diferencia o homem de bem do outro homem: o primeiro sente remorso e o segundo é imune a qualquer tipo de compaixão com seus pares. Ele é capaz de tirar o futuro de uma criança e assim mesmo deitar numa cama e dormir como um “justo”.

Perceba a complexidade da cena e não ignore essa triste realidade. Sinta-se, portanto, em parte responsável pelo destino de Manuela que é mais uma vítima desta corrupção que você vê nos jornais. Uma Manuela que passa despercebida na leitura rápida dos periódicos.

Um ato corrupto implica em vários efeitos. Um deles é a menina que pede esmola no trânsito da cidade. De fato, Manuela poderia ser uma criança normal. Uma aluna na escola, uma menina brincando de bolinhas de sabão em um lindo jardim, de uma bela casa. Porém, não é o que acontece.

Observamos assim que mais do que um ato imoral, “a corrupção é uma doença que causa tristeza” como diria o filósofo. Não uma tristeza qualquer. Na verdade uma tristeza acompanhada de uma sensação de impotência, de uma angústia e de uma depressão.

Concluímos, pois, que o fim da tristeza é desejável, o fim da corrupção é desejável. Mas, observamos que não possuímos ainda instrumentos e os remédios capazes de combater essa doença degenerativa da sociedade brasileira.

Uma história de verão
Uma história de verão
19/02/2015

Em um dia qualquer da minha infância, sozinho, tomei a decisão de deixar a escola mais cedo, na verdade bem no meio da tarde, em troca da aventura de andar no trem da Estação Central na Ribeira.

Entrei no velho prédio da Praça Augusto Severo, subi no vagão e comecei aquela que seria a primeira das minhas inúmeras viagens sem destinos no planeta Terra. Era uma linha local, que ligava Natal à cidade de Ceará Mirim, na região metropolitana.

Em algum lugar perto da antiga Ponte Velha de Igapó alguém avisou que do outro lado da margem, próximo ao Forte dos Reis Magos, uma moça havia se afogado.

Perguntei:

- Isso foi agora?

O companheiro de viagem respondeu:

- Sim. É o que todo mundo fala na cidade.

Era dezembro de 1985. O apito do trem tocou algumas vezes e tirou o foco da trágica história. Continuei a viagem até Ceará Mirim, onde na cidade conheci importantes edificações, o mercado central e o delicioso caldo de cana oferecido aos visitantes pelo povo acolhedor do lugar.

Mas, a história da moça que se afogou alguns quilômetros dali nunca saiu da minha cabeça. Quando retornei para casa, havia um recado da minha Tia Iolanda dizendo que a chefe dela na Biblioteca Pública tinha falecido. Era a poetisa Zila Mamede.

Formada em Biblioteconomia no Rio de Janeiro, Zila Mamede fez especialização nos Estados Unidos. Em Natal, ela foi responsável pela estruturação das duas mais importantes bibliotecas da cidade: a biblioteca central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a biblioteca pública estadual Câmara Cascudo.

Hoje, depois de tantos anos, lembro da viagem de trem, da tragédia na vida da poetisa Zila Mamede e do descaso das autoridades com a biblioteca Câmara Cascudo.

Condenar à morte é do homem, Deus é vida.
Condenar à morte é do homem, Deus é vida.
18/01/2015

A grande lição para nós seguidores de Cristo é que, se quisermos de verdade um encontro em vida com Deus, deveremos momentaneamente esquecer o Paraíso e fazê-lo aqui. Aí reside a ideia do respeito e a prática dos mandamentos, do respeito às escrituras sagradas, do respeito ao planeta Terra, do respeito à vida, do respeito ao próximo e a si mesmo.

Acompanhei com especial interesse o atentado aos editores da revista Charlie Hebdo, em Paris. O ataque foi o cumprimento de uma sentença de morte determinada por um grupo de radicais com o objetivo claro de silenciar pessoas que questionam o radicalismo religioso, político, etc.

A ação na capital francesa envolve uma dialética bem mais complexa do que o lugar comum com que o tema foi tratado. Fere o princípio da decência humana e mostra o pior do agir desrespeitando as leis da santificação. E que, portanto, deve ser combatida como qualquer ato que atente contra a vida humana.

É verdade o homem é um animal extraordinário, que faz coisas maravilhosas, mas um ser que também faz coisas detestáveis. Já dizia o filósofo que “somos capazes de fazer coisas nobres como elevar o ato de comer, mas também não devemos esquecer que nos aliviamos posteriormente na privada”. O que Hegel, na obra “Fenomenologia do Espírito” chamou de “o mundo invertido”.

Temos aí a máxima do mundo invertido. Um ser humano nobre que acredita em Deus, nos ensinamentos de amor ao próximo, mas é capaz de tirar a vida deste, quando de certa forma se sente contrariado. Um ser humano que oscila entre o sublime e o execrável.

Vamos a outro caso. Ao longo desta última semana, o Brasil acompanhou a angústia de Marco Archer condenado à morte por tráfico de cocaína na Indonésia. Apesar de seu ato ilícito, a situação do brasileiro feriu todos os princípios da civilidade humana. Trata-se, na verdade, de uma crueldade, embora o governo da Indonésia argumente que está agindo em nome da decência pública.

O que realmente podemos aprender com as duas histórias? Em nenhum lugar do Cosmo essa oscilação entre o Sublime e o Excrementício é mais evidente do que no Planeta Terra.

O que isso significa é que devemos ter mais cuidado no agir e nas decisões que tomamos. Pois, Deus mora nos detalhes, na virtude que consiste em perdoar os pecadores, na bondade, na indulgência, na doçura. A oposição a essa máxima é que deve ser combatida como qualquer ato que atente contra a vida na Terra. Não é Deus que condena o homem à morte, mas o próprio homem que condena o seu semelhante. Deus é amor, Deus é vida.

De férias, no Parque São Luiz
De férias, no Parque São Luiz
02/01/2015

De repente deu uma vontade de andar de carrossel, navegar num barquinho, dirigir um carrinho, girar na roda gigante, contemplar a cidade de cima.

Na infância, eu costumava andar nos brinquedos do lendário Parque São Luiz. Todos os anos a companhia chegava para enriquecer as férias de verão e a festa da Paróquia de Nossa Senhora da Candelária (Natal/RN).

De férias, 40 anos depois, encontro com parte do que foi o antigo parque da minha infância numa dessas cidades do interior deste lindo país. É interessante como brinquedos tão simples possuem um valor imensurável para o coração daquela que foi a criança que reside nas minhas memórias.

No fundo, todas as pessoas trazem consigo, desde muito cedo, lembranças de antigas brincadeiras. Basta você tentar lembrar qual era o seu divertimento favorito.

Engraçado como as férias revitalizam prazeres tão antigos. Se você lembra o que mais gostava de fazer na infância, é hora, portanto, de curtir novamente esse momento junto com sua família, seus filhos, pais, avós, etc. Você vai perceber que pode reviver antigas lembranças com um novo olhar.

Muitas pessoas dirão:

- Você não pode ser mais aquela criança.

E de imediato, responderei:

- Posso, o coração é o mesmo, os brinquedos estão aqui. As cores são as mesmas, o som, o cheiro do algodão doce, da pipoca. O que falta? Nada. É só cair na brincadeira. Tudo se conecta. É mágico, é fantástico, extraordinariamente lúdico e encantador como a vida deve ser.

Experimenta.


Ninguém escapa à vitória
Ninguém escapa à vitória
28/12/2014

A vida é uma universidade na qual o aluno nunca obtém seu diploma. Uma grande jornada cuja meta está sempre em vista, mas nunca é atingida. Talvez daí a origem de tantas angústias e euforias.

Com o tempo, a gente começa entender que as vitórias e as derrotas são parte destes protocolos. E que, portanto, devemos na alegria e na dor manter o equilíbrio. Isto, de certa forma, nos levará a uma qualidade de vida melhor.

Na Roma antiga, Boécio (480-524) já dizia que “a felicidade pode entrar em toda parte se suportarmos tudo sem queixas”. Lutar contra as adversidades apenas piora o estado de espírito da pessoa. É preciso surfar nas ondas boas, mas também aceitar quando o mar não está para o surf. Neste intervalo, por exemplo, você pode fazer outras coisas como tomar sol na praia.

Com o tempo consegui entender esses movimentos. Talvez não se possa, ou melhor, não se deva compreender o que acontece. Tudo rola muita acima da nossa capacidade de compreensão. E neste cenário, é triste a ilusão dos ingênuos que aspiram um novo mestre tentando justificar o injustificável.

A questão não é neutralizar em definitivo a dor, mas sim o oposto usar a experiência da dor a fim de recuperar o acesso ao gozo. De maneira a entender que esse processo é contínuo na vida de todos. E que ninguém realmente escapa à vitória e à derrota neste jogo. 

É loucura imaginar que podemos fugir deste destino. É o ciclo da vida, da existência, que move a todos nós, na dor e na alegria, pelos séculos e séculos amém. O ano novo se aproxima e não será diferente do ano que passou.

Ouça Conversa com Guto - Web Radio 156, quartas, às 11h: http://www.radios.com.br/aovivo/radio-156-natal/64793