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Jorge Braúna
 
15º DIA DE SILÊNCIO
NO SAPIENS | 25/11
Increva-se aqui
Introdução ao estudo do
BUDISMO
Texto elaborado pelo médico e terapeuta
Luis Fernando Ruegger
Trabalho baseado nos ensinamentos da tradição Nyingma,  veiculados no Brasil através do 
CEBB, Centro de Estudos Budistas Bodisatva. A maior parte de informações contidas  neste
texto provém dos ensinamentos do  lama Padma Samten , complementados por comentários 
do  prof. Alan Wallace  e das tutoras do programa  para formação de facilitadores do CEBB,
Jeanne Pilli e Márcia Baja.

Um resumo histórico

Conforme palavras de  Joseph Campbell, estudioso das mitologias comparadas, “ é impossível
reconstruir o caráter,  a vida e a verdadeira doutrina do homem que se tornou o Buda”. Supõe-se
que tenha vivido entre 563 a 483 a.C., entretanto sua mais antiga biografia  consta do cânon páli
e começou a ser escrita no Ceilão( atual Sri Lanka), apenas em 80 a.C. , portanto já  permeada 
com muitos  componentes  míticos. Trata-se de uma biografia arquetípica de um Salvador, cujo
conteúdo se  mostra extremamente similar em inúmeros aspectos  com a história  de
nascimento e vida  de Jesus,  escrita mais de 5 séculos depois.  (cf. Joseph Campbell  em  “as
Máscaras de Deus”, vol.Mitologia Oriental, pgs 203 a 205).  Em síntese,  não importando  se
verdade histórica  na Índia  de 2.600 anos atrás ou se surgido a partir de lendas,  o Budismo tal
como hoje é difundido em  diversos países asiáticos e mais recentemente no Ocidente,  surge 
como um movimento de consciência para o reconhecimento e a liberação do sofrimento 
humano a partir dos ensinamentos do Buda Sakyamuni  , identidade  amadurecida ou  iluminada 
de   Sidharta Gautama,  príncipe da linhagem dos Sakyas, filho do rei Suddhodana da Dinastia do
Sol.
Em várias versões de sua história , conta-se que o  jovem  Sidharta,  apesar de   cercado de
conforto e  facilidades  em companhia  de uma bela  esposa e  tendo já um  filho recém nascido, 
contrariando a vontade do rei que o protegia da realidade mundana,  sai um dia a  passeio  para
fora do palácio e  é abalado pelo constatação de inúmeras  mazelas humanas. Diante da 
inevitável  perspectiva do confronto  com as doenças , a velhice  e  a morte , movido pela
necessidade  de respostas existenciais, Sidharta  decide  partir em peregrinação ao encontro de
sábios da época , abandonando sua  vida  de príncipe. Após 7 anos  de práticas ascéticas nas
florestas e  frustrado por  reconhecer  a inutilidade de tais esforços, acaba  por afastar-se dos
monges que o acompanhavam  isolando-se  em silêncio meditativo  ( neste trecho da lenda, é 
forte  a semelhança com os  relatos cristãos dos 40 dias de Jesus  passados  no deserto). 

Sentado sob a copa de  uma árvore bhodi ,  Sidharta   vê-se  confrontado com  o demônio Mara,
Senhor da  Roda da Vida  e representante  da impermanência .  Por manter-se  em sua  pratica
meditativa,  Sidharta   não responde   a qualquer fenômeno  percebido interna ou externamente 
e , por fim,  acaba por  reconhecer  na figura de Mara  e em suas e  tentativas de   subjuga-lo  
pelo  apego aos prazeres  ou  a  enfraquece-lo  através do medo,  os equívocos da mente
construtora de maya (o mundo de  ilusões).  Vendo-se  agraciado de  forma natural e
espontânea   com  uma visão interior(insight)  de liberdade plena,   a partir deste momento  
atinge  a condição de Buda, cujo significado é  “o  Iluminado”, ou  seja,  aquele que despertou
dos sonhos  criados pela mente deludida .

Uma vez  dotado de lucidez,  compreende  a impermanência  como condição de todas as coisas
construídas  e infere  os meios hábeis  para  se obter liberdade diante de Samsara (a experiência
cíclica do nascimento à morte ) ao reconhecer  a relevância de  4  nobres verdades  e um 
caminho óctuplo de ações no mundo.  Reconhece  a natureza última e ilimitada  da mente  como 
subjacente a todo e qualquer  fenômeno  e compreende essa essência  prístina  como vazia e 
ao mesmo tempo luminosa , com  infinito potencial criativo (natureza  vajra),  eternamente
presente, viva   e com  propósito compassivo e amoroso. 

Emanando as qualidades  advindas dessa Sabedoria Primordial, o  Buda levanta-se  e  passa a
caminhar em direção às pessoas  (Thathagata- aquele que assim se foi),  dedicando  o restante
de sua vida  a oferecer   ensinamentos em benefício de todos os seres a fim de que  também  se
libertem dos sonhos  de sofrimento gerados em  Samsara. 

O Buda Gautama, tendo ensinado por 46 anos, termina sua jornada terrena  aos 80 anos de
idade, revelando  aos seus discípulos   que  a Vida  é UNA,  eterna  e  sem opostos,  e  que 
todos os  seres  sencientes, enquanto expressões de Vida,  experimentam  somente  
processos de construções  mentais    de natureza  impermanente  chamados  de Bardos ( 
constituídos  em número de  6:   o Bardo da Vida,  dos Sonhos,  da  Meditação,o  Bardo da 
Morte,  Pós -morte  e  do  Renascimento) .  

Nos relatos sobre seus diálogos com os discípulos, estas foram as últimas palavras a ele
atribuídas :  “Manifestei um corpo de sonho, para beneficiar seres de sonho, imersos  em um
mundo de sonho. Eu não vim e eu não vou.”

Os ensinamentos do Buda Gautama  continuaram a ser transmitidos de forma  oral  por  seus
mais de 500 discípulos. Assim foram sendo constituídas  várias linhagens a  se espalharem 
para diversas regiões do Oriente.  Surge   o budismo chinês, levado pelo monge  Bhodidharma 
por volta de 520 a.C. ;  o  budismo  japonês  emerge  com várias vertentes , entre elas ,  o zen
budismo a partir  do séc. XI d.C  com  suas subdivisões, todas de  influências  taoístas  advindas
do Ch’an chinês . Ainda no Japão  uma outra ramificação  surge no século XII d.C com
ensinamentos do  monge Nitiren.   No Tibete  o budismo tem um período áureo  sob as
influências  do imperador indiano  Ashoka (268 a 232 a.C.),considerado  como  o 1º rei budista.
Por volta do  século  VIII  d.C  estabelece-se  entre os tibetanos  a linhagem Nyingma
(literalmente significando antiga), introduzida por Padmasambhava  ou Guru Rinpoche , tido  para
este povo como  o 2º Buda, emanação direta do Buda Sakyiamuni.   Até o final do século X d.C, 
mais 4 linhagens tibetanas  se estabelecem  segundo o estilo de seus diferentes  professores. 

Mais recentemente, no ocidente,  o lama Chagdud Tulku  Rinpoche ( refugiado  da invasão 
comunista chinesa  no Tibete em 1959)  traz os ensinamentos Nyingma , a princípio para os
Estados Unidos  em 1979 e posteriormente para o Brasil, no ano de 1995, tendo no lama Padma
Samten (brasileiro, físico de formação acadêmica e criador do Instituto Caminho do Meio e
CEBB- Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em Viamão,RS.) um de seus maiores
divulgadores.

Por volta do século II d.C, os textos  budistas  passaram  a ser veiculados  a partir de  2
abordagens  distintas:   Hinayana (veículo inferior) e Mahayana  (grande veículo) , onde  os
adeptos da primeira escola  buscavam  essencialmente por  uma  libertação pessoal,  enquanto 
que os praticantes mahayana  procuravam  conduzir todos os demais seres à liberação de
Samsara.  A partir de então,   surgem as figuras  dos bodhisatvas,  praticantes  inspirados pelo
Buda da Compaixão , Chenrezig ( tibet.) ou Avalokiteshvara(  sânscr..), que hoje têm  em Sua
Santidade, o Dalai Lama,  da tradição  Gelug, seu grande  líder espiritual e protetor de todas as
demais tradições tibetanas, incansavelmente  motivado  em   difundir  uma  visão de
Responsabilidade Universal  ou  seja, a construção de uma Cultura Global  de Paz. 

Curiosamente, ainda com relação ao Tibete, há relatos de  que práticas pré-budistas já
floresciam  há  mais de 17 mil anos  através de uma   tradição  xamânica  conhecida como 
Religião Bon. Esta antiga tradição ainda   hoje possui muitos  adeptos  sendo conhecida  nos
tempos  atuais como Budismo Bon  e encerra uma visão  bastante convergente com a  linhagem 
Nyingma ( pertencente ao  Budismo Vajrayana  ou esotérico - extensão da abordagem
mahayana) . 

Nos tempos atuais torna-se possível superar  muitas estruturas de preconceito  ao se
compreender que o termo Buda não se refere a alguém, nem  mesmo  que seja  algo ligado ao
budismo, mas tão somente  um indicador   da operação livre da mente a partir da sua natureza
primordial ilimitada.  Neste contexto, o Budismo não precisa  necessariamente ser considerado
como religião ou filosofia, nem como ciência da mente como hoje muitos adeptos propõem ,
mas tão somente como um método para se atingir tal estado de liberdade frente às  realidades
construídas artificialmente. Dentro deste mesmo raciocínio  podemos  considerar  vários
mestres de inúmeras tradições religiosas como sendo verdadeiros Budas : homens e  mulheres  
a servirem de inspiração  aos praticantes, independente  da  época em que viveram ,  de  seus
locais de origem ou  se suas histórias   verdadeiramente se basearam  em fatos ou  se foram
construídas através de lendas.

O pilar budista

O que torna o budismo fascinante nos dias de hoje  é que,  apesar de origem  milenar, sua  visão 
de mundo  baseada na vacuidade, unidade , não causalidade e não localidade  tem  encontrado  
convergência com  muitos  elementos  atuais  trazidos pela física quântica, tais como  os
conceitos de campo unificado, saltos quânticos, bootstrap  e  coemergência  diante da 
inseparatividade entre observador e observado  (fator  que tem  reforçado  a  compreensão  de 
que o mundo que nos  circunda é inseparável de nós mesmos).   Por  outro lado, a meditação
como eixo de suas práticas tem tido o  interesse e o apoio da moderna neurociência  que, em
pesquisas  de laboratórios,  vem encontrando uma série de  correlatos neurais  às referências 
de praticantes quanto aos efeitos  da meditação.  Sofisticados  exames de neuroimagem  têm
sido utilizados para revelar  fenômenos  de neuroplasticidade,  enquanto exames bioqúimicos 
têm evidenciado  alterações significativas  na fisiologia dos neurotransmissores. Estudos através
de  instrumentos de neurofeedback  vêm demonstrando  a reorganização e sincronização das
várias  ondas cerebrais  com a eliminação de “gaps”  entre elas, a se traduzirem em conforto
psíquico e físico nos  meditantes.  Desta maneira, os efeitos surpreendentes  das práticas
contemplativas na requalificação das emoções humanas com consequente mudanças  nas
experiências  interpessoais , aliados  a uma abordagem educacional voltada para os  valores
humanos fundamentais como amor , compaixão, equanimidade e paz ,  têm  feito do budismo
uma tradição de crescente interesse em todo o mundo, particularmente entre os ocidentais.

Metodologia

A perspectiva  Dzogchen , a Grande Perfeição ( - um sistema de prática Mahayana   encontrado
nas primeiras tradições  Nyingma e Bon, cuja base é a tríade  visão-meditação -ação).

Antes  de serem abordados os aspectos  principais das práticas meditativas e de nossas  ações
dentro da sociedade, torna-se fundamental   compreender  a importância da  nossa  visão de
mundo na  sequência desta  tríade.  Tem sido reforçado pelos mestres que, sem o
desenvolvimento de  um outro olhar  sobre nós mesmos,  sem  reflexões sobre  as
configurações  do mundo  e  como  nos  experimentamos  como criadores de nossas
realidades, os esforços de meditação gerados por falsas expectativas e pelo  autocentramento, 
a despeito de possíveis  resultados naturalmente positivos, tenderão a nos  levar, enquanto
praticantes , ao cansaço, ao desânimo e  à criação de outros elementos ilusórios  capazes de
consumir nossas energias na  construção de inúmeras outras “bolhas” , cópias maquiadas de
samsara, ou seja, de inúmeros outros sonhos de realidade induzidos por antigos
condicionamentos , em conjunto com os   esforços inócuos em  dar-lhes solidez e sustentação
(materialismo espiritual).  Sem  que nos dediquemos  a trabalhar  com afinco  na ressignificação
de muitas de  nossas crenças a fim de construirmos  em nossas mentes uma base  capaz de
nos induzir  a uma motivação  verdadeiramente  voltada para uma experiência de vida  focada na
unidade e no amor universal , qualquer resultado obtido  estará  apenas  mudando as cores 
superficiais de samsara  sem atingir, de fato, sua raiz  geradora de sofrimento .

A visão

Para o budismo, portanto,  aquilo que se constitui Samsara, a experiência cíclica da vida, se
deve a  uma construção mental  automatizada e responsiva  compreendida como Avydia( em
sânscrito: falta de visão, ignorância ou desconhecimento) ou Ma-Rigpa (em  tibetano ), geradora
de  experiências de separatividade.  

A mandala da Roda da Vida   pictoricamente  tem seu centro  representado  pela interação de  3
animais : o javali , como expressão da própria  ignorância em si, constituindo  uma identidade
reificada; o  galo,  representando  os apegos e ambições  ligados às necessidades de
sustentação desta identidade e a cobra, símbolo  da raiva,  quando tais desejos  são frustrados e
tornam-se  infrutíferos (os 3 venenos da mente: ignorância, ambição e raiva).   A seguir,  partindo 
deste 1º núcleo central surge o desenho  de  um novo círculo  a representar   6 reinos   de
experiências  mundanas  que evidenciam   padrões emocionais  básicos através dos quais a
mente mantém  a roda em movimento .  No 1º desses reinos,   chamado de  reino dos deuses, 
predominam  experiências de mundo  repletas de facilidades  e bem aventuranças capazes de
induzir  os seres  ao orgulho; no reino dos semideuses ou dos  asuras (guerreiros), surgem  
também  situações  de poder, porém sustentadas  por  competições e inveja ;  no reino dos
humanos, os seres se vêem  arrastados por  experiências de desejos e esforços;  no reino dos
animais surgem dificuldades que despertam  a  preguiça, indiferença  e o culto ao hedonismo ; 
no reino dos fantasmas famintos as experiências  se dão no enfrentamento de  situações de
carência  e   no surgir de diversos vícios ;  finalmente, no reino dos infernos, dá-se  o encontro 
com a  violência, o ódio e os medos.  O último e maior círculo da mandala  representa os 12 elos
de originação interdependentes, o caminho percorrido pela mente deludida para dar concretude 
às experiências de vida. Por fim , o desenho   termina  com  a figura de Maharaja  ou Mara ,o
senhor da impermanência, por detrás da roda a  sustentar  todo o processo.

As 4 nobres verdades   
Os conceitos de Karma,   Vacuidade e Luminosidade 

A esse  intenso  trabalho  da mente  através dos 3 animais , 6 reinos  e 12  elos  para  manter o
giro da roda ,  chamamos de  Karma.    Naturalmente ,  as ações cármicas,  caracterizadas por
incessantes  tentativas  de  defesa aos “javalis” continuamente  ali gerados,  acabam por se
constituir   como a origem de  dukkha (  sofrimento)  e são a base do enunciado da 1ª nobre
verdade  elaborada por Buda.  Em sequência, surgem os pontos principais  capazes de 
devolver à mente  uma condição de  lucidez  e a consequente  libertação dos jogos dentro  de
Samsara . Estes aspectos estão na  compreensão direta  de que o sofrimento  não é algo sólido,
mas sim  uma condição  construída  e sustentada  por apegos e aversões  (2ª nobre verdade)   e
que  assim sendo,  pode vir a ser desconstruído (3ª nobre verdade)  através da prática de um
caminho óctuplo (4ª nobre verdade) que culmina  na constatação de que a  Vida  (e  portanto,
nossa própria natureza básica )  nada mais é do que  Pura  Consciência , uma  natureza
primordial misteriosa, incessante e livre , vazia em sua essência, porém  de infinito  potencial  de
manifestações ( luminosidade),  capaz de  gerar   indefinidamente  novas  formas, percepções,
sensações, formações mentais  e  novas  consciências ( 5 skandas, ou agregados).  Para
facilitar a compreensão de tal conceito , uma analogia  pode ser feita  com a imagem de um
arco-íris : do mesmo modo que podemos entender a luz como um fenômeno eletromagnético
único mas com potencial de se manifestar  em   várias  cores  ( ou espectros de luz) ao 
atravessar um  determinado  prisma (e  cada um desses espectros  com  suas diferentes
características e propriedades distintas , porém , todos  em essência a  constituir  a mesma luz), 
assim  ocorre com a  Consciência Una,  que  ao escolher  filtrar-se  por  certos elementos 
prismáticos, passa a se manifestar  em espectros de consciência (cf. Ken Wilber).

No  nosso caso,  poderíamos enxergar o  prisma  como sendo  um SNC humano, e  cada um de 
nós, homens ou mulheres, um desses “espectros”,  a manifestação individualizada da mesma
Consciência.  Assim como  podemos compreender  que  um arco íris  não é algo que possua
substância , não se trata de  um objeto concreto  escondido atrás das nuvens aguardando o
surgimento do  sol, mas apenas um fenômeno dependente de múltiplas condições e
circunstâncias (cf. Joseph Goldstein em “ One Dharma”), poderíamos  também  entender que 
nós  não temos  real substancialidade, apenas  constituímos um fenômeno “sui generis”,  de
raras qualidades, a representar  somente   uma construção transitória e sem solidez  criado
intencionalmente  pela  projeção  luminosa  da Mente primordial.

De acordo com o prof. Alan Wallace, estudioso do budismo, monge ordenado pela S.S, o Dalai
Lama e fundador do  Santa Barbara Institute for Conciousness Studies ,Ca,   seriam  três  os  
níveis da  mente:


1. Rigpa, ou  Consciência Pura, Natureza de Buda ou Mente primordial , Fonte original da Vida ( e
portanto, permeadora  das demais consciências). 

2. Consciência substrato  ou Alayavjnana,   constituída  como um  depósito de  marcas cármicas
de todos os seres,  humanos ou não ( metaforicamente, poderíamos imaginar rigpa como água
e alayavjana como pedras de gelo)              

3.  Mente comum ou psique,  uma consciência individual configurada  através de  identidades 
construídas ( tais como as que constituem  várias espécies de seres sencientes , e no caso
humano,  acrescidas por  aptidões profissionais, crenças religiosas,  papéis  sociais e familiares
, etc...)

Desta maneira, na nossa humanidade e considerando-se  a experiência do bardo da vida,
sempre que o cérebro passa fisiologicamente  a funcionar em “stand-by” para o resguardo da
vida biológica, a  mente comum  termina por se dissolver  na mente  substrato ressurgindo 
novamente nos sonhos(bardo dos sonhos)e também quando despertamos.  Ao final da vida
constituída  pela materialidade do corpo físico (bardo da morte),  a mente  também se dissolve
no substrato e, neste caso, não havendo gerado lucidez ( bardo da meditação)  quanto a sua
verdadeira natureza,   as operações mentais  de avydia  ou ma-rigpa  produziriam  outros
impulsos  capazes de nos levar a aspirar por um novo corpo(bardo do pós morte)  para
finalmente  nos  manifestarmos na forma de uma  nova  existência (bardo do renascimento).

Deste modo, segundo A. Wallace, o que seguiria  de uma vida para a outra ( diferente de outras
abordagens reencarnacionistas ) não é  uma  determinada  personalidade  específica,  mas 
apenas  a  consciência substrato e o  prana dentro de um  continuum mental.  Os mestres 
considerados realizados  podem acessar essas marcas  de alayavjnana com facilidade  e
desenvolvem habilidades em  interferir  conscientemente em todo o processo de morte e
renascimento, enquanto tornam-se  possuidores de   determinados  poderes  em vida  a fim de
criarem  meios hábeis  para  trazer benefícios aos seres.

Assim, aprofundando nossa compreensão, a  noção de vacuidade não precisa ser niilista e mal
humorada.  Podemos , de forma lúdica, observar que é possível construir identidades e levá-las
a interagir umas com as outras, compreendendo-as como  uma simples  configuração de
energia  sem que  fiquemos presos aos impulsos dos 5 skandas  e  sem  nos apegarmos  aos 
movimentos que criamos. Não é preciso darmos a essas energias  concretude a  ponto de se
manifestarem  como se tivessem vida própria ( ao que Eckhart Tolle chama de “corpo de dor”).

De um  modo geral,  o conceito de  vacuidade  poderia  ser apreendido  por nossa mente 
comum  através de 3 maneiras distintas :

1) pela  lógica  do pensamento científico ao  se desconstruir , passo a passo,  objetos  materiais.
Como exemplo,  poderíamos analisar  uma pessoa vendo seu corpo e decompô-lo  em  seus
diversos sistemas e órgãos, sucessivamente  fragmentando-o  em tecidos,  células,
componentes químicos  constituídos por  moléculas , átomos , partículas, subpartículas, até a
constatação final de um vasto espaço  a constituir  um campo unificado  de infinitas
possibilidades de manifestação  por meio de colapsos de ondas.

2) pelo significado livre dado ao objeto. Como  exemplo , uma vara de madeira seria  vazia em
seu significado,  porém, para um cupim passaria  a se constituir em  alimento, para um
carpinteiro, material de trabalho, para uma criança, um objeto de castigo.

3) pelo entendimento da  coemergência- aquilo que surge diante de nossos olhos existindo 
como  reflexo de um conteúdo interno prévio. (ex: um templo religioso não passaria de uma
construção de tijolos e cimento se não fosse o senso interno do sagrado presente na mente de
um devoto) .

Interessante notar que o filósofo alemão  Immanuel Kant (1724-1804), em sua obra “Crítica da
razão pura”, provavelmente sem ter conhecimento  da perspectiva budista , já utilizava uma
visão de vacuidade. Conforme palavras de Marilene Chauí, Kant via  “a razão como  uma
estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (e não os conteúdos) é que é
universal, a mesma para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa
estrutura é inata, isto é, não é adquirida através da experiência. Por ser inata e não depender da
experiência para existir, a  razão é, do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência.
Ou, como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende
dela).E continua Chauí: “o que importa é que nada pode ser percebido por nós se não possuir
propriedades espaciais; por isso, o espaço não é algo percebido mas é o que permite haver
percepção (percebemos lugares, posições, situações, mas não percebemos o.próprio espaço).
Assim, o espaço é a forma a priori da sensibilidade e existe em nossa razão antes e sem a
experiência.”. (Trata-se de um pensamento muito próximo à noção de maya  no hinduísmo).

A prática

Para praticarmos aquilo que o conhecimento budista nos convida a explorar , necessariamente
não necessitamos de templos ou locais especiais, embora possam ser bastante
enriquecedores. Estar onde estamos  passa a consistir a nossa prática. Diante das dificuldades
aparentes voltar-se para   dentro  e  fazer o treinamento  a fim de flagrarmos  as falhas sutis de
nossa visão,  enquanto vamos  aprendendo a criar espaço entre nossos impulsos de escolher
ou fazer coisas. Assim vamos  nos movendo no lugar onde as pessoas estão , sem querer
impor nada, acolhendo-as, amando-as. Tendo compaixão. Ajudando-as a se libertarem de
Samsara.
(segundo as palavras de Buda  a Subhuti  no “Sutra do Diamante”,  texto sobre as 6 paramitas
ou perfeições:    “aqueles que tiverem sua fé despertada  ao ouvir  as  sentenças e seções 
desta Escritura irão acumular bênçãos e méritos inestimáveis”).

O termo  “espiritual”  vem do latim spiritus, que significa “sopro”  e nos remete  não só à ideia do
movimento do ar como  também  à  visão  da  criação do universo (o “sopro divino”).  Através 
dessas considerações,  espiritualidade torna-se   não  propriamente um conceito religioso,
romântico ou metafísico mas somente  uma indicação de  um  grande  movimento criativo, onde
todos, sem exceção  estamos inseridos.   Por isso  podemos considerar que toda a Vida  seja
de natureza  espiritual, pois  TUDO É  MOVIMENTO.   A visão Vajrayana  reconhece  a Mente
Primordial como origem fundamental  de todo  movimento  e  vê na  luminosidade da nossa 
mente  comum  a capacidade  também de movimentar energia  e criar . Tudo  aquilo que 
experimentamos e conhecemos  como criação surge de 5 movimentos  básicos  do prana,
energia vital, chamados de  lungs (=ventos ou energias), todas  qualias provenientes da natureza
primordial. São eles, o  éter ou espaço, o ar,  o fogo,  a água e  a terra.  O  domínio sobre esses
movimentos torna-se a base de  tudo que pode ser criado . Deste modo,  o segredo para  a 
conquista de  liberdades diante de samsara  estaria  em  devolver à  mente  o poder  de perceber
e  estabilizar  conscientemente   os 5 lungs.  

Daí a origem das várias yogas, métodos de integração de corpo e mente  desenvolvidos por
alguns  mestres,  cujos estágios finais  sempre  terminam na meditação - a única prática capaz
de gerar em nós  habilidades na percepção  e na condução das energias. Com constantes 
práticas meditativas poderemos proporcionar relaxamento ao corpo regulando funções
orgânicas  e gerar em nossas mentes  atenção e foco  para, com mais facilidade, notar  a
plasticidade  presente na nossa dinâmica bioenergética assim como no ambiente  ao  nosso
redor, e  deste modo desenvolvermos habilidades em estabilizar as energias e direcioná-las com
propósitos específicos.  Pouco a pouco nos tornaremos capazes de perceber  quem é o
observador,  o que é o observado  e compreenderemos  qual é o  olhar que vê o que não está
efetivamente na sua frente. Veremos  como é  interessante encontrar  e sentir  pessoas queridas
dentro do silêncio, entenderemos como  a mente vê a mente, para finalmente  reconhecermos 
que sujeito e objeto( “observador” e “observado”) ocultam o verbo (  “o observar”),   uma
Presença, um Presenciar (“e o Verbo se fez carne..”),  uma  natureza livre, transcendente à 
mente,  energia, corpo e paisagens  de mundo criadas,  a operar todos os fenômenos.  Este
será o estágio final das yogas, chamado samadhi-  o despertar para  a calma do nirvana(v. sign.
em textos complementares , no final do artigo).

Compreenderemos de modo profundo que  tudo aquilo que surge em nossas experiências
humanas  só pode vir da natureza primordial - nada há senão ISSO (  cf. antigo axioma Sufi:
“nada há,senão Deus”)  ;  Tat tvam asi- epigrama sânscrito significando “Tu és isso”. 
Luminosidade espacialidade,  energia   são magias  do  espaço sutil onde a realidade está 
eternamente presente.

Após  repetidas práticas, poderemos nos tornar  hábeis em  perceber  que  aflições surgem
somente como  um  impulso de sustentar um  mundo de sonho  e que  ansiedades ,
preocupações e impulsos de resolvermos  problemas através do cômputo de  ganhos e perdas
nada mais  são do que  resquícios de energias cármicas  em atividade. Tais energias
certamente  são desgastantes, perceberemos que  possuem peso ,  NOS MANTÉM
OCUPADOS, com enorme potencial  de gerar distúrbios  psíquicos e desconfortos orgânicos,
porém,  passíveis de serem dissolvidas quando imersas na energia primordial  (assim como
uma simples  gota  d’água  ao se dissolver no oceano torna-se  o próprio oceano). 

O sintoma natural da visão aberta e da dissolução dos apegos ao ego passa a ser  a leveza, o
relaxamento, o destemor ;  nos sentimos  em paz  e sempre prontos,  DISPONÍVEIS  à Vida. E 
assim fluímos, nos permitimos, entregamos o nosso  forte  hábito do controle nas  ações
cotidianas . Ao desenvolvermos uma visão ampla e, através da meditação,  passarmos a
estabilizá-la, somente então nos empoderaremos (empowerment : termo amplamente  utilizado
pela psicologia transpessoal) de forças efetivas para  construir nossa realidade através de ações
apropriadas e poderemos  seguir em fruição  pela vida,  sem esforços.  A partir desta nova
perspectiva,  tudo passa a surgir de modo espontâneo,  proveniente  da vacuidade.

A dança dos fenômenos criados pela mente  começa  a brotar  do elemento  éter :  nesse 
espaço infinito de disponibilidade surge um brilho criativo em nossos olhos; dos olhos brilhantes 
(janelas de alma) surge o ânimo e com isso nos  INSPIRAMOS ; inspirando , acessamos  o
elemento  ar;  este  por sua vez, alimenta o elemento  fogo  a gerar  o calor, que em sequência, 
torna-se  combustível  para o  elemento  água,  capaz de nos colocar  em movimento e ação
para, finalmente,  a partir de nossos atos, consolidarmos   nossas experiências no plano material
( ativação do  elemento terra).

Neste contexto, o corpo, através do SNC  manifesta-se como  apenas um veículo da mente. O
mundo surge como  uma experiência de nossos sentidos - não existe mundo sem  uma
consciência de mundo. Do ponto de vista da evolução biológica, um sistema nervoso  central
com limitados recursos de percepção sensorial traria à mente limitadas experiências de mundo.
Por outro lado, um cérebro  melhor capacitado serviria  apenas  como um melhor  instrumento  a 
mover os lungs  e  não para criar consciência pura.

Técnicas de meditação

Shamata (impura e pura); Mettabhavana  e  Prajnaparamita (vypassana).
Após considerar que toda a experiência de mundo se refere  à construções de sonhos a partir de 
uma  Mente primordial , porém,   envolta pelos  véus de Avydia,  podemos compreender melhor o
objetivo de cada uma das práticas meditativas:

Com Shamata, nos habilitamos a desacelerar  o sonho. Através de Mettabhavana, interferimos 
positivamente no sonho e  com Prajnaparamita  podemos acordar do sonho, vivendo plenamente 
a natureza fundamental da mente.

Segundo o lama Samten,  o  foco  inicial  das práticas não está em criar estados particulares de
mente, mas prioritariamente   conseguir  criar estabilidade  a fim de caminharmos  em direção à
vacuidade, que é o embrião de sabedoria. Só assim poderemos eliminar os obstáculos gerados 
carmicamente  e mudar a configuração de samsara , transformando-a em “terra pura”.  Esta
torna-se  a função básica de Shamata (Quiescência),  cuja base é a não responsividade  da
mente  a  quaisquer fenômenos, sejam estes  externos ou internos. A quietude  se torna
geradora de  foco, o foco  passa a estabilizar  a energia.
Shamata impura:
Inicia-se com o ajuste de postura (conforto e estabilidade):

1) posição sentada
2) postura das pernas em lótus ou semi lótus
3) coluna ereta
4) mãos  sobre o baixo ventre,  dispostas uma  sobre a outra, palmas abertas, polegares se
tocando formando um círculo (mudra da equanimidade)
5) olhos a 45 graus  ou olhar  à frente (preferencialmente mantendo os olhos abertos)
6) ponta da língua tocando o palato,  logo atrás dos incisivos  superiores
7) boca fechada ou levemente entreaberta,  um leve sorriso .

A atenção  ao movimento respiratório  espontâneo ou para  as  diferentes partes do corpo  não
se torna  distração : estamos no foco de um determinado objeto. Aguçamos a percepção da
existência de um fluxo de energia a percorrer o corpo   mas nos desligamos do que ocorre ao
nosso redor. (Ao final da prática tendemos a não nos lembrar do que se passou ao redor).

Shamata pura:
Os mesmos passos iniciais anteriores. Porém, estendemos nossa atenção  e aguçamos
nossos sentidos  físicos,”escaneamos” todo o ambiente,  mantendo o foco  da mente  em um
estado de  presença, de modo a impedir  que  ela venha a ser  arrastada por pensamentos ou
imagens. Há consciência plena  de tudo aquilo que surgiu durante os momentos de prática.

Mettabhavana (metta= amor /bhavana=meditação).  Esta técnica  surge como instrumento 
intermediário para  pacificar nossas relações interpessoais  distorcidas, pois de outra maneira 
nossa mente continuaria  presa  aos impulsos gerados por sementes cármicas  perturbando  o
fluir da prática e nos impedindo  de avançar.
Fazemos uma relação de pessoas com as quais tivemos problemas. Adicionamos também
pessoas queridas e incluímos a nós mesmos. Mentalmente proferimos:

1) Que ( nome)  seja feliz
2) Que se afaste do sofrimento
3) Que encontre as causas da felicidade
4) Que reconheças as causas de sofrimento
5) Que atinja a liberação do carma  e de toda negatividade
6) Que alcance lucidez
7) Que desenvolva a capacidade de trazer benefício aos seres
8) Que encontre nisso seu equilíbrio e paz

Prajnaparamita (prajna= sabedoria/ paramita= perfeição) . O  potencial da  criação de sonhos
lúcidos (e lúdicos): a compreensão definitiva da Vacuidade e da  Luminosidade da Mente
Recitamos o mantra: OM GATE  GATE  PARAGATE  PARASAMGATE  BODHI  SOHA
(atravesse,  atravesse,  atravesse além, atravesse mais além e a iluminação se faz)
Contemplamos a confiança na visão através da  essência do  Sutra da  Perfeição da Sabedoria :
(Prajnaparamita - ensinamentos do Buda ao discípulo Sariputra)

“Forma é vazio; vazio é forma. Forma nada mais é do que vazio, vazio nada mais é do que
forma. Do mesmo modo sensação, percepção, formação mental e consciência são vazias,
assim como todos os darmas são vacuidade. Não tem características. São  não nascidos e não
cessam. Nem impuros, nem livres da impureza. Nem decrescem nem crescem. Portanto a
vacuidade não tem forma, sensação, percepção, formação mental, consciência. Não tem olhos,
ouvidos ,
  Buda do Templo Mahabodhi, junto ao local onde Sidarta alcançou a iluminação em Bodhgaya, na Índia.
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