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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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MEUS DOIS ENCONTROS COM CHICO  XAVIER
E o que eu aprendi com isso
Jomar Morais
1| Chico Xavier, o homem

Conheci Chico Xavier na madrugada de 23 de
março de 1970, quinze meses antes de sua
participação no “Pinga-Fogo” da TV Tupi,
programa em que conquistou o país com seu
carisma e mudou para sempre a imagem do
Espiritismo no Brasil. Naquela época, Chico
contabilizava 43 anos de mediunidade,
polêmicas, adversidades e, sobretudo,
amparo a carentes do corpo e da alma que o
buscavam dia e noite. Eu era um menino, 17
anos, e chegara à Comunhão Espírita Cristã
de Uberaba imaginando cenários e falas logo
descartados pela realidade.

Em vez do ambiente solene e asséptico de
minha fantasia, deparei com um clima de
pronto-socorro de hospital público, com
“pacientes” esbarrando-se em espera
ansiosa, produzindo uma algaravia que o som
de músicas clássicas tentava abafar. Chico
encerrara a psicografia daquela noite. Agora,
no fundo da sala, aquele homem baixo,
franzino, metido num despojado paletó cinza -
e ainda sem a controvertida peruca que cobria
sua calvície acentuada -, distribuía sorrisos,
beijos e palavras de ânimo numa maratona
que, não raro, ia até o amanhecer. Na fila, eu
esperava por um recado qualquer de
Emmanuel, o guia do médium, mas nenhum
espírito iluminado (nem zombeteiro) se deu ao
trabalho de me enviar um ”torpedo”. Em vez
disso, ganhei de Chico um abraço como eu
jamais experimentara (toque macio e ternura
maternal) e um “Deus te abençoe” ao pé do
ouvido que me fez conhecer a paz dos anjos
sem, contudo, desbastar a frustração de
moleque desejoso de um fenômeno
retumbante.

Só a maturidade me faria entender, anos
depois, aquela madrugada singela no interior
de Minas. Sem que os meus sentidos fossem
abalados pelo inusitado, revelara-se ali, à
minha mente e ao meu coração, a poderosa
força que move os santos: a capacidade de
experimentar sua humanidade no limite da
virtude essencial, o amor. Hoje consigo
perceber que não foi a vasta e complexa
fenomenologia que assinalou a trajetória de
Chico que o transformou em marco e
unanimidade na sociedade brasileira. Afinal,
fenômenos paranormais sempre existiram e
existirão, mas seus efeitos costumam durar o
tempo da excitação dos sentidos. Foi a sua
capacidade de materializar o substrato ético
de tais eventos que o tornou único e confiável.
Como outro Francisco, o pobrezinho de
Assis, Chico Xavier empenhou a vida no
propósito de provar a viabilidade do amor nas
refregas do dia-a-dia, como exemplificara
antes Jesus, o grande inspirador de ambos.

Em Chico, o apóstolo se funde ao homem
que, conhecendo suas fraquezas, descobre
no exercício da compaixão o seu grande
recurso de superação. Fiel às suas crenças,
soube entender a diversidade, respeitando o
perfil de cada um. E, graças ao seu trabalho,
o Espiritismo iniciado por Allan Kardec tornou-
se uma religião brasileira na qual o toque de
sincretismo - tão próprio de nossa gente -
sintoniza com o anseio mundial por alteridade
e tolerância. Chico é nossa mensagem de
paz ao mundo.
2| Lição na casa da morte

Não costumo visitar cemitérios. Nem mesmo
no Dia de Finados. Minha relação com os
mortos,  apoiada na crença na manifestação
contínua da vida sob  a variedade das formas,
sugere-me que o túmulo não é o lugar ideal
para nos religarmos aos que partiram. Ainda
assim, reconheço o poder do símbolo e em
situações especiais acabo visitando tumbas,
geralmente em viagem. Aí prefiro estar
sozinho para meditar sobre a finitude de
nossas vaidades.

Foi assim quando desci às grutas do
Vaticano em 1982 - época em que ainda se
podia percorrê-las até o nível mais baixo - às
8h da manhã, antes da chegada dos turistas
e em silenciosa soledade. E também quando
fui ao famoso cemitério do Père Lachaise,
em Paris, onde estão sepultadas figuras
como Balzac, Oscar Wilde, Proust, Chopin,
Allan Kardec e Édith Piaf.

Estive ainda em cemitérios menos cotados e
deles sempre retornei com um saldo de
reflexões e epifanias que influenciam a minha
vida. Mas nada se compara à experiência por
que passei na última quinta-feira [19/01/2012]
no cemitério São João Batista, em Uberaba,
MG.

Diante do túmulo de Chico Xavier, sob chuva
e num cenário desértico, eu lembrava da
única vez em que estivera com o médium,
em 1973, e de como um simples abraço seu,
seguido de um "Deus o abençoe", fizera-me
entender a força milagrosa do amor. Então,
de súbito, surgiu à minha frente um jovem de
aparência estranha, um jeitão de bicho louco
chapado que, olhando em minha direção,
começou a sacar algo de uma velha mochila.
Imaginei tratar-se de uma arma e, por
impulso, interrompi a minha oração, 
protegendo-me junto à parede do túmulo
vizinho. A consciência, no entanto, advertiu-
me: "Faz com ele o que o Chico fez contigo".

Retornei a tempo de ver o rapaz guardando
na mochila um simples maço de cigarros e
de perceber naquele olhar excêntrico um
traço de resignada tristeza. Iniciei uma breve
conversação. "Sou espírita", disse-me o
moço. "Estou aqui para rogar ao Chico que
me ajude a receber uma mensagem de
minha mãe. Ela morreu e eu me sinto só".
Abençoei-o com carinho de pai e me despedi.

Então, enquanto caminhava de volta pela
alameda molhada, a ficha caiu e vi-me nu em
minha prisão de egoísmo e medo.

Como pude negar a um ser humano
angustiado a cortesia gratuita de um olhar e
de uma palavra gentil, apenas motivado por
preconceito e avareza?

A clareza do insight foi seguida de forte
emoção. Como uma criança, chorei
descontrolado, em princípio sob o peso da
culpa, depois pela alegria da dádiva. Pela
segunda vez em minha vida, Chico Xavier
iluminara-me o espírito, não através de um
fenômeno retumbante mas por meio da força
suave e demolidora de um pequeno gesto de
compaixão.
Mausoléu de Chico Xavier, em Uberaba, ilhado pela enxurrada na tarde de 19 de janeiro de 2012 >>

Seu comentário
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Comentários
Maria da Paz Góis, 29/03/13 - Caro amigo, Que maravilhosa oportunidade tiveste, que emoção! Consegui ver o poder do amor faternal nestes dois momentos de lição amorosa de um pai e irmão, que tanto quis conhecer humanamente...porém, hoje tenho a certeza que nos encontramos tantas vezes, em espírito e verdade, que ao ler este texto me emocionei até as lágrimas. Um abraço fraterno de Feliz Páscoa... A amiga incondicional que o admira muito. Gratidão, pelo muito de bom tens nos passado. Beijo Grande a Tod@s do Sapiens e do Planeta Jota.

Jomar Morais, 30/03/13 - Obrigado pelo carinho, Da Paz. É muito bom ter a sua amizade.

Manoel Cruz, 31/03/13 - Eu também fiquei emocionado com o seu texto Jomar.

Pedro Teles, 01/04/13 - Jomar, obrigado por seu relato sincero. Aprendi muito com essa leitura.

Bertha Elina de Oliveira, 04/04/13 - Lindo texto, Jomar, como tudo que você escreve eu adoro. Há muito tempo sou fã da maneira como você lida com as palavras. E além disso, você é um sujeito de sorte, esteve com Chico e mereceu dele um "Deus te abençoe". Eu estive em Roma e ví o Papa, mas estive em Uberaba e não merecí ver Chico. Na ocasião ele estava doente e não foi à reunião dessa noite. Abração pra você.

Jomar Morais, 05/04/13 - Oi, Bertha, gratíssimo por seu carinho e incentivo. É gratificante receber mensagens que nos impulsionam.

Maria das Graças Capistrano de Oliveira, 05/04/13 - O relato das suas experiencias despertou em mim uma emoção muito forte. Embora nunca tenha tido oportunidade de lhe dizer, lhe quero muito bem e lhe admiro bastante, curto suas crônicas,sua maneira clara , natural, verdadeira de se expressar.....Realmente lhe perdi de vista por um longo tempo, recentemente, voltei a lhe ver no CEIC e relembrei aquele jovem franzino,entusiasmado e fluente da Mocidade espirita da SECA, a long, long time ago, cá pra nós....Um forte abraço Jomar, e q vc continue assim, cada dia melhor e mais atuante , despertando consciências.

Jomar Morais, 06/04/13 - Maria das Graças,obrigado de coração por suas palavras generosas. Sua mensagem também deixou-me emocionado.

Sílvia Ribas, 12/04/13 - Obrigada, Jomar querido, pela sua generosidade de partilhar conosco momentos tão especiais e eternos no infinito... obrigada! Um grande abraço.

Jomar Morais, 13/04/12 - Grato a você, Sílvia, pela leitura de meus textos e, sobretudo, por sua amizade.

José Damião, 15/04/13 - Maravilhosa lição. Obrigado por compartilhar a experiência conosco. Esperamos outra visita aqui em João Câmara. Um abraço.

Jomar Morais, 15/04/13 - Obrigado pelo incentivo e pelo acolhimento fraternal, caro José Damião.

Mackenzie Melo, 02/05/13 - Jomar, caro amigo. Nesta vida não tive a experiência de conhecer Chico nem de visitar o seu túmulo, mas as suas palavras serviram neste momento como um "Deus te abençoe" e também me marejaram os olhos ao tocar suavemente em meu coração. Obrigado a você e ao Chico por me mostrarem a capacidade que o amor tem de nos elevar. Um grande e saudoso abraço.

Jomar Morais, 03/05/13 - Caríssimo amigo Mackenzie, obrigado pelas palavras e pelo testemunho que me recompensam e me estimulam. Você é querido, respeitado e sempre lembrado por mim e por todos os que conviveram com você em nossa terrinha. Grande abraço.

Márcia Moraes, 23/05/13 - Caro Jomar, desde a época que eu ia à Seca sempre admirei sua inteligência e suas palestras sempre foram bálsamo. E novamente seu texto me deixou emocionada e chorei. Obrigada, Deus te abençoe!

Jomar Morais, 24/05/13 - Obrigado pelas palavras carinhosas, caríssima Márcia. Muito bom reencontrá-la aqui, no espaço livre do PJ.