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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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Zé de Filó foi um desses deserdados da sorte. Nunca soube quem foi seu pai, com menos de cinco anos ficou órfão de mãe e foi criado pela avó que, pobre e doente, sobrevivia da caridade alheia e das gorjetas que ele, ainda menino, ganhava carregando caixas na feira, ajudando um ou outro, aqui ou acolá. Entrando na adolescência, pela vivacidade e disposição, passou a trabalhar na fazenda de João Batalhão, há poucos quilômetros da cidade.

- Tem muito trabai pra você aqui, minino. Agora quero qui tombém aprenda lê e iscrevê. Dispois do armoço, é prá ir cuns meus minino pra iscola.

Os meninos eram Joãozinho de nove anos e Juliana de dez.

Com a morte da avó, naqueles dias, o patrão arrumou um espaço na dispensa onde o menino passou a guardar os seus poucos pertences e dormir.

Calado e metido a valentão quando alguém pisava-lhe os calos, era capaz de desconcertar o adversário apenas com o brilho do olhar num momento de fúria, mas transformava-se em outra pessoa quando, lado a lado com Juliana, perfazia o caminho da escola.

Pesava-lhe nos ombros as amarguras da vida, agravadas pela ausência dos pais e pelas dores da avó tão boa e ao mesmo tempo tão sofrida. Doía-lhe, sobretudo, a forma como os colegas da escola, assim como a maioria das pessoas, o tratavam. Era como se não pertencesse à classe dos humanos. Era como se fosse um bicho; não um bichinho de estimação, mas um bicho indesejável.

A jovem amiga, com sua atenção e palavras alentadoras, era quem aliviava-lhe o pesado fardo trazendo-lhe um raio de esperança. Estava aprendendo a ler. Poderia vir a ser um homem de bem, quem sabe até um empregado da prefeitura.

Passou a ser comum naqueles dias sentir-se, até, feliz. Chegava a achar que nada mais queria da vida, além de caminhar sempre ao lado de Juliana, falando-lhe das suas incertezas, dos seus sonhos, dividindo as suas dores, ouvindo suas palavras carinhosas e acalentando a esperança de um futuro feliz ao seu lado.

O trabalho era duro, o salário mal dava para comprar alguma bobagem na feira, uma roupa e uma bota barata para os tempos de festa. Mas, ainda que trabalhasse a ferros e chicote, faria com prazer, apenas por um motivo: a doce companhia de Juliana no caminho para a escola. Os dois construíam verdadeiros paraísos, depois destruíam para construir outros mais paradisíacos, ainda. Tudo isso sem grandes rebuscamentos, apenas com palavras amenas, inocentes, sorrisos cativantes, olhares carregados de sentimentos e pureza.

Em um dos anos que se seguiram, a colheita fora  muito além das expectativas. O patrão precisou de muita mão de obra e o assunto foi colocado em pauta na hora do almoço.

- Zé, me cumprometi cum você de le ensiná a lê e escrevê.  A promessa ja tá cumprida, já qui num prometi le fazê dotô. O qui aprendeu prum trabaiadô do eito tá mais do qui bom. Já dá pá votá, fazê uma conta, lê uma carta e escrevê ôta. O seu tempo de istudo se acaba hoje. Priciso do seu trabai agora o dia todo.

- Mas papai, estamos no meio do ano. Ele vai perder o ano inteiro por isso.

- Vai sim, mocinha. E já qui tocou no assunto, vou li dizê uma coisa: na idade em qui tão, num quero mais os doi andano pur aí junto e cum cunverseiro. A sinhora já é uma moçota e você um rapaizote. Tratem de ficá cada um no seu canto. Você trate de fazê amizade com as prima e você cum seus camarada de eito. É assim qui vai sê daqui prá frente!

Uma nuvem negra passou a envolver os dois amigos. As possibilidades de encontrarem-se eram quase nulas. Até na hora do almoço, tornaram-se impossíveis com ele fazendo as refeições com os demais trabalhadores, no galpão. Ocorria de bilhetes rabiscados em papel de embrulho chegarem a ela através da empregada que, assim como os levava, também os trazia, mas isso era raro. Os pais, desconfiando do sentimento que havia entre os dois, trataram de evitar qualquer contato entre eles. Só não mandaram o rapaz embora porque naqueles dias precisavam muito dos seus serviços.

Chegado o fim do ano, foi ele o primeiro a ser despedido. Saiu decidido a tomar um pau de arara para o sul, trabalhar, ganhar dinheiro e provar àquele velho que poderia ser digno da sua filha. Para a jovem, deixou um bilhete:

“Minha Juliana

Vou pra longe, mas vou trabalhar de dia à noite pra juntar dinheiro e ganhar respeito. Não me esqueça nunca. Volto pra me casar com você.

Zezinho.”

Tomada pela tristeza e pelo vazio deixado pela sua ausência, a jovem persistiu, mantendo  viva a esperança de um dia vencerem as barreiras que a vida colocara entre os dois.

No espaço de seis anos muita coisa muda, até em Mericó, onde tudo parece caminhar mais lentamente do que em qualquer outra parte do mundo. Juliana, mesmo guardando  viva a lembrança do adorado amigo, acabou noivando com o filho de um fazendeiro próximo.

Da sua parte, havia a simpatia pelo jovem: estudado, franzino, de boas maneiras, recém-chegado da capital. Nada tinha do seu amigo, contudo era um moço bonito e amável. Começaram um namorico, quase de brincadeira, mas com a pressão das amigas e os interesses das famílias, ao se deram conta estavam a um mês do casório.

Dizia um ditado popular daqueles tempos que o diabo quando não vem, manda um portador. Daquela vez ele veio, pessoalmente. Com uma indumentária de vaqueiro goiano de dar inveja a qualquer um, chegou à cidade Zé de Filó: um metro e oitenta de altura, parrudo capaz de derrubar um boi com um soco e exibindo um bigode que, por si só, impunha respeito.

Inteirando-se acerca dos acontecimentos locais, comprou um bom cavalo e passou a gastar seu tempo galopando como um desorientado pelos arredores da cidade, parando em bodegas e barracas, bebendo, visitando os poucos amigos que deixara e demonstrando que não estava ali para uma visita de cortesia.

Aquele homenzarrão bem vestido, chapéu quebrado e botas até o joelho desfilando pelas ruas de Mericó assustava, mas também impressionava os que o viram como menino de recado e trabalhador alugado. O delegado até tentou fazer algo. Mas fazer o que, se ele não incomodava ninguém? A partir do que ouvira sobre o seu interesse na filha de João Batalhão, a única providência a tomar era ficar de olho nele, especialmente no dia do casamento. Mas resolveria isso colocando uma escolta de soldados na igreja.

A cerimônia ocorreu com a pompa cabida aos dois fazendeiros. A noiva, durante toda a celebração, mostrou-se insegura e nervosa devido às recentes notícias do amigo. Respirou mais aliviada quando adentrou à casa da fazenda, casada, para o jantar com os convidados seguido da grande festa animada por um famoso sanfoneiro vindo de Campina Grande.

Pelo grande número de convivas, a sala não comportava o salão de dança, daí o recorrer a um costume local: Construir à frente da casa, com barro batido, forquilhas e palhas de coqueiros uma cobertura destinada à dança.

Para cobrar a quota o fazendeiro escolheu Bernardão, um dos homens mais respeitados de Mericó pelo seu trabalho, sua honestidade e, sobretudo, pelo porte físico e pela força que ninguém ousava enfrentar.

A festa ia começar. Bernardão, preparando-se para o trabalho, recebeu do patrão as últimas orientações:

- Você sabe cumo gosto das coisa, purisso num priciso nem le dizê. Mas tem um sujeitim qui, se tivé o atrivimento de aparicê pur aqui, tá proíbido de dançá e pode butá-lo prá corrê! É aquele mulecote da finada Filó qui trabaiô aqui uns tempo.

Perfilados ao pé da parede em bancos, cadeiras e tamboretes sentaram-se a noiva, o noivo, os familiares, padrinhos e no meio destes o sanfoneiro, o triangueiro, o zabumbeiro e o pandeirista. Do salão improvisado para a sala de estar e cozinha a movimentação não parava: gente conversando, entrando, saindo, comendo, bebendo... Era um vai e vem sem fim.

- Pra começar a festa, vamos tocar a valsa para os noivos dançarem.  - Falou o sanfoneiro, tocando em seguida, Royal cinema.

O casal valsou encantando os presentes e retomou o seu lugar. O sanfoneiro fazendo breve pausa, tomou uma dose de conhaque e, com um baião apimentado de Luiz Gonzaga, arrastou quase todos para o salão.

Duas horas se passaram, a umidade do barro batido desapareceu com o arrastar dos pés e a poeira começou subir misturando-se ao suor dos casais, o que é natural neste tipo de festa. O forró estava, no dizer dos presentes, “pegando fogo” quando um cavalheiro estranho, elegante, diferente dos demais, entrou no salão e tirou uma dama para dançar. Mas, poucos passos havia dado, quando a pesada mão de Bernardão pressionando-o fortemente pelo ombro o fez parar. E com sua voz estrondosa, o mestre-sala fez o dance parar ao dizer apontando o dedo para o interlocutor:

- O rapaz num tem permissão pra dançá aqui, não! Solte a dama e suma-se!

Sem sequer olhar para o rosto do mestre-sala que o segurava pelo ombro, o jovem num salto livrou-se dele caindo agachado a alguns metros de distância. Confiante na sua força, Bernardão partiu para dominá-lo, mas freou bruscamente ao perceber que este arrancara das botinas uma faca reluzente e uma moderna pistola.

- E agora desapareça todo mundo daqui que tenho um assunto pessoal pra resolver! - Falou deu um tiro para ao alto, mas antes que o fizesse a quase totalidade dos presentes já havia debandado gritando e correndo jurema adentro.

- Calma aí, rapaz... - Tentou negociar Bernardão.

- Cala tua boca, capacho! E senta ali, perto do teu patrão e daquela corja de frouxo que tá se tremendo feito vara verde. Vou fazer nada com ninguém não. Vou nem rasgar teu fole de faca, sanfoneiro... Agora, aquele que se mexer e tentar qualquer muganga, encho o focinho de bala.

- Zé, se alembre qui cuidei de você, como um pai. Você me deve consideração. - Falou o pai da noiva.

- Mentira! Você me explorou. Nunca tive pai, nem mãe, nem ninguém... E tive, sim você, Juliana. A única pessoa que me fez ver que sou gente. A única pessoa capaz de me transformar em um homem decente...

Abraçada à mãe, só naquele momento Juliana recobrou um pouco da calma para, mesmo assustada, olhar no rosto do amigo.

- Mas o qui qué de nóis? Dinheiro? Num tem nada aqui. Gastamo tudo cum esse casóro. - Falou o dono da casa.

- Quero dinheiro não, velho! Só quero fazer uma perguntinha, e prometo que depois jamais pisarei nas terras de Mericó.

- Mai se era só isso, purque tanta confusão? Pergunte logo, homi de Deus!

- Sobe na garupa do meu cavalo e vem comigo, Juliana?

Um silêncio absoluto tomou conta do local. Pais, noivos, até os músicos se entreolhavam parecendo não acreditar no que ouviram. Só após muito esforço o pai, não conseguindo mais calar diante de tamanha afronta e esquecendo-se da pistola do desafiante, ergueu-se de um salto e gritou com o dedo em riste:

- Você endoidou de vez, foi? Tá veno qui minha fia acaba de se casá, seu muleque?

- Isso mesmo, a gente acabou de se casar. Resmungou o noivo, espremendo-se e protegendo-se entre os pais.

- Seu tempo de me gritar já passou, João Batalhão. E você aí, seu boneco de casca de melancia, se aquiete, que você não é homem pra essa mulher!

O silêncio voltou a reinar por alguns segundos.  Zé, aos poucos e sem dar as costas para os adversários, afastou-se do grupo, saltou sobre o cavalo preso a uma das estacas da cobertura e, pela última vez, falou. E desde que retornara à Mericó, foi a primeira vez que se ouviu e sentiu a serenidade que se escondia nas máscaras que a dureza da vida lhe ensinara a usar:

- Juliana, minha Juliana... Cumpri minha promessa. Aqui tá a minha garupa. Venha comigo que esse mundão de Nosso Sinhô nos espera pra gente construir o nosso paraíso.

Livrando-se bruscamente dos braços da mãe, do pai e do noivo, a moça levantou-se caminhou em direção ao jovem e, do meio do salão vazio, virando-se para os familiares transtornados falou:

- Meu pai, minha mãe... Se um dia puderem me perdoar, me perdoem. Mas eu vou! -  Disse e saltou na garupa do possante cavalo que, em poucos segundos, sumiu na curva da estrada enluarada.
conto das terras do mericó - 11
por Aldenir Dantas *
NO DIA DO CASAMENTO
DE SUA FILHA JULIANA
* Conto integrante do livro inédito Histórias Mal Contadas das Terras do Mericó.
Aldenir Dantas é poeta e escritor, especialista em
Ensino à Distância e mestrando em Ciências da Educação

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