Contamos com sua
parceria para
seguirmos em frente
Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


Planeta Jota é um site independente com um olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com esse projeto iniciado há 22 anos.
A cada doação você pode solicitar um livro digital ou um fac-símile da seção Documento

Obrigado por sua colaboração.

 
vitrine pj
tv sapiens
conto das terras do mericó - 4
por Aldenir Dantas *
A viola e o sapo
"Uma explosão de gargalhadas tomou conta do salão. Chico Torto, com o rosto vermelho igual a um camarão frito, num ímpeto, levantou-se e, segurando a viola pelo braço com as duas mãos, afundou o tampo traseiro na cabeça do colega."
Ao lado do mercado de Mericó ficava o hotel de Dona Moça. Pode parecer estranho uma cidade daquele tamanho com um hotel, mas este era, apenas, o nome dado a um misto de bar, restaurante e casa de arrancho, acrescido de uma saleta reservada, onde se jogava um carteado ou um bozó.

Ali os feirantes do sítio deixavam a selaria dos animais e os sacos de feira, tomavam café, almoçavam uma buchada, um picado ou um bode torrado, temperavam a alma com uma bicada de brejeira e, alguns, arriscavam a sorte. Mas o melhor de tudo era o proseado entre compadres: as novidades, as notícias da família, das chuvas, da lavoura, das colheitas...  

Era comum, de passagem pela cidade, uma dupla de violeiros repentistas se arranchar no hotel. Todos aqueles freqüentadores apreciavam uma boa cantoria, principalmente Dona Moça, devido à significativa melhora que esta trazia para o apurado.

Naqueles dias, Mericó vivia o seu melhor momento econômico com a venda da safra do algodão. Nos dias de feira, via-se até menino endinheirado empanturrando-se com quebra-queixo, solda preta e ki-suco de groselha gelado. E foi em um daqueles dias que por lá se arrancharam Chico Torto e Beija flor, uma dupla de violeiros.

Chico Torto tinha uma voz possante e um improviso rápido, fulminante. Contudo, perdia um pouco na empatia com o público, talvez, por ser meio carrancudo. Além do mais, tinha um problema físico que lhe tolhia os movimentos da cabeça. A primeira vista, parecia que sofrera um torcicolo, mas, o problema era de nascença. Daí a alcunha, que, com notório esforço, aceitava.

Beija flor era muito jovem, no máximo, 21 anos e, facilmente, cativava o público. Simpático, boa presença, muito bem-humorado e, considerando-se a pouca experiência, era bom de viola e de improviso. 

A cantoria começou às dez da manhã e, não demorou muito, passou a contar com um público pouco comum por ali: as moças tomando conhecimento de um cantador jovem, bonito e galanteador foram se achegando e, em pouco tempo, o salão de Dona Moça era de um colorido de dar gosto.

Mesmo não contribuindo com a bandeja dos vates, as meninas traziam inspiração para os apologistas que não paravam de pedir motes e canções falando de amor, de moça bonita, dessas coisas e, assim, engordavam o cachê dos artistas.

- Cinco contos de réis, por um desafio, bem malcriado!

Gritou João Julião, afamado por sua bravura no trato com boi mandingueiro, cavalo xucro e com o que mais lhe desafiasse, fosse bicho, ou fosse alma, desse mundo ou do outro.

O salão lotado, menino sentado pelo chão, Dona Branca correndo como nunca para atender à freguesia e os dois se pegaram num desafio espalhando gargalhadas às pampas.

Como é de praxe nessa modalidade de cantoria, um desfazia do outro dizendo que ele não sabia cantar, que iria dar-lhe uma surra, que era feio e coisas do gênero. O outro respondia no mesmo tom e quanto maior e mais engraçado o agravo, mais o povo ria.

Chico Torto impressionava pela rapidez com que respondia às provocações do parceiro, mas parecia não agradar muito, talvez pela sisudez e pela aparência que levava o público feminino a se voltar para Beija flor.

Este, mesmo não possuindo a experiência do colega, cativava o público pela simpatia e pela empatia com os mais jovens. Por mais pesada que fosse a agressão verbal do companheiro, mantinha-se ele sorridente e, simplesmente, respondia com outra provocação, conforme reza o estilo. Mas quando conseguia construir um verso mais vigoroso e provocativo, percebia a alteração no semblante do parceiro, que chegava a mudar de cor e entumescer o pescoço como se estivesse prestes a ter um acesso de fúria.

Para alguém desacostumado com cantorias, aquele festival de impropérios seguido de gargalhadas e aquele cantador com a cara amarrada, avermelhado e com as veias do pescoço prestes a estourar, constituíam iminente risco de uma grave confusão.  Mas as cantorias eram assim mesmo. A parte melhor e mais emocionante era o desafio e tudo não passava de uma brincadeira.

A peleja seguia com a tensão aumentando a cada sextilha quando, ao ser comparado pelo colega a um calango cego, devido à sua estatura baixa e franzina, Beija flor respondeu:

            Feiúra você vai ver

            Se olhar pro espelho um dia

            Sou magro, mas tenho porte

            E você parece um caçote           

            Quando está no pé do pote      

            Agarrado com a jia.

Uma explosão de gargalhadas tomou conta do salão. Chico Torto, com o rosto vermelho igual a um camarão frito, num ímpeto, levantou-se e, segurando a viola pelo braço com as duas mãos, bateu violentamente com o instrumento no colega, afundando o tampo traseiro em sua cabeça. 

Sem esperar reação, em meio ao tumulto, o agressor tratou de correr, mas, não teve sorte. O cabo Teixeira, delegado da cidade, que também gostava de uma boa cantoria, estava ali, em pé, à porta, à paisana e, sem nenhum alarde, segurou-o pela abertura da camisa e disse-lhe:

- Têje preso, sujeito!
* Conto integrante do livro inédito Histórias Mal Contadas das Terras do Mericó.
Aldenir Dantas é poeta e escritor, especialista em
Ensino à Distância e mestrando em Ciências da Educação

Seu comentário
Comentários
Nome:
Email:
Comentário:
Leia também, do mesmo autor:
A Traíra e o Pote de Zeca Preto
A Criatura Mais linda
Marta Maori, 09/06/13 - Quando li o conto de Aldenir foi como se eu voltasse a calçada de minha casinha na infância e ouvisse outra vez mamãe e papai contarem "causos" ouvidos de meus avós, isso é uma maravilhaaaaaaa!

Jomar morais, 10/06/13 - E vem mais aí, Marta. Fique ligada no PJ.

José da Costa Junior Duda, 11/06/13 - Me deliciei, mais uma vez, com esse conto do Aldenir. Me remeto as férias que passava na fazenda de um tio, no sertão de Angicos. Inda visito esse Mericó. Deve ser um lugar lindo de se viver, preservando toda a cultura nordestina.

Jomar Morais, 12/06/13 - Concordo, Duda. Aldenir é multitalentoso e uma de suas especialidades é ser cronista da caatinga.

Aldenir Dantas, 16/06/13 - Meu caro Duda, acho que maioria de nós tem um pé na cidade grande e outro em uma Mericó. É tão marcante o contato com esse universo de pessoas e coisas simples, que a gente nunca esquece.
Valeu, amigo. Um Abraço.