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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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Dr. João Raposo Fernandes foi o primeiro filho de Mericó a conseguir esse título ou, melhor dizendo, essa forma de tratamento. A princípio, algumas pessoas não o levavam a sério porque doutor, no entendimento delas, era quem consultava os doentes. Mas como  era formado, acabaram se acostumando por tratá-lo assim, e ele gostava que assim fosse.

Ainda criança, João Raposo foi para São Paulo com os pais e, quarenta anos depois, retornara empertigado, falando bonito e pregando aos quatro cantos que era descendente do fundador daquela cidade, de quem, com muita honra, herdara o sangue e o nome.

De fato, Mericó surgiu a partir da instalação de uma fazendola, por João Raposo Fernandes, mais conhecido como Jotão Raposo, às margens do riacho do Melão.  Isso ocorreu em meados do século XIX, mas ainda havia muita gente na cidade com o sobrenome Fernandes proveniente do desbravador, que deixou uma dezena de filhos espalhados por Mericó e redondezas. Todavia, mesmo sabendo-se descendente do fundador da cidade, ninguém ostentava orgulho acima do normal mesmo quando, na escola, os professores trabalhavam os aspectos históricos do município.

Quando Jotão Raposo morreu, com quase cem anos de idade, os filhos e genros já haviam construído um aglomerado de casas e erguido uma capela, dando origem a vila de Mericó, originária da fazenda homônima. 

Uma questão jamais resolvida foi a origem do nome Mericó.  Muitas especulações foram feitas, mas nenhuma suficientemente fundamentada para se sustentar. Passou-se, assim, a aceitar que foi coisa da cabeça de Jotão Raposo. Conta-se que, ao adquirir aquele pedaço de terra, jovem e recém-casado, enquanto construía um casebre de taipa para se instalar, dirigiu-se à esposa e, em tom profético, disse:

- O nome deste lugar será fazenda Mericó! E é aqui que a gente vai viver nossos dias de vida e criar nossos filhos e netos!

E assim aconteceu. Jotão Raposo, ao fechar os olhos para o mundo, cercado de filhos, noras, netos, bisnetos, moradores e agregados, tinha o semblante de um homem realizado. Mesmo não chegando a deter grandes posses, sempre foi tido por um homem muito trabalhador, honesto e respeitado em toda a região.

E agora, o doutor, cheio daquela conversa bonita que encantava uns e enchia a paciência de outros, passara a fazer uma acirrada campanha em prol da mudança do nome da cidade.

- Mericó! O que quer dizer Mericó? Esse nome antigo, sem sentido, não quer dizer nada! Conclamo todos os moradores desta cidade a travarmos uma cruzada pela mudança desse nome! E faço isso em honra daquele que plantou aqui a primeira semente, que construiu aqui a primeira casa, que gerou aqui o primeiro filho dessas terras: O nosso herói, benfeitor e desbravador João Raposo Fernandes, cujo sangue honra-me carregar nas veias!

Sua empolgação era tamanha que, ao falar, sempre se formava um círculo de pessoas a sua volta. Afinal, era o primeiro doutor filho daquelas terras e jamais alguém tinha falado daquele jeito por ali. Nem os políticos de Santa Cruz ou da capital, que apareciam nas épocas de eleições falavam daquele jeito.

- Vamos, portanto, exigir dos vereadores e do prefeito que façam uma lei mudando o nome da cidade. Que ela passe a ter um nome decente, moderno, que atraia o progresso, que brilhe nas páginas dos jornais. Numa justa e merecida homenagem ao nosso fundador, vamos mudar o nome de Mericó para Fernandópolis!

- Eita, compadre Chico. Se mudar pra esse nome, acho que tem muita gente daqui que não vai é saber dizer. 

- Invenção besta desse sujeito, compadre!

- É, mas tem muita gente gostando da idéia. O sinhô sabe... O povo gosta de novidade.

O doutor acreditava na tendência dos jovens de aderirem a ideias novas, rejeitando o passado, coisa de gente velha.  E foi a partir dessa crença que implementou sua campanha através deste segmento, chegando a visitar a escola, falar com orgulho da sua condição de filho bem sucedido daquela cidade, do seu amor por ela e da sua disposição de lutar pelo seu futuro, seu progresso.

- Mericó, meus jovens! O que tem esse nome a ver com o progresso? Mericó tem a ver com brocoió, caritó, catimbó, cafundó... Quem poderia se orgulhar de morar numa cidade com um nome assim? Alguém aqui já ouviu falar em Dom Pedro?

- Sim, doutor! A gente estudou sobre dom Pedro I, dom Pedro II e a princesa Isabel.

- Pois, meus jovens, dom Pedro fundou uma cidade que, em homenagem ao seu nome ficou sendo chama de Petrópolis. Vocês não acham justo que Mericó passe a se chamar Fernandópolis, em homenagem ao seu fundador?

Aliando-se aos mais jovens, a campanha do Doutor ganhou as ruas e não tardou ser aceita pela grande maioria da população.  Quase ninguém tinha dúvidas que dizer “eu sou de Fernandópolis” soava muito melhor, era muito mais elegante e moderno do que dizer “eu sou de Mericó”. A pressão aumentou a tal ponto que o prefeito e os vereadores não tiveram outra alternativa, senão, reunirem-se para discutir o assunto. A discussão foi calorosa, com a presença de populares instigados a pressionar os legisladores, alguns dos quais já estavam propensos a aprovar a mudança, mas, após longas horas de tensa e inflamada discussão, chegou-se a um consenso, a partir de uma ponderação do prefeito, homem de pouca instrução, mas de muito bom senso:

- Isso é um assunto muito sério pra ser decidido em meio a essa confusão toda. Vamos deixar que o povo decida esta questão. Proponho uma consulta popular. Se a maioria votar pela mudança, vocês aprovam votam a lei e eu sanciono.

Todos saíram satisfeitos com a proposta, até o doutor, pois tinha certeza de que, continuando sua campanha, não haveria o menor risco da mudança não ser aprovada. E assim, confeccionou panfletos e remunerando algumas pessoas, intensificou a campanha.

Chegado o dia, ninguém tinha dúvidas: Mericó iria mudar de nome, mesmo contra a vontade de uma meia dúzia de pessoas, especialmente, das mais velhas.

O mercado público transformou-se numa grande sessão eleitoral e os esforços do doutor foram intensificados para que ninguém deixasse de votar. Sua última cartada foi prometer:

- Se a minha querida cidade receber o ilustre nome de que é merecedora, trarei a banda de música de Irapuru para tocar na praça e farei um grande churrasco, tudo de graça, para o povo.

A tarde era uma daquelas amareladas, com uma leve brisa de outono soprando sobre a eternamente antiga Mericó. O Juiz da sessão, tocando uma campainha, deu por encerrado o pleito e convidou todos os envolvidos no processo para a contagem e conferência dos votos. O povo, curioso e isolado da mesa apuradora por uma corda, quase lotava o mercado para acompanhar os resultados:

- Fernandópolis! Fernandópolis! Fernandópolis! Fernandópolis! Fernandópolis! Fernandópolis! Fernandópolis! Mericó!

- Haaaaaaaaaaaaah!

O Presidente parou a apuração e admoestou severamente os populares:

- Se os senhores e senhoras não se comportarem como pessoas civilizadas, mando o cabo Teixeira evacuar o espaço.

- Vige, comadre... Eu já ouvi dizer que evacuar é fazer aquilo que a gente faz na casinha!

- Sei lá dessas falas de doutor... Mas presta atenção, comadre! Presta atenção!

A apuração caminhava para o final com uma vitória esmagadora a favor da mudança do nome. Ao redor da mesa os escrutinadores compenetrados contavam e anotavam os votos retirando-os de uma caixa de papelão e colocando-os em outra.

O semblante da vitória estava no ar. O Doutor, enfim, relaxara após tantos dias de discursos, visitas, favores, promessas, gorjetas... Silenciosamente, acalentava a próxima semente a ser plantada:

Fernandópolis poderia, e irá ter em breve, o seu primeiro prefeito formado, e, como se não bastasse, com o nome idêntico ao do fundador da cidade do qual era descente. Enquanto viajava em sonhos, uma leve brisa começou soprar-lhe a cabeleira. Ele fechou os olhos desfrutando o prazer da vitória daquele momento e das que estariam por vir.

Mas a brisa foi aumentando e não mais acariciava, sacudia e, em poucos minutos, tomava ares de redemoinho... Enfim, um redemoinho enorme formou-se no largo da feira, em frente ao mercado, levantando grande quantidade de poeira, papel, lixo, restos da feira e, aumentando cada vez mais, transformou-se numa nuvem avermelhada de poeira e adentrou o mercado enchendo os olhos de todos de areia, revirando tudo de forma aterradora. 

Ninguém havia presenciado uma coisa daquelas por ali... E, antes que se tomasse alguma providência, o vento em espiral aumentava, fazendo um forte zumbido enquanto  as pessoas com os olhos cegos de poeira,  seguravam-se uma nas outras assustadas, num enorme alvoroço.  Ouviu-se um grande estalo e logo percebeu-se que parte do teto do mercado havia voado pelos ares. E, em meio ao tumulto e a gritaria, a multidão viu, estupefata, todos os papéis que se achavam sobre mesa subindo em espiral e, junto com o lixo e a poeira arrastada pela ventania, ganhando os céus de Mericó. Votos contados, votos não contados, folhas de freqüência, documentos, tudo... Não restou nada.

Os responsáveis pelo plebiscito, desnorteados, de mãos vazias e diante da mesa, igualmente vazia, olhavam uns para os outros sem saber o que dizer. A população do lado de fora, ainda aterrorizada, contemplava os céus, onde boiava uma nuvem avermelhada de poeira e em meio a esta uma revoada de votos subindo, subindo, espalhando-se, dispersando-se para muito longe.

A difusora roufenha da praça nunca funcionava naquele horário, mas, naquele tarde, entrou no ar em edição especial. Após anunciar o caráter extraordinário do momento, o locutor chamou a atenção de todos para um pronunciamento do senhor prefeito:

- Meus caros conterrâneos, vocês todos foram testemunhas da resposta das forças da natureza e quem sabe, do próprio finado Jotão Raposo, a nossa maluquice de querer mudar o nome desta cidade. Nome este que ele mesmo escolheu. Graças a Deus e ao Divino Espírito Santo, fomos impedidos de cometer esse sacrilégio. E digo mais, Mericó poderá mudar de nome um dia, mas só se for por cima do meu cadáver. E tenho dito! E que seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo.

Nos dias seguintes, assustado e envergonhado, o povo evitava tocar no assunto, mas sempre que alguém o fazia, os comentários eram os mesmos:

- O prefeito ta com a razão.
conto das terras do mericó - 5
por Aldenir Dantas *
A resposta da natureza
"A tarde era uma daquelas amareladas, com uma leve brisa de outono soprando sobre a eternamente antiga Mericó. O juiz, tocando uma campainha, deu por encerrado o pleito e convidou todos para a contagem dos votos. Mas foi aí que o inesperado mostrou a cara e mudou o rumo da história"
* Conto integrante do livro inédito Histórias Mal Contadas das Terras do Mericó.
Aldenir Dantas é poeta e escritor, especialista em
Ensino à Distância e mestrando em Ciências da Educação

Comentários
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José da Costa Junior Duda, 12/08/13 - Entendo que o furacão foi providencial e que o prefeito tem razão. Mericó tem coisas maravilhosas , seu povo, seus causos e também o seu nome.Que ninguém passe por cima do cadáver do seu Prefeito. Abraços,  Duda.

Manoel, 12/08/13 - Mericó é demais! Parabéns, autor.

Aldenir Dantas, 14/08/13 - Amigo José Costa DUDA, de fato, Mericó tem coisas maravilhosas. E com os amigos generosos conquistados neste espaço agrega maravilhas a cada dia. Valeu, meu caro. Um abraço.

Aldenir Dantas, 14/05/13 - Obrigado, meu caro Manoel. Segundo a Teoria da Literatura, o texto se constrói na recepção. Portanto, você é, também, um construtor de Mericó.

Tonita Hipólito, 14/08/13 - A escrita simples, a leveza e o humor do autor
torna a leitura prazerosa, e as surpresas ficam por conta do invisível, do aterrador, do sobrenatural que resolvem qualquer questão. Adoro Mericó.
Sou fã deste escritor.

Aldenir Dantas, 15/08/13 - Minha cara Tonita, com tanta gente por aí sonhando com Disney World, New York City, Dubai, etc, gosto muito de encontrar pessoas que ainda simpatizam com as Mericós desse Brasilzão.
Valeu! Muito obrigado.
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