Na sua pequenez, naqueles idos anos setenta, não há quem, em sã consciência, possa dizer que em Mericó não acontecia de quase tudo.

Havia entrado o mês de junho, com aquela frieza que deixava todo mundo amofumbado dentro de casa, saindo à noite apenas os que tinham negócios, ou um bom casaco de frio e, mesmo assim, voltando cedo. Além do mais, naqueles tempos, ninguém ficava até tarde nas ruas. A energia de Paulo Afonso ainda não havia chegado e o motor da luz era desligado às nove horas.

Mas os encontros de boca-de-noite na bodega de dona Menina sobreviviam à friagem e de lá surgiu a notícia de um lobisomem que andava assustando os moradores do beco das almas.

Zé Dedin, que perdera o dedo na luta com uma raposa choca, além de destemido, não acreditava nessas coisas do outro mundo e, além de não acreditar, gostava de desafiá-las.

- Homem, quer saber de uma coisa? Além de Dedin, eu também sou é doidim! Doidim pra encontrar um lobisomem desses numa esquina! Aí eu quero ver se o bicho é mesmo do outro mundo, quando lhe arrancar uma tira do coro do espinhaço com uma peixeira de 12 polegadas!

- Compadre, não diga isso que a coisa é séria!
- Também acho que isso não é invenção, não! Compadre Cipriano, que não é homem de mentira, não chegou a vê-lo, mas escutou o bicho passando pelo beco. E era mais ou menos meia-noite.

- É verdade. E mesmo não sendo um homem medroso, o compadre se arrepiou todo. E tem mais: ele disse que o bicho não andava como gente, seus cascos eram duros e batendo nas pedras fazia mais barulho do que um cavalo.

- E dizem que o bicho só aparece nas sextas-feiras, por volta de meia-noite. Sua passagem é sempre por ali. O povo anda tão assustado que, de sete horas da noite, já está todo mundo de porta batida.

Passada uma semana, novas notícias do lobisomem voltaram a ocupar as conversas noturnas.

- Compadre Jacinto ficou de pastora, olhando pela brecha da porta! E como a noite estava meio clara ele viu, mesmo, o bicho. Era uma monstruosidade!

- É. E compadre Jacinto também não é homem de mentira.

- Ele disse que o bicho, mesmo andando como homem, era meio corcunda e tinha a pele, Deus me livre, assim como um bode preto. E o barulho dos cascos no chão, parecia as pisadas de um burro.

- Santo Deus! Isso é coisa do cramunhão! O melhor que se faz é ir atrás do Cabo para dar um jeito nessa marmota. Faça alguma coisa, compadre Zé Dedin!

- E vou fazer mesmo, comadre Menina. Mas sou lá homem de precisar de polícia pra dá cabo de uma presepada dessas! Espere que a senhora logo, logo vai ouvir a notícia.
Falou e saiu. Alguns riram, outros balançaram a cabeça em sinal de descrédito e outro falou:

- Esse Zé Dedin tem é muita pabulagem.

- Mas também é um cabra de coragem. E já deu prova disso!

De fato, o homem era mesmo corajoso. E dispensando os serviços da polícia, naquela sexta-feira, tomou duas lapadas de brejeira com anil estrelado, colocou a peixeira na cintura e, munido de um porrete de aroeira, dirigiu-se ao local do mal-assombro por volta das onze horas da noite.

Havia uma frondosa mangueira na esquina da rua do Mercado com o beco das almas e, segundo os relatos, o bicho sempre passava por ali. Escanchando-se num galho e camuflando-se entre as folhas, Zé Dedin montou guarda durante uma hora até que começou ouvir umas pisadas estranhas vindas pelo beco, em sua direção.

Conforme haviam dito, parecia que o bicho tinha, mesmo, os cascos de madeira. Zé arrepiou-se todo e, olhando por entre as folhas, divisou ao longe na penumbra da noite, levemente enluarada, uma figura descomunal vindo em sua direção. Pela primeira vez, o valente Zé Dedin sentiu medo, e disse para si mesmo:

- Eita que esse bicho ta me dando é um medo danado! Mas não vou desonrar minhas calças por causa dessa presepada, não!

Assim pensava, quando o bicho alcançou o ponto em que o espreitava. Sem pensar no medo que o invadira, pulou nas costa da fera, acertando-lhe, simultaneamente, uma porretada na cabeça que o fez cair por terra.

Não havia mais risco. Agora podia acender a lanterna e olhar a cara do desventurado. E assim fez, com a faca em punho, pronto para sangrá-lo, mas, à luz da lâmpada, o mostrengo negro e peludo revelou-se um homem envolto em uma pele de bode e com umas quengas de coco amarradas às sandálias. Zé Dedin desemborcou a vítima ao mesmo tempo em que esta recobrou a consciência:

- Seu João Felizardo, pelo amor de Deus! Quase lhe matei, homem de Deus! Como é que o senhor, um comericante tão respeitado, faz uma presepada dessas?

- Mulher, Zé Dedin. O homem se mete em cada enrascada por causa de um rabo de saia! Foi o jeito que achei de fazer umas visitas a uma cabrocha que mora ali pra baixo, sem que ninguém me descobrisse. Agora, tô morto de vergonha. Se o povo de Mericó souber disso, o que vai ser de mim? E a minha mulher?

- Lhe devo muito favor, seu João. Me ajudou muito nas horas de precisão. Vamos esquecer essa história. Apenas vou dizer que botei o bicho pra correr e ele nunca mais vai aparecer por aqui. E ainda vou arrancar um punhado do cabelo desse coro de bode, como prova.

- Eu estou sem saber onde botar a cara, de tanta vergonha. Mas lhe fico muito grato, Zé. E ainda vou lhe dar um agrado, como sinal do meu reconhecimento.

No dia seguinte, não se falou em outra coisa: Zé Dedin enfrentou o lobisomem, deu-lhe umas boas porretadas e só não matou o bicho porque ele fuigu.

- Comadre Menina, será que isso não é mentira daquele pabuloso?

- É não compadre! O povo do beco escutou tudo e ele até arrancou um punhado de cabelo do coisa ruim. Eu não vi porque não tive coragem, mas ele estava mostrando a todo mundo aqui na bodega. Verdade, mesmo, compadre!



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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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conto das terras do mericó - 7
por Aldenir Dantas *
O lobisomem e Zé Dedin
Não houve tempo para pensar. Após uma sacudidela do defunto, suas mãos brancas e enrugadas surgiram segurando a rede e logo apareceu sua cabeça seguida de um gesto de espanto e de um retumbante grito: "Bando de Satanás! Prá onde estão me levando?"
* Conto integrante do livro inédito Histórias Mal Contadas das Terras do Mericó.
Aldenir Dantas é poeta e escritor, especialista em
Ensino à Distância e mestrando em Ciências da Educação

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