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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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Biluca era um bom rapaz. Tido como pessoa prestativa e servidora, sempre estava presente nas
horas difíceis. Contudo, tinha um costume nada elogiável: propagar rapidamente uma notícia,
sem antes certificar-se da sua veracidade.  Afora isso, possuía muita habilidade para cuidar de
doentes e preparar mortos para o funeral, ofício que cumpria com muito devotamento, mesmo
quando os parentes não podiam recompensá-lo financeiramente.

Moreno, baixo e atarraxado, por não ter perfil para trabalho pesado, como brocar e tratar de um
roçado ou labutar nos motores de agave, após perder um emprego de servente na prefeitura, por
questões políticas, passou a viver de bico: ajudando em festas, tratando de enfermos, fazendo
limpeza em quintais e sepulturas e abastecendo casas com água da cisterna, para beber, e do
rio para o gasto.

A prática o transformara em exímio carregador d’água, sendo comum vê-lo rua acima, rua abaixo
em passo rápido e cadenciado, equilibrando com maestria a lata bem enrodilhada na cabeça,
para atender às famílias que não queriam ou podiam buscar sua própria água.

Mas a sua incurável paixão era política. Cabo eleitoral com tamanha desenvoltura não havia nas
redondezas. Animador de comícios, cantava, fazia versões das músicas do momento para os
seus candidatos e paródias com os da oposição. Por falta de sorte, o seu candidato perdera a
última eleição para prefeito e ele o seu emprego na prefeitura. Daí a necessidade de intensificar
suas atividades extras para garantir a sobrevivência, dele e da irmã viúva com quem morava.

Sempre que chegava à fila da cisterna pela manhã, cumprimentava todos, mas dava especial
atenção a quem, comumente, tinha novidades para contar ou disposição para compartilhar as
suas. E, assim, aconteceu naquele dia: ao chegar, seguiu apressadamente em direção às irmãs
Nega e Zefa do Ó, solteironas e lavadeiras que, juntamente com ele, formavam o que se podia
chamar de “o trio difusora de Mericó”.

- Bom dia, cumade Nega! Bom dia, dona Zefa!

- Bom dia, Biluca. Qui conta de novidade, hoje?

- Novidade? Só se for eu mermo! Quando vou sabê duma coisa, o povo já ta fei e besta de sabê.
- Falou, fez uma pausa e achegando-se das duas, perguntou baixinho - E ela, já chegou por aqui?

- Ela quem, minino? - Perguntou dona Zefa.

- Num vão me dizer qui num sabem do sucedido com Nininha de Zé Quelemente? - Falou,
fingindo surpresa.
 
- Homi, disimbucha logo. - Falou a comadre, ansiosa.

- Hoje, bem cedim butei umas cinco latas d’água do riacho pra dona Xixica lavá a casa. E como
ela mora de frente, viu tudo e me contou. Jurei segredo, mas vou contá só a vocês duas.  Pelas
caridade, num contem a ninguém!

- Oxi, Biluca! Você sabe muito bem qui a gente num gosta de cunversa...

- Era umas onze hora, parou um gipe in frente da casa dela, e como dona Xixica ainda tava
acordada, brechou pela janela e viu tudo...

- Tudo o que, homi? Deixa de arrudei e conta logo!

- Desceu um home bem granfino do carro, bateu na porta, ela abriu e já foi cum inxirimento, se
agarrano cum ele. Deus mi live e guarde! Dá vergonha até de contá...

- Afe! Santa mãe de Deus! Mas qui desavergonhamento do capiroto! 

- Eu digo: esse negóço de marido ir pro Goiás, casado de novo e deixá muié nova sozinha em
casa, só dá nisso. - Falou Nega do Ó, fez breve pausa e continuou. - Mas será qui num era o
marido dela, cumpade Biluca?

- Nada, cumade! Dona Xixica cunhece Mané Quelemente derna de minino. Se fosse, tinha
reconhecido. Só sei, qui o chofé foi simbora, os dois entraro pra dentro de casa, fecharo as porta
e o resto vocês imaginam, né?

- Ah, meu Sagrado Coração de Jesus! Qui marvadeza dessa muié! Se bem qui aquela sujeita
sempre me pareceu muito assanhada e animada pra uma muié casada.

- Num é Zefa, minha irmã? E pensá qui o coitado do marido foi vendido num pau de arara prá
Goiás, só com seis mês de casado buscá um mei de vida pros dois! Aí a bichota faz uma coisa
dessa.

Temporariamente satisfeito no seu vício, Biluca seguiu para o fim da fila onde, encontrando Zé de
Mariquinha, entabulou nova conversa.

- Mas Zé, visse qui coisa mais feia tão falano de Nininha de Zé Quelemente?

-  Sei de nada não. Qui foi, homi?

- Dona Xixica me contou, pidiu segredo, mas vou conta só pra tu. Num vá saí fofocano por aí,
não!

- E tu acha queu sou doido, é?

Dos vários pontos da fila, brotavam cochichos e comentários em torno do ocorrido:

- Ela andou butano gaia no coitado de Mané, um homi bom daquele qui é Deus no céu e a muié
na terra?

- Mas cumade, tu num sabe qui muié ruim é image do cão?

- Afe, Mãe de Deus! Cridito não!

- E esse carro d'água qui num chega! Tô cuma trouxa de roupa me esperano im casa pra ir bater
no riacho.

- Cumade e tu acha mermo qui eles ainda tão trancado dento de casa, até essa hora?

- Acho não, cumade, tenho é certeza, isso sim! Depois, o semvergonho sai pela porta da cuzinha
e ela inventa uma mintira. Tu num ouvisse dizê qui muié chifreira já inganou até o capeta?

Quando o carro-pipa apontou na esquina, o telefone sem fio já havia percorrido toda a fila com a
notícia, acrescida das naturais distorções inerentes a essa prática comunicativa.   

- Vixe! Lá vem ela, com a cara lavada, achano graça do tempo. Te esconjure, ramêra! - Falou
dona Nega virando o rosto para o lado oposto.

- A gente finge qui num sabe de nada. Mas num dá muita atenção... Essa aí morreu prá mim.
Quero é distança. - Falou dona Zefa, aproximando-se do ouvido da irmã, para não ser ouvida por
Nininha que já estava próxima.

- Bom dia, pessoá. É tanta coisa, qui acabei perdeno a hora. - Falou Nininha, com sua
costumeira simpatia, mas naquele dia, acrescida de um brilho no olhar e uma contagiante alegria.  

- Dormiu muito, né? Ficou acordada té de madrugada, foi? - Perguntou dona Nega olhando-a da
cabeças aos pés.

- Como adivinhou? Foi mermo! Deixe só eu contá... Vocês nem imagina! - Respondeu sem
atentar para o olhar da interlocutora.

- Deixa pra lá, acho qui a gente num qué nem imaginá e nem saber! - Respondeu dona Zefa,
cortando a conversa.

- Oxente! O qui deu em vocês? - Perguntou a recém chegada, demonstrando surpresa.

- Olhe, Nininha, num deu nada, sabe! Mas a gente aqui num vai querê sabê de nada dessas tua
patifaria, não!

- Patifaria, dona Nega?! Num sei do qui ta falano, não! Ta bom. Vou pra fila. Inté! - Falou e seguiu
transtornada para o fim da fila. 

Na manhã seguinte, Biluca foi um dos primeiros a chegar à fila da água. Não encontrando seus
parceiros e parceiras de conversa, assumiu o seu posto com a lata na mão e a rodilha presa à
cabeça por um elástico. Mas como não conseguia ficar calado por muito tempo, dirigiu-se à dona
Rita, a sua frente.

- Parece qui onte tava realmpiano pros lado do brejo.

- É. Zé meu marido viu.

- Calor danisco, a essa hora da manhã, né dona Rita?

- É. Parece qui esse mundo véi de Deus vai pegá fogo.

- Mais onte num vi a sinhora aqui. Tava duente?

- Não. Era roupa de mais pra lavá... De quatro da manhã descí pras cacimba, lavei uma trouxa do
tamanho do mundo.  - Falou e após breve pausa, continuou: - Mas Biluca, Nininha de Zé
Quelemente, cum aquela alegria toda vai fazê muita farta aqui, né?

- E ela foi simbora?

- Num me diga qui morando num lugá desse, do tamanho dum ovo, tu num sabia?

- Sabia não. Onte, depois de butá água nas casa, fui prum sítio cuidá dum veín qui ta morre num
morre. Num sabia, mas desconfiava qui isso ia acontecer. Mas qui disavergonhamento grande,
né dona Rita?

- Tais doido, homi? Disavergonhamento, de quê? O marido arrumou um emprego bom e mandou
buscá a muié. O irmão dela chegou ontonte à noite e onte de mei dia fôro pra Natá pegá o ônibu.

Biluca olhou para os lados e, antes que chegassem as irmãs do Ó e a fila começasse a se
estender, saiu rápido e de cabeça baixa, usando a desculpa de que o carro estava demorando e
tinha muito o que fazer.
conto das terras do mericó - 9
por Aldenir Dantas *
SEXO, MENTIRAS E LATAS D´ÁGUA
Na manhã seguinte, Biluca foi um dos primeiros a chegar à fila da água. Não encontrando seus parceiros e parceiras de conversa, assumiu o seu posto com a lata na mão e a rodilha presa à cabeça por um elástico. Mas como não conseguia ficar calado por muito tempo, dirigiu-se à dona Rita, a sua frente.


* Conto integrante do livro inédito Histórias Mal Contadas das Terras do Mericó.
Aldenir Dantas é poeta e escritor, especialista em
Ensino à Distância e mestrando em Ciências da Educação

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