Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 


tv sapiens
vitrine pj
COISAS DA ILHA

* Cheguei a Cuba durante a campanha para
a eleição da Assembléia Nacional, cujos
deputados escolhem o Conselho de
Ministros e o presidente do Conselho, que é
o chefe do governo. Nas ruas, nenhum
outdoor. Na TV, nenhum programa eleitoral.
Em áreas de maior circulação, encontrei
currículos de candidatos afixados em
vitrines. Os mesmos  mostrados pela
televisão no intervalo de alguns programas.
Lembrei da propaganda eleitoral imposta no
Brasil pelo governo militar, nos anos 70, ante
o crescimento do antigo MDB. Cubanos
disseram-me que a escolha dos candidatos
acontece livremente em reuniões de
quarteirão e bairro.
A SEDUÇÃO DE CUBA
Um país romântico que atrai por sua beleza, simpatia e sua polêmica saga histórica
por Jomar Morais
Caminho no fim de tarde pelo Malecón de
Havana. É um momento de beleza e poesia. O
crepúsculo destaca os edifícios no semicírculo
da baía, confrontando as ondas que se
debatem contra o imenso paredão. Havana é
romântica e, nessa hora, o Malecón - e, fora da
orla, os muitos parques e praças da cidade -
ficam repletos de crianças e de casais.

Havana é pobre e não adianta buscar aqui
facilidades high-techs a que estamos
acostumados. Inclusive a Internet, que na ilha
é básica, cara e, na maioria das vezes, não
funciona. Nem os hotéis de luxo de cadeias
internacionais superam limitações como essa.
Mas Havana consegue driblá-las com o
charme de seu patrimônio histórico-
arquitetônico, a mística do duelo de Cuba com
o gigante americano e, sobretudo, com a
simpatia de seu povo. Vale a pena conhecê-la
e a toda essa ilha polêmica e desafiadora.

À primeira vista, Cuba nos parece parada no
tempo. Havana, com 2 milhões de habitantes,
choca pela deterioração de grande parte da
cidade. E mesmo áreas rurais de rara beleza e
boa qualidade de vida, como Pinar del Rio e
Vinhales, nos causam a impressão de uma
viagem ao passado.

Prender-se a isso, porém, seria avaliar Cuba
apenas por critérios mercadológicos (e
ideológicos), sem levar em conta sua saga
histórica e sua opção por um modelo social
que lhe parece mais justo e igualitário - um
enorme desafio, tumultuado pelo jogo político
interno e externo e, principalmente, pelo lado
escuro da condição humana, hábil em sabotar
toda utopia.

A importância estratégica de Havana no
período colonial concedeu-lhe o privilégio da
atenção e de investimentos espanhóis que a
tornaram a cidade mais relevante do Novo
Mundo. Nada disso, no entanto, beneficiou a
massa de pobres e escravos de Cuba, cuja
má sorte continuaria após a independência e a
abolição da escravatura, nas décadas em que
o país viveu sob orientação direta dos Estados
Unidos.

Nesse tempo, Washington não só indicava
candidatos a presidente, como pagava os
salários dos primeiros mandatários de Cuba.
Empresas americanas ditavam a economia e
a máfia instalou uma sucursal em Havana,
cujo marco era o luxuoso Hotel Rivera. Jogo e
prostituição disseminaram-se, num ambiente
de insensibilidade social e racismo contra a
maioria crioula.

Acrescente-se a tudo isso a dura repressão
policial do último presidente avalizado por
Washington - Fulgêncio Batista - e se
entenderá porque, há 54 anos, um punhado de
jovens guerrilheiros conseguiu derrubar o
governo e como Fidel Castro, atuando sobre o
sentimento anti-americano e as marcas da
discriminação social, pôde dar a guinada
socialista, jogando dados no cenário da
"guerra fria".

Garantir habitação, ainda que precária,
alimentação básica, educação e assistência
médica ainda hoje é a visão do paraíso para
quem não tem acesso a esses direitos
essenciais. Por essa segurança mínima e
fundamental, os homens podem até abrir mão
(por algum tempo) de liberdades individuais,
não raro tisnadas de vil egoísmo.

Foi o que aconteceu em Cuba, com a sua
revolução socialista. Mas aí, como em todo
evento de tomada do poder pela força, logo
manifestou-se outro lado da história...

O LADO B DA ILHA

Chego à praça da catedral de Havana no
momento em que uma equipe de TV inglesa
filma a exibição de um grupo folclórico.
Quando o batuque cessa, do meio da
multidão, alguém grita: “Levem-me para Miami.
Agora eu tenho passaporte!” Não são poucos
os cubanos que querem sair do país e
experimentar uma vida com menos controle do
estado. Mas é um equívoco achar que a
maioria deseja uma virada radical.

Quando se rompem a desconfiança e o medo
que cercam as relações entre cubanos e,
principalmente, entre estes e estrangeiros se o
tema é política, percebe-se que eles aprovam
as conquistas sociais básicas do socialismo,
que suprimiram a fome, o racismo e a
discriminação social e universalizaram a
saúde e a educação, mas acham que a vida
pede mais que isso.

Há um descontentamento cada vez mais
explícito com a burocracia e a incompetência
que cerceiam voos de criatividade, limita
horizontes, gera privilégios e perpetua a
dependência da ilha, um ponto que fere o
exacerbado nacionalismo dos cubanos. E,
embora todos reconheçam o efeito devastador
do bloqueio econômico imposto pelos Estados
Unidos - o qual afasta da ilha os
transportadores, tornando fretes, preços e
mesmo o comércio impraticáveis para os
cubanos -, é ao estado que responsabilizam
pelo desabastecimento crônico e pelo imenso
descaso com o consumidor. Fora da cesta
básica assegurada pelo estado, a vida é cara,
muito cara para os cubanos e não há o que
fazer, senão ir queixar-se ao bispo.

É incômodo também para um cubano admitir
que seu país, até hoje, sempre sobreviveu à
sombra de um provedor externo: a Espanha,
depois os Estados Unidos, a falecida União
Soviética e, atualmente, a Venezuela, que
garante o petróleo, única fonte de energia de
Cuba. O bloqueio americano e a incapacidade
dos burocratas de gerir a economia (a
infraestrutura econômica está praticamente
destruída) mantiveram essa tradição que, no
âmbito interno, acabou impedindo o
crescimento e a renovação, combustível da
cultura de transgressão velada que os
cubanos adotaram como meio de
sobrevivência.

Após cinco décadas de socialismo, Cuba
enfrenta, além de uma crise econômica, uma
crise de valores morais que sempre estiveram
na base da virada ideológica. Devido aos
baixos salários, até profissionais
especializados em áreas técnicas estão
migrando para o setor turístico, onde se
sujeitam a trabalhar como faxineiros e
ascensoristas na esperança de faturar mais
com as gorjetas dos gringos. Outros se
tornaram “jineteros”, os atravessadores que
assediam turistas e que, não raro, se
envolvem em trapaças e até crimes. A
prostituição, que marcou o período da
influência americana até 1959, voltou a
mostrar a cara nas ruas de Havana (agora
também na versão masculina), ao lado da
mendicância, e cresceu o número de roubos e
até de assaltos.

Cuba vive uma transição que, certamente,
desembocará em mais abertura política e
flexibilização das regras econômicas, como,
aliás, já vem acontecendo sob o comando de
Raúl Castro. O culto à personalidade do líder,
uma marca da era Fidel Castro, cede à idéia
de colegiado. Desaparecem os outdoors de
exaltação socialista e, aos poucos, surgem
incentivos ao empreendedorismo, como a
abertura de pequenos restaurantes privados
(os paladares). Há uma lenta flexibilização nos
costumes e um desejo de dialogar mais com o
mundo, a começar pelos Estados Unidos.

ISTO É CUBA
O Museu da Revolução,  a torre de vigia da antiga muralha  de Havana e o blindado em que Fidel lutou contra mercenários na Baía dos Porcos, em 1961
O Capitólio de Havana, imitação do de Washington e antiga sede do Parlamento cubano, após a revolução socialista foi transformado em museu
Torre da embaixada da Rússia, em Havana: símbolo de poder no tempo em que a União  Soviética  bancava Cuba e duelava com os Estados Unidos
A Casa de Las Infusiones, na Calle Mercaderes, em Habana Vieja, era o pub preferido de Eça de Queiróz, quando ele foi consul de Portugal em Cuba, em 1872
Show folclórico no largo da catedral de Havana para a TV inglesa desanda quando alguém protesta: "Levem-me para Miami, eu já tenho passaporte!"

JM no apartamento 511 do Hotel Ambos Mundos, onde Ernest Heminguay viveu em 1939: mobília da época e, ao centro, a Olivetti em que ele escrevia
O taxi triciclo é uma das opções mais usadas em Cuba, onde o sistema de ônibus é precário e ter um
carro com mais de 30 anos é privilégio de poucos
CORES E SONS
A alegria cubana na cidade e no interior
Cartazes como estes e outodoors de exaltação ao socialismo, com Fidel Castro em primeiro plano,  agora são raros nos edifícios e ruas de Havana

Comentários anteriores
02/05/2013
Acima, pais levam seus filhos para pescar e apreciar o pôr-do-sol junto à fortaleza de San Salvador de la Punta. Ao lado, JM no bairro de Vedado, reduto da "classe média" de Havana e das críticas
ao governo.
Crianças a caminho da escola em Centro Habana: educação e saúde são áreas nas quais o governo
socialista garante atendimento bom e universal
Largo da igreja de São Francisco de Assis (hoje um museu) e JM diante do altar-mor da igreja de La Merces, onde o papa João Paulo II reuniu-se com religiosos: Cuba deixou de ser um "estado ateu" e tem até um Ministério das Religiões
Acima, JM na plantação de tabaco do agricultor Pepe, à direita, famoso pelos charutos que fabrica na hora para os turistas que vão a Vinhales. A região é uma das mais belas de Cuba, com suas montanhas, vales e cavernas, e apresenta alto índice de qualidade de vida, graças também ao turismo
Fábrica artesanal de rum em Pinar del Rio, cidade onde está uma das principais fábricas de charutos Cohiba (proibido fotos), os mais famosos de Cuba
CUBA E OS BRASILEIROS

A escolha do Brasil para início do périplo
turístico-político da blogueira cubana Yoani
Sánchez é significativa. Neste momento não
há país mais influente em Cuba do que o
Brasil. Nem mesmo a Venezuela, que
praticamente garante a sobrevivência
econômica da ilha com o fornecimento de
petróleo a preço camarada. Qualquer
brasileiro que viaje a Cuba pode constatar
isso, e comigo não foi diferente.

O Brasil soa como unanimidade entre
castristas e anticastristas e como um ideal
de vida para muitos cubanos, em que pese
seu nacionalismo apaixonado. Na verdade,
os cubanos tem biotipo e perfil psicológico
parecidos aos dos brasileiros e possuímos
heranças africanas comuns, o que por vezes
nos leva a achar que, estando em Cuba,
estamos na Bahia. Nem mesmo no período
em que uma Cuba marxista se declarava um
estado ateu, Iemanjá deixou de comparecer
todas as noites nas macumbas da santería,
o candomblé cubano.

Laços culturais e até as novelas da Globo,
que fazem sucesso na TV cubana, mantêm
a proximidade entre nossos povos, mas não
dá para esconder: é na política que ela se
amplia e se fortifica desde a ascensão do PT
ao Planalto.

Tive a sorte de chegar a Havana num
momento de eventos que realçaram ainda
mais esse aspecto da presença brasileira no
país, como é o caso da 3ª Conferência
Internacional para o Equilíbrio do Mundo,
promovida pela Unesco, e das
comemorações do 160º aniversário do herói
da independência cubana José Martí, em
janeiro passado. Estrela maior da
conferência da Unesco, com um discurso
crítico aos Estados Unidos, o ex-presidente
Lula foi recebido com honras de chefe de
estado e conduzido a visitar as obras do
porto e complexo industrial de Mariel, a maior
obra de infra-estrutura já realizada em Cuba,
com financiamento do governo brasileiro,
hoje a grande esperança da economia
cubana. No mesmo evento, Frei Beto foi
agraciado com um diploma de benfeitor da
humanidade e, nas comemorações de Martí,
o escritor Fernando Morais brilhou com o
lançamento da edição em espanhol de seu
livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria,
sobre cinco cubanos detidos há 15 anos em
Miami.

Apesar da presença em Havana de muitos
políticos e intelectuais do continente, foram
Lula, Beto e Morais que ganharam destaque
na TV e no “Granma” e “Juventud Rebelde”,
os principais jornais cubanos, editados pelo
Partido Comunista, hoje reduzidos a
tablóides de 8 páginas. Os três brasileiros
são nomes populares em Cuba, onde até as
pedras sabem que foi Frei Beto, amigo
pessoal de Fidel Castro, quem o convenceu
a desistir do ateísmo oficial e a promover a
abertura religiosa na ilha.

Aqui, Yoani disse que, se quisesse, o
governo brasileiro poderia contribuir mais
para mudanças em Cuba. Pode ser. Se a
morte de Hugo Chávez mudar os rumos
políticos na Venezuela, Cuba terá ainda mais
razões para apostar no Brasil.

Lula, o Brasil e a cultura brasileira são sempre destacados nos jornais e na TV de Cuba
Propaganda eleitoral em Cuba: currículos na vitrine e na televisão, como no Brasil dos anos 1970

* Cuba convive com duas moedas. O peso
cubano, equivalente a 0,024 de dólar, é o
dinheiro do cidadão. Serve para pagar
salários, alimentos, transporte e outras
despesas básicas. Nesse nível, a vida é
muito barata para os cubanos, embora seus
salários sejam irrisórios. O resto só pode ser
adquirido com CUC, o cubano convertível,
equivalente a  cerca de 0,80 de euro no
câmbio oficial (fevereiro/2013), única moeda
ao alcance dos turistas.
GENTE CAMARADA >>>

O povo cubano é bonito. Beleza negra, que
espelha a maioria da população. Beleza
morena, praticamente igual ao biotipo do
brasileiro. Beleza branca, herdada dos
espanhóis e holandeses que se instalaram na
ilha, ao tempo em que era habitada  apenas
por nativos, os índios - outra beleza refletida na
gente cubana - de cujo idioma surgiu a palavra
Cuba, que quer dizer terra do tabaco.

O povo cubano é saudável. Embora nas ruas
apareçam alguns alcóolatras com sinais de
desnutrição (não há consumo de drogas
pesadas), a população, sobretudo, as crianças
têm aparência saudável. O cubano é limpo e
elegante, em que pese a simplicidade de suas
vestes. É simpático e, geralmente, prestativo.

As mulheres são sensuais e, não raro,
ousadas. Há muita liberalidade sexual. Em
toda parte, homens saúdam a passagem de
uma bela mulher com o gesto de dar um
cascudo na palma da mão esquerda, o que
significa... bom, você sabe. A
homossexualidade já foi punida com prisão em
campos de trabalho, mas hoje é,
aparentemente tolerada, mas não organizada
em movimento gay. Pode-se ver até travestis
desfilando  em frente ao Capitólio, mas sob
apupos de cubanos indignados com a cena,
impensável nos anos de fervor revolucionário e
repressão.

JM e o economista aposentado Arcádio Avalos,
ex-dirigente no governo municipal de Bayamo
JM e o agricultor Pepe, em Vinhales: produção de charuto artesanal e cafezinho na casa da fazendola
JM e a médica Janet Noa com o filho e o sobrinho: tour em Havana foi presente dela para as crianças
JM na pousada temática Mesón de la Flota, Havana: gentileza, mas preço 50% maior que no México
A  vendedora de amendoim no calcadão da calle Obispo: foto dela? Só se levar um pacotinho
Música cubana tradicional no restaurante em Vinhales: romantismo, ritmo e simpatia da banda
Jorge de Castro, 24/05/13 - Prezado Jomar, estive em Cuba, faz dois anos. Não tive a satisfação de fazer um périplo como o seu. Fiquei inicialmente em Habana e depois fui para Varadero. Portanto, não consegui sentir tanto a verdadeira Cuba, entrando em seu interior. Acho que Santiago de Cuba deve ser uma cidade com um astral diferenciado. Entretanto, mesmo sem a sua experiência, senti esse clima relatado tão bem por você. Achei Cuba fascinante! A maior emoção que senti foi na Plaza de La Revolucion. Há no ar algo espetacular! Cuba é fantástica na sua simplicidade.

Jomar Morais, 25/05/13 - Infelizmente, caro Jorge, também não tive a chance de ir até Santiago de Cuba e a Guantánamo, como desejava. Santiago é coração da Cuba negra, riquíssima em cultura e tradição. Espero voltar à ilha.
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