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Massacres em Suzano e ChristChurch
Por dentro dos fóruns que disseminam ódio
e assessoram no planejamento de crimes
por LEONARDO COELHO E MARIA TERESA CRUZ (PONTE)


“Descobriram o perfil do herói”, escreve um anônimo, sob o pseudônimo de Sanctvs, no Dogolachan, um dos mais conhecidos “chans”, que são fóruns de disseminação de ódio e incitação a crimes que opera na internet. O perfil dos frequentadores é o dos “incels”, os celibatários involuntários, homens que não conseguem fazer sexo e culpam as mulheres e o mundo por isso: são racistas, misóginos, homofóbicos e compartilham conteúdo pornográficos com predileção a pedofilia, além de incitarem o estupro, conforme a Ponte mostrou numa série de reportagens no ano passado.

A comemoração anônima se seguiu de outras tantas, nesse mesmo local virtual na deep web, poucas horas após o massacre de Suzano, na Grande São Paulo,

ocorrido na manhã desta terça-feira (13/3) e que deixou dez pessoas mortas. Deep Web é o nome dado para uma zona da internet que não pode ser detectada facilmente pelos tradicionais dispositivos, garantindo privacidade e anonimato para os seus navegantes. Para acessá-la é preciso utilizar softwares como o Tor, por exemplo.

Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25, entraram armados com revólver e arco e flecha, além de coquetéis molotov, na Escola Estadual Raul Brasil, mataram 7 pessoas e depois se mataram. Antes do crime dentro do colégio, a dupla assassinou um homem para roubar um carro usado no ataque.

Na sequência, postagens dos participantes do fórum começaram a dar conta de que os atiradores seriam frequentadores do grupo

e que, inclusive, teriam informado a pretensão de realizar o ataque. Identificado como DPR, o moderador do fórum faz uma espécie de texto-manifesto com supostas explicações para o ataque.

“Luiz era um rapaz injustiçado, não somente pelo sistema mas por questões culturais, aonde ser branco demais, ter nariz grande ou espinhas são motivos suficientes para sofrer uma espécie de terrorismo psicológico durante anos e dessa forma, cultivou seu ‘Mr. Hyde’ a ponto de deixar aflorar. Guilherme era um bom garoto que acabou descobrindo da pior forma possível que brincadeiras podem ser tornar pesadelos reais”, escreve o moderador.

Na sequência, afirma que “o sangue desses garotos não está nas mãos da esquerda, direita, PT, PSL, PSDB, Bolsonaro, Haddad ou Dória, muito menos nas mãos do Dogolachan. O sangue dessas vidas foram e continuarão sendo derramados enquanto permitirmos que esse sistema opressor continue agindo e perpetuando seus ideais socioculturais anos a fio. Um sistema onde o indivíduo é instruído, mesmo que de forma indireta, a odiar e destruir seus semelhantes. Um sistema onde o somos capados fisicamente e mentalmente nos punindo somente por pensar ou adquirir informações que desejamos”.

Há um detalhe: o anônimo escreve antes da mensagem “enviem para a Lola”, uma referência à Lola Aronovich, uma das mais antigas vítimas do grupo extremista.

Blogueira feminista e professora da Universidade Federal do Ceará, Lola passou a ser perseguida virtualmente há quase dez anos justamente por causa de sua militância. Os extremistas já fizeram de tudo com ela: desde ameaçar de morte até criar conteúdos criminosos na internet em seu nome. Toda a luta de Lola foi inspiração para a criação da Lei Federal 13.642/18, conhecida como Lei Lola, que dá à Polícia Federal atribuição para investigar crimes de misoginia praticados na internet. Lola se manifestou no Twitter ainda pela manhã.

Além das mensagens de elogio à barbárie, uma delas, datada de 7 de março e endereçada ao DPR - que seria o moderador do fórum -, é atribuída a um dos atiradores, que agradece as dicas para a realização do plano.

A música a que o anônimo se refere na mensagem (veja a foto no alto da página) é Pumped Up Kicks, do Foster The People, que já tem até versão gravada no Youtube em português pela The Kira Justice. A canção é uma espécie de hino do Dogolachan e foi postada nesta segunda-feira (11/3), seguida de uma mensagem de incentivo.

A suposição não está confirmada, mas tem seu sentido. O atirador do massacre do Realengo, Wellington de Menezes, que em 2011 matou 12 pessoas, era um incel e frequentava fóruns desse tipo.

Os chamados “dogoleiros” já foram alvo de diversas operações da Polícia Federal, mas, mesmo assim, como se evidencia agora, estão longe de acabar.

Uma delas culminou na identificação e prisão de Marcelo Valle da Silveira Melo, o Psy ou Batoré, apontado como um dos líderes do Dogolachan e que acabou condenado no final do ano passado a mais de 40 anos de prisão. A Ponte denuncia a atividade criminosa do grupo desde o final de 2017, quando descobriu a farsa de uma ameaça de bomba na Universidade de São Paulo, que na verdade era uma trollagem (brincadeira na linguagem virtual) que um dos integrantes tinha feito a um desafeto.

Na sequência, veio o site racista "Rio de Nojeira". O roteiro era o mesmo: atingir um desafeto de um dos “homens sanctus” ou “confrades” do Dogolachan, como eles costumam se referir um ao outro. O rapaz, chamado Ricardo Wagner, era estudante da UniCarioca e havia se envolvido em uma discussão boba no Cartola FC, um jogo de fantasia sobre futebol. Isso foi o estopim para a trollagem.

Para extravasar a frustração, os dogoleiros exercitam o ódio. E gostam de aparecer: gerar “lulz”, como eles mesmos dizem. Os ataques que eles fazem, caso cheguem à mídia, são muito comemorados e os autores respeitados.

A mais recente vítima do grupo foi o ex-deputado Jean Wyllys, que saiu do país por causa das crescentes ameaças de morte. O exílio de Jean foi muito comemorado

e, mesmo fora do país, há cerca de um mês, um dos integrantes do Dogolachan compartilhou um e-mail que teria enviado ao político dizendo que sabia que ele estava na Espanha e que iria matá-lo. A assinatura da mensagem é de Emerson Eduardo Rodrigues Setim, preso ao lado de Marcelo na Operação Bravata, em março do ano passado e que está foragido. Nas redes sociais, ele se diz vítima de um complô e nega a autoria dos ataques.

Outros desafetos do grupo são: David Miranda, suplente de Wyllys no Congresso, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e estudantes da UFRJ (Universidade Federal do RJ). Até mesmo Nilson Izaias Papinho, o idoso youtuber, acabou virando tema de conversas. Nesse caso, os anônimos estavam comemorando as fake news que ligavam o idoso a denúncias de pedofilia.

Recentemente, o grupo criou Astolfo Blog, onde publicam uma série de absurdos nos nomes dos desafetos e fazem, livremente, incitação a crimes.

Com frases de efeito como “nós somos a resistência entre os mundos”, os participantes desses fóruns oscilam entre projeções lunáticas e cometimento de crimes virtuais, bastante focados no assassinato de reputações.

O principal objetivo nesse novo momento do Dogolachan é provar ao juiz Marcos Josegrei, responsável pela condenação de Marcelo, que ele não é o único responsável pelas ameaças a figuras públicas. O e-mail pessoal do magistrado, inclusive, foi compartilhado há algumas semanas junto a uma orientação de atormentá-lo com mensagens. A Ponte tentou entrevistar Josegrei, mas a Justiça Federal do Paraná (JFPR) informou, em nota, que por questões de segurança ele não vai se pronunciar nesse momento.

Com uma certa fixação - que só Freud explicaria - por Marcelo, a quem chamam de Psy, os confrades citam bastante o nome dele e seus “feitos” nas conversas e chegaram a homenageá-lo em um brainstorm que chegou a dois nomes para batizar o grupo: o PCC-MV (Primeiro Comando Cibernético - Marcelo Valle) e o CV-MV (Comando Virtual - Marcelo Valle). No final das contas, a analogia com a facção criminosa paulista venceu e eles também anunciaram o lema: “Confrades, o lema maçônico do PCC é Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade, estou pensando que o nosso poderia ser: Terror, Impunidade, Liberdade e Santidade”.

MP investiga papel de grupos radicais no ataque em Suzano

por GIL ALESSI

O Ministério Público de São Paulo investiga se os autores do massacre de Suzano contaram com o auxílio de grupos radicais que operam em fóruns na deep web (os sites da Internet que não são facilmente rastreados em plataformas de busca como Google) para planejar o atentado cometido na Escola Estadual Raul Brasil na quarta-feira. Estes grupos de troca de mensagens conhecidos como chans garantem o anonimato aos usuários, e são famosos pelas discussões de caráter racista, homofóbico, misógino e com conteúdo de pedofilia. O procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio, afirmou que o “cyber Gaeco” - equipe especializada do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP - apura se Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro frequentavam estes fóruns.

Smanio não descarta a ampliação das investigações para combater estes grupos online de forma mais abrangente. “Alguns deles já foram investigados anteriormente pelo MP e pelo Ministério Público Federal”, afirma, sem citar os nomes. “É possível que muitos jovens circulem nesse ambiente, e que existam outros crimes [sendo planejados ou cometidos nos grupos]”, disse o procurador.

O massacre de Suzano foi comemorado em vários chans, onde os matadores foram tratados como “heróis”.

Computadores e telefones celulares utilizados pelos jovens assassinos foram apreendidos para serem periciados. De acordo com reportagem do portal R7, Guilherme e Luiz teriam trocado mensagens com o administrador do fórum radical Dogolachan, um homem conhecido apenas pela sigla DPR. O fundador do grupo, Marcelo Valle Silveira Mello, conhecido com Psy, foi preso em maio de 2018 na Operação Bravata da Polícia Federal, e condenado a mais de 41 anos de prisão pelos crimes de divulgar imagens de pedofilia, coação e outros. O Dogolachan se auto-intitula "o maior fórum alt-right do Brasil", em referência ao termo usado nos Estados Unidos para se referir à extrema direita no país.

Esta linha da investigação, que conecta o crime de Suzano ao submundo da Internet, esbarra na falta de rastreabilidade de alguns chans da deep web e em uma discussão sobre liberdade de expressão, censura e limites das autoridades nas hora de controlar conteúdos.

No primeiro caso, a dificuldade se dá porque é necessária a utilização de um navegador específico para acessá-los, o Tor, que faz uso de tecnologia que camufla o endereço do usuário na rede (chamado de IP). “É praticamente impossível detectar, por exemplo, onde está o servidor que hospeda estes grupos de discussão de ódio para que se possa tirá-los do ar”, afirma Arthur Igreja, professor da Fundação Getúlio Vargas especialista em tecnologia e inovação.

Ele explica que a deep web não é necessariamente ilegal ou “ruim”: “Militantes de direitos humanos na China, por exemplo, a utilizam para conseguir se comunicar com o mundo exterior. Os grupos que organizaram a Primavera Árabe também dependiam dela”. No entanto, Igreja afirma que existe uma “camada” da deep web conhecida como dark net (ou rede escura), onde ocorre a venda de armas, drogas, pedofilia e o planejamento de crimes.

A tarefa das autoridades para apurar se os assassinos de Suzano contaram com ajuda ou apoio de fóruns de ódio hospedados na deep web não será fácil. “O maior desafio é a falta de rastreabilidade. É muito difícil [chegar aos autores das postagens]. Existem técnicas de investigação, tanto periciais quanto de infiltração de agentes que procuramos utilizar para fazer uma investigação adequada. Mas é um ambiente hostil [à investigação]”, afirmou o procurador-geral Smanio.

O desafio não é exclusivo das autoridades brasileiras. Um dos atiradores responsáveis pelo atentado que deixou ao menos 49 mortos em mesquitas na Nova Zelândia também participava de um desses grupos, o 8chan,

um fórum também popular para intercâmbio racistas e misóginos. Ele usou a plataforma para postar, momentos antes do ataque, o link para um manifesto supremacista branco. No texto existe uma citação ao Brasil: "O Brasil, com toda a sua diversidade racial, está completamente fraturado como nação, onde as pessoas não se dão umas com as outras e se separam e se segregam sempre que possível", comenta.

Como a operação foi extremamente bem-sucedida -o vídeo do atentado transmido ao vivo viralizou-, o ataque na Nova Zelândia também reacendeu o debate sobre as políticas de controle de conteúdos violentos e discursos de ódio na Internet que, para além da deep web e da dark net.

Em plataformas como Facebook, YouTube e fóruns menos numerosos com o Gab esse tipo de mensagem recebe o incentivo dos algorítimos, que ditam qual alcance o material vai ter. “Vídeos chocantes - especialmente com imagens gráficas gravadas pela primeira pessoa - é onde o reality show se encontra com a cultura violenta dos jogos e com os algoritmos de amplificação da atenção”, disse Jonathan Albright, diretor de pesquisa do Centro de Jornalismo Digital da Universidade Columbia ao jornal Washington Post. “A Internet moderna foi projetada para o engajamento em primeiro lugar, e isso funciona na contramão de impedir rapidamente a disseminação de material e ideias prejudiciais”.
 
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Texto publicado originalmente no jornal El País
Mensagem no fórum Dogolachan: agradecimento ao coordenador DPR por orientações para um crime