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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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vitrine pj
tv sapiens
Nos bastidores da
TRAGICOMÉDIA
Em entrevista, o filósofo e doutor em psicologia José Ramos Coelho revela os motivos que o levaram  a escrever A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito, livro editado pelo Sapiens e lançado em 18 de abril/2012, na Livraria Saraiva do Shopping Midway Mall
Ramos e seu livro A Tragicomédia da
Medicalização
: a verdade sobre os
psicoativos, desvios da psiquiatria e
interesses da indústria farmacêutica.

O lançamento, na Saraiva, do livro
de Ramos Coelho durou três horas...

...teve autógrafos e música instrumental ao vivo e...
...reuniu amigos, como Assis Câmara e Valquíria Félix.
"As doenças se apresentam dentro de um contexto
subjetivo: os pensamentos, as emoções e as motivações
do indivíduo. Estão relacionadas ao estilo de vida"
Planeta Jota - O que o levou a escrever o livro A Tragicomédia da Medicalização: a
Psiquiatria e a Morte do Sujeito ?

Ramos - Basicamente duas coisas: em primeiro lugar, uma contradição que ao longo do tempo
foi se tornando mais perceptível e se transformou ultimamente numa convicção pessoal: os
psicoativos não estão ao serviço do autoconhecimento e da autotransformação das pessoas.
Pelo contrário, as pessoas não medicadas que, embora sofrendo de graves distúrbios,
procuravam primeiro o tratamento psicoterapêutico, rapidamente se curavam de seus males,
enquanto que os indivíduos medicados apresentavam uma tremenda dificuldade de evoluir
clinicamente. Em segundo lugar, notei que as pessoas que eram diagnosticadas por algum
distúrbio se sentiam como que encaixotadas, presas numa arapuca simbólica. Esse
aprisionamento mental, que chamo de “polematação”, ou seja, a transformação do homem em
mercadoria, resulta de uma autoimagem internalizada pelo paciente de que está “possuído” por
uma doença ou transtorno mental; que a sua perturbação tem uma origem genética e que é o
resultado de um desequilíbrio químico no cérebro. Essa visão de si coisificada só contribui para
agravar o quadro clínico e criar dificuldades ao tratamento.

PJ - A que você atribui a dificuldade apresentada pelos pacientes medicados com
psicoativos?

Ramos - A primeira é de ordem psicológica. Quando o paciente está sofrendo e não sabe o que
se passa consigo, ele se sente mais aberto e propenso a entregar-se a um tratamento que lhe
permita superar o seu malestar. Por outro lado, quando ele é diagnosticado no seu mal, essa
abertura desaparece. Há uma diferença muito grande entre o diagnóstico médico e o
psiquiátrico. Se estou febril e com uma forte dor no peito e vou a um médico, preciso saber com
urgência se contraí uma pneumonia ou tuberculose, por exemplo. O conhecimento da causa da
minha doença é de uma necessidade vital para mim, a fim de que eu possa adotar o tratamento
mais adequado para debelar o mal que me acomete. O diagnóstico vai me permitir saber o tipo
de remédio ou antibiótico que vai me curar. Mas se eu procuro um psiquiatra sofrendo de algum
malestar, a formulação do diagnóstico antes do tratamento tem um efeito iatrogênico ou danoso
sobre o psiquismo do paciente.

PJ - Como assim?

Ramos - Quando o psiquiatra diagnostica, o diagnóstico normalmente vem associado a uma
prescrição medicamentosa. E os psicoativos, ao aliviarem os sintomas, eliminam também a
motivação que poderia levar o indivíduo à cura de seus males. Desta forma, ao invés do remédio
ajudar na cura, como ocorre na medicina, no caso da psiquiatria atrapalha.
PJ - Não é bom para o paciente se livrar de um sintoma que lhe causa sofrimento?

Ramos - Não necessariamente. Esse é o maior equívoco da teoria e da prática psiquiátrica atual
e, por extensão, da própria medicina: ver a doença ou o sintoma como o mal, dissociado do seu
contexto. No caso da medicina essa descontextualização traz um certo dano, mas no caso da
psiquiatria é extremamente nefasta. A medicina vê a doença como um mal que “acontece” ao
indivíduo e que não tem nada a ver com ele. Mas, na verdade, a doença é como um texto, uma
mensagem que se apresenta à pessoa a fim de que ela a decifre e a compreenda. As doenças
se apresentam dentro de um contexto subjetivo (os pensamentos, as emoções, as motivações
do indivíduo) e estão relacionadas ao estilo de vida da pessoa. Saber por que certas pessoas
são acometidas de um determinado tipo de doença ou porque determinados órgãos são
especialmente afetados permitirá que a mesma use estratégias mais eficazes e
autosustentáveis de lidar com as suas enfermidades. No caso da psiquiatria a situação é bem
pior: os psiquiatras, a partir dos anos 80 do século passado, influenciados pela indústria
farmacêutica e pela neurociência, deixaram de ter uma visão psicodinâmica dos conflitos das
pessoas, ou seja, passaram a ver o sintoma como o problema, quando, na verdade, o sintoma é
uma tentativa precária de conciliação ou resolução de um conflito. O sintoma é justamente a
porta que permite ao sujeito adentrar no seu conflito existencial. Eliminar essa porta é condenar
o paciente à cegueira e à desconexão consigo mesmo.
"O paciente é um cego que vai procurar
um surdo (o psiquiatra) para continuar cego. Ele não vai se
abrir, só quer um remédio. É a comédia da existência"
PJ - Você acha, então, que os psiquiatras não deveriam diagnosticar os seus pacientes?

Ramos - Tem muita coisa errada nessa história. E o primeiro erro é ver aquele que sofre como
um “paciente”, e não como um “experienciante”. Ver o outro como paciente é colocá-lo num
papel de passividade, é “polematá-lo”. O psiquiatria deveria ver aquele que sofre como um
“experienciante”, ou seja, como alguém que, sofrendo de um malestar, pode vir, através dele,
ampliar o seu autoconhecimento e transformar-se. O segundo erro diz respeito à postura que o
psiquiatra vai adotar diante daquele que o procura. Ele vai estar a serviço de quem? Vai se
colocar a serviço do indivíduo, enquanto sujeito, ou da família ou da sociedade que está
incomodada com algum aspecto de seu comportamento? Se o psiquiatra vai se colocar a
serviço do indivíduo, deveria inevitavelmente adotar a postura socrática do não-saber, que aliás,
é não apenas a mais sábia como a mais pertinente ao caso. É a mais sábia, pois o psiquiatra de
fato não sabe as razões pelas quais a pessoa está sofrendo. E para descobrir isso, em primeiro
lugar, precisa reconhecer o óbvio: que ele ignora o que está acontecendo com aquele que o
procura. E é a mais pertinente, pois quando reconhece não saber o que se passa com o outro,
abre o espaço para que o outro fale a respeito do seu malestar, atitude que, por si só, terá
efeitos positivos no seu quadro clínico. No momento em que o psiquiatra diagnostica, ele
interrompe o diálogo e dá o seu veredito: condena o sofredor a ser um doente ou o portador de
um determinado transtorno. E nesse processo de condenação a pena a que ele vai estar sujeito
é o consumo de algum psicoativo, frequentemente para toda a vida. Essa postura é lastimável.
Ela significa a morte do sujeito.

PJ - De que sujeito você está falando?

Ramos - O experienciante, a pessoa que procura viver a sua vida consoante os seus próprios
valores, ou seja, a pessoa quee age, pensa, sente e procura realizar os seus desejos e projetos.
Esse sujeito principia a morrer no momento em que ele começa a ser classificado e é sepultado
quando recebe um diagnóstico.

PJ - O que você propõe, ao que parece, confronta a prática médica. Um psiquiatra não
estuda e se forma para bem diagnosticar?

Ramos - No caso do psiquiatra, se ele pensa que ao diagnosticar está exercendo um saber em
benefício do experienciante, afirmo que na verdade o que está fazendo é revelar a sua
ignorância. Se a psiquiatria deseja apresentar-se como uma ciência, ela deve fundar-se em
algum critério de verdade. Aqui estão em jogo dois critérios de verdade: o primeiro, que é a
adequação do diagnóstico aos sinais e sintomas do paciente; e o segundo, é o conceito de
verdade como aletheia, como desvelamento, ou revelação por parte do experienciante do que se
passa consigo. A formulação do diagnóstico, o conceito de verdade como adequação ao
sintoma, só poderia adquirir alguma base e sustentação se fosse fundado na verdade do sujeito.
Mas o que ocorre, na maioria das vezes, é justamente o contrário: o diagnóstico vem primeiro e
aí a verdade do sujeito é suprimida. Essa situação poderia ser descrita metaforicamente como
um diálogo de cegos, surdos e mudos: o paciente é um cego que vai procurar um surdo (o
psiquiatra que não tem ouvidos para a sua verdade) para continuar cego. E se age como
paciente mesmo, ele vai evitar se abrir muito para o psiquiatra. O que ele quer mesmo é um
remédio para aliviar os seus sintomas. Essa é a comédia da existência.

PJ - Então isso explica o título do seu livro?

Ramos - Sim. A tragédia da existência é constatar que os homens, em muitos momentos da
história, foram tratados como coisas, foram “polematados”. Isso aconteceu em todos os
regimes onde as pessoas foram escravizadas. Os senhores antigos, ao vencerem uma guerra,
transformavam os vencidos muitas vezes em escravos e se julgavam no direito de vida e morte
sobre eles. Se o senhor permitisse ao vencido continuar vivo, o preço desta concessão seria a
sua liberdade, ele virar o seu escravo. Há muita semelhança metafórica entre a situação da
escravidão e a daqueles que buscam um tratamento psiquiátrico: o preço dele voltar a ser sadio
e “normal”, será a supressão de si mesmo enquanto sujeito. Mas a comédia está no fato de que
muitas pessoas hoje em dia, estão adotando um estilo de vida onde vivem perpetuamente
fugindo de si mesmas. Essa fuga contínua produz muita muitas vezes angústia e ansiedade. E
como elas temem o contato consigo mesmas - o qual poderia por um término a essa fuga
incessante -, preferem atribuir a causa do seu malestar a algum desequilíbrio químico em seu
cérebro, e não a suas escolhas ou omissões. Se veem como coisas e acreditam que a solução
de seus problemas seria a ingestão de um psicoativo.
"É preciso distinguir entre a psiquiatria e a “encefalatria”.
O psiquiatra vê o homem como ser simbólico e dotado de linguagem. O encefalatra propõe tratar a mente através do cérebro"
PJ - Mas todas as descobertas feitas pelos neurocientistas, nos últimos anos, não são a
confirmação científica dessa tese?

Ramos - Está havendo uma grande confusão e distorção no modo correto de encarar a relação
entre o cérebro e a mente. Para explicar a importância que atribuo à bioquímica do cérebro, vou
recorrer a uma analogia. Imagine duas situações. Na primeira, um assaltante rouba um carro e
foge em alta velocidade colocando em risco a vida das pessoas, tendo a polícia no seu encalço.
Na segunda, um motorista, ao saber que sua mãe estava sendo vítima de um assalto, sai em
disparada no seu veículo tentando chegar ao local onde ela se encontra a fim de protegê-la.

Consideremos a primeira situação. Se eu perguntasse: o que faz os carros trafegarem mais
depressa ou devagar nas estradas da vida? Na opinião dos psiquiatras, médicos e
neurocientistas da atualidade, a resposta seria: é a gasolina ou o bom funcionamento do motor.
O motivo principal pelo qual o carro conduzido pelo assaltante está em alta velocidade seria o
excesso de gasolina que está alimentando o motor, e não a vontade do assaltante em escapar
da polícia que o persegue. Isto vem em segundo plano. Na visão mecanicista vigente na
atualidade, o que conduz os carros não é a vontade dos condutores, mas a presença ou
ausência da gasolina no motor ou o seu bom funcionamento.

Passemos agora para a segunda situação. E acrescentemos que, apesar da vontade do
motorista em socorrer a sua mãe, ele não consegue chegar ao local pretendido. E o motivo
disso residiu na falta de gasolina no seu veículo. O carro não chegou ao seu destino não porque
o motorista assim o quis, mas em função de uma falha mecânica. Esses casos de vez em
quando acontecem, seja por descuido do motorista, por falta de manutenção do veículo ou pela
presença de algum defeito no carro.

Se tomarmos o condutor como representando a mente e o motor do carro como sendo o
cérebro, à pergunta - por que o carro trafega em excesso de velocidade?, dizer que é pelo
volume de gasolina que entra no motor não seria propriamente uma inverdade, mas uma
impropriedade, uma explicação insuficiente. A gasolina está sendo direcionada ao motor porque
o motorista está acelerando. E por que ele está acelerando? Por que não quer ser detido pela
polícia. Para se entender a realidade, é preciso ir mais além de uma visão mecanicista que
secciona e isola aspectos da realidade que não estão separados.

No segundo exemplo, por sua vez, a explicação mecanicista seria pertinente: o carro para não
porque o condutor assim o deseja, mas porque falta gasolina ou apresenta alguma falha
independentemente de sua vontade. Na visão mecanicista dos cientistas da atualidade o motor
tem mais importância do que o condutor do veículo. Mais adequado seria dizer: salvo algumas
exceções, o que ocorre com os carros depende eminentemente da vontade dos seus
condutores. É assim que eu penso.

PJ - Na sua opinião, como sugere o seu livro, a psiquiatria está matando o sujeito, o ser.

Ramos - Não gostaria que vissem o meu livro propriamente como uma crítica à psiquiatria. O
livro é inspirado em dois grandes psiquiatras e é dedicado à Dra. Nise da Silveira. É preciso
fazer uma distinção entre a psiquiatria e a “encefalatria”. O psiquiatra é o profissional que trata o
experienciante como um sujeito, através da escuta e diálogos sinceros, vendo o homem como
um ser simbólico e dotado de linguagem. O encefalatra é o profissional que propõe o tratamento
da mente através do cérebro. O livro é na verdade uma defesa da psiquiatria autêntica contra a
encefalatria, pois esta última toma o homem como um mero animal, um ser bioquímico. As
explicações bioquímicas, em alguns casos, podem ser as mais adequadas, mas na maioria das
vezes a elucidação do malestar das pessoas encontra-se na mente e não no cérebro.

PJ - A Tragicomédia é o seu primeiro livro?

Ramos - Não. Já escrevi cinco livros antes. O primeiro, um livro de fábulas - A Colina e o
Abismo, foi escrito em coautoria com José Paulo de Melo Cabral. O segundo - A Magia na
Aldeia Global, aborda os comerciais televisivos a partir de uma perspectiva antropológica. O
terceiro - De Narciso a Édipo: a criação do artista, contem a minha tese de doutorado em
psicologia clínica. E o último - A terapia da excelência: uma introdução ao método da estética
existencial, apresenta uma sistematização preliminar do meu método terapêutico. Este livro
publicado agora pelo Sapiens é o resultado das observações a partir de minha prática como
terapeuta.


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