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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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(*) Fábio Fidélis é professor, advogado e dramaturgo. Atualmente vive em Lisboa,
onde faz o seu doutorado. Escreveu o conto acima numa madrugada portuguesa
fria e inspiradora que o levou a reescrever a mitologia.
Uma referencia grega que o tempo não permitiu o devido registro comenta que
Cronos, o poderoso titã pai de todos os deuses, depois de devidamente
trancafiado no tártaro por Zeus, mereceu um raro indulto misericordioso de seu
filho que já há tanto lhe substituíra na regência universal.

Zeus, acometido de inexplicável humanidade lembrou-se do pai e reconheceu que
apesar de todas as tramas urdidas em desfavor dele mesmo e de seus irmãos não
poderia negar a dignidade devida à sua antiga majestade. Assim, em um arroubo
de compaixão, decide libertar o pai para, em seguida, despachá-lo em um honroso
exílio nos rumos de remota região nunca sondada por homem ou deus.

Cronos, respondendo à altura ao gesto do filho, demonstrou nas faces as marcas
do arrependimento e, apesar de portador do mesmo imenso e imemorial poder,
ruma resignado ao porto que o conduziria às moradas do infinito distante.

Contudo, na última hora, em um movimento súbito e rápido, retira de pequena
caixa que carrega consigo infindáveis grãos de areia finíssima, feitos de sua própria
titânica essência nas horas em que, corroído pelo remorso, pensava no trono que
tentou desesperadamente proteger.

E assim, com um leve sopro, fez penetrar a essência de si mesmo por todas as
coisas. Entrou na embarcação, sorriu para o universo à margem e revelou apenas
para o barqueiro que o auxiliava na entrada as suas intenções mais íntimas:

- Vamos, amigo barqueiro! Aos deuses e aos homens deixo o que meditei nos
grilhões da prisão.  Se, preocupado com minha permanência no trono fui capaz de
engolir cada um de meus filhos em louca fúria é sinal de que nele nunca estive
assentado, mas tão somente nas projeções de um futuro que, ao fim, nunca
chegou! Eis então que envio com meus últimos poderes um “presente” para
aqueles que ficam... Em tudo e em todos deixo a marca do tempo.

Desde então, alguns inspirados mortais, quando conseguem conexão com essa
mágica essência, libertam-se daquilo que já se foi e desapegam-se do que ainda
virá.  São eles os fomentadores das revoluções e os iluminadores do mundo.

Segui Cronos para região desconhecida não sem inspirar, de alguma forma
misteriosa, a sabedoria da escritura que soube sentenciar “Tudo tem o seu tempo
determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”.

É a marca de Cronos, que a tudo consome, desfaz e renova! De algum lugar
inacessível aos olhos a última e perene Ordenação de velho titã ainda teima em nos
indicar que, pela própria lei de renovação universal, por nosso temos tão somente
o que chamamos de presente.
O PRESENTE DE CRONOS
Fábio Fidélis
De algum lugar inacessível o velho titã ainda teima em nos indicar que, pela própria lei de renovação universal, temos tão somente o que chamamos de presente.