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Aldenir Dantas
Jorge Braúna
 
15º DIA DE SILÊNCIO
NO SAPIENS | 25/11
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O golfo de Corinto visto da cidade velha, onde o apóstolo Paulo anunciou Jesus junto ao templo de
Apolo. Ao fundo, o monte Parnasso, abrigo do oráculo de Delfos, que inspirou o filósofo Sócrates.

Pelos caminhos de Sócrates e Paulo
Nesse cenário  de montanhas, águas azuis e 1400 ilhas, brotaram a filosofia,
a democracia e a base de apoio para o Cristianismo firmar-se como religião
por Jomar Morais
O poder das ideias
[Texto escrito em Atenas, diante da Acrópole, em 08/02/2010 e publicado no Novo Jornal]
Diante da banca de jornais em Atenas tento ler
dezenas de manchetes. Em vão. Nada entendo.
Até o alfabeto é outro. Aquilo tudo pra mim é
grego... Mas não é preciso dominar o idioma
local para perceber o que se passa no país.
Basta olhar para as ruas. Aumento da
mendicância, protestos contra medidas de
aperto na economia, confrontos por causa da
imigração... O congresso deve votar já uma lei
dura sobre estrangeiros. Com o desemprego
em alta, sobrou para os 2,5 milhões de
imigrantes, muitos vivendo de biscates.
A Grécia, como Portugal, está em crise. Mas
isso é conjuntura, logo os gregos encontrarão
sua saída. O que importa - e isto resume o
grande fascínio desta nação milenar - é o
patrimônio de idéias que em sua saga os
gregos, principalmente os de Atenas, legaram à
humanidade.
Aqui nasceu a democracia, depois
aperfeiçoada e ainda hoje insubstituível, apesar
de suas fragilidades. Aqui a condição humana,
bela e horrenda, sempre contraditória, nos foi
revelada na mitologia  que, hoje como ontem, é
o único espaço onde conseguimos reconciliar
nossas polaridades. Aqui a sabedoria e a arte
reafirmaram o poder das idéias luminosas
frente a escuridão da força bruta.
Não foram os gregos que patrocinaram a
expansão de sua cultura na antiguidade, mas
seus eventuais dominadores, como Alexandre
da Macedônia, o Grande, e imperadores
romanos, principalmente Adriano, todos
rendidos  à inquietação e ao refinamento do
pensamento que aqui brotou. E, no ano 51, ao
discursar para os filósofos atenienses na colina
do areópago, o apóstolo Paulo abriu caminho
para a sedimentação de nossa civilização
judaico-greco-romano.
Ao percorrer a Ancient Ágora, o centro
comercial da antiga Atenas, lembrei dos
filósofos que, naquelas mesmas ruas ou em
academias nas vizinhanças, provocavam seus
contemporâneos a pensar. Os estóicos,
conclamando à dignidade ante a dor. Os
epicuristas, ensinando a busca do prazer pela
ação correta, o que hoje é confundido com
mero hedonismo. Os céticos, os cínicos...
Lembrei, sobretudo, de Sócrates, o maior de
todos eles.
A Sócrates devemos a maiêutica, um jeito  tão
simples e tão eficiente de alcançarmos o
conhecimento, a iluminação: desconfie de suas
certezas e faça perguntas a si mesmo,
aprofundando cada vez mais o questionamento.
Seus ensinamentos talvez possam ser
simbolizados na frase que mais repetia: "Só sei
que nada sei". Ou no ensinamento inscrito à
entrada do oráculo do templo de Apolo, em
Delfos, que ele ecoava pela Ágora: "Conhece a
ti mesmo".
Eis o segredo de uma vida consciente, aberta e
despojada - e, portanto, livre e feliz. Mas isso,
desde sempre, é muito perigoso para qualquer
sistema de poder, individual ou coletivo, sempre
baseado em apegos, aversões e submissões.
Acusado de corromper a juventude, Sócrates foi
preso e condenado a tomar veneno. Morreu
sereno. Era um homem livre e iluminado.
 
Museu Nacional de Arqueologia, um programa imperdível
Máscara do grande
rei Agamenon: arte  micênica em ouro
A pequena colina do Areópago e a Atenas contemporânea
Interior de uma
Igreja Ortodoxa:
beleza despojada
ONDE FIQUEI EM ATENAS
Cecil Hotel, rua Athinas, 39, a 100 metros da estação Monastiraki (metrô). Vista para a Acrópole, café da manhã, internet gratuita, acesso a pé às atrações da região central e à Acrópole. Metrô até o aeroporto. Diária: 30 euros (ap. com banheiro).
COMO CHEGUEI
O PÉRIPLO
Decidi ir à Grécia quando já estava de mochila pronta para voar à Ilha da Madeira, via Lisboa. Descobri uma oferta da Lufthansa imperdível: Lisboa-Atenas-Lisboa, via Frankfurt, por 200 euros. Mantive a viagem à Madeira, mas inclui em meu roteiro o novo trecho. Pena que fiquei pouco tempo, mas a Grécia me aguarde: eu voltarei.
No inverno, o frio e o mar agitado desaconselham visitas às ilhas gregas - são 1400, pouco mais de 200 habitadas. Mas é na Grécia continental que estão os grandes atrativos  culturais. De Atenas, chega-se a Corinto, Delfos, Olímpia e Esparta de trem ou ônibus. Um bom guia, como o Lonely Planet, dá todas as dicas.
JM na colina do Areópago, local onde, no
ano 51, o apóstolo Paulo falou aos gregos e converteu Dionísio, o santo padroeiro de
Atenas. Atrás, a Acrópole (cidade alta), o
mais importante sítio histórico do Ocidente.
Acima, o Odeon de Herodes Ática,  construido pelo rico romano na encosta sudoeste da Acrópole, no ano 161. Ao lado, escultura de um antigo atleta no Museu Nacional de Arqueologia.
Parthenon, a "casa da virgem", é o grande templo edificado entre 447 e 438 a.C. Sob seu teto azul, ornamentado de estrelas, estava a estátua de Atena Polias, a mais impressionante da antiguidade.
Ruínas da velha Ágora de Atenas, a área do mercado, onde Sócrates realizava suas pregações. Ao fundo, o Templo de Hefesto, o deus do fogo, única construção da área que se manteve preservada.
Eis o que restou do templo de Apolo em Delfos, no alto do monte Parnasso. Aqui ficava o famoso Oráculo de Delfos, tido como o mais poderoso da Grécia antiga e ao qual recorriam governantes e sábios.
Ao alto, JM junto a um sepulcro de mármore no jardim do Museu Arqueológico de Delfos. Ao lado, o antigo Ginásio  com suas pistas para a prática de atletismo e uma piscina circular.
Colunas do templo de Apolo na velha Corinto, em cujas cercanias Paulo pregou o Evangelho. Na acrópole coríntia, a maior fortaleza do Peloponeso abrigava o templo de Afrodite, a deusa do sexo.
ISTO É GRÉCIA

Imagens de Atenas, Pireus, Corinto e Delfos
JM na Universidade de Atenas em dia de cerco policial: daqui saem passeatas de protesto contra as reformas econômicas
O presente, sob raios e trovões
Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba

01/2011
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