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15º DIA DE SILÊNCIO
NO SAPIENS | 25/11
Increva-se aqui
No tapete mágico do Marrocos
Descobrir o Marrocos é uma aventura inesquecível: medinas que preservam tradições seculares, o Saara e seus beduínos, a cordilheira gelada...
Por Jomar Morais
JM na solidão da Duna de Chegaga, no Saara, e no jantar na tenda berbere, com Fátima Morais
Medina de Fès: atrás da muralha de 14 km2, a vida como era no século 8
A travessia do canal que separa a Europa da África: ao fundo, Gibraltar
Minarete da Koutobia, a mesquita de 800 anos: farol espiritual de Marrakesh
Na Duna do Judeu, primeiro encontro com os camelos do deserto
JM entre o jovem Karim (esq.) e seu pai, Mohammed: expedição ao Saara
Mesquita Hassan II, em Casablanca:
ela só é menor que a de Meca
 

Sob o céu do Islã
As gaivotas chegam em bandos para disputar peixes no cáis de Essaouíra
JM com traje ocidental na Medina de Marrakesh: contraste com as djelabas
Fátima em Casablanca: menos charme que no clássico do cinema americano
Porta principal da mesquita Hassam II: entrada paga e mulheres sem véu
Pausa nas tendas berberes no Saara: 45ºC ao meio-dia; 5ºC à meia-noite
Canhões da muralha da medina de Essaouíra: presença portuguesa
O Saara às 18h de um dia de inverno: impressionante contraste luz-escuridão
Baía de Casablanca: edifícios brancos refletem a luz solar intensamente

Outro cenário
Pôr-do-sol na pequena ilha de Mogador (nome antigo de Essaouíra), em frente à cidade atual: no passado foi campo de quarentena para navegadores e prisão
Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba

04/2004
La illáha ila Al-lah. Mohammedan rassulalul-lah. Al-
akba. São poucos mais de 4h30 da manhã quando eu e
minha mulher, Fátima, somos acordados pelo canto
rouco do muezim. Do alto do minarete da mesquita, os
altofalantes ecoam a exortação em árabe que expressa
o primeiro verso do Alcorão: "Não existe divindade
senão Deus. Maomé é o profeta de Deus. Deus é
grande". Aos poucos, o mesmo apelo é repetido em
altofalantes de outras mesquitas, numa cantilena suave
e envolvente. Quando os primeiros raios de sol
despontam no céu, multidões de homens, a maioria
metidos em modestas túnicas com capuz (as djelabas)
seguem em direção aos templos para a primeira das
cinco orações diárias de um muçulmano.

Emociono-me com o que ouço e vejo. E será que
alguém conseguiria permanecer imune a tais sons e
gestos? Não entendo o canto nostálgico e, ao mesmo
tempo, fervoroso dos muezins (só depois traduziram
para mim), mas sinto a sua força e a dos movimentos
arquetípicos. Há fé, há uma estranha presença no ar
neste que é um mundo para lá de misterioso para
qualquer ocidental. Senhores, estamos na medina de
Fès, patrimônio da humanidade tombado pela Unesco,
relicário de um tempo de glórias da civilização
muçulmana. Senhores, estamos no reino islâmico do
Marrocos.

Como nos dias de Maomé

Há poucas horas desembarcamos de um ônibus velho
e mal-cheiroso, sem bancos reclináveis, após 9 horas
de trajeto a partir de Tânger, passando por planícies de
cedro e terras áridas. Mas que recompensa por nosso
cansaço! Somos deixados a alguns passos de um dos
portais de Fés, a antiga, às 19h30 de 6 de janeiro de
2004, dia de Reis. A luz da Lua cheia sobre a muralha
realça os detalhes do monumento de 14 quilômetros
quadrados. As portas arqueadas, as torres de vigia, os
desenhos geométricos... tudo ganha um brilho especial.
Lá dentro, o labirinto de 9 400 ruelas e becos onde a
vida transcorre como nos dias de Maomé. O pão,
preparado em casa, é ainda assado em fornos
comunitários. A água, distribuída em chafarizes. As
passarelas estreitas abrigam um comércio esfuziante,
onde se vende de ervas a tapetes e onde nada tem
preço fixo. Cansaço? Para onde ele foi?

Faz frio, 13 graus. Não temos reserva em hotel. Saímos
em busca de um, driblando o assédio de guias
improvisados. Mas nesse país de língua enrolada e
gente simpática, é tudo tão fácil e tão barato, pelo
menos em janeiro, longe da alta temporada de julho.
Encontro levas de forasteiros de vários países,
estudantes europeus duros e dispostos a economizar
centavos (e apenas um casal de brasileiros em 13 dias
e 2.200 quilômetros de peregrinação). A informação flui
e tudo acaba em pizza - ou melhor em cuscuz
marroquino, o prato típico do lugar. Há pobreza e pouca
higiene, mas também história, muita história (desde a
antiga civilização fenícia), tradição e... Internet em todo
lugar.

Cada cidade tradicional marroquina tem sua medina (a
cidade antiga, medieval) e cada medina tem sua
medersa (escola corânica), o mellah (bairro judeu) e os
souks (mercados). Não visitá-los é como viajar a Roma
e não ir ao Vaticano. No Marrocos não se vende
bebidas alcoólicas (exceto em alguns hotéis). Não há
grandes embalos noturnos. Também quase não
existem homicídios e assaltos. Em compensação, é
comum visitantes serem abordados por indivíduos que
oferecem “something special”,  que neste caso significa
haxixe. Ou serem cercados por jovens sorridentes que
propõem "savah" - isto é, praticar sexo com você, seja
você mulher ou homem. Ambas as propostas
inusitadas me foram feitas em Fès, à luz do dia.

Pra lá de Marrakesh

Fès, na verdade, é a terceira rodada de emoções e
descobertas neste nosso périplo. Tudo começou com a
nossa opção de alcançar o Marrocos, a partir da
Europa, cruzando o estreito de Gibraltar, o braço de
mar que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa a
África do continente europeu. De Algeciras, no sul da
Espanha, a Ceuta, um enclave espanhol em território
marroquino, são apenas 50 minutos em ferryboat
equipado com restaurante e lojas duty-free. Preferimos,
no entanto, o roteiro mais romântico e mais longo (2
horas e 30 minutos de navegação) e descemos em
Tanger, onde tivemos nosso primeiro choque cultural.

É surpreendente ser cercado na chegada por 
vendedores gritando ofertas no dialeto darija, o árabe
marroquino, e ver cafés e restaurantes tomados por
homens que chegam de mãos dadas e se
cumprimentam com beijos no rosto enquanto as
mulheres, cobertas da cabeça aos pés, trafegam nas
ruas como figuras fugidias. Surpreende ver bancos
funcionando à noite e homens estendendo pequenos
tapetes em qualquer lugar para cumprirem o
compromisso de orar voltado para Meca cinco vezes ao
dia. Impressiona o fato de apenas 14 quilômetros de
lâmina d´agua separarem civilizações tão diferentes.

A segunda rodada começou na mahata (estação
rodoviária) de Tânger, ao subirmos num ônibus de linha
normal, rumo a Fès, sem poltronas reclináveis, e onde
a gente humilde transporta no colo potes, cestas,
colchões dobrados e até galinhas, enquanto no teto um
bagageiro abriga móveis e cargas em geral. É claro que
existem ônibus turísticos fazendo a mesma linha, mas
que graça isso tem para um mochileiro interessado em
viver o dia-a-dia de um povo?

Agora estamos a caminho de Marrakesh, a cidade que
já deu nome ao país. De Fés até lá são mais 500
quilômetros e 10 horas de estrada. Dureza. Mas que
importa quando se está diante da soberba cidade
avermelhada ao pé da cordilheira Atlas? Nas cidades
marroquinas os edifícios, casas e muros têm uma
mesma cor - a cor da cidade. Tanger é azul. Fès,
amarela. Marrakesh se impõe pelo tom ocre que
destaca suas muralhas e o minarete da Koutobia, a
grande mesquita de  800 anos. Aqui há luz e alegria. E
tudo converge para a praça Djemaa El Fna, onde se
misturam músicos, bailarinos, encantadores de
serpentes, contadores de histórias e incontáveis
barracas de alimentos. Charretes transportam turistas
pelos jardins da cidade, repletos de palmeiras. Ficamos
apenas dois dias em Marrakesh. Nossa meta é mais
além. 

Neve e casbahs

O ônibus range, varando as eternas montanhas
brancas. Há sujeira e desconforto no veículo. Algumas
mulheres, enjoadas com a altitude, vomitam. Mas o
show acontece lá fora e é possível apreciá-lo pela
janela: os picos nevados do Atlas, as gargantas
abismais por onde escorrem rios límpidos, as
impressionantes esculturas naturais em rochas
coloridas. Paramos em vilas de pastores, agricultores e
artesãos. Exageramos no consumo de amêndoas e
chocolate para aliviar o frio. Aqui, nas alturas, as
tradições árabes e berberes se cruzam e na babel que
resulta desse encontro às vezes não se consegue
achar uma única alma que entenda inglês, francês ou
espanhol. Nessas horas descobrimos o valor da velha e
utilíssima mímica e, sobretudo, o da boa vontade entre
os homens.

Ouarzazate, a cidade em cujas cercanias estão
algumas das mais belas casbahs medievais, - castelos
de barro suntuosos erguidos em campos de
amendoeiras ou no sopé de montes - surge logo depois
do Atlas. Duzentos quilômetros à frente, aportarmos em
Zagora, a pequena e empoeirada cidade, às portas do
deserto, onde finalmente iremos definir nossa aventura
no Saara. Com Ait Sousi Karim, jovem berbere
organizador de expedições, acertamos um pacote que 
inclui um Land Rover e uma equipe que nos servirá
durante dois dias: o motorista Mohammed, seu pai, o
cozinheiro Ali e ele próprio na função de guia. Nosso
destino são as dunas de Chegaga, uma área que não
está no mapa turístico do Marrocos nem no roteiro das
agências (que preferem Merzouga e Tinfou), mas tem a
vantagem de estar situada na região mais típica do
deserto, o chamado Grande Saara.

No esplendor do Saara

Chegaga fica a cinco horas de Zagora. A caminho,
passamos por pedregais e montanhas rochosas - sim,
o deserto não é só areia! -, conhecemos a vida de
beduínos e descansamos da refrega no oásis Sacre,
local onde uma pequena nascente e algumas palmeiras
contrastam com a aridez do Saara. Quando
alcançamos o acampamento de Chegaga quase já não
há tendas disponíveis. Deixo, porém, que a equipe
negocie com os nativos berberes e me atiro sozinho (a
mulher não topou o desafio) ao mais duro momento
dessa viagem: a escalada da grande duna de 360
metros de altura, em cujo topo posso apreciar a cadeia
de morros avermelhados. Para corpos sedentários,
como o meu, o esforço é hercúleo. É preciso força para
desenterrar os pés da areia, água para aliviar a sede
intensa e algumas pausas para o coração não explodir.
A recompensa, porém é um espetáculo de luz e cores:
os raios dourados do crepúsculo esparramados sobre
a cadeia de dunas, produzindo na areia ocre efeitos
dignos de uma superprodução do cinema.

Chegaga é a porta de entrada do Grande Saara, o
enorme areal do deserto e a contemplação do pôr-do-
sol aqui é um prazer que atrai forasteiros de toda parte.
Dois deles, os franceses Jean e Yves, venceram a pé
mais de 200 quilômetros desde a cidade mais próxima,
Zagora, só para experimentar a amplidão dessa “erg”,
espécie de cordilheira de morros. Luigi e Sarah,
italianos equipados com esquis, deslizam na massa
movediça de 360 metros de altura. Lá embaixo está o
acampamento berbere - povo nômade que há milênios
habita a região -, e é em suas tendas rústicas que eu e 
Fátima logo iremos desfrutar de momentos
inesquecíveis.

O calor do Saara desaparece com o Sol. À noite é
gelada, próximo do zero grau Celsius, mas o céu
estrelado e a Lua sorrateira valem o desconforto. Na
tenda forrada com tapetes artesanais, à luz de velas,
somos brindados com um legítimo jantar nativo: o
tagine (cozido preparado em forma de argila), frutas e
chá. Uma delícia! Depois, a roda em torno da fogueira,
o papo descontraído e velhas canções árabes que
contam histórias de animais falantes e de amores
ardentes. Habib, habibit... meu amor, meu amorzinho.
O tempo passa e nem percebemos. Quando, por fim, o
cansaço nos dobra, os colchonetes sobre a areia
macia servem a um sono profundo e restaurador, até
que a sinfonia uivante de uma caravana de camelos
nos desperta para o dia seguinte.

Gaivotas de Essaouíra

Do deserto para o litoral! Essaouíra, cidade fortificada
junto ao Atlântico, é o nosso alvo. Um lugar perfeito para
o relax. Trata-se de um porto milenar, hoje tombado
pela Unesco, que na antiguidade serviu aos fenícios e a
partir do século XVIII foi dominado por europeus,
especialmente os portugueses, responsáveis pelas
fortificações. A medina de Essaouíra com suas ruas
retas e seus bulevares reflete essa influência. A cidade
é limpa, florida e conservada e por aqui quase não há
assédio de pedintes e biscateiros, uma raridade no
Marrocos. Mochileiros de toda parte enchem de cores e
alegria locais como o mercado do peixe e o cáis, onde
é possível contracenar com gaivotas pacíficas no
crepúsculo. Um programa imperdível aqui é o passeio
de barco à ilha do Mogador, na baía de Essaouíra, para
apreciar o espetáculo do por-do-sol. 

Na contra-mão dos pacotes turísticos deixamos para o
final a visita a Casablanca, a grande cidade marroquina,
de 5 milhões de habitantes. Além de sua linda enseada,
praticamente, não há atrativos nessa metrópole que,
nem de longe, exala o romantismo do clássico
Casablanca do cinema. Mas vale a pena visitar a
mesquita Hassan II, a segunda maior do mundo (só
perde para a de Meca), com capacidade para 25 000
fiéis. Na construção desse monumento, em que
sobressaem a beleza da arquitetura e dos mosaicos
árabes, foram investidos 600 milhões de dólares na
década passada. Talvez por isso, a mesquita é a única
que permite visitas guiadas (e pagas), sem restrições a
não-muçulmanos e a mulheres com a cabeça
descoberta.
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