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É SÓ RESPIRAR...

Como um procedimento tão simples - a meditação - pode mudar nossas vidas.

Médicos a recomendam. Neurocientistas a estudam. A técnica ancestral funciona.

E mais: assista, no final da página, à entrevista de JM sobre o tema na SimTV
JOMAR MORAIS
10/2003
Na sala vazia e silenciosa, dois monges zens, com seus mantos e cabeças raspadas, estão
sentados no chão, lado a lado, pernas cruzadas. Depois de alguns instantes, o mais jovem
lança um olhar surpreso e irônico para o mestre. Sereno, o velho monge comenta: “É isso aí.
Nada vai acontecer depois”. Não se trata de uma cena real. É só uma charge publicada na
renomada revista novaiorquina The New Yorker, brincando com o novo hábito americano de
meditar regularmente, como fazem os orientais há milhares de anos. A fina ironia da charge, no
entanto, tem a ver com a realidade. Embora singela, a atitude de sentar sobre uma almofada
(sentar no chão em posição de lótus exige um preparo de monge) e ficar atento à própria
respiração é tão fora de propósito em nossa rotina atabalhoada que é fácil se identificar com o
jovem monge, perplexo e irônico, ao encará-la pela primeira vez. Comigo não foi diferente.
Na primeira vez em que me detive a acompanhar o compasso da respiração, o sentimento
inicial foi surpresa. Impressionou-me a rapidez com que tudo caminhou para a inatividade. O
turbilhão de pensamentos que ocupava a minha mente (uma conta para pagar, uma cena do
filme que eu vi no dia anterior, uma ótima piada para contar aos amigos) foi desaparecendo sem
que eu me desse conta. O incômodo da perna dormente, pressionada pela flexão, logo foi
substituído por um inesperado prazer, prazer de simplesmente respirar. Então, de repente, foi
como se tudo houvesse parado nos primeiros segundos depois de acordar, aqueles instantes
em que você se sente presente e alerta, mas com a cabeça vazia de preocupações ou
intenções. Enfim, aqueles poucos segundos do dia em que nada acontece.
Foi então que tudo ficou meio irônico: o êxtase, o delicioso estranhamento que entupiu meus
sentimentos acabou em um segundo ou menos! E no instante seguinte lá estava eu com todos
os pensamentos de volta: a conta, o filme, a piada e mais uma porção de coisas. Rindo comigo
mesmo, me perguntei - talvez como um jovem monge perplexo e desconfiado - se não haveria
algo mais divertido para fazer naquele instante.
É isso aí. Meditação, afirmam os especialistas, é um não-fazer. É a única atividade humana que
intencionalmente não objetiva levar o praticante a lugar algum ou a qualquer resultado. Quer
dizer que meditar é só parar e não pensar em nada? É. Mas acredite: não é nada fácil. Não para
ocidentais como eu e você, acostumados com a idéia de que, para resolver um assunto, o
primeiro passo é pensar bastante nele. Na meditação, a idéia é exatamente o oposto: parar de
pensar (por mais bizarro que isso possa lhe parecer).
A novidade é que, mesmo parecendo alienígena, a meditação conquista cada vez mais adeptos
no Ocidente. Dez milhões de americanos meditam regularmente em casa e em hospitais,
escolas, empresas, aeroportos e até em quiosques de internet. No Brasil, o interesse pelo
assunto também multiplicou o número de locais onde se pode meditar. Entre os milhões de
meditadores americanos estão celebridades de grosso calibre, como o dirigente da Ford, Bill
Ford, e o ex-vice-presidente Al Gore. No Brasil, a exemplo da Hollywood dos anos 90, a
meditação entrou para a rotina de estrelas - como a atriz Christiani Torloni e a apresentadora
Angélica, que recorreu à prática para livrar-se de uma crise de síndrome do pânico - e virou
ferramenta diária de produtividade em empresas e até em alguns círculos do poder. O prefeito
petista de Recife, João Paulo, por exemplo, só inicia o expediente após meditar por alguns
minutos.
Mas como é que algo assim, na contramão do pragmatismo moderno, consegue empolgar
tantas pessoas? Tem gente pagando caro para participar de sessões de meditação - pagando
para ficar sentado em silêncio em uma sala despojada. Como pode?
É verdade que tem muita gente desiludida com o modo de vida ocidental (a destruição do meio
ambiente, a vida cada vez mais solitária das grandes cidades e a competição pelo ganha-pão).
Mas esse contingente não é capaz de explicar, sozinho, a explosão da meditação. A verdade é
que a ciência resolveu se debruçar sobre os efeitos da meditação, e as notícias dos laboratórios
de pesquisas cada vez convencem mais pessoas a dar uma relaxada em posição de lótus ou
simplesmente sentada em uma cadeira.
O principal resultado dessas pesquisas pode ser resumido em duas palavras: meditação
funciona. Ou seja, por mais estranho que possa parecer aos ratos de academia que sabem de
cor seu ritmo cardíaco máximo e sua capacidade de esforço, não fazer nada por alguns
minutos diariamente tem efeitos palpáveis, reais e mensuráveis no corpo. E o melhor: só
apareceram efeitos positivos (pelo menos até agora). Ou seja, aquilo que os adeptos da
tradicional medicina chinesa e os mestres budistas há tanto tempo viviam repetindo (com um
sorriso bondoso no rosto) começa a ser comprovado por alguns dos mais renomados centros
de pesquisa ocidentais, como as universidades Harvard, Columbia, Stanford e Massachussets,
nos Estados Unidos, e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Brasil.
É difícil listar as descobertas, porque as pesquisas sobre a meditação alcançaram a maioridade
recentemente. Mais precisamente no ano 2000, quando o líder do budismo tibetano, o Dalai
Lama (sempre ele) encontrou-se com um grupo de psicólogos e neurologistas na Índia e
sugeriu que os cientistas estudassem um time de craques em meditação durante o transe, para
ver o que ocorria com seus corpos. Os cientistas abraçaram o desafio e, desde então, as
pesquisas não páram de produzir surpresas. Já se sabe, por exemplo, que meditar afeta, de
fato, as ondas cerebrais. Sabe-se também que isso tem efeitos positivos sobre o sistema
imunológico, reduz a tensão e alivia a dor. “Três décadas de pesquisas mostraram que a
meditação é um bom antídoto do estresse”, diz o jornalista e psicólogo americano Daniel
Goleman, autor dos livros Inteligência Emocional e Como Lidar com as Emoções Destrutivas,
este o relato do encontro dos cientistas com o Dalai Lama. “Agora, o que está mira dos
pesquisadores é saber como a meditação pode treinar a mente e reformatar o cérebro”, afirma
Daniel.
A piada dos dois monges na revista americana não é gratuita. Afinal, faz séculos que se pratica
meditação no Oriente, por recomendação religiosa. O detalhe é que agora a recomendação
também é médica. Nos anos 70, quando a prática começou a se espalhar pelo Ocidente,
impulsionada pelo movimento hippie, o cantor e compositor brasileiro Walter Franco cantava
que tudo era uma questão de “manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.
Hoje, os versos de Walter poderiam fazer parte de uma receita médica, de uma sessão de
psicoterapia, de um treinamento em uma grande empresa ou até mesmo de um programa para
a recuperação de presos.
“Focalizar a atenção no mundo interior, como se faz na meditação, é uma situação terapêutica”,
diz o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da
Unifesp, que em setembro foi transformada no primeiro instituto de medicina comportamental
do país. “Queremos avaliar o alcance dessa prática e isolá-la de seu aspecto supersticioso.”
Por trás dessa intenção está o fato de que as causas de doenças mudaram muito nos últimos
cem anos. No passado, as doenças eram causadas principalmente por microorganismos, as
pessoas morriam de poliomielite, de sarampo, de varíola e outras doenças causadas por
bactérias e vírus. Mas isso mudou, graças aos investimentos em saneamento e o
desenvolvimento de antibióticos e vacinas. “Hoje, a maioria das doenças são causadas por
coisas como hipertensão, obesidade e dependência química, que estão ligados a padrões
inadequados de comportamento”, diz José Roberto. , Ou seja, o que mata hoje são os maus
hábitos.
Apaziguar a mente, os cientistas estão descobrindo agora, pode reduzir o nível de ansiedade e
corrigir comportamentos pouco saudáveis. O cardiologista Herbert Benson, da Universidade
Harvard, um dos maiores pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção da
saúde, chega a estimar em seu livro Medicina Espiritual que 60% das consultas médicas
poderiam ser evitadas se as pessoas apenas usassem a mente para combater as tensões
causadoras de complicações físicas.
Mas, afinal, como é que se medita e o que acontece durante a prática contemplativa? Bem, há
um leque de modalidades para quem deseja meditar, mas a receita básica é a mesma:
concentração. Vale concentrar-se na respiração, em uma imagem (um ponto ou uma imagem
de santo), um som ou na repetição de uma palavra (o famoso mantra). Parar de pensar
equivale a ficar quase que exclusivamente no presente. Faz sentido: os pensamentos são feitos
basicamente de duas substâncias: as idéias e experiências que ouvimos, vivemos ou
aprendemos no passado e os planos e apreensões que temos para o futuro. É aí que surgem
aqueles sentimentos comuns nas descrições de grandes meditadores, sensações como sentir-
se em ligação íntima com o universo, ou ter uma superconsciência do mundo. A impressão é
de que se está ainda mais consciente, apesar do completo desligamento do mundo externo.
“Na meditação, a mente ganha a precisão de um raio laser, totalmente focada em um ponto. É
uma pesquisa interior, onde o meditador é ele próprio cientista, cobaia e laboratório”, afirma a
psicóloga e monja Susan Andrews, americana que há 30 anos ensina técnicas meditativas do
tantra e biopsicologia e que há dez anos fundou a ecovila Parque Visão Futuro, em Porangaba,
no interior de São Paulo. Meditar é, portanto, concentrar-se em cada vez menos coisas, inibindo
os sentidos e esvaziando a mente. Tudo isso sem perder o estado de alerta, ou seja, sem
dormir.
BIOLOGIA DO ZEN
Nos primeiros estudos sobre a meditação, na década de 60, o cardiologista Benson, de
Harvard, e outros pesquisadores submeteram meditadores a experimentos nos quais a pressão
arterial, os ritmos cerebrais e cardíacos e mesmo a temperatura da pele e do reto eram
monitorados. Constatou-se então que, enquanto meditavam, eles consumiam 17% menos
oxigênio e seu ritmo cardíaco caía para incríveis três batimentos por minuto (a média para
pessoas em repouso é de 60 batimentos por minuto). Isso acontecia quando as ondas
cerebrais alcançavam o ritmo teta, mais lento e poderoso, no qual a mente alcançaria o estado
de “superconsciência” relatado pelos iogues e caracterizado por uma inundação de insights e
alegria.
Para se ter uma idéia dessa mudança, quando estamos ativos o cérebro emite ondas beta, de
oscilação em torno de 13 ciclos por segundo. As ondas teta vibram a apenas quatro ciclos por
segundo, abaixo até das ondas alfa do estado de relaxamento e a um passo das ondas delta, de
1 ciclo por segundo, presentes somente na meditação profunda de monges ultratreinados. Você
conhece essa sensação causada pelas ondas teta. É aquele embotamento que aparece
normalmente nos segundos que antecedem o sono. Naquele momento, nosso cérebro funciona
no ritmo teta. Mas os meditadores pesquisados não estavam dormindo. Ao contrário, estavam
bem acordados e serenos.
Mais tarde, percebeu-se que no momento da meditação o fluxo sanguíneo diminuía em quase
todas as áreas cerebrais, mas aumentava na região do sistema límbico, o chamado “cérebro
emocional”, responsável pelas emoções, a memória e os ritmos do coração, da respiração e do
metabolismo. Benson, que escreveu um clássico sobre o tema nos anos 90 - A Resposta do
Relaxamento - , emprestou um pouco da humildade oriental e disse que seu trabalho se
resumiu a explicar biologicamente técnicas conhecidas há milênios.
Desde então, uma série de novas pesquisas, respaldadas em imagens da intimidade cerebral
feitas por tomógrafos sofisticados que retratam o cérebro em funcionamento, levantaram o véu
sobre outros segredos. Um dos estudos mais abrangentes e reveladores foi realizado por
Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. A idéia era registrar o
que ocorre com o cérebro quando se alcança o clímax em práticas místicas como a meditação
e a oração. Newberg rastreou a atividade cerebral de um grupo de praticantes budistas em
meditação profunda e de um grupo de freiras franciscanas, quando rezavam fervorosamente.
Ele constatou uma significativa alteração no lobo parietal superior, localizado na parte anterior
do cérebro e responsável pelo senso de orientação - a capacidade de percepção do espaço e
do tempo e da própria individualidade. Segundo as descobertas de Newberg, à medida que a
contemplação se faz mais profunda, a atividade na região diminui gradualmente até cessar
totalmente no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de
unicidade com o universo, cerca de uma hora após o início da concentração. Nesse instante,
privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal desligam os mecanismos das
funções visuais e motoras e o meditador ou devoto perde a noção do “eu” e sente-se
prazerosamente expandido, além de qualquer limite. Talvez esteja aí o indício mais concreto de
que se tem notícia do não-fazer meditativo e do nirvana ou do paraíso anunciados pelos
místicos. Além disso, as imagens revelaram que, durante a experiência, os lobos temporais,
sede do sistema límbico, tiveram sua atividade redobrada, o que explicaria a enorme influência
dos estados contemplativos sobre as emoções e a personalidade dos praticantes.
Newberg concluiu que as sensações vivenciadas por budistas e freiras são um fenômeno real
baseado em eventos biológicos - uma constatação que permite inferências em outras áreas do
conhecimento. No livro Why God won´t go away (Por que Deus não vai embora), no qual relata
sua pesquisa, o cientista recorre à antropologia para afirmar que o desenvolvimento do lobo
parietal no cérebro dos humanos foi fundamental para a emergência da mitologia e do
misticismo. Afinal, é lá que se encontra a estrutura neurológica que proporciona a noção de
causalidade e oposição, bem como o centro da linguagem, ambos necessários à formação da
narrativa mítica. Um chimpanzé, com seu lobo parietal rudimentar, até pode lidar com alguns
conceitos matemáticos, mas é incapaz de elaborar pensamentos abstratos como o da
transcendência da morte.
Mas há quem veja tudo isso com uma certa desconfiança. “Ao que parece, estamos diante de
um fenômeno de marketing”, disse Richard Sloan, psicólogo do Centro Médico Presbiteriano de
Columbia, em Nova York, comentando o encontro do Dalai com os cientistas, há três anos.
Segundo Richard, é discutível se o impacto da meditação sobre o sistema nervoso e a saúde
tem um efeito profundo e duradouro ou apenas superficial e efêmero. Então, está na hora de
conferir o que os estudos dizem a respeito.
MENTE QUIETA, CORPO SAUDÁVEL
A meditação ajuda a controlar a ansiedade e a aliviar a dor? Ao que tudo indica, sim. Nessas
duas áreas os cientistas encontraram as maiores evidências da ação terapêutica da meditação,
medida em dezenas de pesquisas. Nos últimos 24 anos, só a Clínica de Redução do Estresse
da Universidade de Massachussetts monitorou 14 mil portadores de câncer, aids, dor crônica e
complicações gástricas. Os técnicos descobriram que, submetidos a sessões de meditação
que alteraram o foco de sua atenção, os pacientes reduziram o nível de ansiedade e diminuíram
ou abandonaram o uso de analgésicos. Ou seja, eles aprenderam a entender a dor, em vez de
combatê-la. Com isso, deixaram de antecipá-la ou amplificá-la por meio do medo de vir a sentí-
la. Sim, porque boa parte da sensação dolorosa é psicológica, fabricada pelo medo da dor.
Resultado: as queixas de dor, segundo o diretor da clínica, Jon Kabat-Zinn, diminuíram, em
média, 40%.
No hospital da Unifesp, em São Paulo, a meditação é indicada para pacientes com fibromialgia
(dores nos músculos e articulações), fobias e compulsões. Ali, estudo recente dirigido pela
doutora em biologia Elisa Harumi Kozasa atestou a melhoria da agilidade mental e motora em
ansiosos e deprimidos que, durante três meses, meditaram sob a orientação de instrutores
indianos. Outras duas pesquisas, coordenadas pelas psicólogas Márcia Marchiori e Elaine de
Siqueira Sales, deve comparar nos próximos meses os efeitos terapêuticos da meditação com
os das técnicas de relaxamento físico e o nível de adesão dos praticantes das diferentes
modalidades de meditação.
O desempenho antiestresse da meditação, segundo estudos das universidades americanas
Stanford e Columbia, acontece porque a mente aquietada inibe a produção de adrenalina e
cortisol - os dois hormônios secretados nas situações de estresse - , ao mesmo tempo que
estimula no cérebro a produção de endorfinas, um tipo de tranqüilizante e analgésico natural tão
poderoso quanto a morfina e responsável pela sensação de leveza nos momentos de
contentamento.
Já parece motivo suficiente para render-se aos mantras, mas tem mais. Investigações
realizadas na Universidade Wisconsin, nos Estados Unidos, acrescentaram que meditar
também melhora a ação do sistema imunológico, que defende o organismo contra o ataque de
microorganismos (bactérias, vírus e outros germes). A experiência comparou dois grupos de
voluntários - um constituído de pessoas que meditavam havia alguns meses e o outro de não-
meditadores. Primeiro se constatou que os meditadores tiveram um aumento na atividade do
córtex pré-frontal esquerdo, a área cerebral relacionada às emoções positivas. Então, ambos os
grupos foram inoculados com a vacina contra gripe, e submetidos a medições quatro semanas
e oito semanas depois. O pessoal habituado a entoar mantras apresentou um número bem
maior de anticorpos contra a vacina, o que sugere que seus sistemas de defesa estavam mais
ativos.
Em abril passado, durante um encontro da Associação Americana de Urologia, anunciou-se que
a meditação ajuda a conter o câncer da próstata. E alguns pesquisadores relataram que
mulheres com câncer de mama que passaram a meditar tiveram elevação no nível de células
imunológicas que combatem tumores. Mas essas descobertas estão longe de alcançar a
unanimidade entre os cientistas. O psiquiatra americano Stephen Barret, um dos principais
críticos às terapias alternativas nos Estados Unidos, desconfia desses resultados. “Meditar
pode aliviar temporariamente o estresse, mas sua ação nunca irá além disso no tratamento de
doenças graves, como o câncer.” Mesmo Herbert Benson, não descarta os tratamentos
ocidentais tradicionais. Para ele, a saúde e a longevidade no mundo moderno serão, cada vez
mais, resultado de um tripé formado por remédios, cirurgias e cuidados pessoais, incluindo-se
aqui a meditação e todo o poder catalisador das crenças nas reações orgânicas.
O CÉREBRO REFORMATADO
Mas ainda há muita coisa para ser descoberta sobre o poder do mantra e os pesquisadores
estão debruçados sobre os meditadores, tentando entender como é que um ato tão simples
causa tantas modificações. Estudos como o de Wisconsin, que ligam disciplina mental a
emoções positivas e ambas ao bom desempenho do sistema imunológico, atiçam o interesse
dos cientistas em avaliar o real poder da meditação na reformatação das funções cerebrais. E o
que eles estão descobrindo é que, com suficiente prática, os neurônios podem reprogramar a
atividade dos lobos cerebrais, especialmente a área relacionada à concentração e à orientação.
Não dá para negar que, sobre concentração, o Dalai Lama e os orientais, com sua atenção aos
detalhes e sua atenção extrema, têm muito a ensinar aos ocidentais. “Só há pouco a psiquiatria
ocidental reconheceu a existência do transtorno do déficit de atenção (uma síndrome
caracterizada pela dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração e impulsividade),
mas há milhares de anos tradições como o budismo afirmam que todos sofremos desse
distúrbio com mais ou menos intensidade”, diz o psiquiatra Roger Walsh, da Universidade da
Califórnia em Irvine.
A possibilidade de alterar em profundidade o cérebro, apenas meditando, talvez possa no futuro
ajudar a prevenir ou a superar complicações vasculares a custo bem mais baixo que o das
cirurgias. Ou a romper condicionamentos e redirecionar as mentes de indivíduos anti-sociais - o
que, aliás, vem sendo testado com relativo êxito. Numa experiência na Kings County North
Rehabilitation Facility, penitenciária próximo a Seattle, nos Estados Unidos, um grupo de
prisioneiros condenados por crimes relacionados ao consumo de droga e álcool praticou
vippassana (meditação budista com foco inicial na respiração, seguida de análise existencial)
11 horas por dia durante 10 dias. Após voltarem para casa, 56% deles reincidiram na
criminalidade no prazo de dois anos, um índice considerado otimista comparado aos 75% de
reincidência entre os presos que não meditaram.
Já na Universidade Cambridge (EUA), um estudo conduzido por John Teasdale constatou a
redução de até 50% nas recaídas de pacientes com depressão crônica que passaram a
meditar regularmente. A doença é acompanhada por uma diminuição no nível do
neurotransmissor serotonina no cérebro, processo geralmente revertido com o uso de
antidepressivos, como Prozac. A meditação aumenta a produção de serotonina, funcionando
como um antidepressivo natural. Em Cotia, na Grande São Paulo, um programa de meditação
para crianças carentes, conduzido pela monja Sinceridade no Templo Zu Lai (sede da primeira
universidade budista do país) tem resultado em mudanças significativas no comportamento de
128 meninos de favelas. “Eles melhoraram significativamente a concentração e a convivência
social”, diz Sinceridade.
FAST-FOOD MENTAL?
Toda essa popularidade, porém, não permite afirmar se, no futuro, a meditação neste lado do
mundo continuará mantendo alguma identidade com a prática ancestral do Oriente. Além de
sua gradual transformação em técnica laica, ocorre neste momento uma rápida adaptação do
modo de usá-la ao estilo de vida ocidental.
Em vez de contemplações que duram horas (você aí teria pique para ficar quatro horas sentado
no chão, imóvel, meditando, como faz diariamente o Dalai Lama?), tornou-se padrão a
meditação de 20 minutos duas vezes ao dia. Ainda assim, isso parece exigir uma boa dose de
sacrifício de inquietos habitantes de metrópoles como Nova York e São Paulo. No próximo ano,
o autor Victor Davich lançará nos Estados Unidos o livro Eight minutes that will change your life
(Oito minutos que mudarão sua vida) no qual defenderá um tipo de meditação fast-food de não
mais que oito minutos. Segundo ele, esse é o tempo máximo que os americanos estão
acostumados a se concentrar diariamente: os blocos de programas de TV duram exatamente
isso, entre um comercial e outro. Da mesma forma, os mantras sonoros em sânscrito das
meditações místicas, cujas freqüências acústicas muitas vezes são similares às das ondas
cerebrais alfa e delta, foram substituídos por mantras mentais, baseados em palavras quase
sempre escolhidas aleatoriamente.
Tais ajustes são vistos com reservas por iogues, praticantes tradicionalistas e até instrutores
mais liberais, como Susan Andrews, para quem é saudável tirar a meditação “das nuvens do
esoterismo” e aproximá-la da ciência. “Relaxamento e pensamento positivo são efeitos
colaterais da meditação, não a sua meta”, diz Susan. “O grande alvo é atingir a
hiperconsciência, o samadhi, estado de plenitude, iluminação e êxtase que não dá para ser
descrito em palavras”. A questão é que para chegar lá o meditador precisa deixar de lado a idéia
de que meditar não implica qualquer esforço, cuidando de manter a concentração firme e
afinada por pelo menos uma hora. E isso, admitamos, é algo que também exige um preparo de
monge.
PARA SABER MAIS:
Na Livraria:
A Mente Alerta - Jon Kabat-Zinn, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001
Medicina Espiritual - Herbert Benson, Campus, Rio de Janeiro, 2003
Meditação e os segredos da Mente - Susan Andrews, Instituto Visão Futuro, Porangaba, 2001
Why God won´t go away - Andrew Newberg, Ballantine, Nova York, 2001
Yoga - Caco de Paulo e Marcia Bindo, São Paulo, Superinteressante, 2002

[Publicado na revista Superinteressante de outubro de 2003]
TV SAPIENS
JM na SimTV: Por que a meditação é uma
necessidade do homem contemporâneo
LEIA OS COMPLEMENTOS:


* Passo a passo da meditação

* Entre o céu e os neurônios




OUTRO TEXTO DO AUTOR

* O poder da mente vazia
                    +
* Por uma mente mais clara
(texto de Caco de Paula)

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(*) O jornalista Jomar
Morais é autor do livro
Meditação (foto ao lado),
publicado pela Editora
Abril. Em 2001 fundou o
Sapiens - Grupo de
Estudos Filosóficos e
Autoconhecimento, onde
se pratica, gratuitamente,
a meditação sentada às
terças-feiras. Clique aqui
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