JM em Machupicchu, numa manhã fria e chuvosa: ápice de um mochilão que iniciou singelo e cresceu com as surpresas do caminho e das alturas que guardam o passado da América do Sul

Do Atlântico aos Andes entre contrastes e desafios
Mochila nas costas, pouca grana, vários embarques em busões, dois trechos aéreos e um verso do sambista na cabeça: "Deixa a vida me levar, vida leva eu...". Eis o roteiro: Natal, Recife, Salvador, Palmas, Uberlândia, Uberaba, São Paulo, Assunção, Santa Cruz de la Sierra, Copacabana (lago Titicaca), Cusco, Machupicchu, Puerto Maldonado, Rio Branco, Brasília, Natal.
MENSAGEM DE MACHUPICCHU

Finalmente, Machupicchu. Foi bom chegar aqui após rodar quase 10 mil quilômetros entre paisagens brasileiras, paraguaias, bolivianas e peruanas. Este momento não teria o mesmo significado para mim se eu não estivesse sensibilizado pelo contato com a alma do continente.

Observo o tesouro arqueológico do ponto mais alto da cidadela e me pergunto se o mundo não seria hoje bem melhor se a ganância e o preconceito dos conquistadores europeus não tivessem sufocado uma cultura tão rica e - por que não dizer? -  refinada. Os incas foram o ápice de civilizações andinas que se perdem no tempo e Machupicchu, ao que tudo indica, era uma espécie de laboratório onde uma elite pensante desenvolvia técnicas agrícolas e de engenharia, realizava estudos astronômicos e filosóficos e praticava uma espiritualidade que, hoje sabemos, integrava mais o homem à Terra e ao universo do que o materialismo de nossas crenças utilitaristas.

A construção monumental no alto da montanha de 2500 metros impressiona, mas, para mim, ainda mais importante é o fato de nenhuma pedra utilizada na obra ter sido movida com trabalho escravo. Os incas praticavam uma meritocracia invejável em nossos dias. Sua elite era formada por homens de saber e sensibilidade que retribuíam à sociedade com trabalho, inclusive braçal - o jeito inca de pagar imposto. Havia entre eles a convicção de que a vida é um eterno renascer, como sugere o simbolismo das múmias, sempre em posição fetal e voltadas para o nascente.

Caminhando pelas vielas e escadarias de Machupicchu, a cidadela na forma de um condor (símbolo inca da relação com o divino) vem à minha mente as imagens fortes do que eu vira um dia antes em Cusco, a cidade na forma de um puma (símbolo do poder e da concretude terrena), esmagada pelos espanhóis. Penso nas ruínas de  Saqsaywaman, a colossal construção na forma de um raio, em cujo campo se deu a batalha final de 1540, e na Qorikancha, o portentoso templo inca onde os conquistadores comemoraram a vitória  pilhando ouro e prata (que para os nativos tinham apenas valor estético) e depois erguendo sobre os escombros uma igreja dedicada a Santo Domingo de Gusmão. Ainda há vida ali. Não se matam idéias.

Então, a chuva que cai insistentemente sobre a montanha me parece lágrimas que lavam o passado e fazem a catarse de nossos erros...

É possível resgatar, em parte, o que o impulso predatório menosprezou, vilipendiou e fez diluir-se no esquecimento que virou mistério. A sabedoria ancestral, remanescente na tradição de povos indígenas como os quechuas peruanos, tem muito a nos ensinar e pode, sim, nos ajudar a salvar a Terra.


[Texto escrito por Jomar Morais junto à Plaza de Armas de Cusco, no Peru, em 06/02/2012 e publicado na edição do Novo Jornal do dia seguinte]
 
VIVER OU SOBREVIVER?

No café da manhã em Assunção, o som romântico da velha guarânia que fala do lago azul de Ipacaraí faz-me meditar sobre o país em que me encontro, na sequência de meu mochilão tropical.

Você já pensou em passear no Paraguai?  Se conseguir livrar-se dos preconceitos, descobrirá que esse renegado país irmão é muito mais que a zorra de muambas de Ciudad del Este e o corredor de impunidade de Pedro Juan Caballero. Assunção, por exemplo, é um ótimo lugar para descansar, curtir a história e até para fazer compras de um jeito mais confiável.  E se você for um sortudo, como eu, poderá, de repente, ser premiado com o conforto de uma suíte de cinco ambientes, na cobertura de um hotel clássico - onde eu descobrira pela internet a pechincha de um apartamento a 100 reais -, graças ao overbooking provocado por uma invasão de gringos.

Na última vez em que estive aqui, o Paraguai ainda era governado pelo ditador Alfredo Stroessner e seus intelectuais se divertiam ao parafreasar o que dissera, já no século 19, o mexicano Porfírio Díaz em relação à proximidade de seu país com os Estados Unidos. "Pobre Paraguai. Tão longe de Deus, tão perto do Brasil", diziam para mim, na época repórter da revista Veja garimpando informações para uma reportagem sobre contrabando de armas.

Desde então, Assunção, uma capital com jeito interiorano, ergueu bairros de classe média repletos de shopping centers, virou metrópole de 2,3 milhões de pessoas, mas não perdeu um certo ar brejeiro. Na sofisticação da Villa Morra, a área chique, ou no romantismo do centro histórico, junto ao rio Paraguai, a vida ainda corre tranquila, em meio a moringas e cuias de tereré, o chimarrão gelado, e as deliciosas chipas, pães feitos com quatro queijos.

Há também mais edificíos e mais carros, mas a favela ao lado do palácio presidencial inspirado no de Versailles, que pertenceu a Solano López (aquele das aulas de história), é um ícone do enorme desafio social de um país que há dois séculos chegou a ser modelo mundial nessa área.

O que falta ao Paraguai? "Clientelismo e corrupção impediram a industrialização e nos tiraram a credibilidade", disse-me o cocheiro que, no meio da noite, conduziu-me  pelos sítios históricos em sua carruagem turística por apenas 8 reais. Sua fala e sua vida são simbólicos.   Advogado e filho de jornalista, ele faz bicos na noite para complementar a renda.  Seu discurso politizado é sensato e ético, mas no final ele me mostra o que pode acontecer com indivíduos e países quando o argumento da sobrevivência faz perder o foco na vida, onde cabem princípios que lhe dão sentido e a tornam mais justa.

"E então? Estás buscando uma menina?", insinua o homem, com o ar de quem pode facilitar as coisas. Sorrio, sem me surpreender. Na baía de Assunção, apenas escuto o que costumo ouvir em Natal, nas minhas caminhadas noturnas na enseada de Ponta Negra...

[Texto escrito em Assunção, no Paraguai, em 28/01/2012 e publicado na edição do Novo Jornal de 31/01/12]



A área dos templos em Machupicchu. À direita,
o Templo do Sol, o mais importante deles
Santuário em caverna de Cusco e a escultura de um condor, ícone inca da união com o divino
Mesa para rituais em santuário da Pacha-Mama (a Mãe Terra) numa caverna de Q´enqo, Cusco
BRASIL, MOSTRA AS TUAS CARAS

É um erro alguém dizer que conhece os Estados Unidos só porque passou férias em Nova York. Metrópole cosmopolita, a Big Apple não representa, com suas cores e liberalidades, os milhões de americanos que habitam cidades e vilarejos pacatos onde a bandeira nacional tremula nos jardins das residências e normas conservadoras guiam uma rotina modorrenta, muitas vezes inspiradas por seitas fundamentalistas e pela obsessão de gerar fortunas.

O mesmo raciocínio serve para quem visita Paris e imagina ter entrado em contato com a alma francesa, embora tenha ficado a léguas das regiões vinícolas e da França mediterrânea, onde a vida segue outros ritmos e valores.  Aplica-se ainda a qualquer gringo que, do "continente" brasileiro, sabe apenas de São Paulo, Rio ou alguma capital turística, como Natal.

"O Brazil não conhece o Brasil", já dizia, nos anos 70, a canção de Maurício Tapajós e Aldir Blanc na voz incomparável de Elis Regina. Sob a ditadura, essa era uma maneira de afirmar que os gestores da Guerra Fria e as  empresas estrangeiras não conheciam a nossa realidade e, portanto, não deviam apontar-nos caminhos. Hoje, com o país na condição de sexta economia do planeta e a gringalhada aprendendo a respeitar nossas especificidades, imagino que o verso adequado seria mesmo "o Brasil não conhece o Brasil", tal a distância que ainda existe entre o Brasil urbano, das metrópoles e capitais litorâneas, e o interiorzão das vilas rurais  e das cidades emergentes povoadas por caipiras ainda não transmutados completamente pela TV e os shopping centers.

Penso nisso enquanto estou em Palmas, no Tocantins, na sequência de um mochilão que me levará ao  Paraguai e, se as chuvas deixarem, até Cusco e Machupicchu, no Peru. Mais precisamente, penso nisso diante do memorial do movimento tenentista e da Coluna Prestes, cujos líderes redigiram há 75 anos, a 60 quilômetros daqui, o seu manifesto contra a República Velha e pela modernização do país. E penso nisso saboreando e me assustando com essa capital planejada que abriga, principalmente, forasteiros de pequenos municípios unidos pelo ritmo tranquilo - e até tedioso -, a cortesia desconfiada e uma boa dose de conservadorismo.

Surpreendo-me aqui com as redes armadas nos quiosques dos postos de taxi onde motoristas aguardam o cliente tardio, com as ruas desertas já as 7 da noite e com a escassez de serviços.

Palmas está entre as cinco capitais mais seguras do país e nos jornais quase não há notícias de crimes. Mas que ninguém se engane: o Tocantins, diz a imprensa local, lidera o ranking da homofobia, com o assassinato de 27 gays desde 2002.

Isto também é a cara do Brasil.


[Texto escrito em Palmas, Tocantins, em 16/01/2012 e publicado na edição do Novo Jornal do dia seguinte]





LIÇÃO DE VIDA NA CASA DA MORTE

Não costumo visitar cemitérios. Nem mesmo no Dia de Finados. Minha relação com os mortos,  apoiada na crença na manifestação contínua da vida sob  a variedade das formas, sugere-me que o túmulo não é o lugar ideal para nos religarmos aos que partiram. Ainda assim, reconheço o poder do símbolo e em situações especiais acabo visitando tumbas, geralmente em viagem. Aí prefiro estar sozinho para meditar sobre a finitude de nossas vaidades.

Foi assim quando desci às grutas do Vaticano em 1982 - época em que ainda se podia percorrê-las até o nível mais baixo - às 8h da manhã, antes da chegada dos turistas e em silenciosa soledade. E também quando fui ao famoso cemitério do Père Lachaise, em Paris, onde estão sepultadas figuras como Balzac, Oscar Wilde, Proust, Chopin, Allan Kardec e Édith Piaf.

Estive ainda em cemitérios menos cotados e deles sempre retornei com um saldo de reflexões e epifanias que influenciam a minha vida. Mas nada se compara à experiência por que passei na última quinta-feira no cemitério São João Batista, em Uberaba, MG.

Diante do túmulo de Chico Xavier, sob chuva e num cenário desértico, eu lembrava da única vez em que estivera com o médium, em 1973, e de como um simples abraço seu, seguido de um "Deus o abençoe", fizera-me entender a força milagrosa do amor. Foi quando, de súbito, surgiu à minha frente um jovem de aparência estranha, jeitão de bicho louco chapado que, olhando em minha direção, começou a sacar algo de uma velha mochila. Imaginei tratar-se de uma arma e, por impulso, interrompi a minha oração,  protegendo-me junto à parede do túmulo vizinho. A consciência, no entanto, advertiu-me: "Faz com ele o que o Chico fez contigo".

Retornei a tempo de ver o rapaz guardando na mochila um simples maço de cigarros e de perceber naquele olhar excêntrico um traço de resignada tristeza. Iniciei uma breve conversação. "Sou espírita", disse-me o moço. "Estou aqui para rogar ao Chico que me ajude a receber uma mensagem de minha mãe. Ela morreu e eu me sinto só". Senti-me tocado por suas palavras. Abençoei-o com o carinho de um pai e despedi-me.

Então, enquanto caminhava de volta pela alameda molhada, a ficha caiu e vi-me nu em minha prisão de egoísmo e medo. Como pude negar a um ser humano angustiado a cortesia gratuita de um olhar e de uma palavra gentil, apenas motivado por preconceito e avareza?

A clareza do insight foi seguida de forte emoção. Como uma criança, chorei descontrolado, em princípio sob o peso da culpa, depois pela alegria da dádiva. Pela segunda vez em minha vida, Chico Xavier iluminara-me o espírito, não através de um fenômeno retumbante mas por meio da força suave e demolidora de um pequeno gesto de compaixão.

[Texto escrito em São Paulo, em 23/01/2012, e publicado na edição do Novo Jornal do dia seguinte]

Cheguei a Cusco em 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora da Candelária e de festas nas ruas
As cholas, mulheres índias, rodopiam durante a procissão em Cusco: "ala das baianas" quechuas
Devotas da Virgem da Candelária, vestindo roupas típicas, são seguidas pela multidão


Ollantaytambo ao amanhecer, visto da janela do trem que leva visitantes a Machupicchu: paraíso
A bela Aguas Calientes, ponto final do trem. De lá sobe-se até Machupicchu a pé ou de ônibus
Cholas em Copacabana, junto ao Titicaca, a 4 mil metros de altitude: pétalas para a procissão
O palácio que foi de Solano Lopez é hoje sede da Presidência do Paraguai: inspirado no de Versailles
Militares no Panteão dos Heróis, em Assunção
Durante dois dias atravessei, de ônibus, o Chaco paraguaio: calor, deserto e essas estranhas árvores

Mausoléu do médium Chico Xavier no cemitério São João Batista, em Uberaba: fortes emoções
Monumento ao Migrante, no centro de Palmas, no Tocantins: capital planejada e modorrenta
Rio Branco: barracões do auge da borracha e do governo revolucionário de Plácido de Castro

Desta cadeira Solano Lopez levou o Paraguai à glória e à desgraça
Calendário agrícola inca no museu da Qorikancha, em Cusco
Praça da Democracia, o coração de Assunção: estilo interiorano
Santa Cruz de la Sierra, no leste da Bolívia: o protesto dos sapatos
Copacabana, Bolívia, 2 de fevereiro: no final da rua enfeitada, o lago
Igreja de Jesus, Maria e José, Cusco: oratório seicentista na fachada

Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Chile, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba, Nepal,
Turquia, Israel e Palestina



 
 
 
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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 


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