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Aldenir Dantas
Jorge Braúna
 
15º DIA DE SILÊNCIO
NO SAPIENS | 25/11
Increva-se aqui
Isla Negra, a 100 quilômetros de Santiago, já não é mais a praia deserta de 50 anos atrás, nem
este sobrado, outrora solitário, é a única construção sobre a escarpa que se impõe diante do
Pacífico. Mesmo assim, tudo na velha casa, hoje um museu, ainda exala poesia, paixão.
A mobília, arrumada da mesma maneira como a deixou Pablo Neruda, não dá margem a dúvida.
Foi aqui onde o poeta maior do Chile, Prêmio Nobel de Literatura, ativista do socialismo e
amante inveterado, colecionou seus melhores sonhos e amores ardentes.
Fascinado pelo mar, Neruda, que se autoproclamava capitão sem jamais ter comandado um
barco, ergueu uma casa com jeito de navio. Portas pequenas, teto curvo, corredores ligando
salas "protegidas" por carrancas em forma de sereias. Imagens femininas em meio a presentes
recebidos de amigos do mundo inteiro. Mulheres, sempre as mulheres.
"Nada está completo se uma mulher não compartilha nossos descobrimentos", disse o poeta
certa vez. Na proa, ao alto, o quarto, a cama rústica e um enorme janelão de vidro
descortinando o oceano. Um santuário. Ali, a pequena Matilde Urrutia, terceira mulher de
Neruda, embriagou-o de inspiração ao longo dos últimos 20 de anos de sua vida.
No guarda roupa, os vestidos e xales ainda denunciam o corpo diminuto, quase uma criança.
Suas mãos e pés minúsculos encantavam o poeta. "Tudo o que escrevo é dedicado ela", disse
Neruda, apaixonado.
Se essa casa falasse, certamente sussurraria, com o poeta, os versos delirantes:

Eu te nomeio rainha.
Há mulheres mais altas do que tu, mais altas.
Há mais puras do que tu, mais puras.
Há mais belas do que tu, mais belas.
Mas tu és a rainha.

"Doze dias depois do Golpe Militar ser proclamado no Chile, em 1973, o poeta morreu. Estava
doente e os últimos acontecimentos tinham acabado com sua vontade de viver. Agonizou em
sua cama em Isla Negra olhando sem ver o mar que estalava contra as pedras debaixo de sua
janela", escreveu Isabel Allende em seu livro Paula
UM DIA NA CASA DO
POETA

Uma visita inesquecível à casa rústica onde viveu Pablo Neruda, o maior poeta chileno,
no cenário paradisíaco das águas
esmeraldas do Pacífico, em Isla Negra
por JOMAR MORAIS
05/2001
JM, Fátima (à esquerda) e Márcia
no jardim da residência
[Publicado na revista Viagem e Turismo de 2001]

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A casa, o barco e os sinos do cáis: paixões do poeta Neruda. À direita, a sala de visitas.