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Asa delta sobre o lago Wakatipu e as flores que encantaram JM na floresta: cenas de cinema
O paraíso Nova Zelândia

A cada curva uma paisagem de tirar o fôlego: rios, canions, lagos, florestas, campos, montanhas, vulcões... Assim é a longínqua terra do Senhor dos Anéis.
por Jomar Morais
A Nova Zelândia é o país mais bonito do
mundo. Você pode duvidar, afinal nada é
mais subjetivo do que a noção de beleza.
Pode também questionar os termos de minha
comparação, pois o mundo que eu conheço,
até a publicação desta reportagem, possui
apenas 27 países e 317 cidades em cinco
continentes. Mas uma coisa ninguém pode
negar: nas duas ilhas que compõem a Nova
Zelândia estão algumas das paisagens mais
espetaculares do planeta, várias delas
celebrizadas como cenários de
superproduções do cinema, entre as quais o
filme O Senhor dos Anéis.
Este pequeno país de 4,2 milhões de
habitantes é um paraíso distante, cujo acesso
mais rápido para nós, via Pólo Sul, exige
mais de 20 horas de vôo a partir de São
Paulo e a adaptação ao fuso de 15 horas à
frente do horário de Brasília. Uma rota
cansativa que pede espírito aventureiro e
capacidade de deleitar-se com a natureza.
Quem sacrificar o comodismo para alcançar
a recompensa final, no entanto, não terá
motivos para arrependimento. Ou terá... se,
como eu, cometer o pecado de ficar pouco
tempo por lá. Minha ida à Nova Zelândia
aconteceu quando eu visitava a Austrália, em
janeiro de 2008, e durou apenas quatro dias -
muito pouco para desfrutar de tantas opções
de descanso e lazer em meio à exuberância
de montanhas, rios, lagos e campos.
Aproveitei uma promoção da empresa aérea
australiana Jet Star (e a facilidade de, como
brasileiro, não precisar de visto para entrar no
país) e voei direto para a ilha sul, destino da
maioria dos visitantes, especialmente os que
curtem esportes radicais. Para quem voa do
Brasil, a porta de entrada é Auckland (420 mil
habitantes), na ilha norte, cidade moderna
junto a uma linda baía.  A capital do país,
Wellington (180 mil habitantes), está fora do
circuito turístico. Cheguei no verão e,
portanto, privei-me do espetáculo dos picos
cobertos de gelo e do frio intenso. Mas nem
mesmo as escarpas nuas das montanhas
ofuscam a beleza do conjunto multicolorido,
feito de lagos azuis, canions de águas cor de
esmeralda, cachoeiras e planícies, matas e
flores, muitas flores. Ah! E, apesar do verão,
não escapei das temperaturas de 12 graus
celsius que se apresentam quando o sol
inicia o seu longo crepúsculo nessa época do
ano, só concluído por volta das 22 horas.
CHRISTCHURCH, UM PEDAÇO
DA INGLATERRA NA OCEANIA
O avião da Jet Star deixou-me em
Christchurch, a segunda maior cidade da
Nova Zelândia, com 360 mil habitantes, na
costa leste da ilha sul. Dizem que
Christchurch é a cidade “mais inglesa” fora da
Inglaterra. Alguns detalhes, como a
arquitetura das casas e o traçado das ruas,
reforçam esse rótulo. A melhor herança dos
fundadores britânicos, porém, são os parques
e jardins que embelezam a área urbana. A
propaganda oficial refere-se ao local como a
“Cidade Jardim” e “Portão da Antártica”,
devido à proximidade do continente gelado
do pólo sul. O Jardim Botânico é uma de suas
atrações turísticas. Outra é o Antarctic Centre,
onde se pode apreciar até pinguins.
A vida corre tranquila em suas amplas
avenidas. Durante o dia, o movimento das
pessoas se concentra na praça da catedral
de Christchurch (anglicana), área onde estão
esculturas religiosas tradicionais e arte
contemporânea, além da estação do
bondinho turístico que circula pelo centro. No
final da tarde, o agito se desloca para os
cafés e restaurantes às margens do rio Avon
e adjacências e avança madrugada a dentro
em boates e discotecas escondidas em
vielas transversais às ruas e avenidas. Tudo
num raio de não mais de dois quilômetros a
partir da catedral.
Não há metrô na cidade nem ônibus
executivo para o aeroporto. O traslado pode
ser feito de van ao preço médio equivalente a
12 reais. Mas não precisei disso na chegada.
No avião da Jet Star, conheci o monge inglês
Janananda, da Iskon, a sociedade Hare
Krishna, e após conversarmos sobre
hinduísmo, fui convidado gentilmente a seguir
com a comitiva de praticantes que o
aguardava no aeroporto. Assim, antes de
seguir para o hotel, participei no templo dos
Hare Krishna de um breve cerimonial de boas
vindas a Janananda, um homem tranqüilo e
sempre sorridente que divide seu  tempo
entre Londres e missões religiosas pelo
mundo. No final da tarde engrossei as fileiras
de jovens que, atrás do monge, cantavam
louvores a Krishna sob o olhar curioso de
quem curtia a happy hour junto ao Avon.
QUEENSTOWN, LUGAR DE
CORES E AVENTURAS
A pequena Queenstown,a 360 quilômetros de
Christchurch, tem pouco mais de 11 mil
habitantes, mas recebe nada menos de 1,7
milhão de turistas a cada ano. Para entender
esse fenômeno, basta olhar para a cadeia de
montanhas que cercam a cidade - brancas de
neve no inverno e escuras no verão - e para o
enorme lago Wakatipu, de 290 quilômetros
quadrados, em cujas águas o sol se põe às
22 horas nas noites de janeiro. Esse conjunto
de belezas naturais é o ápice de uma
paisagem de tirar o fôlego, que começa a ser
apreciada por quem viaja de ônibus já a
alguns quilômetros antes da entrada de
Queenstwon, entre curvas da estrada que
contorna o famoso Duplo Cone - montanhas
gêmeas em forma de cone - e o cânion de
águas cor de esmeralda. Um cenário
esplendoroso que justifica as locações de O
Senhor dos Anéis feitas na região.
Mas o lugar tem mais um motivo para essa
enxurrada de visitantes: Queenstown é a
capital mundial dos esportes de aventura. A
cidade foi lançada no mapa turístico depois
que Aj Hacket inventou a poucos quilômetros
dali, em Arrowtown, o bungy jumping. Aí
começou a corrida de aventureiros e
mochileiros e a explosão de modalidades
esportivas que colorem céus, águas e trilhas:
asa delta, parapente, rafting, jet boating,
canoagem... e, claro, esqui no inverno.
Atualmente, os administradores de
Queenstown tentam mudar a imagem de pólo
de mochileiros, paraíso da cerveja e das
festas de finais de semana. Querem mais e
mais turistas endinheirados. Já são muitos os
hotéis e restaurantes sofisticados e também
as mansões de executivos internacionais,
mas continua fácil encontrar as pequenas
pousadas e hostels tradicionais, como o
Albergue da Juventude. No verão, é melhor
ter a segurança da reserva. Eu não tinha e
tive que vagar por quase 2 horas até
encontrar um lugar para dormir. Apenas no
segundo dia, consegui me hospedar no
confortável Young Hostel à margem do lago,
na baía de Queenstown.
A partir de Queenstown pode-se fazer trilhas,
margeando o imenso lago ou caminhando por
dentro da floresta de eucaliptos e carvalhos
que avança sobre as montanhas. Pode-se
também visitar vinícolas e conhecer os rastros
da época em que a região era um grande
garimpo. Mas o primeiro programa é mesmo
convencional: não dá para não pegar o
teleférico e ir apreciar a cidade do Skyline,
complexo que inclui mirante e restaurante no
topo da montanha. No meio do caminho está
a plataforma de bungy jumping Aj  Hackett
(desfrute-a, se tiver coragem). E, lá em cima,
outra atração: a descida em carrinhos que
deslizam em um tobogã de cimento que
rasga a montanha sob a forma de túnel. É
radical. 
O final de tarde traz uma multidão ao largo da
marina. É a hora dos artistas de rua e seus
números circenses. E também dos
humoristas, que exercitam o esporte predileto
dos kiwis (como são também chamados os
neozelandeses, numa referência ao pássaro
nativo de bico longo): fazer piadas com os
australianos, seus eternos rivais. É também a
hora em que os estádios do país explodem
em cânticos e gritos de guerra nas partidas
de rugby, paixão nacional, principalmente
quando na arena se encontra o famoso time
do All Blacks.
Apesar dos novos tempos, o aroma do estilo
de vida maori está presente em toda a Nova
Zelândia e, principalmente, na região de
Queenstown. Ao contrário do que aconteceu
na América e na Austrália, onde os europeus
praticamente dizimaram os nativos e
impuseram sua cultura, as tribos maoris
deram muito trabalho ao branco e jamais se
renderam. Esquartejaram e comeram muitos
invasores europeus, após batalhas
sangrentas. A paz com os ingleses, os
últimos a aparecerem por lá, só aconteceu
mediante acordo que preservou direitos dos
nativos, inclusive o idioma, falado atualmente
por mais de 530 mil pessoas. A cultura maori
permanece viva e se expressa fortemente na
arte neozelandeza.
 
ISTO É BELEZA KIWI
O legendário lago Wakatipu, santuário da cultura maori, visto do Skyline. Junto à baía de águas azuis, a pequena Queenstown assiste ao espetáculo do pôr-do-sol às 22h.
 
É verão, mas a noite na praça da Catedral de Christchurch é fria (10ºC) e obriga JM a usar agasalho. Às 21h, o local já está deserto, mas as tardes são sempre agitadas. A catedral, da igreja anglicana,  guarda relíquias como o candelabro ao lado.
Domingo de verão, no pier de Queenstown: kiwis e mochileiros curam a ressaca do sábado, curtindo o sol. É preciso aproveitar, pois a noite será fria. Só a cerveja é quente.
Cena matutina no lago Pukaki (acima), à margem da estrada que liga Christchurch a Queenstown, cruzando um parque nacional. À direita os últimos raios do sol de verão sobre o majestoso lago Wakatipu, vistos do píer de Queenstown. Hora local: 21h.
Na marina de Queenstown, as tardes são  animadas por artistas de rua com seus números circenses e muitas piadas sobre os australianos, rivais dos neozelandezes.
JM com o monge inglês Janananda, líder Hare Krishna em missão na Oceania, e seus amigos em Christchurch: papo no avião, visita ao templo da Iskon e carona até o hotel.
A trilha em torno do lago Wakatipu é uma das opções de relax no paraíso de Queenstown: ar puro, perfume silvestre e o visual onde a montanha e a cidadezinha se fundem.

Onde fiquei na terra kiwi
Em Christchurh
Em Queenstown
Comprei a passagem e reservei hotel em Christchurch 12 horas antes do embarque em Sidney. Fiquei no Cokers Backpackers (ao fundo, na foto), uma boa opção na 52 Manchester Street, na área central. Diária do AP duplo: 60 dólares.
Sem reserva, tive que dormir na primeira noite em um quarto minúsculo e desconfortável de um hostel. No dia seguinte consegui um AP no Queenstown Lakefront Young Hostel, da YHA, à margem do lago. Diária do AP single: 35 dólares
Os maori, vindos da Polinésia, chegaram à
Nova Zelândia por volta do ano 850, à
procura de pounamu (jade) e de comida (um
pássaro moa gigante, hoje extinto). Os
europeus aportaram nas ilhas mil anos mais
tarde e, com eles, as ovelhas, que estão em
toda parte da zona rural do país. Em 1862,
um tosqueador descobriu ouro no rio Arrow,
abrindo caminho para levas de forasteiros.
Em poucas semanas já eram milhares.
Depois vieram os chineses. Quando o ouro
acabou, na década de 1950, Queenstown
tornou-se uma cidade turística e,então, pouco
a pouco,  o mundo pôde conhecer esse
paraíso distante e inesquecível.

NO SUL DO OUTRO LADO
Imagens de Queenstown e Christchurch, preferidas de jovens e mochileiros
Leia também os relatos dos mochilões de Jomar Morais na Índia, Grécia, Colômbia, Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Estados Unidos,
Marrocos, Portugal, Espanha, Itália, Suiça, França, Venezuela, Uruguai, Argentina, Ilha da Madeira, México, Bolívia, Cuba

06/2009
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