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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
A VERDADE, OLHO NO OLHO
A comunicação via aparelhos nos fascina e nos retém porque essa é a única instância onde podemos ter a ilusão de controle sobre o interlocutor
Há dez anos eu me surpreendia com o fato de amigos saírem às ruas portando dois ou três celulares que os mantinham num movimento frenético, atendendo a chamadas simultâneas enquanto permanecíamos à espera de uma migalha de sua atenção. Aí vieram os “duo chip”, os quais, se não alteraram a aflição dos ultra-antenados, pelo menos lhes permitiram reduzir os volumes nos bolsos e dispensar habilidades equilibristas para dizer um simples “alô”.

O alívio durou pouco. Logo nossos amigos perceberam que a novidade era insuficiente para aplacar sua sede de comunicação e os bolsos voltaram a ficar recheados. Não adiantou o lançamento de aparelhos com até quatro chips. Agora, além do celular, as pessoas também não desgrudam do Skype dos tablets, das redes sociais, do velho email e do bate-papo dos portais... Ali permanecem “ocupadas” e “importantes”, rodeadas de seguidores, exaustas, é verdade, mas com aquela sensação de inserção na modernidade.

Nossas vidas estão transcorrendo cada vez mais no ambiente virtual. Na Internet trabalhamos, comunicamo-nos, aprendemos, divertimo-nos, buscamos a cura de dores e até saímos à procura da realização afetiva, chegando ao extremo do sexo virtual (talvez a única forma de sexo seguro para humanos, embora as máquinas, coitadas!, possam ser infectadas por vírus).

Na net, tanto quanto no convívio com o celular, nossa ansiedade se impõe, sinalizando o vazio existencial que desesperadamente tentamos preencher.

Só na semana passada, recebi convites para reunir-me a amigos em quatro novas redes sociais, embora eu já os tenha ao meu lado no Twitter e no Facebook. Nossos bolsos virtuais estão abarrotados de avatares e plugins. Estamos no meio de multidões planetárias e, no entanto, sinalizamos uma imensa solidão, que, por paradoxo, no fundo queremos e buscamos.

E por que preferimos a comunicação virtual à real, aquela do olho no olho e do abraço caloroso? Certamente não é apenas porque, em razão de nossas prioridades, não mais dispomos de tempo ou porque as distâncias físicas esticaram.

A comunicação via aparelhos nos fascina e nos retém, principalmente, porque essa é a única instância onde podemos ter a ilusão de controle sobre o interlocutor, mantendo a conversa no limite de nosso desejo ou descartando-a de imediato. O celular pode ser desligado diante da mínima inconveniência. Nos bate-papos é possível mentir e clicar no botão “sair” logo que a fantasia deixa de produzir prazer efêmero. Com a webcam temos a ilusão de que, finalmente, podemos observar o outro sem aquela incômoda sensação de que o outro também nos ver por dentro.

Ah! egoísmo tolo e cruel que nos faz renunciar à vida, ao doce prazer de conviver e partilhar, sem medo, sob o brilho de um olhar humano real.

[Publicado na edição de 26/03/13 do Novo Jornal]
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