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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
SABEDORIA DE CRIANÇA
Quem melhor do que uma criança, em seu insaciável desejo de descobrir
o mundo, para chacoalhar um velho petrificado em certezas e tédios?
 
Não fosse o amor um milagre que só acontece no solo sagrado do coração, eu diria que os
governos deveriam decretar: todo homem maduro fica obrigado a manter sob sua guarda
pelo menos uma criança menor de 10 anos.  Quem não gerou filhos ou não conhece a
graça de ter um neto que se apressasse em adotar um desses meninos e meninas que se
expõem famintos nas ruas, a face mais cruel de nossa sociedade iníqua.

A justificativa do decreto, detalhada em dois itens, certamente soaria irrelevante para
aqueles que, mergulhados em seus megaprojetos de riqueza e poder, sempre subestimam
a singeleza e a ternura.

Item 1: apesar da crença contemporânea, utilitária e consumista, de que tudo o que é velho
perdeu a serventia e deve ser descartado, é fato que as crianças carecem de beber na
fonte da experiência dos idosos, assimilando lições de vida só transferidas sob o calor do
afeto, na convivência respeitosa. Logo, não convém que cresçam à distância de um
preceptor digno e paciente.

Item 2: desde sempre, o declínio do corpo e a escassez de forças deprimem o homem
maduro, levando-o a refugiar-se na fortaleza do já aprendido, em angustiosa renúncia à
inquietação criadora. E quem melhor do que uma criança, em seu insaciável desejo de
descobrir o mundo, para chacoalhar um velho petrificado em certezas e tédios?

Um decreto assim, submetido a plebiscito, teria o meu o voto, sobretudo, por causa do
citado item 2, aquele que me diz respeito e sobre o qual minha experiência diária elimina
qualquer dúvida.

O corpo saudável, ainda sem ajuda de remédios, a excitação do jornalismo e minha prática
espiritual além da rotina dogmática das religiões conduziram-me até aos 60 anos de idade
razoavelmente disposto e com muita fé na vida, mas a verdade é que também sinto o peso
dos anos e o declínio do corpo e, claro, a preguiça receosa com que estes nos sepultam.
Se eu não pareço caído e perdido na mesmice, devo esta dádiva, principalmente, aos
meus três netos (com destaque para a doce e irrequieta Yzabelle, que hoje aniversaria),
incansáveis em suas provocações tão ingênuas e tão sábias.

“Vôri, onde é que eu estava antes de estar na barriga da mami?”. Com certeza, não
precisamos mais que isso para refletir sobre o sentido da vida. “E se eu balançar a mão
vou tocar em Deus?” Para explicar, haja metafísica... e física quântica também. “Os
japoneses também são meus irmãos?” O mundo não seria o mesmo se respondêssemos a
sério a essa pergunta. “Não avance o sinal, vôri. Você não diz que é preciso saber
esperar?” Oh, minha doçura, me poupe diante dos meus leitores...

A criança é a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens, disse o
grande Tagore. Pois eu digo: a criança é ajuda que Deus nos dá para morrermos cheios de
vida.
[Publicado na edição de 18/06/13 do Novo Jornal]
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