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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
CÉU E INFERNO
O mundo surge e alimenta-se do desejo, mas é inútil esperar do desejo (ainda que espiritualizado e nobre) que ele nos conduza à felicidade 
No excelente livro O universo autoconsciente, do físico Amit Goswami, encontro uma história exemplar sobre a nossa relação com o desejo e a utopia da felicidade egóica.

Um homem morre, acorda no paraíso e, faminto, pede comida a um atendente. O rapaz esclarece: “Tudo que você tem que fazer é desejá-la”. Como num passe de mágica, pratos saborosos surgem à mesa assim que o recém-chegado os cobiça e, maravilhado, ele se empanturra. Mas logo o noviço se vê enredado em outra carência. Sente-se solitário e quer a companhia de uma mulher. A mágica se repete. Mal pensou e um avião das passarelas pousa ao seu lado, causando-lhe imensa euforia. E assim se sucedem os desejos e suas realizações imediatas, até que, entediado, o homem vai de novo ao atendente:

- Isto aqui não é o que eu esperava. Pensei que a gente ficava entediado e insatisfeito apenas no inferno - queixa-se com amargura.

Então, o atendente olha nos seus olhos e, irônico, pergunta:
- E onde é que você pensa que está?

                                                     *      *     *     *     *     *

O nó está dado. E é preciso a sabedoria do santo ou a sagacidade do filósofo para percebê-lo. O mundo surge e alimenta-se do desejo, mas é inútil esperar do desejo (ainda que espiritualizado e nobre) que ele nos leve à bem-aventurança, a felicidade perfeita lastreada na serenidade. Na escravização à pulsão egóica, podemos alcançar as alturas, mas nossa experiência íntima será sempre infernal.

Já no século 19, o filósofo Schopenhauer concluiu que o mundo é representação e vontade. Ou seja, é objeto condicionado ao sujeito, intuição e projeção. É o véu de maia dos orientais expresso nas formas, ilusório por sua natureza e impermanência e, no entanto, base sobre a qual operamos os desejos, eterna fonte de conflitos. Schopenhauer nos revela, com jeito de condenação: nossa vida é um pêndulo que oscila entre o sofrimento do desejo e o tédio que sucede à sua realização.

Um beco sem saída? Prefiro achar, acima de meus desejos, que há intenção e sabedoria nos dilemas e paradoxos. O desenvolvimento da consciência necessita do teatro das formas e da servidão do desejo, mas só a consciência ampliada é sábia o suficiente para não se identificar com o recurso instrumental (forma e desejo), alcançando liberdade e serenidade.

Na rotina vegetativa, centrada no ego, somos como o torcedor fanático que no estádio delira e é capaz de cometer loucuras se o seu time for derrotado. No nível da consciência ampliada, somos o torcedor normal que se diverte, alegra-se ou sofre com o seu time, sem perder a noção de que se trata de um jogo, uma simples brincadeira.

Desejos e frustrações são parte do jogo da vida e se, por causa deles, o sofrimento nos ameaça, manda o bom senso que recordemos: é um jogo, apenas um jogo...
[Publicado na edição de 28/02/12 do Novo Jornal]
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