Contamos com 
a sua parceria
 
 
 
 

Planeta Jota é um site independente com olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com este projeto iniciado há 23 anos.
A cada doação você ganha um livro digital
do acervo do Livreiro Sapiens.

Obrigado por sua colaboração.

 
Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens



OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
A ESPINHELA E A BIOQUÍMICA
O psiquiatra paulistano Wilhelm Kenzler aponta os três prontos críticos da
medicina atual: a despersonalização, a tecnificação e a mercantilização.
 
Vovó Apolônia era evangélica fervorosa, mas por amor ao seu neto predileto não hesitava em cometer heresias.

Lembro-me do dia em que, escondendo-se do pastor, ela levou-me a uma benzedeira, preocupada com meu desânimo e insônia aos seis anos de idade. A xamã pesou-me, mediu-me e, finalmente, diagnosticou: era espinhela caída (lumbago), um mal que no seu manual de doenças se curava com uma boa reza e toques de galhos de arruda. No dia seguinte acordei esperto e voltei às traquinagens.

Sorte minha que nasci nos anos 50, não tive plano de saúde na infância e contei com a proteção de uma avó transgressora. Se eu fosse criança hoje e me entristecesse por testemunhar uma crise na relação entre meus pais, talvez até a minha querida velhinha me conduziria ao consultório de um psiquiatra de onde, provavelmente, eu sairia rotulado de deprimido ou estressado, carente de algum antidepressivo ou ansiolítico entre tantos que fazem a dependência química de bilhões de pessoas e a fortuna dos laboratórios.

A psiquiatria tornou-se a vitrine daquilo que o psiquiatra paulistano Wilhelm Kenzler aponta como os três prontos críticos da medicina atual: a despersonalização, a tecnificação e a mercantilização. E, por sua vez, os desvios desse segmento espelham um paradigma no qual o homem é encarado como mera máquina, passível de ajustes pela bioquímica, sem levar em conta sua dimensão espiritual e as implicações éticas que dela decorrem, inclusive a autoaceitação e a liberdade.

Não se trata, aqui, de crucificar os médicos - eles próprios vítimas de um sistema de crenças e de interesses - e, tampouco, amaldiçoar toda receita de fármacos, que a experiência e o bom senso dizem ser razoáveis em situações de emergência e nos casos em que desequilíbrios bioquímicos dificultam o acesso ao ponto onde emerge a maioria das doenças: a alma humana. O mal está no abuso, que mascara a realidade e instala o vício.

No jargão médico, 90% dos diagnósticos não passam de NDN (nada digno de nota) ou DNV (distúrbio neurovegetativo), mas a regra é que o paciente saia do consultório com a indicação de um remédio químico que, no fundo, tomou o lugar do ritual da benzedeira, acompanhado, porém, da ameaça das chamadas doenças iatrogênicas, causadas por medicamentos. Por que, então, descartar o uso da medicina cultural e seu poder terapêutico através da palavra e do reequilíbrio holístico?

Penso nisso a propósito do livro “A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito”, do filósofo e doutor em psicologia José Ramos Coelho, que será lançado nesta quarta-feira (18 de abril), às 19h, na Saraiva do Midway Mall. Ramos retoma a trilha de pensadores respeitáveis e nos convence: a comédia da medicalização da vida traz embutida a tragédia da morte do ser e da liberdade.
[Publicado na edição de 17/04/12 do Novo Jornal]
Clique e deixe seu comentário no
Fórum dos Leitores do Planeta Jota