Contamos com 
a sua parceria
 
 
 
 

Planeta Jota é um site independente com olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com este projeto iniciado há 23 anos.
A cada doação você ganha um livro digital
do acervo do Livreiro Sapiens.

Obrigado por sua colaboração.

 
Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens



OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
FATOS & VERSÕES
O hábito de identificar o fato com a sua versão é a base da passividade
das massas e de seu movimento de manada nos modismos
 
Se você está lendo este jornal na expectativa de encontrar o relato fiel de fatos, lamento informar: você está equivocado. Diria o mesmo se você estivesse lendo os jornais concorrentes ou mesmo um monstro sagrado da mídia, como o The New York Times. Aplique-se isso às revistas (com mais ênfase), aos portais de notícias, aos blogs (com muito mais ênfase) e à televisão, ainda que nas transmissões ao vivo. Aplique-se até aos emails e às cartas (se é que elas ainda existem) e também aos livros e às pesquisas orgulhosamente rotuladas de ciência. No papel, no computador ou na TV jamais existem fatos, mas versões de fatos baseadas nos filtros mentais e ideológicos de quem os reporta.

A rigor não existem fatos - no sentido de realidade que pode ser percebida por inteiro por qualquer pessoa - nem mesmo quando estamos cara a cara com o que acontece ou somos parte do acontecimento. Cada observador só registra o que é selecionado por seu conjunto de crenças e condicionamentos, algo mutável com a experiência, porém invariavelmente resistente a mudanças. Mesmo assim a aproximação à verdade pode e deve ser uma meta pessoal e profissional para a qual se faz necessário o desapego de operar no nível das convicções, sedimentando na humildade da dúvida a abertura ao desconhecido.

Novos conhecimentos e tecnologias derrubam crenças consolidadas e, nesse contexto, é a percepção da complexidade, revelando-nos a interpendência dos agentes da vida, que paradoxalmente nos abre a porta do exercício efetivo da liberdade e da responsabilidade. Até hoje isso tem sido prejudicado pelo hábito de identificar o fato com a sua versão, base da passividade das massas e do movimento de manada nos modismos.

No campo do jornalismo, muito temos a agradecer a Internet por sua ajuda no desmonte de mitos como o da objetividade da notícia e o da sapiência dos analistas e líderes de opinião. Portais de informação e blogs, por seus pecados e virtudes, acabam sensibilizando o leitor para a constatação do óbvio: a diversidade de visões e interesses e a funcionalidade das técnicas de edição (inclusive nas imagens ao vivo) sob a influência desses pontos de vista e intenções. Além disso, a emergência do noticiário em tempo real tem substituído a noção de notícia como pacote fechado pela de processo, uma captação do movimento da vida com o permanente ajuste de novos enfoques e da correção de dados.

Isso não é mau para o jornalismo, o bom jornalismo, e é ótimo para o público. Motivado pelo oceano de versões, ou perdido em suas ondas, o leitor tende a assumir uma atitude proativa e a responsabilidade de selecionar dados para a construção de seu próprio conhecimento, passando a agir e interagir na teia social com mais liberdade e menos subjugação a manipulações e interesses.
[Publicado na edição de 10/07/12 do Novo Jornal]
Clique e deixe seu comentário no
Fórum dos Leitores do Planeta Jota