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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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MATE O BUDA!
"Só existe um professor: a própria vida. É um professor rígido e infinitamente gentil. E não é preciso ir a locais especiais para encontrar esse incomparável mestre"
Um ditado zen aconselha o praticante: “Se encontrar o Buda no caminho, mate-o”. Buda é o iluminado, aquele que experimentou a realidade, o mestre por excelência. Se encontrar o seu mestre, mate-o.

Mesmo uma mente oriental, aparentemente menos aprisionada à visão dualística que nos impede de ver a natureza das coisas, espanta-se diante dessa proposição. Matar aquele que nos tem nutrido o espírito? Não seria ele digno de nossa eterna gratidão?

O significado da máxima é sutil e está ao alcance de poucos. Diz respeito ao mundo ilusório das formas e à imprecisão dos conceitos aos quais nos agarramos no casulo do ego. É a experiência que revelará a cada praticante o sentido do provérbio, mas, na tentativa de dizer o indizível, podemos afirmar que um Buda aparecendo no caminho só pode ser uma contrafação, uma fraude engendrada pela mente. O praticante é o Buda. Não há outro lá fora.

Lembro desse ensinamento, reafirmado com outras palavras por sábios e santos de diversas tradições - inclusive o cristianismo - ao deparar-me com o aquecido mercado da fé e da iluminação. Se não bastassem as igrejas pragmáticas, que anunciam milagres em troca de dízimos, impressiona-me a abundância de gurus e “coachers” a prometerem, a peso de ouro, fórmulas de equilíbrio e prosperidade, meros coquetéis analgésicos feitos com doses de sabedoria oriental misturadas ao mais puro utilitarismo.

Não é que o mundo não careça de arautos que nos ajudem a despertar. O que choca é a quantidade de Budas no caminho e o séquito de adoradores. Nenhum mestre morto, nenhum discípulo disposto a matá-los. Nenhum mestre com a coragem de um Krishnamurti, pronto para dizer não quero seguidores, libertem-se de mim (o que, no caso atual, significaria a derrocada de bons negócios). Nenhum discípulo interessado em sair da zona de conforto dos conselhos intermináveis para caminhar com os próprios pés.

É alvissareiro que, exaurido pelo materialismo, o mundo se volte para a espiritualidade, nossa verdadeira essência. É fato, porém, que a nova multidão de espiritualizados corre o risco de não realizar iluminação alguma, ao permanecer entretida com Budas na estrada de um efervescente materialismo espiritual, no qual se reproduzem as velhas instâncias do medo, da ânsia por um salvador que nos realize os desejos, da dependência emocional e, por último, do desencanto.

Ante a correria aos novos gurus pragmáticos, a americana Charlotte Joko Beck, autora do utilíssimo livro “Sempre Zen”, escreveu que, com todo o respeito pela pessoa humana, seu esforço para encontrá-los não iria além de cruzar a sala. “Só existe um professor: a própria vida. É um professor rígido e infinitamente gentil. E não é preciso ir a locais especiais para encontrar esse incomparável mestre”. Great, Charlotte!
[Publicado na edição de 07/05/13 do Novo Jornal]
Comentários anteriores
Haroldo Bezerra, 07/05/13 - Prezado Jomar Morais, seu artigo de hoje está muito, muito bom mesmo! Termino como você, great Jomar!

Jomar Morais, 08/05/13 - Obrigado, Haroldo, pela leitura de meu texto e por sua avaliação generosa.

Ramalho, 07/05/13 - Amigo Jomar, agora entendi porque você sentiu que o novo site deu tanto trabalho. Ele está supimpa. Nunca vi outro igual. Parabéns.

Jomar Morais, 08/05/13 - Ramalho amigo, você faz parte de minha base de apoio para prosseguir na caminhada. Gratíssimo.

Aldenir Dantas, 08/05/13 - Amigo Jomar, ótimo artigo, meu caro. Podemos tomá-lo como um fraterno puxão de orelha pois, enquanto Sócrates, Jesus e Sidarta nos convidam a olhar para o lado de dentro, continuamos a procurar um Deus nas alturas, um Buda no caminho, um santo na colina...

Jomar Morais, 09/05/13 - É, meu caro Aldenir, temos medo de descer ao porão, à raíz. Obrigado pelo incentivo. Abraço.

Mackenzie Melo, 10/05/13 - Meu amigo, sem maiores explicações, matei o Jomar. Um enorme, apertado e gentil abraço.

Jomar Morais, 11/05/13 - Grande Mackenzie, lamento informar que a absolvição só se aplica a quem matar um mestre. Contrate já um bom advogado..rs rs Generoso amigo, receba um forte abraço, com gratidão.

Eridan Machado, 15/05/13 - Obrigada pela colaboração no entendimento e consequentemente na construção da consciência. Jogar muletas fora não é uma tarefa fácil para nenhum de nós, derrubar muros, transpor portas que nos conduzem a certeza de que está tudo no SI. A desconstrução das ilusões que nos movem há anos, é tarefa intransferível e inadiável. Parabéns ao Planeta Jota por tão relevante contribuição!

Jomar Morais, 15/05/13 - Obrigado a você, Eridan, pela leitura de meu texto e, sobretudo, pelo incentivo generoso. Os leitores amigos fazem a força do Planeta Jota.
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