Contamos com sua
parceria para
seguirmos em frente
Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


Planeta Jota é um site independente com um olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com esse projeto iniciado há 22 anos.
A cada doação você pode solicitar um livro digital ou um fac-símile da seção Documento

Obrigado por sua colaboração.

compartilhar
 
vitrine pj
tv sapiens

OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
UM HOMEM LIVRE
Pepe Mujica, o tupamaro que virou presidente do Uruguai, dá exemplo
de simplicidade e desapego no exercício do poder
 
Seu comentário
Nome:
Email:
Comentário:
Comentários
 
 
 
Um detalhe na reportagem sobre a vida do presidente do Uruguai, Pepe Mujica, exibida em
dezembro passado pela Rede Globo, deve ter passado despercebido de muita gente. No final da
matéria “O presidente mais pobre do mundo”, os apresentadores do “Fantástico” não fizeram
nenhum daqueles gestos com que manifestam aprovação ou surpresa diante do que acaba de
ser noticiado. Mantiveram-se impassíveis, até engatarem a chamada da próxima atração.

Para mim, isso é simbólico. Imagino que milhões de telespectadores, ao contrário do que se
espera, também acharam esquisito um presidente que renuncia ao conforto do palácio
presidencial para continuar morando em sua pequena chácara, doa 80 % de seu salário para
instituições de caridade, vai para o trabalho dirigindo seu velho Fusca e, sempre que pode,
dispensa ternos e os rapapés do poder. Não nos livramos facilmente da influência de conceitos
atávicos e da ritualística que nos faz acreditar que situações criadas em função de crenças e
ideologias são eventos naturais que existem desde sempre.

As câmeras mostraram a singeleza da casa do presidente, mais modesta que as da emergente
classe C brasileira, mas não puderam capturar cenas ainda mais despojadas de seu dia a dia.
Um presidente que vai pessoalmente comprar uma tampa de privada e que, reconhecido por
jogadores de um time de várzea, aceita o convite para dar ali mesmo uma palestra para a equipe
é excêntrico. Talvez para as nossas elites Mujica não passe de um populista, e para os nossos
pobres seja apenas um tolo. Onde já se viu alguém dar de cara com a fortuna e recusar-se a
deitar com ela?

Tenho discordâncias com o presidente uruguaio. Afinal, eu não aprovaria sua aprovação à
descriminalização incondicional do aborto e ainda estaria discutindo sua opção pela
descriminalização da maconha, sob o argumento de que assim se destruirá a máquina do
narcotráfico (improvável, se o homem, desconectado de si mesmo, continuar dependente de
emoções eletrizantes). Mas eu não poderia deixar de tirar o chapéu para esse idealista que
maturou na prisão, sob a ditadura que ele ajudou a derrubar, um estilo de vida lastreado em
profunda sabedoria.

Mujica quer usar a política como instrumento de mudança, mas não quer ser escravo de sua
estrutura. Quer mostrar que o líder deve ser servidor e não servido (um velho ensinamento
cristão), e que é possível viver bem com menos. O ex-guerrilheiro tupamaro, que um dia quis
mudar o mundo pelas armas, descobriu, enfim, que sistemas viciados só ruem quando os
indivíduos os enfrentam vivendo sob novos valores.

“Eu não sou pobre”, diz o presidente uruguaio. “Pobre é quem necessita de muito para viver.
Tenho privacidade e tempo para cuidar das coisas que realmente gosto”. Ghandi e Francisco de
Assis certamente concordariam com ele.