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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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O PECADO DA PREGUIÇA
Por José Ramos Coelho (*)
Preguiça é muito mais do que ficar parado, é esquecer-se de sua missão.
Costuma-se identificar a accidia como constituindo o pecado da preguiça. No entanto, os dois conceitos são diferentes, e num certo sentido diametralmente opostos. O entendimento correto destes termos encerra a chave para a correta compreensão de todos os demais pecados capitais, pois a accidia, dentre todos, é o mais metafísico dos pecados.

Etimologicamente, o termo preguiça deriva do latim pigritia = falta de disposição ou ânimo para cumprir com os próprios deveres e obrigações. O preguiçoso é um estorvo para as pessoas com quem se relaciona, pois estas geralmente têm de realizar as atividades que este deixa de fazer ou o faz parcialmente ou de má vontade.

Já o termo latino accidia, é a tradução do grego a-chedia (sem cuidados), e denota não uma tendência à inação, mas sim um esquecimento de Deus ou - usando uma linguagem não teísta - do eu superior. Esta desconexão deixa o sujeito sem o seu senso interno de orientação, o seu mapa de referência, apartado de sua interioridade e, por isso, perde o rumo, vivendo a vida como um nômade entorpecido, sem saber onde se encontra, de onde vem nem para onde vai. Torna-se, por isso, vítima fácil de pressões ou influências externas.

No caminho da prática meditativa, vemos frequentemente surgirem dois sintomas: ao tentar focar a atenção, o meditante é tomado pelo torpor e adormece; ou então, reage ativando inconscientemente uma carga exagerada de pensamentos e emoções a fim de sabotar o seu intento e desistir. Estes dois sintomas são alguns dos efeitos da accidia.

A accidia remete o sujeito para um ego isolado e relutante em assumir o seu estar-no-mundo. É, na verdade, o pecado fundante da noção de separatividade. Daí porque a “preguiça é a mãe de todos os vícios”.

A filiação da preguiça com a separatividade explica a razão pela qual ela é a mãe de todos os demais pecados:

A Soberba: eu sou melhor do que você.
A Inveja: Não gosto ao vê-lo bem de vida; tomara que você perca tudo o que tem!
A avareza: para ser o mais rico, vou juntar o máximo que puder.
A ira: vou destruir você!
A gula: para dentro do meu estômago tudo o que nele couber.
A Luxúria: vou usar os outros como instrumentos do meu prazer.

Nesta conformidade, percebe-se claramente que o entorpecimento espiritual da acidia pode vir a ser o oposto do que convencionalmente se entende pelo comportamento indolente ou preguiçoso.

Na clínica isso é facilmente perceptível: muitos daqueles trabalhadores compulsivos, que preenchem todos os espaços de sua rotina diária com obrigações e trabalhos os mais diversos são, na verdade, grandes preguiçosos. Por que trabalham tanto? Por que não abrem um espaço para o seu lazer ou o contato consigo mesmos e com os familiares?

A desculpa mais frequente que dão a si mesmos é: “Preciso trabalhar mais para ganhar mais dinheiro e oferecer uma melhor qualidade de vida à minha família”. A avareza serve de justificativa para a preguiça. Ou: “Detesto me sentir um inútil. Preciso fazer alguma coisa”.

O paradoxo desta ilusão é que, quanto mais trabalham e são “produtivos”, mais são tomados por uma incontornável sensação de que algo não vai bem - uma insatisfação profunda vai emergindo e dominando cada vez mais a sua mente. E, ignorando a origem de seu sofrimento, geralmente acreditam que a causa de sua insatisfação reside no fato de não serem ainda, do ponto de vista material, suficientemente “realizados”. Por isso enchem-se ainda mais de atividades e obrigações, impedindo-se de desfrutar do ócio filosófico, da prática espiritual ou da contemplação artística... A diligência pode ser, então, o melhor disfarce da preguiça!

O que isto significa? Que todo comportamento diligente é preguiçoso? De forma alguma. O que este deslocamento radical do conceito de preguiça aponta é que a nossa vida deve ser guiada em sintonia com a nossa missão pessoal - e não em função das exigências do mercado ou dos valores arbitrários impingidos pela sociedade em que estamos.

Viemos aqui para realizar a obra que nos é própria. Morrer e deixar este mundo um pouco melhor do que quando chegamos é missão de todos nós. Mas só podemos saber o que nos cabe de fato fazer se superarmos a barreira da accidia.

Neste sentido, diria que, no fundo, a accidia corresponde ao conceito sânscrito de avidya = ignorância da realidade essencial. Pois é devido à accidia que acreditamos na ilusão de sermos seres separados uns dos outros, vendo nos vícios e pecados o melhor e mais atraente modo de estar-no-mundo.

Esta avidya tem a função de aprisionarmo-nos na ilusão da separatividade, ocultando a verdade essencial de que todos somos um.
(*) José Ramos Coelho é filósofo, doutor em Psicologia , escritor e multiartista. É autor de vários livros, entre os quais A Terapia da Excelência (Edufrn) e A Tragicomédia da Medicalização (Sapiens Editora)

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