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Ano 22                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 


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O PECADO DA PREGUIÇA
Por José Ramos Coelho (*)
Preguiça é muito mais do que ficar parado, é esquecer-se de sua missão.
Costuma-se identificar a accidia como constituindo o pecado da preguiça. No
entanto, os dois conceitos são diferentes, e num certo sentido diametralmente
opostos. O entendimento correto destes termos encerra a chave para a correta
compreensão de todos os demais pecados capitais, pois a accidia, dentre todos, é o
mais metafísico dos pecados.

Etimologicamente, o termo preguiça deriva do latim pigritia = falta de disposição ou
ânimo para cumprir com os próprios deveres e obrigações. O preguiçoso é um
estorvo para as pessoas com quem se relaciona, pois estas geralmente têm de
realizar as atividades que este deixa de fazer ou o faz parcialmente ou de má
vontade.

Já o termo latino accidia, é a tradução do grego a-chedia (sem cuidados), e denota
não uma tendência à inação, mas sim um esquecimento de Deus ou - usando uma
linguagem não teísta - do eu superior. Esta desconexão deixa o sujeito sem o seu
senso interno de orientação, o seu mapa de referência, apartado de sua
interioridade e, por isso, perde o rumo, vivendo a vida como um nômade
entorpecido, sem saber onde se encontra, de onde vem nem para onde vai. Torna-
se, por isso, vítima fácil de pressões ou influências externas.

No caminho da prática meditativa, vemos frequentemente surgirem dois sintomas:
ao tentar focar a atenção, o meditante é tomado pelo torpor e adormece; ou
então, reage ativando inconscientemente uma carga exagerada de pensamentos e
emoções a fim de sabotar o seu intento e desistir. Estes dois sintomas são alguns
dos efeitos da accidia.

A accidia remete o sujeito para um ego isolado e relutante em assumir o seu estar-
no-mundo. É, na verdade, o pecado fundante da noção de separatividade. Daí
porque a “preguiça é a mãe de todos os vícios”.

A filiação da preguiça com a separatividade explica a razão pela qual ela é a mãe de
todos os demais pecados:

A Soberba: eu sou melhor do que você.
A Inveja: Não gosto ao vê-lo bem de vida; tomara que você perca tudo o que tem!
A avareza: para ser o mais rico, vou juntar o máximo que puder.
A ira: vou destruir você!
A gula: para dentro do meu estômago tudo o que nele couber.
A Luxúria: vou usar os outros como instrumentos do meu prazer.

Nesta conformidade, percebe-se claramente que o entorpecimento espiritual da
acidia pode vir a ser o oposto do que convencionalmente se entende pelo
comportamento indolente ou preguiçoso.

Na clínica isso é facilmente perceptível: muitos daqueles trabalhadores compulsivos,
que preenchem todos os espaços de sua rotina diária com obrigações e trabalhos os
mais diversos são, na verdade, grandes preguiçosos. Por que trabalham tanto? Por
que não abrem um espaço para o seu lazer ou o contato consigo mesmos e com
os familiares?

A desculpa mais frequente que dão a si mesmos é: “Preciso trabalhar mais para
ganhar mais dinheiro e oferecer uma melhor qualidade de vida à minha família”. A
avareza serve de justificativa para a preguiça. Ou: “Detesto me sentir um inútil.
Preciso fazer alguma coisa”.

O paradoxo desta ilusão é que, quanto mais trabalham e são “produtivos”, mais são
tomados por uma incontornável sensação de que algo não vai bem - uma
insatisfação profunda vai emergindo e dominando cada vez mais a sua mente. E,
ignorando a origem de seu sofrimento, geralmente acreditam que a causa de sua
insatisfação reside no fato de não serem ainda, do ponto de vista material,
suficientemente “realizados”. Por isso enchem-se ainda mais de atividades e
obrigações, impedindo-se de desfrutar do ócio filosófico, da prática espiritual ou da
contemplação artística... A diligência pode ser, então, o melhor disfarce da preguiça!

O que isto significa? Que todo comportamento diligente é preguiçoso? De forma
alguma. O que este deslocamento radical do conceito de preguiça aponta é que a
nossa vida deve ser guiada em sintonia com a nossa missão pessoal - e não em
função das exigências do mercado ou dos valores arbitrários impingidos pela
sociedade em que estamos.

Viemos aqui para realizar a obra que nos é própria. Morrer e deixar este mundo um
pouco melhor do que quando chegamos é missão de todos nós. Mas só podemos
saber o que nos cabe de fato fazer se superarmos a barreira da accidia.

Neste sentido, diria que, no fundo, a accidia corresponde ao conceito sânscrito de
avidya = ignorância da realidade essencial. Pois é devido à accidia que acreditamos
na ilusão de sermos seres separados uns dos outros, vendo nos vícios e pecados o
melhor e mais atraente modo de estar-no-mundo.

Esta avidya tem a função de aprisionarmo-nos na ilusão da separatividade,
ocultando a verdade essencial de que todos somos um.
(*) José Ramos Coelho é filósofo, doutor em Psicologia , escritor e multiartista. É autor de vários livros, entre os quais A Terapia da Excelência (Edufrn) e A Tragicomédia da Medicalização (Sapiens Editora)

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