Contamos com 
a sua parceria
 
 
 
 

Planeta Jota é um site independente com olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com este projeto iniciado há 23 anos.
A cada doação você ganha um livro digital
do acervo do Livreiro Sapiens.

Obrigado por sua colaboração.

 
Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens




OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
O feriadão acabou, seria natural agora se todos os rostos exibissem sinais de relaxamento e satisfação. Mas basta olhar em torno de nós ou dar uma espiada no espelho para constatarmos: continuamos tensos e exauridos. O que tivemos no feriadão? Atividade, muita atividade, incessante atividade. O agito das baladas e raves, o trabalho do escritório levado para casa, o “bico” sazonal para reforçar a renda, a ação beneficente voluntária... Não importa. No final, chega-se ao mesmo efeito sobre o corpo e a alma: estresse.

Mergulhados na agitação, perdemos o ritmo entre trabalho e repouso. Passamos a trafegar na contramão da vida. O ritmo que descartamos é o que está presente na alternância entre o dia e a noite, no movimento das marés, no intervalo das batidas do coração...

A ação exige o comparecimento da pausa para que se dê a contradança, expressão de harmonia e equilíbrio. Nossa cultura da acumulação, no entanto, diz que fazer alguma coisa - qualquer coisa! - é sempre melhor e mais produtivo do que não fazer nada e, assim, nos afasta da quietude e do descanso real. Estar sempre ocupado, muito ocupado, virou um sinal de inclusão social. A recompensa? Mais dinheiro, mais reconhecimento, mais poder, mais patrimônio, quem sabe até mais amor e mais segurança. Mais, mais, mais.

Engano, ilusão. Como lembra Wayne Muller, autor do livro “Sabbath”, mesmo quando as intenções são nobres e os esforços sinceros, mesmo quando dedicamos a vida a servir o próximo, a atividade excessiva e frenética inflige sofrimento a nós mesmos e aos outros. É violência consentida que fere a muitos: ao nosso corpo obrigado a operar além dos seus limites, à família para a qual já não dispomos de tempo para conviver e assistir, aos amigos que não mais recebem o retorno de suas expressões de carinho e à comunidade e ao mundo, que o medo de perder nossas posses transforma em ameaça a ser evitada, roubando-nos a chance de sermos bons e generosos.

A lógica da atividade incessante - e, erroneamente, chamamos isso de busca da felicidade - serve à inquietação da mente, que precisa ser disciplinada a fim de que tenhamos paz e possamos, de fato, desfrutar a vida. Permanecer nesse estado é cair em um pandemônio de produção e consumo inconscientes no qual perdemos as coisas essenciais e nada saboreamos plenamente.

A solução? Lembrarmo-nos do sabbath, praticarmos o sabbath. Toda sabedoria ancestral nos convida a cumprir o preceito que na tradição judaico-cristã aparece inscrito no terceiro mandamento anunciado no Sinai: santificar o sábado (sabbath), o dia do descanso e da contemplação, da imersão em si mesmo. Pausa, ócio, atenção à vida.

O sabbath é um conceito. Não é uma prisão ao calendário. É a observância do ritmo entre trabalho e repouso, ação e meditação. É equilíbrio produtivo. Como dizia Thomas Merton, “o frenesi da nossa atividade destrói a frutificação do próprio trabalho porque mata a raiz da sabedoria que torna o trabalho frutífero”.
Publicado na edição de 16/11/10
SABBATH
Mesmo quando dedicamos a vida a servir o próximo, a atividade excessiva
e frenética inflige sofrimento a nós mesmos e aos outros
Clique e deixe seu comentário no
Fórum dos Leitores do Planeta Jota