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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
O SEGREDO E O SAGRADO
O segredo existe no nível pessoal e é marcado pela carência e pela
submissão ao querer. O sagrado acontece no nível transpessoal, no qual discernimos os sinais da vida, os caminhos livres e os interditados. 
O sagrado diz respeito à essência, à pureza, à vida em sua manifestação espontânea. Aprendemos a vê-lo como algo separado, um modo de dar limite ao ilimitado e explicar o inexplicável. Foi assim que, no passado, criamos representações de sua emergência, como totens e ritos que nos ajudam a recordar a origem, a energia da criação e a totalidade em que estamos imersos.

Em nome da razão, dessacralizamos o mundo, uma opção onerosa para indivíduos e sociedades. Sobrou o profano, o trivial que, sem a referência do sagrado, torna-se experiência de dissociação na área periférica do ego, reino caótico de conflitos em que predominam o egoísmo e a insegurança.

Mas isso é teoria. Na prática, nada se mantém sem seu oposto. O profano pede a existência de algo que contracene com a superficialidade de suas manifestações, ainda que como farsa ou arremedo da plenitude do sagrado. E é aí que entra o segredo, o artifício com que emulamos a sacralidade, porém atados às mesquinharias cotidianas. Em todos os tempos, multidões correram atrás de segredos, fenômeno recorrente cuja fonte mais concorrida são as instituições religiosas manipuladoras. A diferença hoje é que isso assumiu uma proporção colossal, com consequências desagregadoras. Em sua falsa contraposição ao materialismo, o segredo escora a nova mitologia na qual o homem aparece como senhor de um universo capitalista e consumista que o abastece de bens e independência.

O sagrado é o oculto que permeia e une tudo. Pode ser sentido, vivido, mas jamais conhecido e controlado. O segredo é para ser revelado e aprendido, servindo aos interesses da consciência utilitarista. É a chave do sucesso, da realização dos desejos. Imaginamo-lo apoiados no antropocentrismo e no devaneio egóico, como lembra o doutor em literatura hebraica Nilton Bonder. Ou seja, a partir da crença de que a humanidade é o centro e propósito máximo do universo, eu sou o centro da humanidade e o propósito máximo de mim é o meu desejo. Qualquer desejo. Há alguns meses, ouvi um rapaz dizer, entusiasmado, que aprendera a usar o poder da mente depois de assistir ao filme O Segredo: “Agora, quando vou ao shopping, mentalizo uma baia do estacionamento e sempre encontro um lugar livre para o meu carro”...

O segredo existe sempre no nível pessoal e é marcado pela carência e pela submissão ao querer, o que descarta a surpresa, o encanto, a espontaneidade, a simplicidade, a bênção. É a própria antessala do tédio e do medo. O sagrado acontece no nível transpessoal, no qual discernimos com clareza os sinais da vida, os caminhos livres e os interditados. Só nesse nível podemos ser íntegros e justos, pois nele conseguimos trafegar na contramão dos interesses pessoais, o grande entrave à retidão e à justiça.

Faz falta, muita falta, a noção do sagrado em nossos dias. Mas substituí-lo pela farsa do segredo apenas nos ilude e mascara o alto preço que pagamos em vão por nosso materialismo. O segredo e sua intenção egoística nos separam e nos isolam do outro e do universo na maldição da carência.
[Publicado na edição de 18/01/11 do Novo Jornal]
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