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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
Sexo e poder
Falar sobre sexo e expor em público a própria intimidade não são, necessariamente, sinais de que estamos à vontade com as nossas energias
O irlandês Oscar Wilde, gênio da arte e da crítica social, escreveu: “Tudo no
mundo está relacionado a sexo, exceto o próprio sexo, que está relacionado
a poder”.

Em princípio, a assertiva do artista visava a era vitoriana, caracterizada por
um longo período de prosperidade no Reino Unido, graças à expansão do
império britânico nos quatro cantos do planeta, à euforia da Revolução
Industrial e à emergência de uma vasta classe média, educada, na
metrópole da rainha Vitória. Mas, pensando bem, essa é uma frase de
conteúdo universal e atemporal.

Aplica-se à Antiguidade e à Idade Média, como se pode notar nos registros
da história e da literatura, e encaixa-se como uma luva no mundo
contemporâneo, cada vez mais hedonista e fascinado pelo poder.

Não seria exagero afirmar-se que sexo e poder constituem a segunda
locomotiva social de nosso tempo. A primeira é o medo, imbatível em sua
capacidade de criar “necessidades”, estimular o consumo e manter as
pessoas sob controle.

Considere-se ainda que, a exemplo da Inglaterra vitoriana, vivemos um
período de expansão econômica e tecnológica, com aumento da classe
média e a emergência de novos ricos - e sua predisposição narcisista e
exibicionista -, e logo se perceberá o pano de fundo de hipocrisia sobre o
qual o sexo sempre estará relacionado ao poder e não ao amor e ao
esplendor da vida.

Dos tempos de Wilde aos nossos dias muita coisa mudou na periferia das
relações humanas e tabus rolaram ao impacto de revoluções nos costumes,
aí incluída a chamada revolução sexual. Mas na essência continuamos
atados por grilhões atávicos. No campo da sexualidade, nossa relação com o
impulso e com os sentimentos continua tão desastrosa quanto no passado
repressivo, em razão da persistência, ainda que disfarçada, da velha visão
de sexo como transgressão.

Na impossibilidade de vivenciá-lo com entrega, inocência e respeito, algo
que só o amor (e não a posse) é capaz de viabilizar, resta-nos a opção de
tornar o sexo utilitário, mediante seu uso para alcançarmos algum tipo de
poder - mesmo que isso não vá além da trivial exibição do parceiro ou da
parceira como troféu no circuito de solidão e insegurança das rodas sociais.

Falar sobre sexo e expor em público a própria intimidade não são,
necessariamente, sinais de que estamos à vontade com as nossas energias,
deixando-as fluir com naturalidade. Ser “predador” ou mulher fatal não
significa que estamos felizes ou centrados, mas tão somente que
navegamos num mar de carências e medos.

O sexo é uma das expressões mais fortes do mistério a que chamamos vida,
fonte de equilíbrio e harmonia para o indivíduo e a humanidade. Mas
enquanto não aprendermos a lidar com ele com a naturalidade com que
respiramos ou comemos, sua manifestação, de algum modo, sempre nos
conduzirá à fraude e à frustração.
Clique e acesse outros textos de Jomar Morais no blog Outro Olhar
[ Texto publicado na edição do Novo Jornal de 24/09/2013 ]
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