Não tenha vergonha de olhar para mim
Postado em 13 Jul 2018 15 13 Textos Anteriores















“O mendigo disse:  
"Não tenha 
vergonha  
de olhar para mim".  
A senhora disse:  
"Você pode suportar, 
mas eu não." 
 


por JOMAR MORAIS


A noite da última terça-feira, 10/07, estava mais fria que as outras noites deste inverno. Desde o dia anterior, a chuva encharcava a cidade, alterando sua rotina e estimulando as pessoas comuns, que têm trabalho e casa, a permanecerem protegidas no conforto de seus lares. 

Pela primeira vez, em 17 anos, tive que meditar sozinho no Sapiens, nosso grupo de estudos filosóficos e meditação, porque ninguém apareceu. Mas estava escrito que aquela noite não acabaria sem outras surpresas ainda mais surpreendentes.

A primeira delas surge a apenas dois minutos da partida para a ronda compassiva dos Cuidadores de Francisco, a ação social do Sapiens junto a moradores rua. Parecia que a tarefa seria realizada apenas por mim e por minha mulher, Fátima. E eis que, de súbito, os Céus enviam reforços. Surgem três voluntários – Adriana, Marcos e Lopes – e, então, saímos dispostos ao trabalho, mas com a expectativa de que a chuva e o frio certamente afastaria até mesmo os irmãos necessitados dos pontos onde nos encontramos semanalmente.

Estávamos enganados. A segunda surpresa é a presença de pequenas multidões em nossos pontos de encontro, gente que, em alguns locais, nos esperou pacientemente até o início da madrugada, agora sob chuva torrencial, apenas para receber um lanche, 1 quilo de feijão ou arroz, um lençol ou roupa usados.

O que levaria esses irmãos à longa espera, sob chuva e frio, senão a necessidade? Por que nossa presença e as doações mínimas que lhes oferecemos os levam a nos receber com alegria e gritos de “graças a Deus”, senão pela extensão de suas carências materiais e afetivas?

Vários exibem trapos molhados que os cobrem para os nossos olhos. E, no entanto, suas peles maceradas e a tristeza alojada no fundo de seus olhares não escondem o tamanho de sua dor.

Abraçamo-nos, sorrimos, brincamos... Naquela noite retornamos ao Sapiens também encharcados e com frio, mas com os corações aquecidos pela satisfação de servir.

Quando os voluntários seguem para suas casas, sou tomado por sereno contentamento. Agradeço ao Mistério da vida, a Deus, pelas dádivas da noite singular. Então penso na cidade adormecida e nas pessoas comuns, que tem trabalho e casa, protegidas no conforto de seus lares. E eis que a mente me surpreende, trazendo à tona este pequeno texto do jornalista Juan José Millás, publicado em outubro de 2017 no jornal espanhol El País:

“O mendigo disse: "Não tenha vergonha de olhar para mim". Estava falando com uma senhora muito elegante cujo cão tinha parado para fazer suas necessidades perto do indigente, que estava sentado no chão, sobre um papelão sujo, com as costas apoiada na parede do McDonald's do centro de Madri. 

“A senhora, que não queria puxar o cão, olhava de soslaio para o pobre: o copo de plástico com duas ou três moedas, sua garrafa de água, seu guarda-chuva, sua sacola de supermercado cheia de frutas, os pés descalços e pretos pela sujeira, sua mochila rasgada... Foi quando o homem se dirigiu a ela para dizer que não precisava ter vergonha de olhar, pois ele podia suportar.

“A senhora se agachou para recolher o cocô do cachorro e ao se levantar estava chorando. Você pode suportar, disse, mas eu não. De forma incongruente, disse que era professora de história. O mendigo tirou de sua mochila, para mostrar, uma História do Mundo Contemporâneo: um velho livro de bolso com as folhas inchadas, como os tornozelos de alguém que sofre de hidropisia. 

“É tudo que li na minha vida, explicou, ler é muito instrutivo. Muito, concordou ela dando um nó no saco de cocô do animal, enquanto engolia as lágrimas. Se você quiser, ofereceu, amanhã trago outro livro para você. Traga-me um sobre o mundo antigo, para comparar, disse o homem. 

“A mulher andou oito ou nove passos e voltou para deixar algumas moedas. Não precisava ter se incomodado, disse ele. Não é nenhum incômodo, assegurou ela. Deixe o cocô do cachorro, ele sugeriu então, também tenho que me desfazer do meu. Ela, depois de resistir um pouco, entregou a ele. Depois começou a caminhar, puxando o cão, que não queria se afastar da sua merda”.

Uma noite de chuva, frio e compaixão nos faz pensar.

                                                      [ Escrito em 13/07/18 ]

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