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15º DIA DE SILÊNCIO
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Um cinturão de favelas em torno de Caracas
Militantes pró-Chávez em campanha nas ruas
Contrastes na Venezuela

Um país de muitas belezas naturais e recursos minerais, como o petróleo, mas
ainda dominado por contrastes sociais, disputas políticas e violência urbana
por Jomar Morais
Meu primeiro contato na Venezuela não foi nada
favorável à imagem do país. No controle da
imigração, enquanto conferia meu passaporte, a
agente oficial disse-me, baixinho, que podia
comprar meus dólares pela cotação do câmbio
negro, o dobro do câmbio oficial. Rejeitei a
proposta. No saguão do aeroporto, dezenas de
cambistas cercaram-me e ofereçam-me alguns
bolívares a mais.

Meu último contato na Venezuela, no controle de
imigração de Guarero, na fronteira com a
Colômbia, foi pior. Deixado numa fila que não
andava, sob garoa, fui assediado por um
mensageiro dos agentes que me pediu 20
dólares para liberar-me de imediato. A proposta
indecente foi repetida a todos os estrangeiros.
Rejeitei-a, junto com um turista belga indignado
com aquela situação, mas várias pessoas
acabaram cedendo para se livrarem da chuva e
da longa espera.

Hesitei antes de escrever este breve registro de
minha passagem pela Venezuela, em janeiro de
2009. Fiquei lá pouco tempo, apenas quatro
dias, e eu temia ser injusto com o país e o seu
povo. Não ficaram memórias agradáveis, o que
não quer dizer que o país não tenha os seus
encantos e os venezuelanos não sejam
simpáticos. Recomendo a visita. Eu mesmo
pretendo retornar um dia, com mais tempo para
curtir e avaliar as atrações locais.

O país tem muitas belezas naturais - montanhas,
rios, cachoeiras, florestas e belas ilhas
oceânicas, mas lhe falta infra-estrutura e cultura
turística. Quem vai à Venezuela, um dos maiores
produtores de petróleo do mundo, costuma faze-
lo a negócio. Há hotéis estrelados e caros e
pouquíssimas opções para mochileiros e
turistas sem recursos. O povo nas ruas é
prestativo - após eu deixar minha mochila no
hotel e sair para passear, uma dona de banca
de jornal falou-me dos perigos da noite de
Caracas e disse que eu tomasse cuidado com
os ladrões e golpistas. Mas falta atendimento
profissional e cortesia nos hotéis e precisão nas
informações. É uma raridade encontrar um
mapa turístico de Caracas. O cartão de crédito
ainda não é aceito em muitos lugares.

Minha primeira noite em Caracas foi de festa
popular. O Leones de Caracas, uma espécie de
Corinthians ou Flamengo de lá, acabara de
ganhar um torneio e parte da torcida
comemorou em ruas de Altamira, centro
comercial e bancário, com belas praças e
muitos restaurantes, onde estava o meu hotel.

A passagem pela capital também coincidiu com
um plebiscito convocado pelo presidente Hugo
Chaves, que pretendia se candidatar pela
terceira vez à reeleição após sufocar a
oposição com medidas que aproximam a
democracia venezuelana da ditadura. Aí deu
para ver um flash back do Brasil dos anos 60,
com uma polarização primitiva entre esquerda e
direita, argumentos políticos pobres e militância
manipulada nas ruas. Chaves venceria mais
essa disputa.

A rotina em Caracas é sem graça. O metrô
facilita a mobilidade, mas quando se sai dos
túneis depara-se com uma cidade barulhenta,
sem muitas cores e com um trânsito infernal até
mesmo nos subúrbios, apesar do alívio
proporcionado por alguns grandes parques e
das avenidas largas onde o exacerbado
nacionalismo estimulado pelo governo
transparece em monumentos e painéis de
exaltação a heróis do passado, principalmente
Simon Bolívar, o venezuelano que libertou a
América espanhola.

Quando fotograva o painel do Centro Simon
Bolívar, um militar abordou-me e exigiu-me o
passaporte. Ao tomar conhecimento de que eu
era brasileiro, comentou sobre as favelas e a
violência no Brasil. “Seu país é muito perigoso”,
disse. Ironia. À nossa frente, a paisagem de
favelas nas escarpas andinas, contrastava com
os edifícios e esculturas monumentais de
Caracas.

Na saída, a caminho de Cartagena das Índias,
na Colômbia, decidi dar uma parada básica em
Maracaibo, cidade junto ao grande lago
homônimo, onde mantive um amigo por
correspondência décadas atrás, muito antes do
email e da webcam. Outra vez, a experiência
não deixou uma boa lembrança.

Cheguei à noite, sem reserva, e fui levado por
um taxista a um hotel próximo ao ponto de um
ônibus que, na manhã seguinte, me levaria a
Cartagena. Deixei a mochila sobre a cama, sai
para comer e, ao retornar, percebi que alguém
tentara abri-la. Talvez eu tenha voltado rápido
demais para o quarto. Só então me dei conta de
que, ao entregar o passaporte, na recepção,
deixei cair a chave de um dos cadeados da
mochila, prontamente recolhido por algum
funcionário desonesto. Chato, né? Mas isso não
tirou a satisfação de ver Maracaibo iluminada
junto ao lago e da travessia de sua ponte de 8
quilômetros de extensão.
ISTO É CARACAS
Acima, JM na Praça Altamira: tranquilidade durante o dia e boemia à noite. Ao lado, o general Abreu e Lima, pernambucano que lutou ao lado de Bolívar e virou escultura em Caracas.
O painel do Centro Simon Bolívar é um dos incontáveis murais e estátuas que em Caracas reforçam o nacionalismo
Calçadão da Sabana Grande, no centro da cidade: comércio e pistas de dança para amantes de salsa e  merengue.
Portais e esculturas de heróis nacionais ornamentam uma cidade de avenidas largas e de poucos atrativos turísticos
ONDE FIQUEI EM CARACAS
Hotel Altamira, avenida José Felix Sosa. Simples e limpo, apartamentos com banheiro e sem internet.
Ap. single: 29 dólares

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01/2011