Postado em 02 Apr 2015 00 44 Principal

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje! NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.
“Deus está morto!”, diria Nietzsche, cumprindo o seu papel de filósofo e nos ajudando a sair do lugar comum. A menos que entremos em depressão, deveríamos refletir sobre a assertiva do filósofo.
Compreendo Nietzsche porque me parece que o Deus a que ele se referiu é o Deus-objeto, o Deus-forma, o Deus-imagem, uma ideia particularista.
O Deus-imagem tem-nos sido apresentado numa roupagem religiosa. Ele se irrita, ele se alegra, ele impõe regras de conduta. Deus é partidário (do nosso partido), legislamos sobre onde Deus está, onde não está, sobre quem entra ou deixa de entrar no seu reino. Ele é o inspirador das incessantes cruzadas. Não sei até quando esta maneira de ver a divindade seria desejável.
Nos últimos tempos, a exploração do Deus-imagem tem sido absurda. Criamos um Deus venal, um Deus delivery, Drive trhu, 24h, acessível no crédito, no débito ou no boleto. Um Deus das permutas, das trocas, das vinganças. E ainda nos dizem para não adorarmos imagens!
Trouxemos Deus para onde ele não era e ele sumiu. Agora temos que lidar com o sentimento da ausência e com a discórdia causada pelo bezerro de ouro. Temos que lidar com o íntimo desespero de produzir coisas e ideias para, em vão, colocá-las em seu lugar. Nietzsche sentiu que Deus-imagem estava morto (ou era morto). E continuamos a enterrá-lo na espuma das palavras.
Tememos parar a compulsão mental, “desconceitualizar” Deus e notar que ficou um enorme vazio (o vazio das coisas que são).
Se sobrevivermos à dor da morte de Deus-imagem, do entendimento tão somente superficial da divindade, talvez tenhamos uma surpresa. Talvez comecemos a ver a sutil sacralidade em todas as coisas. Uma delicada paz e alegria a bailar por aí...
Se você é ateu ou religioso, o que importa? Além dos conceitos, há vida em profusão para mim, para você, para todos. Se Deus existe como penso que exista, também não vai se importar porque ele é da paz e pouco personalista!
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Jomar Morais
02 Apr 2015 03 48
Meu caro Jorge Braúna, este seu texto e o anterior são antológico, amigo. Visão Clara! É bom ter no Planeta Jota amigos capazes de fazer reflexões nesse nível. Grande abraço!