A droga e a hipocrisia
Postado em 02 Oct 2017 19 18 OutroOlhar-provisori











Na discussão sobre a descriminalização  
da maconha, todos esquecem o essencial:  
porque existe o consumo de drogas? 


por JOMAR MORAIS


Liberar a maconha ou manter a sua criminalização? A iminência de uma decisão da Justiça sobre esse tema recorrente na década atual reacendeu a polêmica sem que, a exemplo do que ocorre no debate sobre a violência urbana,   as partes envolvidas se ocupem em ir à raiz dos fatos para pensar soluções eficazes e duradouras.

De um lado, moralistas assustam-se com a possibilidade de aumento do uso de substâncias “malditas”, às quais atribuem boa parte dos males da sociedade. De outro, parte da burocracia e da tecnocracia, aliadas à superficialidade dos políticos, imaginam que, com a descriminalização da cannabis, poderão responder aos temores da sociedade, com a provável redução do poder dos traficantes e seu estado paralelo, infiltrado até às entranhas no Estado oficial. 

Nenhum dos lados considera as causas da explosão do consumo de drogas, o combustível que mantém ilesos o tráfico, seu poder e suas consequências. Também na discussão sobre a descriminalização da maconha – passo inicial para a liberação de outras drogas – perdemo-nos em aparências pontuais, na ilusão de que efeitos podem ser eliminados sem que levemos em conta aquilo que os produz.

O assunto é vasto e complexo, mas aqui estão alguns pontos que, talvez, nos ajudem a refletir sobre o engano dos sentidos.

Primeiro: nos países que liberaram o porte e o cultivo doméstico de drogas a partir dos anos 1970 (eles já são mais de 20), não houve aumento inesperado e nem redução do consumo. Houve redução da violência associada ao tráfico ilegal, mas não a eliminação do comércio ilegal.

Segundo: o consumo de drogas não se restringe ao universo das drogas ilegais. As estatísticas sobre o alcoolismo e o tabagismo e seus danos individuais e coletivos falam sobre a tragédia associada à indústria e ao comércio legal de bebidas e cigarros. E os frutos da dependência a drogas farmacêuticas, sancionada por uma medicina sem visão holística do homem, não raro mercenária e agregada aos interesses da indústria, ainda esperam estatísticas que revelem a tragédia dos surtos, neuroses, psicoses e danos físicos causados pelo uso irresponsável da bioquímica. Também aqui podemos falar de um tráfico poderoso e dissimulado, que assalta pessoas e os recursos públicos.

Terceiro: as drogas são ainda o negócio mais lucrativo das gangues que lotearam cidades e subterrâneos do Estado, mas não o único. O crime organizado atua no contrabando e na falsificação de produtos (inclusive bebidas e cigarros!), na falsificação e comercialização de bens indispensáveis como o gás de cozinha e a gasolina, no roubo e distribuição de serviços como energia elétrica, Internet e TV por assinatura e na cobrança de pedágios de segurança, sempre se valendo da omissão do Estado em áreas urbanas carentes e da conivência corrupta de seus agentes. Nada disso é afetado pela liberação ou pela criminalização da maconha e outras drogas.

Se a reflexão sobre os itens acima nos fizerem aterrar, livrando-nos das vendas dos argumentos apaixonados, veremos que a tragédia da droga e do tráfico, assim como a da violência, não comporta solução duradoura se não encararmos a visão que temos e o significado que atribuímos à vida e, claro, o mundo e as estruturas que criamos a partir desse alicerce conceitual.

A proposta de descriminalização da maconha surge em um contexto de pânico dos ricos e da classe média, ainda seus maiores consumidores, diante do perigo da brutalidade espalhada pelo tráfico. Quem hoje pode subir aos morros para comprar seu baseado ou papelote em paz, como até os anos 1980? Quem pode abrir, tranquilo, o portão do condomínio para o entregador do Delivery da Droga acionado pelo telefone ou a Internet?

A barulheira moralista para impedir o uso pessoal da cannabis surge, também, como cortina de fumaça para ocultar os crimes sociais de um Estado corrupto e injusto e para que seus dominadores e asseclas não sejam cobrados. A criminalidade, nas taperas das periferias ou nas casas e apartamentos de luxo de seus chefões, continuará florescendo no solo propício das iniquidades.

A questão da droga, por último, não está dissociada do nível de autoconhecimento e da noção de felicidade que decorre dessa condição. 

Até aqui temos divagado do pensamento tecnicista ao idealista, e vice-versa, construindo rotinas que entronizam o prazer e o transformam em rota de fuga sempre que os fatos não correspondem aos nossos desejos. Ora, em uma estrutura social que nos induz à acumulação individualista, acumular prazeres parece-nos um modo de produzir felicidade. Ainda que isso não se confirme no dia a dia, é nessa trilha que concentramos nossas energias para a glória do mercado em geral e também do negócio das drogas e o da corrupção em suas diferentes facetas.

A filosofia e as tradições sapienciais provam que só a percepção e a aceitação da impermanência dos estados da mente podem nos conduzir à serenidade, a felicidade genuína não condicionada externa ou internamente. É um efeito profundo e duradouro que resulta do conhecimento da realidade. Mas... convenhamos, isso é bem mais perigoso que maconha para os interesses de um mundo drogado pela ignorância existencial e toda sorte de ilusões.

[ Publicado na edição do Novonotícias de 26/09/17 ]

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