O filósofo e a crise
Postado em 06 Nov 2017 17 33 OutroOlhar-provisori










A hipertrofia do dinheiro, o colonizador  
de todos os aspectos da vida, matou a  
cultura em sua função de equilíbrio social,
diz o filósofo José Ramos Coelho  



por JOMAR MORAIS


Uma palavra vagueia pelos caminhos em que transitam as pessoas e as afligem com insegurança, medo, angústia e ansiedade: crise! Na tentativa de exorcizá-la, economistas esgrimem com números, políticos com discursos, cientistas e técnicos com invenções, médicos com drogas, psicólogos com  terapias... E, no entanto, o mal-estar individual e coletivo prossegue ampliando-se no compasso das conquistas tecnológicas e da expansão do bem-estar material, em contradição com as crenças de uma sociedade racional e pragmática.

É difícil, talvez impossível, diagnosticar-se com precisão os problemas subjacentes de um sistema quando se faz parte dele ou quando se usa para isso instrumentos e critérios predestinados a validá-lo. Saltar para fora, instalar-se em outra perspectiva ou, no mínimo, expandir a observação restrita a segmentos, relacionando-os ao conjunto, são atitudes indispensáveis para não nos perdermos em delusões, isto é, no labirinto das construções mentais que mascaram a realidade e perpetuam nossos enganos.

O filósofo e doutor em Psicologia Clínica José Ramos Coelho, ao que parece, acaba de realizar essa proeza. 

Numa época em que muitos falam de crises a partir de perspectivas setoriais – sejam a econômica ou a politica, a moral ou a psicológica -, Ramos Coelho  nos leva a enxergar a dimensão mais ampla e mais profunda de uma situação que se manifesta por múltiplos sintomas. A crise é a de um modelo civilizatório que se exauriu, ele argumenta em seu novo livro A Morte da Cultura - Um diagnóstico de duas patologias da civilização, que será lançado nesta sexta-feira, 10, no Sapiens.

O modelo em xeque é o greco-romano, que moldou as sociedades humanas no ocidente, cuja eficácia desmoronou ante a hipertrofia do dinheiro, o grande colonizador de todos os aspectos da vida social e vírus que adoeceu e praticamente matou as culturas em sua função de promover a homeostase social, o equilíbrio interno que mantém a vida saudável em meio às alterações do ambiente. As epidemias de ansiedade e depressão, assim como os espamos de violência social, não seriam mais que sintomas dessa falência e da perda de significados.

Para o autor de A Morte da Cultura, o “programa da racionalidade” promoveu rupturas decisivas na comunicação e interação entre as pessoas. Trata-se de um processo que tem origem na linguagem, sobretudo, na escrita, que  implantou a supremacia dos raciocínios em detrimento da realidade e, ao tornar obsoleto o cultivo da memória do saber nas relações interpessoais, abriu caminho para a insensibilização das relações humanas e à petrificação de corações e almas.

O dinheiro surge como a segunda grande ruptura ou patologia, ao alterar o sentido das coisas e a relação entre pessoas e mercadorias. Se todas as coisas  podem ser permutáveis em dinheiro, perdendo seu valor de uso para serem apenas  instrumentos de lucro, tem-se aí a interdição da satisfação das necessidades básicas e naturais do ser humano. O dinheiro passa a ser a medida de todas as coisas, inclusive a do homem. E a compulsão por trabalho para gerar riqueza (mais dinheiro) conduz àquilo que o autor chama de “polematação” do homem, ou seja, sua coisificação, sua transformação em mercadoria através dos modos de produção e consumo inspirados pelo capital.

Em sua análise, Ramos Coelho esmiúça a mitologia da pós-modernidade, investe sobre o papel do marketing e da publicidade na armadilha de humanizar as coisas enquanto expropria e sequestra a humanidade dos homens e faz-nos ver o óbvio ocultado pela ilusão: “O hábito de lidar com o dinheiro intoxica o pensamento, o sentimento e as ações humanas, tornando o usuário desta tecnologia em seu dependente e servo inconsciente”.

Mas, se já não é possível – nem recomendável – retroceder à oralidade da comunicação  e nem à economia dos escambos, o que fazer para curar as feridas abertas pela enorme defasagem entre um excesso de ciência e de eficácia técnica e um déficit de ética e de valores?

A saída, para Ramos Coelho, está em um retorno à homeostase global mediante o cultivo de valores autênticos que expressem a natureza humana. Se a hipertrofia do capital devora todos os recursos do planeta e se as línguas e culturas hegemônicas  promovem etnocídios e genocídios, destruindo a diversidade, a solução que se faz necessária passa pelo estabelecimento de um novo ideal de excelência que inclua a sabedoria e a compaixão.

Em termos políticos, isso abre espaços para, por exemplo, a alternativa de um “anarquismo dadivoso”, baseado em uma ideologia e estruturas que privilegiem a dádiva e não a acumulação, como propõe o autor de A Morte da Cultura. No âmbito da filosofia, das religiões e das artes, estimula nossos passos através dos portais da ação generosa, que dissolve o egoísmo, e da contemplação, que elimina a ignorância. 

Em outras palavras, uma solução duradoura nos conduzirá, inevitavelmente, ao resgate da mística a fim de equilibrar a racionalidade.

[ Escrito em 06/11/17 ]

Saiba mais sobre o livro >>> https://planetajota.jor.br/A_morte_da_cultura.html

Assista aos novos vídeos da TV Sapiens >>> www.youtube.com/sapiensnatal

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