O legado perverso do racismo
Postado em 16 Mar 2018 06 17 Textos Anteriores


JM na área central da Cidade do Cabo e, ao lado, a favela onde vivem 
famílias negras: o que aprender com os desafios da África do Sul?


por JOMAR MORAIS


Nos anos de chumbo da década de 1970, os negros da África do Sul olhavam para as águas do Atlântico e sonhavam com o dia em que poderiam ter, em seu país, a democracia racial que existia no outro lado do oceano – no Brasil onde raças e etnias variadas conviviam em paz e sem reservas. 

Era uma visão idealizada, mas justificável, de nossa realidade. 

Naquela época, os brasileiros viviam a “paz de sepultura” de uma ditadura que amordaçava, prendia e torturava, mas para a maioria da população sul-africana, subjugada ao regime do apartheid (palavra da língua africâner que significa separação), com sua segregação racial e iniquidade social firmadas sobre bases jurídicas, o simples fato de viver em um país miscigenado, sem catracas, sem guetos raciais e com um mínimo de mobilidade social era a antevisão do paraíso.

Os anos 70 foram de dor nos dois lados do Atlântico sul. Mas, na África, o grito dos desesperados reagiu às prisões em massa, à violência do aparelho de segurança estatal e aos assassinatos de líderes como Steve Biko e, então, o mundo, sensibilizado, juntou-se aos injustiçados em um movimento de protestos e sanções econômicas que iriam enfraquecer o poder racista e facilitar, a partir de 1990, o processo de negociação em que Nelson Mandela arrancou a vitória dos oprimidos.

A queda do apartheid e a eleição de Mandela como presidente sul-africano, em 1994, foram a culminância de uma das mais belas páginas da história no século 20, assemelhada à libertação da Índia sob a liderança de Gandhi e às campanhas de Martin Luther King pelos direitos civis nos Estados Unidos. Com certeza, permanecerão como inspiração para a defesa dos direitos fundamentais do homem onde quer que estes sejam ignorados ou ameaçados. Ainda assim, as conquistas sociais obtidas, desde então, pelos negros libertos da segregação estão longe do ideal de liberdade, equidade e fraternidade que inspirou essa grande saga.

Estive na África do Sul em janeiro e fevereiro deste ano, em um mochilão no qual segui por trilhas percorridas no passado por Nelson Mandela e Gandhi – que despertou para a sua missão espiritual e política ao ser expulso de um trem, por discriminação racial, em Pietermaritzburg -, além  do negro André Rebouças, um dos articuladores da abolição dos escravos no Brasil, durante seu exílio no final do século 19. 

Ali, alegrei-me com a nova paisagem da “nação arco-íris”, preconizada pelo bispo anglicano Desmond Tutu, uma das vozes mais influentes das campanhas anti-apartheid, expressa na cena de negros e brancos frequentando os mesmos espaços públicos e no colorido de urbes mestiças, como a Cidade do Cabo. 

Emocionei-me ao visitar os marcos que guardam a memória da opressão e da crueldade praticadas contra os negros desde os trekboers do século 17 até os autores do estado racista instituído em 1948. 

Mas ali, também, pude constatar o quanto tem sido difícil para a África do Sul curar suas feridas sociais, em razão do enraizamento de suas mazelas e das limitações do jogo político que, a exemplo do que aconteceu no processo abolicionista no Brasil, preservou muitas das fontes de iniquidades do passado.

Nos anos 1880, André Rebouças já advertia: a simples quebra das algemas da escravatura não resolveria o problema dos negros. Era preciso dar-lhes educação e a propriedade da terra, a fim de evitar que eles, livres mas sem meios de sustentação, fossem atirados à vala da miséria e da marginalidade. “Quem possui a terra, possui o homem”, dizia Rebouças. A abolição brasileira cedeu à avareza dos latifundiários escravocratas e, até hoje, os nossos negros pagam o alto preço da exclusão social, situados no topo das estatísticas de indigência e de criminalidade.

No início dos anos 1990, Mandela e os movimentos anti-apartheid também tiveram que ceder a esse mesmo tipo de interesse, na negociação final com o governo branco racista, e a consequência foi o abismo social que perdura na África do Sul, apesar de todos os avanços sociais realizados desde 1994.  

Mais de 90% das terras e das riquezas da África do Sul – um país rico e emergente, dotado de alta tecnologia e integrante, junto com o Brasil, do bloco dos BRICS – continuam na mão da minoria branca, que é apenas 9% dos 53 milhões de sul-africanos. Entre os negros, que constituem 79% da população, mais de 80% não possuem sequer um único bem e vivem em favelas de barracos de madeira e zinco ou em “townships” (vilarejos em que eram confinados no tempo do apartheid), distantes das cidades, embora hoje beneficiados pela construção de moradias dignas e uma razoável infraestrutura, graças aos programas sociais do governo.

São os negros que recheiam as atuais estatísticas de desemprego, superiores a 20% da população economicamente ativa desde que a economia sul-africana foi abalada pela crise internacional de 2008. Sem bens para oferecer em garantia de empréstimos, eles nem mesmo podem empreender pequenos negócios, pois os bancos se recusam a financiá-los.

Cheguei à África do Sul no ápice de uma crise política que resultou na saída do presidente Jacob Zuma, envolvido na corrupção que permeia a política sul-africana de um modo semelhante a que conhecemos no Brasil, e também em um momento de recrudescimento da violência urbana. Joanesburgo, a maior e a mais rica cidade do continente, violenta desde o seu nascedouro em meio à “corrida do ouro” dos anos 1880, convive com uma explosão de criminalidade. A atuação de gangues praticamente impõe o esvaziamento das ruas da metrópole a partir das 20h. A Cidade do Cabo, sede do parlamento do país (a capital administrativa é Pretória e a Suprema Corte fica em Bloemfontein), vive uma situação assemelhada e a maioria de suas ruas fica deserta tão logo o Sol se põe. E, se não bastasse, a cidade, abundante em beleza natural, enfrenta uma crise hídrica que levou à economia rigorosa de água, com o fechamento de torneiras em ambientes públicos e o apelo para que se tome banhos de “1 minuto” e se substitua a água por álcool gel na lavagem das mãos.

Quando comparada ao próprio passado, a África do Sul de hoje, democrática e plural, é um símbolo da coragem e da disposição do homem para enfrentar e superar a mesquinhez de  mentes estreitas e gananciosas. É uma esperança para todo o continente africano, ainda marcado pela exclusão e a injustiça. A herança secular do racismo e da opressão, no entanto, ainda é ali um obstáculo ao florescimento da equidade, o que só o tempo e a persistência nos bons propósitos poderá eliminar.

À classe média negra que, aos poucos, emerge nos townships e nas grandes cidades, e aos novos ricos que começam a brotar entre os negros bem sucedidos em suas profissões e negócios, resta não esquecer a advertência de Nelson Mandela, registrada em uma tela do Museu do Apartheid, em Joanesburgo. Em meio à euforia da população pelo fim do apartheid e a abertura de possibilidades de uma vida mais confortável para os outrora  segregados, o grande líder chamou a atenção para o perigo do materialismo e do consumismo como catalisadores do egoísmo e do invidualismo. Isso fatalmente dissolveria o senso de fraternidade, solidariedade e consciência política que tornaram possível a virada sul-africana.

Se os negros que ascenderem socialmente não desprezarem esse apelo, certamente o ideal das lutas anti-apartheid avançará e dará frutos plenos de democracia política, econômica e social. Se acontecer o contrário e um novo tipo de segregação, com base no dinheiro e nas posses, tornar-se algo “natural” e “aceitável”, o fim do apartheid terá sido tão tímido e corrompido quanto a abolição da escravatura no Brasil.

[ Escrito em 16/03/18 ]

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