A BOTIJA DA CASA VELHA DA CRUZ
Postado em16 Feb 2014 04 16 HISTORIAS DE MERICO




Zefinha de Zé Amaro sempre demonstrou fragilidade em sua estrutura emocional. Quando morria alguém, mesmo não sendo da família, ficava impressionada durante dias, mal conseguia dormir, acordando várias vezes, assustada. Até nos estudos essa fragilidade a atrapalhou. Só fez até o terceiro ano primário. Ficava nervosa freqüentemente e dizia-se incapaz de aprender. “A pobrezinha é meio fraca das idéias”: era o diagnóstico de todos, até da família. Mas era uma moça bonita, educada, faceira, de traços delicados e gestos finos. Seu jeito simples e elegante dava a impressão de não pertencer àquele lugar. Chegava mesmo a lembrar aquelas senhorinhas das gravuras dos livros de História.

Estes predicados, acrescidos de outros sentimentos e das energias que impregnam o ar e a vida e não cabe aqui discutir, levaram o jovem Zé Amaro a apaixonar-se por Zefinha. E, um dia, vencendo a timidez, numa visita de boca de noite ao pai da moça, disse-lhe que sentia muita estima por sua filha e que, se fosse do seu agrado, gostaria de namorar e casar com ela.

O velho disse-lhe ter muita estima, reconhecê-lo como um homem trabalhador, avesso às jogatinas, festas e bebedeiras e ainda o elogiou por nunca tê-lo visto enganando filha de ninguém, mas como fez muitos rodeios, o jovem, impacientou-se e foi direto ao assunto.

- Tá me parecendo é que o senhor não faz gosto nesse namoro. Pode me dizer, que a amizade será a mesma.

- Não é isso não! Até que faço gosto, mas tenho uma coisinha pra lhe perguntar: Você sabe que ela, mesmo não sendo doida, é meio fraquinha?

Passados quatros anos, estavam os dois casados morando na Casa Velha da Cruz, construção centenária herdada dos avós da moça, e já com uma escadinha de três filhos. A vida não era fácil: pobreza, privações e tantas outras dificuldades, mas sempre encaradas com trabalho, paciência e resignação. Para os vizinhos, aquele era um casal exemplar na educação dos filhos, no respeito e na camaradagem.

A casa que ocupavam ficara fechada por muitos anos, pois, quem tentava morar nela, logo se mudava alegando ser mal-assombrada. Alguns ouviam gritos de pessoas brigando, outras viam vultos durante a noite, ouviam batidas em portas e panelas e sentiam alguém balançando as redes enquanto dormiam. O próprio nome, Casa da Cruz, já impunha certo receio e devia-se a um pequeno cruzeiro existente no oitão da casa, erguido em conseqüência de um assassinato ocorrido ali em tempos remotos. Zefinha sempre teve medo daquele lugar, mas a sua vontade de construir um lar, ao lado de Zé Amaro foi mais forte. E quando confessava seus receios ao marido, a resposta era sempre a mesma:

- Zefinha, essa coisa de mal assombro é besteira.  Se aparecer alguma coisa é só perguntar: Quem pode mais do que Deus?

Afora as dificuldades advindas da pobreza, a vida seguia tranqüila e sem assombrações até que, certa noite, Zefnha acordou com uma pessoa sentada à borda da cama.  Abriu os olhos, lá estava e mesmo no escuro podia ver: Uma senhora idosa, magra, alta, cabelos formando longa trança, saia de chita cobrindo os pés e blusa justa, de mangas compridas e abotoada até o pescoço.

Arrepiou-se da cabeça aos pés, arregalou os olhos e escancarava a boca para gritar, mas a senhora fez um sinal para que se mantivesse calada.  Ela não obedeceu, mas não gritou, faltou-lhe a voz.

- No acero do monturo, debaixo do pé de jurema, cave, o sinal é uma pedra de amolar... Tem muito dinheiro.

Ditas estas palavras, a senhora, arrastando a saia longa e pregueada, levantou-se, saiu do quarto e se foi deslizando pelo corredor em direção à cozinha.       

Tremendo de medo, Zefinha já podia gritar, mas preferiu permanecer calada. Ainda trêmula, levantou-se, armou uma rede entre a dos meninos e, pelo resto da noite não conseguiu mais dormir.

- Comadre Tica, a senhora acredita nesse negócio de botija?

- E a senhora, não, comadre?

- Sei lá, comadre... Nunca conheci ninguém que arrancou uma! Só escuto falar.

- Pois fique sabendo que tem muita botija enterrada por esse mundão afora. E digo mais: Há, se uma alma me desse uma!

- A senhora tinha mesmo coragem de arrancar?

- Ora se tinha! Eu não tenho é essa sorte!

Passados alguns dias, Zefinha começou cavar o monturo, no local indicado. Sua dedicação crescia com o passar do tempo, chegando a deixar em plano secundário os afazeres domésticos e até os cuidados básicos para com os filhos.

Como não podia contar o fato a ninguém, manteve-se calada e, diante da perplexidade dos familiares, amigos e vizinhos, apenas dizia:

- Graças a Deus, chegou a nossa vez! Eu e Zé... A gente vai mudar de vida.

Vizinhos e curiosos passaram a se acercar dela que, ignorando-os, cavava mais e mais, com crescente afinco. O sol esquentava e os filhos sujos e descalços assistiam sem compreender aquele trabalho sem fim. Dona Tica, de coração partido, levou-os para sua casa, passando a dispensar-lhe os cuidados necessários e entretê-los para não assistirem àquele doloroso espetáculo.

Amigos e familiares tentaram dissuadir Zefinha daquele empreendimento insano, mas nenhuma argumentação fazia-lhe arredar o pé do lugar. Compadecida, dona Tica levava-lhe as refeições e arranjou-lhe um grande chapéu de palha para protegê-la do sol.

Chegado o terceiro dia, sem nenhuma previsão para o fim daquela insanidade, a família telegrafou ao marido que estava trabalhando de servente de pedreiro, na capital que tendeu prontamente o chamado e pouco antes do sol se por,  estava diante da esposa desfigurada, coberta de poeira, metida dentro de um enorme buraco, com as mãos ensangüentadas... Sentindo um doloroso aperto no coração, as lágrimas vieram-lhes aos olhos, mas ele virou o rosto, retemperou-se e se fez de forte.

- Zefinha, eu voltei pra lhe ajudar. Me dê a enxada. Deixe eu cavar no seu lugar.

- Ah, José... A gente nuca mais vai passar necessidade nessa vida. Nossos meninos nunca mais vão chorar pedindo comida. A nossa vida de aperreio chegou ao fim, meu marido!

Enlaçando-a pela cintura fina, José a tirou do fosso e contendo as lágrimas diante do deplorável estado da esposa, apenas disse:

- Vá, Zefinha, acompanhe comadre Tica que vou continuar cavando...

- No dia seguinte, chorando e abraçado aos filhos, Zé Amaro viu a mulher ser colocada contra a vontade na rural da prefeitura para ser levada à capital. Ao seu lado, Dona Branca que, envolvendo-a como a uma criança e com um rosário de promessas, conseguiu acalmá-la até chegar a Natal.

Dona Branca era uma parteira que se instalara em Mericó há décadas. Amada e respeitada por todos, não havia, praticamente, na cidade uma pessoa que não fosse seu compadre, comadre, afilhado ou afilhada.

Após quinze dias de internamento na capital, Zefinha retornou. Estava corada, mais forte, um pouco sem graça devido ao ocorrido e cheia de saudades dos filhos, que abraçou e inspecionou detalhadamente para certificar-se de que estavam todos bem.

- Não se preocupe, comadre! Cuidei dos seus meninos como se fossem meus. E não me deram nenhum trabalho.

- Comadre Tica, é a Virgem Maria  no Céu e a senhora aqui na terra! Que Deus lhe pague!

Mas na mesma noite, enquanto todos dormiam, de lamparina na mão, Zefinha dirigiu-se ao local da escavação e, para não fazer barulho passou a remover a terra fofa do monturo com as próprias mãos. O sol começava raiar quando encontrou a pedra de amolar. Com muito esforço arrancou-a e, ajoelhada, passou a cavar freneticamente usando como ferramenta um caco de louça.

O tempo passou, o sol levantou-se e ela, no afã do seu trabalho, não se deu conta de que uma platéia já a cercava, acompanhando-a com negativas de cabeça e sussurros:

- Não teve jeito, a coitada continua com o juízo fraco.

Enfim, seus dedos identificaram um objeto semelhante a uma panela, ela cavou ainda com mais ferocidade e, em poucos minutos, ainda acreditando-se só naquela empreitada, arrancou um pequeno pote de barro do chão e gritou:

- Achei, Zé! Estamos ricos!...

Diante dos olhos arregalados da platéia, retornou para casa amparada pelo marido, apertando contra o corpo, o pote dos seus sonhos. A notícia espalhou-se e, em poucas horas, a casa e o monturo de Zé Amaro viraram um centro de visitação.

Logo convidaram o professor Epaminondas, o homem mais culto do lugar que, entendendo de tudo, poderia esclarecer o valor do conteúdo do pote. Com sua chegada, o pote foi quebrado espalhando milhares de moedas escuras sobre a mesa da cozinha. Usando uma velha lupa, após alguns gestos teatrais e resmungados inteligíveis, em tom categórico e formal, o professor deu o seu veredicto diante de uma numerosa e curiosa platéia:

- Senhoras, senhores... É com pesar que me sinto na obrigação de comunicar que estas são moedas comuns dos primeiros anos da nossa querida República e que não têm nenhum valor. Não valem nada, não servem para nada. E tenho dito!

Mas o professor, na sua inquestionável sabedoria, daquela vez enganou-se. A botija foi de grande valia: Retirou de Zefinha o estigma de louca e levou sossego à assombração que, segundo o padre da freguesia, há quase um século penava por haver ajuntado tesouro onde a traça e a ferrugem corroem.

Aldenir Dantas

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