UM FILÓSOFO EM MERICÓ
Postado em29 Nov 2020 03 20 HISTORIAS DE MERICO

                   
    (Para Claudia F. cidadã honorária de Mericó)

    Um dia desses, uma amiga falou-me acerca da possível aparição de discos voadores e ETs em Mericó. Nunca ouvi nada a respeito. Todavia, como as histórias me chegam através de vários canais, quem sabe um dia desses... Mas, para uma cidade daquele porte, melhor do que um ET é um filósofo. E Mericó teve o seu.
    A história da sua vida começou fugir ao padrão na lavratura do seu registro de nascimento.  É natural que, ao chegarem para registrar um rebento, os pais tenham, na ponta da língua, o nome escolhido. Com ele, foi diferente. De casa até o cartório, a cantilena era:
    - Vai ser Zé, Maria. Homenagem ao meu falecido pai!
    - Zé não, home! Bora botar João! Além de ser um nome bonito, ele nasceu no dia do santo!
    - Nada disso! Vai ser Zé!
    - Zé não!  A gente bota Zé no outro.
    - Zé, sim!
    - Zé, não!
    E, assim chegaram ao cartório, sem um consenso. Dona Escolástica, uma tabeliã septuagenária, por trás dos seus fundos de garrafas, os atendeu. Cumpridos os trâmites inicias, perguntou qual era o nome da criança.
    - José dos Santos Silva! Falou o pai.
    - Zé não, Zé não! - retrucou a mulher.
    - Dos Santos Silva, não é isso? – Perguntou a escrevente.
    - Sim! - Responderam os pais,
    O registro foi lavrado e voltaram para casa satisfeitos. Ele, certo de que o filho se chamava José e ela, João. A celeuma só não grou maiores problemas para o menino porque prevaleceu um apelido colocado pelo avô, Galego. Era assim que todos o conheciam.  
    Chegado o tempo de estudar, de posse do seu registro, a mãe procurou a escola para matriculá-lo. Foi atendida pela diretora.
    - Taqui, vim matricular meu menino pra estudar.
    - Muito bem! Zenão vai começar com a idade certa. – Respondeu a diretora, após examinar o documento.
    - É isso mesmo. O nome dele não é Zé. Meu marido era que queria botar esse nome, mas eu não quis.
    - A senhora tem razão, Zenão é um belo nome.
    - Mas a senhora não tá é entendendo: não é Zé, o nome dele é João.
    - Não, minha senhora. O nome do seu filho não é José nem João, é Zenão.
    - Eu já tô é ficando com o juízo revirado com essa conversa. Meu filho né Zé não, é João! Deve tá escrito aí. Olhe direitim que a senhora vai ver.
    - Mas é isso mesmo. Está escrito aqui: Zenão.
    - Zé não? Pelas caridade, isso lá é nome de gente?
    - É, sim! E é um belo nome. Nome de um sábio da antiguidade, Zenão de Citio!
    - Taí outra coisa errada... Eu nasci e me criei no sítio. Mas quando me casei, vim morar na rua. Meu filho nunca foi de sítio. Nasceu e se criou aqui.
    - Não, deixe eu lhe explicar: Zenão de Citio é o nome de um homem muito sábio dos tempos antigos. Viveu num país chamado Grécia.
    - Ah, meu santo Deus! Quer dizer que ta aí nos registro Zé não?
    - Isso mesmo: Zenão dos Santos Silva.
    - Ah, meu Jesus! Aquela mulé do cartório, entendeu errado. Mas, também, a abiscoitada num escuta direito, num vê direito... dá nisso!
    - Mas não há porque se preocupar. Não há mal que não traga um bem. Seu filho acabou ficando com um nome diferente. Um belo nome. Nome de um homem muito importante.  Quem sabe ele, também, não será um homem igualmente importante!
    - Já que tá sem jeito, sem jeito vai ficar. Bota aí Zé não, mesmo. Não vai mesmo fazer muita diferença, que todo mundo só chama ele de Galego! – Falou, colocou a mão na cintura, meneou a cabeça e, com um suspiro, concluiu: - Zé não! Onde já se viu?! Diacho de velha abilolada, aquela!
    Com o avançar na vida escolar, Galego, gradativamente, se acostumou com o seu verdadeiro nome. Por ser diferente e, frequentemente, merecer comentários dos professores, passou até a gostar dele. Assim que a idade lhe permitiu, procurou saber quem fora o tal Zenão de Citio. Gostou muito do seu xará e, a partir dele, conheceu outros filósofos gregos e acabou encantando-se com a filosofia.
     Leitor voraz, de boa conversa e maturidade precoce, Zenão era motivo de orgulho para os pais, pela sua inteligência, e de espanto para os professores, pela desenvoltura e profundidade no trato com os conteúdos estudados.
    Como era de se esperar, seu aguçado senso crítico causou-lhe uma série de problemas. E foi da mãe que sofreu a primeira reprimenda, em função do seu comportamento tido, amiúde, como socialmente inadequado.
    O fato se deu num tempo em que a situação econômica da família, que nunca foi boa, estava péssima. Comida minguada, faltando a mistura para o feijão, chegando ao fim do ano e sem um tostão para comprar uns retalhos para fazer umas roupinhas pros meninos, tudo muito difícil. 
    Ocorreu que, numa das saídas em que a mãe fez para colher madeira morta na beira da estrada para alimentar o fogão, voltou sem a lenha, mas, eufórica e nervosa.
    - Manezim, Manezim! Vem cá! Olha que eu achei na estrada! – Falou, tirando algumas cédulas enroladas do sutiã e mostrando-as com nervosismo.
    - Mas mulé de Deus, isso é um bocado de dinheiro! Guarda logo isso e bico calado. Se daqui há um mês num aparecer ninguém dizendo que perdeu, vai ser um bom adjutório.
    - Ora, ora! Achei, é meu! Posso gastar é agora mesmo!
    - Seja teimosa, não, Maria! Esconde já isso e fica calada. – Falou o marido e, dirigindo-se à Zenão, concluiu, com o polegar e o indicador na boca imitando um zíper: - E tu, menino, trate de passar um rirri nessa boca!
    - Ah! como Deus nosso Senhor Jesus Cristo é bom! Foi ele quem atendeu a minha reza!
    - Mãe, foi Deus ou foi Jesus Cristo? Não entendi.
    - Pergunta besta, menino! O pade disse que os dois é um só. Dois não, três: ainda tem o espírito santo.
    - Mas, mãe, e ele é bom pra uns e ruim pra outros, é?
    - Que diacho de conversa mais sem pé e sem cabeça?! Onde já se viu? Deus é bom pra todo mundo.
    - Ah, mãe, mas ele não foi nada bom com a pessoa que perdeu esse dinheiro!
    - Olhe aqui! Cale essa boca agora mesmo. Tá falando como um herege! Não me diga mais uma coisa dessa aqui nessa casa. Nunca mais, viu?!
    - Mas mãe, como ele pode estar sendo bom com a pessoa que pedeu...
    - Cale-se! Olhe aqui! Você está crescido mas ainda apanha se merecer... – Interrompeu a pergunta do filho fazendo estalar em suas costas um cipó de marmeleiro que trouxera do mato para colocar o cabo em um quengo.
    Como se pode ver, assim como os Estoicos, na Grécia antiga, os Mericoenses tiveram, em Zenão, o seu primeiro filósofo. Volvendo o olhar para a História, é fácil deduzir que, quem ousa pensar e questionar além dos limites estabelecidos, em geral, enfrenta problemas. Alguns chegaram a perder a vida por amor a verdades, como Sócrates, Sêneca, Giordano Bruno...   Com Zenão de Mericó, não foi diferente. Dentre os mais insatisfeitos com suas ideais estavam a diretora da escola, o padre, os políticos, o delegado...
    Concluído o segundo grau, Zenão passou a dar aulas de História em Mericó. O diretor da escola, que era vice prefeito pela Arena, fez o que pode para impedi-lo. Não conseguiu, por ele haver passado em um processo seletivo.
     Os alunos e as pessoas comuns gostavam muito dele. Onde chegava, logo se formava um grupo de pessoas para ouvi-lo ou questioná-lo sobre História, política e coisas do gênero. Ao contrário, a classe média mericoense (se é que existia) e os ocupantes de funções públicas alimentavam por ele um misto de desprezo e inveja. Desprezo pelo pouco caso que ele fazia das coisas que enchiam os olhos da maioria e inveja pela sua inteligência aguçada e conhecimentos que iam muito além da disciplina que ministrava.
    Coroando a decepção da sociedade local e da família, Zenão podendo escolher uma jovem de boa família para constituir um lar, casou-se uma moça abandonada pelo noivo com o qual extrapolara os limites do que só era permitido após o casamento.
    Naqueles tempos, uma jovem que passava por uma situação dessa tornava-se indesejável à sociedade. Não podia ir às festas, não podia comungar e quando algum homem dela se aproximava era, em geral, com interesses meramente sexuais. Restavam-lhe duas coisas: ficar presa em casa, cabisbaixa, cuidando dos irmãos e dos pais até envelhecer e morrer triste; ou sair mundo afora, muitas vezes, atirando-se a formas degradantes de sobrevivência. Isso, se não fosse expulsa de casa pelo pai.  Foi com uma jovem dessas que Zenão se casou. Não tinha afinidades com a igreja, mas, submeteu-se à cerimônia religiosa, numa espécie de sacrifício pela jovem por quem se apaixonara.
    Mas aqueles foram tempos sombrios, cheios de coisas sem elucidações. A quase totalidade das pessoas dali não sabia o que acontecia no Brasil, nem no mundo. Exceto o que ouvia pela Voz do Brasil. E quem sabia de alguma coisa, não se dispunha a explicar, desconversava ou fugia quando era indagado.  Zenão, fugindo à regra, deixava as pessoas boquiabertas com os seus esclarecimentos, a sua energia, os seus olhos faiscantes quando fazia suas explicações. Muitos adultos proibiam os jovens de ouvir suas conversas.
    Enfim, chegara a sua vez. O mês, dezembro de mil novecentos e sessenta e oito. Dia treze, uma sexta feira.  Últimos dias de aulas. Naquela manhã, Zenão deixou de comparecer à escola para ministrar aulas. Também não foi à tarde. Nunca mais foi visto. Ninguém mais falou nele. Se o faziam, era de uma forma tão sigilosa, que nem o narrador dessa história tomou conhecimento. Era como se nunca tivesse existido.
    Aos leitores das Histórias de Mericó, acostumados ao bom humor, aos finais explosivos e à leveza da gente daquela cidade, as nossas desculpas. É que, mesmo tão distante e tão dona de si, Mericó não era uma ilha. Fazia parte de um reino e de “um tempo onde lutar por seu direito é um defeito, que mata”1

                                                                                                                  Aldenir Dantas


1 - Da canção "Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória" de Gonzaguinha.



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