UM DANTAS EM MERICÓ
Postado em13 Sep 2020 06 49 HISTORIAS DE MERICO


                                                       (Para o primo Bembem Dantas)

Uma banda de música tocando na praça ou fazendo uma alvorada, numa cidadezinha do interior, sempre foi e será motivo de alumbramento. Em Mericó, naqueles tempos, assistir a uma banda era coisa rara. Às vezes, na posse de um prefeito, quando a contratavam de uma cidade vizinha. Constituía, portanto, sonho de muitos ver o município exibindo nas ruas a sua própria banda.

O sonho avançou em direção à realidade quando, em meados dos anos setenta, com uma ajuda do professor Felipe Tiago, natural da vizinha cidade de Picuí e fundador da CNEC*, a cidade ganhou os instrumentos necessários à criação da sua filarmônica.

Caberia à prefeitura organizar um espaço e contratar um maestro para iniciar a formação dos músicos. Ouvindo falar na fama dos Dantas, no campo da música, o prefeito foi à Carnaúba dos Dantas, consultar o colega prefeito acerca de um bom mestre de banda.

- Cumpade, me disseram que sua terra é onde tem mais gente medito com esse negócio de banda de música. Quero fazer um banda lá em nós e vim aqui procurar um mestre pra fazer o serviço. E quero um dos bom, que é pra coisa sair logo... A oposição anda se esticando e essa banda vai me render uns votos... O senhor sabe.

- Apois veio no lugar certo. Tem uma ruma de Dantas por aqui e nunca vi um povo mais atinhado por música... Tem até um frangote, que estudou na capital e anda procurando emprego. Dizem que o muleque é bom.  Mas, cá prá nós, num dá pra trabalhar comigo não!

- E porque não, cumpade?

- É desses molecote, cheio de nó pelas costa, num sabe? Quer fazer as coisas do jeito dele...  Vive falando em educação, que fazer tudo muito certim demais... Parece coisa de comunista. Mas, se o compadre quer arriscar...

- Quero, porque tenho pressa. E pode deixar, que sei lidar com caba metido a besta!

Em menos de uma hora, estava o prefeito de conversa com Felúcio Dantas.

- Ô, esse menino, me dissero que você é bozim nessa coisa de banda. Quero le contratar pra ensinar a uns menino lá de Mericó e butá a banda pra tocar! Ano quienta, quero a ela tocando no lançamento da candidatura do meu vice, pra prefeito! 
       
- Seu prefeito, posso até ir, mas, antes, tem umas coisas que gostaria de esclarecer. Primeira, meu nome é Felúcio. Segunda, aceito porque preciso mas, principalmente, por poder iniciar um trabalho com crianças e jovens da comunidade. Terceira, sob a minha regência, a banda não tocará em comício ou qualquer outra atividade ligada à campanha eleitoral. E quarta, eu não sou um profissional bonzinho. Daqui, sem querer faltar com o respeito aos demais, sou o melhor que o senhor pode contratar.

- Olhe aqui, seu... seu Dantas! No geral, com um caba quexudo quinem você, no eu num quero nem cunversa! Mas como quero butá aquela coisa pá fazer zuada e num tem tempo pra sair puraí caçando professor, se quisé, tá contratado!

Na semana seguinte, acompanhado pelo secretariado, que sempre era convidado para ouvi-lo e elogiá-lo, o prefeito iniciou a reunião com o maestro para os acertos finais.

- Pois tem a escola pra treinar, tem o mestre e tem as coisas toda de tocar, então é só começar, né isso? – Falou o prefeito, enquanto os auxiliares balançavam a cabeça em sinal de aprovação.

- Precisamos, apenas, divulgar na comunidade para fazermos as matrículas dos interessados em estudar música. – Falou o maestro.

- Isso aí, deixe comigo! Desde que que chegaram essas corneta e esses tambor por aqui, de vez em quando, uma pessoa me procura dizendo que o sonho é vê o filho tocando na banda. Só dos correligionário que me pediram, já tem menino de sobra.

- Seu prefeito, a banda é da prefeitura e o senhor faz como desejar. Tem liberdade para isso. Mas o senhor me falou de trabalho social e por isso estou aqui. Como profissional, tenho liberdade de escolher onde e como quero trabalhar e desse jeito, não dá para mim.

- Mas eu num digo que o caba vê carrapato com tosse! Então, como é mesmo que o rapaz quer trabalhá? Pode dizê?

- Já disse, no dia em que o senhor me procurou. Divulgando e abrindo matrículas para a comunidade em geral. A seleção e formação dos alunos serão por minha conta.

- Olhe aqui, seu num sei o que lá Dantas! Apois aqui, as coisas são... – Ia despedir o maestro antes da contratação, mas o único secretário que ousava aconselhá-lo puxou-o pelo braço e, sem que os outros ouvissem, falou-lhe ao ouvido:

- Não se esqueça que tem eleição esse ano, homem de Deus!

- Pois, como eu ia dizendo, e fui interrompido: Seu maestro, as coisas aqui são tudo nos conforme e doa quem doer! Matricule os menino e faça seu serviço que esse ano, na procissão quero a banda tocando na rua!

Para não encompridar a conversa, o maestro desconsiderou a fala do prefeito, a reunião foi desfeita e, em poucos dias, começaram as aulas.

Permeado por frequentes indisposições, entre o maestro e o prefeito, o trabalho seguiu de forma proveitosa e com muitas expectativas.  Empolgado com os resultados, o prefeito decidiu que a banda estrearia na festa da padroeira. O maestro ponderou:

- Pode até ser, prefeito, mas só se o senhor contratar uns músicos de fora para darem um suporte.

- Apois vamos contratar. A eleição vem aí e eu vou esfregar nas venta da oposição o que é trabalhar pela cultura e pelo bem do povo!

Juntamente com colegas vindos da sua cidade, o maestro e os alunos trabalharam sem trégua para deixar a banda apresentável para a estreia. Tudo estava pronto: tocariam um dobrado da prefeitura até o patamar da igreja e lá mais três peças. Era o que dava para fazer. Mas, faltando uma semana para o evento, o prefeito, em visita ao ensaio, comunicou:

- A banda vai sair da prefeitura. Eu sei que, na frente da banda, vai o mestre. Mas, na frente do mestre, vai o prefeito da cidade! Eu!

- O senhor? Desfilando à frente da banda? – Perguntou perplexo o maestro, diante do olhar de descrédito dos colegas.

- Sim! E vou de paletó, conduzindo, honrosamente a bandeira de Mericó!

Longo silencio se fez, enquanto o maestro protelava uma resposta cabal à tal disparate. O motivo do comedimento eram os alunos sentados, calados, felizes e ansiosos pelo tão esperado dia. Enfim, olhando para o prefeito e, seguidamente, para os olhares inocentes dos alunos, deixou-se vencer pelo coração:

- Está bem, prefeito! O senhor vai à frente da banda. – Falou e deu por encerrada a conversa dirigindo-se ao grupo:

- E agora, pessoal, vamos voltar ao ensaio que o tempo é curto e temos muito trabalho. E vamos ajustar o programa. Música nova para ensaiar a partir de amanhã!

- Maestro, e isso vai dá certo? – Perguntou um dos colegas.

- Tem que dá, amigo! Tem que dá! Vamos fazer isso pelos meninos.

Os ensaios se tornaram cada vez mais intensos, mas ninguém reclamava de cansaço. A ânsia por se apresentar pela primeira vez em público superava qualquer desconforto.

Chegada a grande hora, enfileirados em frente à prefeitura, ao primeiro toque do sino seguiram para a igreja. A caminho, deram uma volta na praça, sempre acompanhando o prefeito marchando, com o pavilhão do município.

Foi, aquele, um dia de glória para Mericó. Gloria, ainda maior, para os novos músicos, seus familiares e amigos. O prefeito, empertigado, jamais se sentira tão orgulhoso. Por onde passavam, as pessoas aplaudiam.

Um ou outro, aplaudia e, ao mesmo, tempo ria. Talvez do prefeito, parecendo um autômato, destoando do conjunto. Talvez da música, tocada no trajeto.

Após a decisão do prefeito de desfilar à frente da banda, o maestro substituiu o dobrado, que seria tocado no trajeto, por uma música de Genival Lacerda. A ideia foi boa, pois, por se tratar de uma obra muito popular, favoreceu a interação do público que, enquanto a banda passava, cantava o refrão:

De quem é esse jegue? / De quem é esse jegue?
De quem é esse jegue? / Tirem ele daqui!

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* CNEC - Campanha Nacional de Escolas da Comunidade

                                                                                 Aldenir Dantas 



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