O HOMEM MAIS RICO DE MERICÓ
Postado em23 Feb 2014 20 56 HISTORIAS DE MERICO



Em Mericó não havia ninguém rico, mesmo assim, um ou outro comerciante ou fazendeiro era tido com tal pelos mais pobres. Mas Zé de Aninha afirmava e provava que era o homem mais endinheirado da cidade. Andava com os bolsos tão estufados que, mesmo se fossem de cédulas de baixo valor, já seria uma quantia significativa.

- E isso aqui não é nada! Escondido em casa, já tenho quase 10 milhão!

- E para que tanto dinheiro, Zé?

- Pra comprar um jipe. 

Zé de Aninha era um dos dois doentes de mentais de Mericó. Naqueles tempos em que não se cogitava sobre o que é e o que não é politicamente correto e as questões humanitárias referentes aos portadoras desse tipo de patologia ainda não haviam sido levantadas, os dois eram frequentemente motivo de graça e tratados genericamente como doidos: Zé de Aninha e Severino das Pedras.

Pacato, sem jamais haver causado problemas a alguém, Zé ocupava-se em juntar maços de cigarro vazios, abri-los e transformá-los em cédulas, como muitos de nós já fizemos na infância. Na sua compreensão doentia, aquilo era, verdadeiramente, dinheiro e, assim, ele passava os dias cuidando da fortuna: juntando cédulas pelas ruas, contando-as, selecionando-as e exibindo-as nos bolsos cheios.

Dona Aninha, viúva, levava a vida cuidando do casebre onde moravam, na rua do Motor e do filho que, nos seus mais de trinta anos, comportava-se como uma criança, brincando com as suas cédulas e traçando um plano mirabolante para a aplicação do seu dinheiro: comprar um jipe.   

- Nunca fez mal a uma mosca, essa criatura. Mas vive assim, nem remédio, nem doutor, nem ninguém tira isso da cabeça dele... Comentava a mãe com a comadre que a visitava e ficara comovida com a situação do afilhado. 

- É sina da vida, comadre Aninha. Pior são aqueles que precisam ser amarrados, senão matam até a família.

Já Severino das Pedras não era do tipo que servia de graça. Sua comunicação era quase sempre monossilábica e sua fixação estava voltada para questões estéticas, sempre relacionadas às pedras. Havia dias que, se alguém da família não fosse procurá-lo nos arredores da cidade, ele não vinha nem almoçar e talvez até dormisse sobre alguma pedreira, muito comum naquela região.

Sua rotina diária era procurar sucata no lixo atrás das ruas: latas, vidros, vasilhames plásticos, arames e coisas do gênero. Em seguida, com um saco cheio dessas quinquilharias, dirigia-se aos arredores da cidade em busca de serrotes de pedras e rochedos, onde passava a trabalhar ornamentando-os.

O seu fazer artístico não se dava aleatoriamente, pois chegou a passar dias trabalhando com uma única pedra até chegar ao ponto em que, esteticamente, julgou o arranjo concluído. Nesse espaço de tempo, trocava peças de lugar, acrescentava umas, retirava outras depois se distanciava da obra, fitava-a demoradamente, fechava um olho, depois o outro e apenas quando não descobria mais nada que lhe ferisse o apurado senso de estética, dava a obra por concluída.

Ao contrário de Zé de Aninha, Severino passava por graves crises e quando isso  acontecia era necessário juntar seus numerosos irmãos para detê-lo em sua fúria. Algumas vezes, chegaram até a amarrá-lo com cordas enquanto providenciavam a rural da prefeitura para levá-lo para Natal. Tratava-se de uma atitude extrema e muito dolorosa, principalmente para os pais, mas se assim não fizessem, ele poderia destruir toda a casa, provocar graves acidentes e até agredir a própria família. Passado um tempo internado, Severino voltava: bem vestido, sereno, falando pouco, como sempre, e com uma pilha de caixas de medicamentos para a continuidade do tratamento.

Da última vez em que esteve no Hospital, sua resposta ao tratamento foi tão positiva que seu médico o considerou apto a receber alta e voltar para casa de ônibus, sozinho. Com isso, além de lhe conceder liberdade, numa prova de confiança, ainda evitaria a sua chegada em Mericó no carro da prefeitura, o que sempre atraía a atenção de curiosos e gerava gerava constrangimentos.

Cabelos aparados, barbeado, bem vestido, com uma valise na mão e o bilhete da passagem no bolso, Severino foi deixado na rodoviária por um carro da Instituição. O ônibus para Mericó partiria em meia hora. Mas ao redor da rodoviária havia tantas lojas, com tantas decorações, mercadorias expostas, manequins... Era impossível resistir. Ia dar uma olhadinha de perto e voltaria a tempo de tomar o ônibus e, assim, o fez. Atravessou o largo e passou a olhar extasiado as vitrines e as prateleiras das lojas, uma por uma, da primeira até a última, gastando mais de uma hora no trajeto, tempo suficiente para perder o horário.

Vagou um bom tempo pela rodoviária pensando no que fazer e, afastando-se um pouco, encontrou em um estacionamento vários carros com placa de venda. Aproximando-se de um jipe, apreciava os detalhes de umas fitas e rosários pendurados no retrovisor interno, quando teve a atenção chamada pelo dono do carro.

- Quer comprar o carrinho? É de primeira!

- Não.

- E não conhece ninguém que queira comprar um jipe bom?

- Sim.

- Quem, homem? Que do jeito que estou morto de liso, vendo já esse danado até pela metade do preço!

- Zé de Aninha.

- E onde mora esse Zé de Aninha?

- Mericó.

- Eita homem, que é longe de mais! Mas esse Zé tem dinheiro mesmo?

- Muito.

- E pra onde você vai agora?

- Mericó.

- Mas homem, faz mais de uma hora que o ônibus saiu! Quer saber de uma coisa? Entre aqui nesse Jipe que vou vender esse danado hoje mesmo a esse Zé de Aninha.

Após duas três horas e meia de viagem, o Jipe parou em frente à casa de Severino que, após descer, indicou ao motorista a casa do presumível comprador.

Chegando ao local indicado, o motorista estranhou a extrema simplicidade da casa. Mas julgando que o povo simples de interior não gosta muito de luxo, manteve a esperança, desceu e chamou à porta:

- Ô de casa!

- Ô de fora! Respondeu uma senhora, aparecendo em seguida com vestes humildes, cabelos grisalhos e marcas de uma vida de dificuldades estampadas no rosto.

- Boa noite, senhora! É aqui que mora seu Zé de Aninha?

- É sim, senhor. Ele fez alguma coisa errada?

- Não, senhora. Não fez nada. Eu só queria falar com ele.

- O senhor entre e se sente, que eu vou chamá-lo.

Ao entrar, o vendedor sentou-se em um dos três tamboretes que, juntamente com uma pequena mesa, compunha a mobília da sala e passou a questionar se teria sido um bom negócio vir àquele fim de mundo tentar vender um carro, quando Zé adentrou a sala.

- Boa noite! O que traz o homem aqui?

A figura suja e maltrapilha de Zé colocou por terra as esperanças do vendedor. Mas já que estava ali, foi adiante:

- Tenho um Jipe de primeira, pra vender. Está aí fora. Vim aqui porque soube que o senhor quer comprar um.

- Chegou tarde. Agora não quero mais Jipe, quero uma C10. E não é por causa de dinheiro, porque dinheiro eu tenho de sobra...

Enquanto Zé falava da sua fortuna, espalhando as cédulas sobre a mesa, o motorista compreendeu que fora vitima da própria imprudência.

Informado por dona Aninha sobre a situação daquele que lhe indicara o filho como possível comprador, procurou o prefeito, contou-lhe o ocorrido, os dois acabaram rindo da situação e a prefeitura pagou a gasolina do seu retorno à capital.

Aldenir Dantas

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