O ESTRANHO CASO DO JOVEM QUE SE APAIXONOU POR UMA FOTOGRAFIA ANTIGA
Postado em01 Mar 2014 19 09 HISTORIAS DE MERICO



Era uma daquelas noites frias de junho, em Mericó. Umas seis pessoas, entre amigos e familiares, agasalhadas em lençóis, toalhas, casacos, ocupavam o quarto espaçoso e mal iluminado por um bico de luz pendente do teto alto e escuro que parecia não ter fim. No meio do aposento, estendido sobre a cama de solteiro, respirava com dificuldade o jovem moribundo, há dias, esperando a hora derradeira. De vez em quando, a mãe, carregando no rosto e em cada gesto a dor da iminente perda, com um algodão embebido em chá de camomila umedecia os lábios do filho que, há uma semana não falava e, raramente, abria os olhos embaçados pelo denso nevoeiro da morte.

Uns cochilavam encostados à parede, outros tomavam café, quando um sobressalto tomou conta de todos. Entreolharam-se, alguns fizeram o sinal da cruz, outros se arrepiaram e dona Zefa Benzedeira, em tom profético, sussurrou à amiga do lado:

- Que seja feita a vontade de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo! Mas acho que de hoje ele não passa.

A razão disso tudo foi o cruzar de uma coruja pelos céus, com o seu barulho que lembra alguém rasgando um pedaço de tecido. Tida como agourenta, aquela ave era chamada de rasga-mortalha e, quando sobrevoava a casa de um moribundo, era quase certa sua morte na mesma noite.

Enquanto, na cozinha, a mãe preparava mais um bule de café, dona Zefa sentou-se à cabeceira do doente, esperando, a qualquer minuto, colocar a vela em suas mãos. Em Mericó, deixar um cristão morrer sem vela era uma falta de caridade imperdoável. Mas para surpresa de todos, que mantinham o olhar fixo no rosto desfigurado do moribundo, ele moveu a cabeça, abriu os olhos e gradativamente desapareceu do seu rosto aquela cor cadavérica.

O silêncio se impôs sobre todos que, passaram a se entreolhar surpresos, assustados. Os olhos do doente não mais se achavam embaçados e perdidos no vazio, mas animados pela serenidade de quem vislumbra algo belo, sublime, inenarrável... Também havia neles um brilho de lágrimas, não lagrimas de dor, mas lágrimas de grandes emoções. E, para surpresa maior, na sua boca, há dias entreaberta e inerte,lentamente estampou-se um sorriso carregado de beleza, doçura e comovente serenidade. Enfim,  aquele rosto deformado adquiriu uma beleza que os presentes, pedindo perdão a Deus pela comparação, disseram comparável à beleza de um santo.

- Comadre Zefa, isso só pode ser a melhora da morte.

- Não comadre Tonha, também pode ser um milagre de Nosso Senhor, que se apiedou do sofrimento dessa pobre mãe. 

Benivaldo era o único filho de um casal de comerciantes de Mericó, dona Benta e seu Nivaldo. Mesmo sendo um jovem de boa índole, nos seus vinte e dois anos, viveu momentos de turbulências envolvendo-se em situações que muito desprazer trouxeram aos pais.

A começar pelos pais, Valdo,como era chamado, sempre foi visto como uma pessoa de esquisitices. Até os doze anos, era muito calado, introspectivo, tinha poucos amigos, era de pouca brincadeira, muito dedicado aos estudos e obediente aos pais. Mas já havia nele algo preocupante: uma constante tristeza no olhar, uma eterna e dolorosa melancolia. Por volta dos treze, integrou-se à turma de colegas que ensaiavam as primeiras danças, as primeiras paixões, nesse estágio da vida, fantasiosas e avassaladoras.

Todos tinham as suas preferidas para elogiar, escrever o nome nos cadernos e tentar conquistar, mas ele não conseguia achar ninguém. Antes de dormir, pensava nas garotas da escola uma por uma e visitava em pensamento todas as casas de Mericó, mas, em nenhuma encontrava alguém que lhe chamasse a atenção.

- Diz aí, Valdo, e a tua menina, quem é?

- Não tenho nenhuma.

- A gente também não, mas cada um já está de olho, só falta chegar lá. Qual é a que você acha, assim, um piteuzinho?

Para livrar-se da pressão dos amigos, inventou uma admiração por uma menina qualquer.

Acentuava-se a cada dia aquela sensação de vazio, até o dia em que encontrou a sua amada. Mas este encontro, que seria a solução do seu problema, foi o início de outro, ainda maior, devido ao seu caráter inusitado.

Enquanto a mãe arrumava o camiseiro, olhava fotos, cartões e cartas guardadas em uma caixa de chapéu quando, repentinamente, atirou a caixa ao chão e jogou-se na cama segurando com as duas mãos e contemplando extasiado uma das fotografias.

- Que é isso menino? Que retrato é esse aí? Deixa eu ver!

- É a menina mais linda do mundo,mãe.

- Ah! É um retrato muito antigo da finada Cecília. Era prima da sua avó. Morava em Brejo de Areia. Morreu tão novinha... No dia em que completou dezoito anos. Dizem que o pai gastou tudo que tinha, mas nenhum doutor descobriu a sua doença. Mas isso faz muito tempo...

Calado, durante o resto do tempo que passou ali, manteve-se como se estivesse hipnotizado por aquela imagem. E quanto mais olhava as minúcias de retrato, mas se convencia de que, se fosse Deus e resolvesse criar uma pessoa perfeita, esta pessoa seria, exatamente, igual àquela.

A partir de então, passou a entender os sintomas relatados pelos amigos apaixonados: vazio no estômago, insônia, falta de apetite e a incontrolável vontade de falar constantemente na pessoa amada.

No dia seguinte, seus olhos brilhavam e a primeira coisa que fez ao chegar à escola foi contar a novidade aos colegas:

- Cecília! O nome dela é Cecília. É linda. Parece um anjo, uma santa, uma artista de cinema...   

- Nunca ouvi falar! Em que classe estuda? Mora onde?

- Mora longe... Cuité.

Hábil para o desenho, esboçava a imagem da amada nos cadernos, escrevia versos apaixonados e, até, decorou sonetos que lia em sua homenagem. O seu preferido, "O coração, de Luis Guimarães Júnior" era declamado com tamanha emoção nas festividades escolares, que emocionava professores e colegas.

Mas as pressões dos amigos aumentaram para conhecer a sua Cecília dando espaços para dúvidas e até chacotas porque o tempo passava, alguns colegas já tinham namoradas e ele permanecia endeusando aquela moça que ninguém via, conhecia ou, sequer, ouvira falar, senão através ele. Os pais, principalmente a mãe, também se incomodavam com aquele seu jeito cada vez mais ensimesmado e com aquela mania de viver perguntando coisas sobre a avó e a prima Cecília, morta há mais de cinqüenta anos.

Chegou aos quinze anos com aquele encantamento crescendo a cada dia. Na mesma proporção, cresciam a preocupação da família, a pressão dos amigos e, por último,a desconfiança de que ele, no dizer dos próprios colegas, não andava muito bem da bola. 

Achando que o remédio para ele seria uma boa farra, os colegas assim fizeram: uma farra, duas, três e, sentindo que o álcool e o cigarro aliviavam a sua melancolia, Benivaldo enveredou por este caminho, perdendo a conta das vezes que chegou em casa embriagado, trazido pelos amigos. O pai, que contava com a sua ajuda no comércio, teve com ele vários enfretamentos, chegando a agredi-lo fisicamente, pois, quando ajudava no armazém era apenas no intuito furtar dinheiro para as suas farras.

Aos dezessete anos, era tido pela família e pelos conhecidos como um caso perdido. Além de se embriagar diariamente, andava com aquele retrato na carteira, mostrando a todos e dizendo ser a sua amada. A partir daí, os galhofeiros passaram a chamá-lo de “o doido do retrato.”

Os amigos, seguindo o curso normal da vida com escola, festinhas e namoradas, afastaram-se dele, que se transformou num ébrio contumaz, louco e solitário, de cuja presença todos fugiam.

A família quase chegou à falência, levando-o a inúmeros médicos na capital, comprando remédios caros e internando-o em hospitais psiquiátricos. Mas, ao retornar, em pouco tempo tudo voltava ao que era. E assim, perdeu-se a conta das vezes que foi encontrado caído pelas calçadas e dormindo nos bancos da praça.

Chegado o dia do seu aniversário, dezoito anos, antes que todos acordassem, saiu de casa voltando apenas na hora do almoço. A mãe suspirou aliviada, ao perceber que ainda não tocara em bebida. Mas havia algo a mais de diferente nele. Mesmo do seu jeito melancólico, trazia no semblante certa leveza, e, com um leve sorriso e os olhos brilhando excessivamente, falou com uma serenidade há anos desaparecida:

- Pai, mãe... Tive um sonho. Um sonho muito bom...

- Filho, mas que sonho foi esse? Você hoje está, mesmo, diferente.

- Tive um sonho que mudou a minha vida. É tudo o que posso dizer. Quero voltar a trabalhar no armazém, pai.

Devido aos anos de sofrimentos e prejuízos, o pai não festejou a notícia e, mesmo torcendo para que desse certo, tinha certeza de que o tal sonho tinha a ver com maluquice do filho. Mas preferiu não tocar no assunto.

- Se quer mesmo, comece logo hoje. Mas veja lá o que vai fazer, pois vou ta de olho em você.

Dezoito, dezenove e vinte anos: Valdo trabalhou como nunca.Fazia as contas, controlava os estoques e atendia tão bem os clientes que o pai não achava espaço para tanto orgulho e contentamento. Retomou as amizades, voltando a reunir-se com os colegas, mas, distante do álcool, do fumo e de todas as suas velhas práticas. Tanto que chegou a incomodar alguns:

- Valdo, rapaz! Eu sei que você deu uma ajeitada na vida; mas tudo de mais é muito e você ainda é muito novo para querer virar santo.

- Homem, me deixe quieto no meu canto.

A alegria dos pais, diante daquela mudança, era notória, mas a desconfiança de alguns permanecia presente nas conversas dos bares e das comadres:

- Aquilo é o monte de remédio que ele toma.

- Também acho, e vejam que continua calado, quase não fala... Só no trabalho, porque é obrigado. Sei não, pra mim, continua doido. Um doido controlado, mais doido.

- E comadre Tonha, que ajuda na cozinha de lá, me garantiu que ele nunca largou o retrato da tal mulher morta.

Tinha vinte e um anos quando, devido a um desmaio, foi levado às pressas para o Hospital tendo início ali uma maratona de sofrimentos com idas e vindas a médicos, internações e medicamentos, enquanto ele definhava a olhos vistos.

Com as economias praticamente esgotadas, em uma das muitas internações hospitalares, os pais foram chamados à sala do médico:

- Sentimos muito, mas o quadro é irreversível. Poderão mantê-lo internado ou levá-lo para casa e ministrarem a medicação que prescrevermos. Em meio às lágrimas, os pais chegaram a um consenso:

- Se Deus vai levar nosso filho, que seja da nossa casa, do nosso lado.

De volta ao seu quarto, Valdo sentiu-se bem melhor. Já não podia locomover-se, mas além da mãe e da sua auxiliar, recebia sempre a visita de Dona Branca que lhe aplicava injeções e tratava-o com tamanho carinho e delicadeza que mais parecia cuidar de um bebê.

Incomodava-o ver a tristeza no rosto dos amigos e dos parentes que o visitavam. Certa vez, parecendo ler o pensamento de alguns colegas da escola, falou sobre a sua real situação:

- Amigos, eu sei de tudo. Não estou enganado. Terei pouco tempo aqui. E só não estou mais feliz, porque a tristeza de vocês me entristece.

Sem saber o que dizer, os amigos saíram, disfarçando as lágrimas.

A doença ganhou forças rapidamente, até chegar àquela noite em que pessoas piedosas o cercavam, aguardando o seu momento derradeiro.

Naquele momento, entendido por dona Tonha como a "melhora da morte", uma grande dádiva lhe parecia chegar dos céus. Seus olhos abriram-se e, desta vez, sem o nevoeiro cinza escuro da morte. E ele, que há muito não sentia nada, sentiu a suave carícia de uma mão em seus cabelos e o roçar de lábios, como pétalas aveludadas, em sua face.

Com as feições transformadas por uma profunda felicidade a jorrar-lhe da alma, serenamente fechou os olhos, deixando fixo nos lábios um sorriso de encantamento.

Aldenir Dantas

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