O DIA EM QUE O PROFESSOR EPAMINONDAS TEVE UM ACESSO DE FÚRIA
Postado em15 Mar 2014 23 35 HISTORIAS DE MERICO


(Foto: blog vivernomeioambiente.blogspot.com.br)

Admirável projeto de um paraibano da vizinha cidade de Picuí, a CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade) foi a responsável pela implantação do Curso Ginasial em Mericó, no início dos anos setenta.

Um dos problemas enfrentado na época foi carência de professores, mas, com  a intervenção da prefeitura, vieram profissionais de cidades vizinhas o Ginásio foi inaugurado e ver seus filhos subirem a rua trajando calça azul celeste e túnica branca rumo àquela nova instância do saber foi motivo de orgulho para muitas famílias mericoenses.

Naquele tempo, para ali residir e lecionar Língua Portuguesa e História, veio da cidade de Currais Novos o professor Epaminondas. Era um tipo um pouco diferente das demais pessoas daquelas redondezas, dos professores, inclusive.  Sua idade era uma incógnita e a única coisa que se arriscava dizer a este respeito era: tinha mais de trinta e cinco anos e menos de cinqüenta. Havia dias em que parecia mais velho, mas havia dias em que parecia mais jovem.

O mais importante é que não teve nenhuma dificuldade em se adaptar à nova vida, a comunidade mericoense facilmente o acolheu com sua tradicional e calorosa simpatia e, passados alguns meses, todos já o consideravam um mericoense; diferente dos demais, mas, um Mericoense.

Passou ele a ocupar o lugar daquela pessoa a quem se podia recorrer diante da necessidade de alguém dotado de um cabedal maior de conhecimentos para tirar certas dúvidas, receber orientações, essas coisas... E assim, o professor rapidamente passou a sentir-se em casa, integrando-se às conversas noturnas na bodega de seu Felizardo com quem estabeleceu fortes laços de amizade.

Era alto, magro usava óculos redondos de tartaruga e mantinha o cabelo impecavelmente penteado graças ao constante uso da brilhantina Zezé. Alguém mal informado poderia achar que andava sempre fardado, devido ao costume de usar calça marrom e camisa branca de mangas curtas, sobre uma camiseta, também branca, sem mangas. Segundo o próprio, isso tinha a ver com uma promessa ao santo da sua devoção, São Francisco. Sempre ensacado, usando o cós um pouco acima do umbigo, constituía um tipo curioso, especialmente quando, empertigado, transitava pelas ruas em sua inseparável e desproporcional Monareta.

Entre os colegas e alunos, fazia questão de deixar claro que, sua formação e postura rígidas jamais lhe permitiriam sair de casa para ficar de conversa nas esquinas ou bodegas. Mesmo assim, era comum encontrá-lo nas bocas de noites envolvido nos acalorados bate-papos na bodega de seu Felizardo. Por isso, certo dia, foi interpelado por um dos seus pares:

- Professor, mas de vez em quando vejo o senhor na bodega proseando...

- É. O nobre colega tem razão. Ocorre que, falta alguma coisa em casa, então vou à venda e, lá chegando, surge uma pergunta daqui, outra dali e jamais me negarei a dar um esclarecimento a esse povo tão bom, mas tão carente de conhecimentos.

Isso era verdade. O professor nunca saía exclusivamente de casa para aquelas conversas.  Mas quase todo dia lhe faltava algo em casa. Coisa boba, como uma caixa de fósforos e, assim, ia à bodega, entrava na conversa e nela permanecia até o fim.

Naquela noite, como sempre, ele chegou, saudou os presentes e dirigiu-se ao balcão para tratar do motivo da sua vinda até ali.

- Seu Felizardo, estão aqui os vinte centavos que fiquei lhe devendo ontem.

O bodegueiro recebeu a moeda, falou que não tinha pressa e perguntou-lhe sobre as novidades. Apertando frequentemente a fivela do cinto com o polegar e indicador, o professor falou algumas amenidades enquanto os presentes se animavam sabendo que teriam novidades naquela noite.  Aquele tique de pegar na fivela denunciava ansiedade, vontade de se fazer ouvir. E assim aconteceu.

- Mas os senhores hão de concordar comigo que mulher é um ser que tira qualquer um do sério...  Falou ainda de pé, fez uma pausa, com um gesto teatral pegou um tamborete, sentou-se e como estendia a pausa com um ar pensativo, seu Felizardo, impaciente, quebrou o silêncio.    

- O professor tem razão. Mas o que houve, mestre?

- Eu perdi a cabeça! Eu perdi a cabeça, meu amigo.

- Pois conte, então, o que aconteceu, homem de Deus!

- Minha esposa, hoje, me tirou, literalmente, do sério.

- Meu Deus! Mas pode contar, está entre amigos...

- Passei a manhã de ontem lecionando no grupo, à tarde no Ginásio e à noite ainda dei aula no MOBRAL. E, como se não bastasse, fiquei até quase de manhã corrigindo provas e trabalhos...

- E há quem ache que vida de professor é fácil... Né não?

- Gente ignorante e sem cultura pensa assim.

- Mas, continue, homem!

- Adormeci, exausto. Não havia dormido nem duas horas quando a mulher me acordou e disse: “ Minondas” – É assim que ela me chama.

Os presentes fizeram esforço para conter o riso, ele deu uma breve pausa e continuou.

- Ela disse: “Minondas, compre uma estante colonial  aqui pra casa!” Pedi que me deixasse dormir, mas, acreditem, não se passaram 15 minutos e ela voltou a me acordar: “Minondas, compre! É tão bonita e cabe tanta coisa... Compre, homem!”.  Aquilo começou a me irritar, fiquei a ponto de fazer uma besteira, mas pedindo pelo amor de Deus que me deixasse dormir, voltei a adormecer.

- Aí, ela lhe deixou em paz...

- Que nada, meu amigo! Passados alguns minutos, ela me sacudindo pelo ombro disse: “Minondas, vende a prestação!”...

- Com todo respeito, professor... Mas a sua mulher é muito é da teimosa!

- Os senhores sabem como é que é... Aquilo me fez subir um calor, me deu uma raiva incontrolada, mais do que raiva, um ódio! Um ódio daqueles que leva o sujeito a fazer uma besteira da qual vai se arrepender pelo resto da vida...

- Mas o senhor não fez nada, não é professor?

- Não! Até aquele momento, não! A duras penas me controlei e implorei quase chorando que me deixasse descansar, que aquela sua insistência ia me deixar louco.

- Ufa, professor! Pensei que o senhor tinha perdido a cabeça!

- Eu também! Ainda bem que o senhor se controlou.

- Aí é que os amigos se enganam. Não eram nem seis horas da manhã, ela me sacudiu violentamente e, dessa vez, nem pediu, exigiu: “Minondas, eu quero uma estante colonial e pronto!”

- Mas como pode, professor?

- Pois é! E os amigos não imaginam o jeito autoritário como falou. Só faltou mesmo me arrancar pela orelha de cima da cama para ir comprar a tal estante colonial.

- O senhor vai me desculpar de novo, mas estou achando essa sua mulher uma desalmada.

- Eu também, seu Felizardo. Ainda bem que o professor é um homem paciente e controlado. Já imaginou se fosse um ignorante? Tinha lhe dado uns corretivos.

- Mas paciência e controle têm limites, meus nobres amigos. Naquele momento eu não consegui nem falar. Subiu um fogo para as orelhas, deu aquele nó na garganta... Eu estava me tremendo de tanta raiva... Confesso, meus amigos, eu perdi o controle!

- Professor, pelo amor de Deus...

- Eu sou humano, meus amigos. Eu não sou de ferro. E hoje pela manhã, confesso: cheguei ao meu limite.

- Homem de Deus... O que o senhor fez, por caridade?

- Olhei bem assim, na cara dela, para ela sentir meus olhos faiscando. E ela sentiu. Sentiu tanto que moderou a voz e apenas repetiu... “Ôôôôôô, Minondas...”. Mas aí já era tarde...

- E aí, professor... Mas o que fez afinal?

- Sem falar nada, pulei da cama e agi tão rápido que, em cinco minutos, já estava aqui na praça.

- E ela, amigo, como ficou?

- Não sei.

- Mas o que fez com sua mulher, homem de Deus?!

- Acho que fiz, o que qualquer homem de cabeça quente faria!

Um clima de tensão se instalou naquele momento e seu Felizardo,  preocupado com o rumo da conversa, aproximou-se do amigo e, colocando a mão em seu ombro num sinal de apoio, falou-lhe, deixando transparecer toda a estima que lhe tinha.

- Seja lá o que tenha feito, o senhor está entre amigos. Pode falar, professor. O que fez?

- Entrei no misto que vai para a feira de Cuité e comprei, na Sertaneja, em 10 pagamentos sem entrada, a tal estante colonial.

Os amigos se entreolharam. Um suspirou aliviado, outro esboçou um sorriso e, meneando a cabeça, seu Felizardo acordou para o fato de que, aquela tinha sido, apenas, mais uma das narrativas do professor Epaminondas, cujos desfechos eram sempre imprevisíveis.

Aldenir Dantas


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