CHICO BOI FUBÁ, O VALENTÃO DE MERICÓ
Postado em26 Apr 2014 21 59 HISTORIAS DE MERICO



Apelido em cidade pequena é algo muito comum, motivo de graça, intriga e até morte. Em Mericó, somando-se estes às corruptelas como: Tino, de Severino; Tião, de Sebastiao; Tico ou Chico, de Francisco, poucas eram as pessoas conhecidas pelo verdadeiro nome. Era este o caso de Francisco Francelino de Oliveira, codinome Chico de Ó, conhecido marchante da região, famoso pela sua brabeza.


Com pouco mais de quarenta anos, Chico era um típico sarará de cabelos aloirados puxando para o vermelho, entroncado e parrudo capaz de derrubar um touro com um soco.

No passado fora jovem arruaceiro. Acabara muitos forrós rasgando sanfonas à faca e fazendo o povo correr na jurema no meio da noite. Nas suas arruaças, além de manejar como ninguém a faca peixeira, girava no ar e jogava pernadas que chegavam a derrubar três de uma vez. Nos enfrentamentos com a lei, batia-se um bom tempo com os policiais, até ser dominado.

Casado, com vários filhos e cuidando da matança herdada do pai, Chico aquietou-se. Contudo, continuava não levando desaforo pra casa e se, em meio a um desentendimento, suas orelhas começassem a ficar vermelhas, o mais sensato era sair de perto porque a coisa poderia ficar feia.

Nos últimos tempos andava fazendo muito barulho, mas por causa de futebol. Não havia uma noite que não estivesse no bar de Zé Inácio peruando um jogo de sinuca e dando verdadeiras aulas sobre o esporte da sua paixão.

Sabia de tudo, pois, só se apartava do seu Motorádio na hora de dormir. Contumaz apostador na Loteria Esportiva Federal, acompanhava todos os jogos, sendo assíduo ouvinte das rádios Sociedade da Bahia; Poti, de Natal; Brejuí de Currais Novos e Clube de Pernambuco.

Como não aceitava de bom grado opiniões contrárias, era comum vê-lo andando em círculos, falando alto e gesticulando freneticamente nas conversas noturnas, sempre, sobre futebol. 

Tinha, contudo, um ponto fraco, respeitado por todos. O último a desrespeitá-lo, havia anos, foi parar no hospital com um risco de faca na barriga que, por pouco, não pôs à mostra os intestinos. E este era o seu calcanhar de Aquiles: a alcunha de Chico Boi Fubá trazida desde menino, devido a sua cor.

Nos poucos anos em que esteve na escola, a menção a este apelido era motivo de violentas reações. Com a idade adulta a situação agravou-se e, após o incidente da facada, não restaram dúvidas: ninguém, no seu senso normal, se atreveria a chamá-lo assim. Muitos costumavam rir nas suas custas, mas, nunca em sua presença. E foi isso que o galhofeiro Zé de Tica entrou fazendo na bodega de seu Felizardo, naquela noite.

- Eita, que Chico Boi Fubá hoje tá cá mulinga!

- Rapaz, tu num diz isso, qui o homi pode aparecê aqui. Um só tabefe daquele braço de mão de pilão te manda pro hospital.

- Nada seu Felizardo, o Boi véi tá lá no bar: pulano num pé só, rodano feito um piru e vemei qui só um camarão de tanto falá em futebó!

- Tá, eu dava dez conto de réis pro caba chega lá e, no meio da conversa, chamá-lo de Boi Fubá.

- Seu Mané Vicente, o sinhô num ofereça uma coisa dessa não, qui o coisa ruim me carregue se eu num topá!

- Tá doido, Zé! O home te mata. E Mané num vai fazê uma bestêra dessas, não!

- Ora se num faço, seu Felizardo! E já tá é feito! Olhe aqui a notinha. É só tê corage!

-  Apois, bote o dinheiro na mão do bodegueiro e vamo lá!

Os demais presentes na bodega, ouvindo a conversa, acharam aquilo uma loucura. Um magricela daquele, desafiar um homem que só não matou um bocado por falta de oportunidade. Ainda tentarem dissuadir os apostadores, mas estes, irredutíveis, levaram adiante aquela insanidade. E não havendo nada mais a fazer, foram todos para o bar, ver no que ia dar aquela maluquice. Até seu Felizardo fechou a bodega mais cedo e acompanhou os demais.

Lá chegando, acomodaram-se nos bancos em torno da mesa de bilhar e passaram a acompanhar o jogo enquanto Chico de Ó discutia calorosamente com o dono do bar e o Professor Epaminondas. Era janeiro de 1970 e o assunto não poderia ser outro, senão, a seleção brasileira que se preparava para o mundial.

Zé de Tica nem quis usar um tempinho para se preparar. Tratou logo de encarar o desafio, aproximando-se da fera, tocando-lhe o ombro e falando alto para fazer-se ouvir pelos demais.

- Ou, seu CBF, e o sinhô acha qui esse time aí leva mermo a taça?

Chico interrompeu bruscamente a conversa e foi virando-se devagar para encarar o interlocutor enquanto alguns presentes, de olhos arregalados, fitavam os dois; os jogadores, evitando fazer barulho, abandonaram a mesa da sinuca e foram guardar os tacos; Zé Inácio, de um pulo, se viu a salvo do lado de dentro do balcão e Zé da Onça, famoso pela seu excesso de medo, esgueirou-se pelo canto da parede e foi embora.

Mirando, ora Zé de Tica, ora uma barra de ferro de fechar a porta, encostada na parede, Chico, afastava-se lentamente, de lado, em direção ao ferro.

- O qui foi mermo qui tu disse, minino? – Falou tremendo-se de ódio e com o rosto vermelho prestes a explodir em fúria.

- Eu disse CBF, seu Chico! E qui cara é essa, home? – Respondeu fingindo tranquilidade e olhando de soslaio procurando assegurar uma rota de fuga.

 - Tú deve ter andado cumeno xinica de cachorro doido, pra me fazê uma desfeita dessa... Sabia qui por menos eu quase botei o fato dum caba safado no chão? – Falava quase rosnando de raiva e aproximando-se mais e mais da barra de ferro.

- Home, vamo acabá com essa bestêra! Parem com isso e vamo simbora que já é tarde. – Falou seu Felizardo tentando colocar-se entre os dois para apaziguar os ânimos.

- Não, seu Felizardo. Acho qui seu Chico de Ó num entendeu o qui eu disse. Aqui num tem porque a gente se estranhá, não!

- Apois você trate logo de desembuchá, senão vou entortar esse ferro só com as bordoada que vou dá no seu lombo, caba muleque! – Falou, já de posse da barra de ferro.

Alguns presentes se aproximaram para, caso Chico fizesse menção de agredir o jovem, tentar segurá-lo por trás.

- Pois se acalme, home. Eu tô até é lhe elogiando! E o sinhô cum essa cara! – Disse e, aproveitando-se para afastar-se da ameaça, dirigiu-se ao dono do bar – Zé de Inácio, me diga: quem mais entende de futebó no Brasil?

- Só pode ser Zagalo, o treinador da nossa seleção canarinho. – Respondeu, procurando recompor-se do medo.

- Tá errado, Zé de Inácio. – Fez uma breve pausa e dirigiu-se ao Professor Epaminondas. - Professor, o sinhô, que é um homi de estudo, me diga: Quem é que entende tanto de futebó no Brasil, que escolhe o treinador da seleção e bota ele pra fora se não trabalhar direito?

- Sem sombras de dúvidas, a autoridade máxima nesta modalidade desportiva é a Confederação Brasileira de Futebol.

- Pois é, disse quase tudo. Mas é assim qui o povo chama por aí,  C o n f e d e r a ç ã o,  esse nomão complicado? – Dirigiu a pergunta aos demais presentes.

- É a CBF. – Respondeu, primeiramente, seu Felizardo, seguido dos demais.

- Tá veno, seu Chico de Ó! Eu lhe chamo de CBF porque, pelo que escuto das suas conversa, o sinhô entende mais de futebó do que o tal Zagalo. Tem jogadô na seleção qui o sinhô não butava, e com razão! Tem posição de jogadô qui o sinhô trocava, e com toda razão! Aí eu pergunto de novo: Quem? Quem, seu Chico de Ó, entende mais de futebó no Brasil do que o treinador da seleção?

- Num é que esse muleque tá é certo! É a CBF. – Falou, após pensar um pouco. Em seguida, atirou a barra de ferro no canto da parede e, trocando a fúria por um repentino contentamento, dirigiu-se a todos. – Bora tomar uma rodada de Caranguejo com tripa assada! E essa é por minha conta!

- Eita que esse CBF, é sabido quinem o cão! – Falou Zé de Tica, batendo-lhe nas costas enquanto saboreava uma suculenta tripa de porco frita.

- E num é quereno me pabular, não! Mas, futebó, é comigo mermo!

O susto transformou-se em diversão, mas, devido ao uso da sigla e os consequentes questionamentos de Manoel Vicente, seu Felizardo decidiu que Zé de Tica só teria direito a cinquenta por cento do valor apostado.

Nos dias seguintes, vez por outra, alguém experimentava o prazer de chamar Chico pelo apelido, recorrendo à sigla.  Mas com a conquista da copa naquele ano, alguém chamá-lo de CBF passou a ser para ele motivo de orgulho. Tinha sabor de vitória. Contudo, Chico Boi Fubá continuou cheirando a morte.


Aldenir Dantas

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Enrique
24 Aug 2014 13 49
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Aldenir Dantas
27 Apr 2014 04 09
Obrigado, meu caro Jomar, pelo espaço e pelo incentivo. De fato, orgulho é uma palavra que não soa bem, mas não encontro outra para definir o meu sentimento em fazer parte deste grupo tão especial de cooperadores e leitores, sob a batuta de Jomar Morais.
Jomar Morais
27 Apr 2014 03 16
Poeta, esse conto é antológico. Aliás, como a maioria dos que chegam de Mericó via sua inspiração. Não gosto dessa expressão, mas lá vai: o Planeta Jota se orgulha.
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