UMA HISTÓRIA DE AMOR À PRIMEIRA VISTA
Postado em10 May 2014 21 14 HISTORIAS DE MERICO



Naqueles tempos, a vida de agricultor nos grotões e pés de serra de Mericó constituía penosa prova de sobrevivência. Mas para quem trabalhava com agave, arrancar toco, brocar e limpar mato eram serviços leves.

Distantes de suas casas, homens cobertos de suor e poeira empurravam o pesado motor de sítio em sítio, ladeira acima, ladeira abaixo, num arriscado e doloroso cortejo. Instalada a máquina, vinha o labor em meio à jurema, espinheiros, cobras e barrancos; o sumo da planta provocando comichão e o constante risco de ter um dedo cortado nas afiadas foices, ou uma mão decepada pelas pesadas e aterrorizantes lâminas do motor.

A comida era preparada a céu aberto em trempes de pedras e a dormida improvisada em armazéns ou casas abandonadas. Ao fim do dia lavava-se o rosto, os braços e os pés, ficando o banho para o fim de semana. O ganho, na produção, mal dava para o básico: feijão, farinha, rapadura, açúcar, café e uma barra de sabão. Quando sobrava é que se comprava a mistura: cabeça, costelas ou miúdos bovinos salgados para cozinhar junto com o feijão.

Contudo, naqueles dias, havia coisas piores: a doença, a seca e a fome. E foi nestas condições que Abdias chegou à Grota dos Puítas, onde um dos motores de Zé de Maria desfibrava agave: fugitivo da seca, sofrendo fome, sede e doente.

O motor parado indicava a hora do almoço. Os trabalhadores sentados sobre feixes de agave ou pedras só tinham olhos para o prato de feijão cozido com miúdos. Depois, tinha um prato de caldo com farinha e um pedaço de rapadura para tomar água.

Nascimento, ainda pesaroso com a perda da mulher que morrera de parto há poucos meses, afastara-se dos demais e, à sombra de um pereiro, comia vagarosamente, quando saiu de vereda próxima e achegou-se dele uma figura desconhecida, alta, magra e pálida, com um chapéu de nylon amarrotado e um velho bisaco de couro a tiracolo.

- Bom dia, cumpade! – Falou o homem, meio desajeitado, coçando o vasto bigode.  

- Bom dia, cumpade! – Se achegue. Mas qual é a sua graça e o qui faz por essas banda? Aqui só vem quem tem negóço. Mas, se assente. – Falou apontando um amontoado de cordas.

- Cumpade, eu me chamo Abdia e vim de longe. Prá lá de Picuí. – Falou, fez breve pausa, sentou-se e continuou. - Essa seca danada acabou cuns bichim qui a gente tinha e quando a disgraça vem nunca vem só, o véi meu pai pegou uma bixiga braba e, já fraquim, num guentou. Aí eu fiquei só, sem nada, morando em terra dos outro. Fiquei mei perdido, num sabe? Assim feito bicho disgarrado. Então, resolvi saí por aí, por esse mundão, trabaiano um dia aqui, outro acolá...

- Mas, e o cumpade vai ficá assim a vida toda, sem rumo, feito judeu errante?

- Faço prano de chegá na capitá. Dizem qui lá aparece sirviço pesado prá quem num sabe lê. Ou, então, vou pegá um pau de arara pro Sul.

- Já cumeu hoje, homi? Tá amarelo. É de fome, ou de doença?

- Cumpade, eu num tem vergonha de dizê: nem cumí hoje, nem onte e tô c’uma sede danada. E se o amigo num simportar quiria me encostá um pouco por aqui. Vou atrapaiá vocês, não. É só o tempo de passá umas dor nos osso prá pudê ir mimbora.

Mesmo conhecendo a generosidade dos colegas, Nascimento não se sentiu à vontade para subtrair da minguada e concorrida panela um prato de comida para o recém-chegado. Como não havia comido nem metade do seu, deu-lhe o resto da sua comida e dividiu com este o caldo e a rapadura. Por fim, deu-lhe uma caneca d’água e deixou que descansasse ali mesmo.   

- Um pobe coitado, minha gente. Vem da Paraíba a pé, passando fome por esses mei de mundo. Deixa discansá aí, pra seguí seu rumo. – Explicou aos colegas que, acenando com a cabeça, aprovaram o que fizera Nascimento.

- E agora vamo trabaiá, cabroeira! Que a produção ta baixa e o feijão ta caro!

Pelo resto do dia, nas pausas que fizera para tomar água, Nascimento levou água para o forasteiro que, no fim da tarde, febril, começara delirar e chamá-lo de pai. Mas na hora de retornar à velha casa transformada em alojamento, surgiu um dilema: Não podia abandonar aquele coitado ali, nem colocá-lo doente junto com os outros, naquele espaço apertado. Dispensou os demais e, saindo em busca de uma solução, encontrou próximo um velho rancho onde se guardava ração. Improvisou ali um abrigo e, com esforço, conduziu o doente para lá.  Com sacos, lonas e folhas preparou um local para dormir; conseguiu com vizinhos alguns remédios e à boquinha da noite, enquanto fumava em sua rede curva e baixa, devido à pequenez do espaço, Abdias acordou.

- Eita, que eu tive ruim de mais, homi! Cuma vou lhe pagá isso qui fez comigo, cumpade?

- Mais ora, qui pagá qui nada, homi! Cumpade é pressas coisa.

- Mas a gente num é nem cumpade!

- E se num é, porque o amigo me chama de cumpade?

- Sei lá, homi! Só sei qui quando vi o amigo, deu vontade de chamá-lo de cumpade, aí chamei.

Revigorado com chás e antitérmicos, Abdias levantou-se e, embrulhado num pedaço de lona, saiu para o minúsculo terreiro do rancho, olhou a lua que surgia de trás de um serrote ofuscando as estrelas e, enchendo os pulmões daquele ar enluarado, sentou-se à frente do rancho encostando-se numa velha cangalha. Cochilava, quando o amigo chegou com duas xícaras de café. Deu-lhe uma, sentou-se ao seu lado e começaram a sorver lenta e silenciosamente a bebida, olhando o derredor.

- Cumpade, vendo essas coisa bonita, do Pai Eterno, só me lembro do véi meu pai. Num lembro da minha mãe, não. Morreu eu era pixitotim.  Mas o véi me criou diretim, sabe? Eu era menino, mas lembro qui nessas noite assim, ele butava um tamborete na porta de casa, me escanchava na perna e contava a história de São Jorge, da Mãe da Lua e até cantava umas moda.  – Falou, fez uma longa pausa e continuou – Depois de cricido, a gente butava dois tamborete: um pra eu, outro pra ele. Aí a gente falava do tempo, das chuva, das proficia, dessas coisa toda da vida... E ele sempre acreditano que as coisas iam miorá, qui ia tê fartura, qui a vida ia ficá boa... Ele até sonhava im comprá um cavalo pra nóis ir pra feira... – Falou, fez longa pausa, interrompida por Nascimento.  

- É cumpade. Vá lá entendê as coisa do Criadô.. A gente luta que só um condenado, e nada! Mas cuma a gente é pecadô, só tem é qui aceitá, porque ele sabe o qui ta fazeno... Nóis é qui num sabe de nada.

- É, eu num reclamo de nada não, cumpade. Eu num tem nada na vida, mas tem a vida e qué coisa mais importante do qui a vida? Pois é, cumpade. Nóis tem a coisa mais cara do mundo. Mais cara até do que uma mina de ouro, qui é a vida. – Falou, tirou do bolso um pacote com fumo e papéis de seda, enrolou dois cigarros, deu um para o amigo e por alguns minutos ficaram os dois, em silêncio, jogando baforadas de fumaça no ar e observando as estrelas abrindo caminho para a lua passar.

- Sabe, cumpade... Olhano esse mundão bunito, essas estrela piscando e essa lua, chega a me dá um nó aqui no peito... É queu pensava qui ia sê assim comigo, num sabe? Nessas noite assim, eu ia sentá cum a mulé na porta de casa, ficá proseano, veno os minino corrê no terreiro e depois butá eles na perna pra brincá de cavalo, assim, cuma seu véio pai fazia...

- E o cumpade qué dizê o que sucedeu?

- Nosso Sinhô levou os dois. Faz cinco mês. Só acho qui foi pra eles num sofrer o qui a gente sofre nesse sertãozão de Deus.

- Eita, cumpade... Qui vida! É sol, é seca, é fome e ainda tem essas firida no peito qui estrupia o cidadão... No fim das conta, só resta a vida lutano feito o cão (que Deus me perdoe) pra continuá viva... Senão, morre, e deixa de sê vida! Né? – Fez nova pausa, deu uma boa baforada de fumaça no ar e, virando-se para o amigo, disse: - Mas me diga, qui outra coisa boa o Pai do Céu deu a gente, qui vive rastejando nessa terra quente feito lagatixa, além da vida? Tem outra coisa, cumpade? Acho qui num tem não!

- Sei não, cumpade. Num sei, mermo. – Falou, levantou-se e convidou o outro a entrar. – Vamo se deitá, homi. Amanhã tem trabai e você deve ficá por aqui até ficá bom.

- Prá falá a verdade, cumpade, eu vim no rumo daquele motô pra vê se consiguia uns dia de sirviço, antes de seguí viage... Mas do jeito qui cheguei lá, nem tinha como pidí. – Falou, tentou levantar-se, mas teve dificuldades e foi amparado e conduzido pelo outro à cama improvisada.

- Agora tome esse remédio qui uma vizinha mandou. É bom pro seu caso. – Falou, entregou-lhe uma quenga de coco com chá e deitou-se à rede.

A luz da luz, varando as ripas da porta, os Iluminava na espera pelo sono, quando Abdias, em tom descontraído, perguntou:

- Se eu lhe perguntá uma coisa, será qui o amigo num vai dá brabo comigo?

- Qui diacho é, homi? Pergunte!

- Então, me diga, você pagou ou num pagou, amigo Nacimento?

- Mas num é qui o caba ta é delirano de novo! Paguei o que homi?

- O rabo do Jumento!!!

- Homi, vai durmí qui teu má é sono! Mas só me fartava essa...

Não obstante as dificuldades, os dois ainda conseguiram sorrir antes de adormecer, transportando para os possíveis sonhos um pouco de leveza.

Não demorou muito para se perceber que a estadia prevista para horas levaria dias. Abdias estava com varíola e Nascimento viu-se obrigado a manter-se ao seu lado. Ficou em estado lastimável, irreconhecível, com o corpo tomado pela doença. Tão grave era a situação que ficou vários dias despido, envolto em folhas de bananeira. O amigo umedecia-lhe o corpo com chá de camomila e água de goma para aliviar os incômodos e, devido às bolhas que lhe invadiram a boca, alimentava-o com líquidos através de um canudo de folha de mamoeiro. Afora isso, só restava esperar. 

Passados os momentos cruciais, à boca da noite os dois conversavam longamente, sem pressa, desenterrando lembranças da infância, refletindo sobre coisas da vida, contando causos, falando de moças bonitas. Conversavam livremente, como quem pensa em voz alta.

- Cumpade, tu num sabe nem quem sou direito. E seu fosse um criminoso fugido, um ladrão, ou um marfazejo? – Perguntou certa noite, Abdias.

- Mas tu num já disse quem é, homi? E depois, se fosse um criminoso ia matá quem aqui? E pra que? E se fosse um ladrão, qui diacho tu ia robar desses pobe coitado daqui?

- É mermo, cumpade... Mas num sou não! – Fez a costumeira pausa e continuou: - Daqui uns três dia já aguento sirviço. Se o amigo me arranjar uma vaga pra cambitá agave, quero trabaiá pra pagá esse tempão que dei de prejuízo aqui.

- Do jeito qui tais fraco quiném uma galinha choca, se butá um feixe de agave na cabeça, cai na merma hora! Mas vou falá cum patrão pro amigo entrá no corte, qui é mais manero.

Integrando-se aos demais trabalhadores, Abdias mudou-se para o armazém e, quase todas as noites, enquanto os demais faziam um quarto de hora no relancim, os dois, sentados nos batentes da velha casa, proseavam como dois velhos amigos.

Recebido o primeiro pagamento, Abdias dobrou algumas cédulas e, colocando-as no bolso da camisa do amigo, disse:

- Essa é a primeira paga, cumpade. Ainda tem mais. Si bem qui o qui o amigo fez cumigo num tem dinheiro qui pague.

- Isso é cunversa, rapaz! Taqui seu dinheiro, homi. Quero nada seu, não. Ajunte pra sua viage. O qui fiz pelo amigo, qualqué um fazia. E depois, tu é meu cumpade. Ou num é? – Falou, apoiando a mão no ombro do amigo e devolvendo-lhe o dinheiro.

- É, o amigo é meu cumpade, sim! E cumpade dos bom. Mas Deus tem mais e é quem vai lhe pagá. Se num fosse o amigo, acho qui tava era morto agora... – Concluiu a frase de cabeça baixa, escondendo a emoção que lhe trazia um brilho excessivo aos olhos.

- Qui nada, cumpade Abdia. Gente é bicho duro de morrer!

Passados três meses, o motor mudara de lugar várias vezes, Abdias e Nascimento andaram pela feira, olharam para as moças, foram a cantorias no Hotel de Dona Moça e tiveram tempo à vontade para boas conversas, muitas vezes, como diziam os próprios, sem pé e sem cabeça.

Enfim, chegou o dia de tomar o pau-de-arara para Goiás. Era um domingo. Cena triste: dezenas de homens engaiolando-se num caminhão, enquanto mães, mulheres, filhos e noivas assistiam entre lágrimas aquela partida cheia de incertezas. Ainda havia os candidatos à viagem rondando o carro, de matulão nas costas, a espera de uma vaga de última hora para embarcar.

Ao lado do amigo, Abdias esperava calado o fim do tumulto para subir a bordo. Quisera muito ganhar o mundo. Agora que estava ali, não tinha mais tanta convicção. Percebendo a mudança no comportamento do amigo, ponderou Nascimento:

- Homi, tu num pricisa saí daqui vendido, não! Num tem muié, num tem minino... Pode ficá aqui, trabaiano no motô enquanto chove e aparece coisa mió.

- Tem uma coisinha roeno aqui dento, cumpade. É quiria ir purque num tinha nada nem ninguém nesse mundo, só mermo a vida, sabe? – Fez uma pausa, pigarreou e continuou – Sebe, onte de noite, dormino naquela redona branca na casa dos seus pai, qui são gente boa de mais, me lembrei duma pergunta qui fiz ao amigo e tu num subesse respondê:

- Lembro disso, não. Qui pergunta?

- Eu perguntei: “Me diga se existe outra coisa tão boa qui o Pai do Céu deu a gente, qui vive rastejando nessa terra quente feito lagatixa, além da vida?” Se lembra o qui tu me respondeu?

- Lembro. E é o meu qui vou responder agora de novo: Sei não, cumpade. Num sei, mermo.

- Apois eu sei. – Falou com convicção, chamando a atenção do outro.

- Apois diz logo, homi! Qui negócio bom danado é esse qui eu ainda num sei? – Falou com um gracejo.

- Os amigo, cumpade. Os amigo. – Falou e abaixou para conter a emoção.

Fez-se uma longa pausa, os últimos passageiros se acomodavam nos bancos do pau de arara e Nascimento, sentindo-se meio atordoado, colocou-se lado a lado de Abdias e, pondo a mão direita sobre o seu ombro esquerdo, falou:

- Tem toda razão, meu cumpade véi! – Permaneceu calado e cabisbaixo por algum tempo e retomando subitamente sua costumeira disposição disse: – Apois deixe esse diacho de Sul prá lá, homi e fique por aqui cum a gente!

Após pensar por um bom tempo, Abdias, sorrindo para o amigo, respondeu:

- Fico, mas tem condição: Vamo dá umas farriada por aí, homi! A gente num tem nem trinta ano e parece um véi, amofumbado, trabaiano no mei dum bucado de macho, sem nem olhá pras moça bunita!

- É mermo, cumpade. Você tem razão!

- E tem mais!

- Mais o quê, homi? Tais achano pouco, é?

- Você é meu cumpade, é meu amigo e vai sê meu irmãozim, tie dos meus minino... Tá certo?

- Tá certo de mais, homi! – Falou tomado por repentina alegria e gritou para um dos candidatos à vaga no Pau de arara: - Chico Caboré, sobe no carro qui Abdia disistiu! – Falou e voltando-se para o amigo, bateu com força em suas costas empurrando-o em direção ao caminho de casa.

– Eita qui o véi meu pai vai gostá de mais de tu num ter ido, homi! E a minha mãe também!

- Diacho é isso, cumpade Nacimento? Agora me deu foi um nó na goela e uma vontade danada de chorá...

- Homi, vamo ali tomá uma lapada de brejeira cum limão, qui isso passa.



Para abrir a janela de comentarios, clique sobre o titulo do texto ou sobre o link de um comentario:
Raynes
26 Aug 2014 22 09
Weeeee, what a quick and easy sotuniol.
Ranessa
26 Aug 2014 10 38
Taking the ovewvier, this post is first class
Bento
24 Aug 2014 09 15
 ( 2012.02.11 08:02 ) : This feeder works great as long as you foollw the directions and complete ALL the steps for setting it up. After programming the current time, you set the times you want them to eat, THEN go back to those times and select 1 rotation or 2, depending on how much you want them to have. The default is 0, so that's why it didn't work for me at first. Now that I have it programmed correctly it works great, right on schedule. The mounting bracket did not fit on the edge of my tank and it comes with double sided tape just in case that happens. But, I wanted to be able to easily take it down to refill/reprogram/change the batteries, so I used Velcro instead of the tape. The Velcro works great but the unit does lean a little to the side. I put a quarter under that side and it's level again. Be sure to save the directions for when you want to reprogram, because it can be a little confusing without them.
Deixe um comentario
Seu nome
Comentarios