O CASAMENTO DO FILHO DE JOÃO CAPITÃO
Postado em24 May 2014 20 59 HISTORIAS DE MERICO



Ilustração José Luis de Oliveira


Há quem acredite ser o contador de histórias livre para embrenhar-se em todos os lugares e vasculhar os sentimentos mais íntimos dos seus personagens. Mero engano. Um dos nossos autores oitocentistas, cujo nome perdi nas gavetas da memória, afirmou  não lhe ser permitido, enquanto narrador, entrar no quarto das moças.

Quem não gostaria de conhecer as verdades que se acham escondidas no cerne do pensamento alheio? Acredito que muitos pagariam vultosa soma por esta faculdade, mas, como poderão ver nesta história, até na ficção somos privados de saber todas as coisas.

O filho de João Capitão era um desses play boys que, ao exibicionismo e ao desrespeito associa a condição de filho de fazendeiro, formado em meio ao autoritarismo do patriarcado nordestino com raízes nas práticas medievais.

Em Mericó não havia ninguém rico. Contudo, João Capitão, vindo do interior da Bahia, pelas várias propriedades que comprara com campos de agave, plantação de mandioca, casa de farinha e gado, era considerado como tal. Seu único filho, de vinte e poucos anos, abandonara os estudos para juntar-se ao pai na lida do campo. Desde, então, sua rotina era andar de sítio em sítio, fiscalizando e importunando a vida dos trabalhadores.

Afora isso, estava na cidade, exibindo-se, falando alto, contando vantagens, endeusando o paím e comprando com rodadas de cachaça aplausos para as suas façanhas. Tinha boa aparência, andava sempre bem vestido e era metido a valentão. Ocupava o sonho de muitas moças e o pesadelo de algumas cujas vidas foram afetiva e socialmente destroçadas pela sua leviandade.
 
Não era fácil compreender aquelas jovens. Até parecia que, quanto mais o sujeito tinha fama de mulherengo e leviano, mais se sentiam atraídas por ele. Era o caso do filho de João Capitão: quanto mais aprontava, mais moças suspiravam à sua passagem. Até parecia coisa genética: o pai, assumidamente polígamo, mantinha uma mulher em cada sítio e, exceto a esposa, todas eram moças dali.

Após vários envolvimentos, o filho de João Capitão se engraçou de Fiinha que, prontamente, o descartou. Para a maioria das pessoas, sendo ela a jovem mais bonita da cidade, além de detentora de uma boa educação, era natural que encontrasse um bom casamento com o filho de um prefeito, ou de um rico fazendeiro. Seu pai não pactuava com essa idéia, mas, as irmãs, casadas, com vários filhos e sofrendo privações, passaram a pressioná-la para não perder aquela chance de um bom casamento.   

Fiinha era a caçula das cinco filhas de Severino Tropeiro. Além de muito bonita, aos dezenove anos já lecionava Língua Portuguesa no ginásio. Sempre rodeada de pretendentes, nunca se envolveu com ninguém. Contudo, pela simpatia e cordialidade, não era censurada por isso. O contrário ocorria com outras moças, sobre as quais, por não se envolverem com jovens locais diziam que “só queriam ser as pregas de quelé”.

De talhe delicado, tez branca e cabelos negros ondulados, sua voz suave por pouco não punha a dormir e sonhar com anjos os seus alunos. Seus gestos meigos e seu jeito de vestir-se eram naturalmente elegantes sem jamais fugir à simplicidade. Enfim, era uma dessas moças que, para descrevê-la com inteireza na nívea aura que parecia envolvê-la, era necessária a habilidade de um autor ultra romântico, que estou longe de ter.

No intuito de conquistar a sua pretendida, o filho de João Capitão, aos poucos foi se aproximando desta, através das amigas e, após longo percurso, no qual demonstrou suas reais qualidades (todos as tem) e se confessou cansado da vida que levava, recebeu um voto de confiança e, sob o aplauso da sociedade e das irmãs, teve o privilégio de ser o seu primeiro namorado. 

Vez por outra, ameaçava soltar o touro indomado que fora, mas bastava um olhar de Fiinha para aquietá-lo. O passar do tempo e as pressões externas fizeram-na acostumar-se à ideia do casamento e, quando oscilava nesta certeza, faltava pouco para ser trucidada pelas irmãs e amigas. Enfim, vencendo a resistência da amada e conquistando o apoio da família, o filho de João Capitão a levou aos pés do padre Sócrates.

Padre Socra, como era chamado, era um jovem de ideais franciscanos que, contrariando as expectativas dos pais de vê-lo doutor, escolheu o sacerdócio, encantado pelo Cristo, pelos jovens e pela possibilidade de vir a ser sal para a terra.

Recusando a vida fausta, apenas, aceitou como presente de ordenação, um fusca azul celeste, com o qual desbrava sertões atendendo suas paróquias. Viera para Mericó substituir o Padre João, impossibilitado do exercício do sacerdócio pela avançada idade e saúde precária.

A reação inicial dos fiéis ao novo pároco não foi das melhores. Reclamavam da sua pouca idade e por vestir a batina, apenas, nas celebrações. O resto do tempo usava calças US Top, camisa branca e sandálias de couro. Mas sua relação de amorosidade, especialmente, para com os necessitados, idosos, humildes e enfermos, pôs por terra as resistências. Seu fusca azul parecia caído do céu, pelos tanto que servia à comunidade.

Sua presença na vida daquelas pessoas simples, visitando-as e levando-lhes palavras de conforto, em pouco tempo criaram fortes laços com o povo. Entre os jovens, estas relações foram ainda mais estreitas, por estes passaram a se ver na igreja e nela encontraram, além de um guia espiritual, um amigo.

Na igreja, a apatia do pai da noiva destoava da expectativa dos demais. A mãe, em silêncio, encharcava um lenço de lágrimas e as irmãs só faltavam pular e gritar de contentamento. João Capitão, na outra fila de bancos, não demonstrava sentimento algum, talvez, por ver naquela união um flash back da sua história. Ao lado, a esposa, como sempre, calada, submissa, atenta aos gestos e possíveis comandos do marido.

Se, naturalmente, Fiinha parecia uma figura angelical vestida de noiva sua beleza tornara-se algo comovente. Cumpridos os ritos iniciais da cerimônia, o padre fez breve pausa, respirou fundo como se buscasse forças extras e, enfim, dirigiu-se à noiva que, mantinha os olhos tristes e úmidos fixos nele.      

- Sofia, o verdadeiro amor é emanação do Criador. Encontra guarida nos corações puros e não está condicionado à juventude nem à beleza física que sucumbem à prova do tempo. Também não está condicionado aos bens materiais que a ferrugem e a traça destroem, nem às convenções e interesses mesquinhos dos homens que mudam ao sabor dos ventos. O verdadeiro amor, Sofia, é sublime sentimento entre almas. É cimento com o qual se constrói a imorredoura família universal, cujo pai é Deus. Nasce de divina fonte e jorra através dos corações, pela eternidade. Tudo passa, Sofia. Tudo passa. Somente o verdadeiro amor permanece. Por isso eu te pergunto, Sofia: é de livre e espontânea vontade que te unes a este homem como teu legítimo esposo, e é movida por esta divina chama que o fazes?

A resposta não veio de imediato, como se esperava. Os olhos da jovem, ensopados de lágrimas e ainda fixos no padre adquiriram ares de súplica e após alguns segundos de silêncio que lhe pareceram uma eternidade, reagiu, voltando-se rapidamente para o noivo e falando com a voz entrecortada.   

- Me perdoe, mas você que sempre foi tão bom para mim e para a minha família, merece alguém melhor do que eu. Alguém que lhe tenha um sentimento que não tenho... Gosto de você, mas meu coração diz que esse gostar não é o suficiente.

Eu meio ao zum zum zum que tomara conta dos presentes, o noivo deu um passo atrás, balançando a cabeça em sinal de descrença e recusa ao que ouvira. Sofia, voltando-se para o sacerdote, que se mantivera inerte diante do ocorrido, continuou, com os olhos encharcados de lágrimas e voz suplicante:

- Padre, perdão por haver maculado o santo altar, caminhando para ele com um homem de quem gosto, mas que não é aquele por quem minha alma anseia, e cuja existência preenche os vazios da minha vida.  Perdão! – Disse e ajoelhou-se aos pés do reverendo, tomando-lhe a mão direita entre as suas mãos e sobre esta repousando o rosto molhado. 

- Tudo passa, Sofia... Tudo desvanece. Só o que está acima da trivialidade humana, permanece. – Falou o padre com uma voz e trêmula, como se vislumbrasse para além do telhado envelhecido algo que o desagregava enquanto cristão, sacerdote e homem. Seus olhos, sempre brilhantes, pareciam faiscar. Entregue à mística do momento nada fez para impedir que grossas lágrimas lhe escorressem pelo rosto.

De súbito, Sofia soltou sua mão, olhou assustada para os presentes e, como bicho acuado, não enxergando outra saída, correu para a sacristia batendo a porta atrás de si.

A mãe passou a chorar ainda mais. O pai permaneceu sentado demonstrando que não se dispunha a fazer nada. Ficou por conta das irmãs buscá-la na sacristia. O noivo, chocado e fortalecido pela presença do pai, retomou sua postura de fanfarrão esbravejando e, entre os mais próximos, ameaçando aquela que já julgava sua mulher. Calado, Severino Tropeiro sentia-se atingido por cada palavra do jovem. Ao ouvir uma ameaça mais comprometedora, levantou-se calmamente, pôs a mão direita sobre o ombro esquerdo do jovem e pondo sobre este toda a força do seu braço e olhando dentro dos seus olhos como voz pausada, quase sussurrando, disse:

- Tu é fie de João Capitão e pode ser fie até do cão, mas se fizé alguma coisa cum a minha minina, nem Jesus Cristo se descer da cruz vai me empatar de te mandar pro  inferno! - Falou, soltou o ombro do rapaz e, retornou ao seu lugar sisudo e de cabeça baixa.

- Paim, vumbora pra casa! – Falou o noivo em meio à balburdia, dirigindo-se à saída.

- Mãe, Pai, Fiinha num tá na sacristia não! A porta de trás tá aberta, ela foi simbora... Olha aqui. Deve ter saído correndo, qui jogou até sapato no mei da rua... - Falou uma das irmãs, assustada, com um par de sapatos nas mãos.

- Vão atrás dela! Deve ta na casa paroquial. – Falou o pai, depois tomou a mulher pelo braço e, de cabeça erguida, saiu da igreja enquanto o padre se dirigia aos fiéis.    

- Meus amigos, meus irmãos, como não haverá mais casamento é melhor irem para casa. Mas, antes, faço-lhes um pedido de amigo: oremos uns pelos outros, sempre. E nunca esqueçamos que insondáveis são os caminhos do Senhor. Agora ide em paz e que o senhor vos acompanhe! - Falou e recolheu-se à sacristia onde orou pelo resto do dia.

Na casa paroquial, as portas e janelas estavam fechadas. As irmãs bateram várias vezes até que, abrindo-se um quarto da porta, apareceu a zeladora.

- Desculpe a demora, eu tava tirando um cochilo.

- Achei que fosse pro casamento. Fiinha gosta tanto da sinhora! – Falou uma das irmãs.

- Também gosto dela como se fosse minha filha, mas num fui porque acho que aquele rapaz num vai lhe trazer felicidade. Rezo a Deus pra que eu esteja errada.

- Mas ela não tá casada e num vai mais ter casamento.

- Ah, e é? Mas o que vocês querem?

- É que ela saiu correndo e a gente acha que veio pra cá.

- Já viram. A porta tava fechada e eu tava dormindo. Então, vão procurar noutro canto.

- Mas num pode, ela só pode ta aí. Quando tava triste era pra cá que corria. Tem que tá.

- Tão duvidando, é? Então entrem. Vão procurar na cozinha, debaixo das cama, dentro do camiseiro, nas gavetas. Vão! A porta ta aberta. - Falou energicamente, abrindo a porta e afastando-se para facilitar o acesso, mas ninguém ousou entrar.

A procura daquele dia e de outros foi vã. Ninguém jamais a encontrou: nem Sofia, nem Sócrates no seu fusca azul. Foi como se tivessem sido varridos do solo mericoense por um tufão. 

Para Mericó, foi designado o padre Gregório que jamais abria mão de usar sua batina preta, era forte combatente de liberalidades na igreja e severo admoestador dos jovens. 


Aldenir Dantas


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Jimbo
15 May 2016 14 30
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Adelie
14 May 2016 13 32
a. Eu aperto e nada. Ja agitei, coloquei de cabeça para baixo, ja deixei na posição vertical e nada. O dispositivo não parece ter gás. Acho que é uma embalagem pump interna. En0;m&#823fi. caso não tenha solução, vou verificar como pode ser realizada a troca. Muito obrigada pela ajuda.
Easter
12 May 2016 14 43
Bouhouhou…(désolée, c’est que des fois, c’est triste. J’ai lu « la gauche à la noces » en poussant de tels soupirs que le chien m’a ramené la boîte de tranxen.)Et la question « que faire ? » (à part la vaisselle bien sûr) est désespérante. Surtout devant le &ln;roq détail&absp;&uaquo; de Fillon, un petit mot pourtant, et anodin, mais si mal connoté.Kiki
Cyelii
11 May 2016 22 59
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Stafon
29 Aug 2014 05 01
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Stevie
26 Aug 2014 16 18
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Janaya
25 Aug 2014 00 14
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Aldenir Dantas
26 May 2014 00 58
Obrigado, Jomar Morais, pelos comentários sempre generosos. E como toda a obra se faz na recepção, sinta-se, também, autor destas histórias mal contadas.
Jomar Morais
25 May 2014 18 13
Poeta, depois de reler seu conta desta semana, não tenho dúvida de que você quebrou, de novo, o seu recorde de qualidade. Conto belíssimo. Parabéns!
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