MIGUEL DA CABRA, O ARTISTA DE MERICÓ
Postado em08 Jun 2014 01 49 HISTORIAS DE MERICO



A sabedoria popular, comumente subestimada pelos letrados, sempre  demonstrou notória competência nos mais variados assuntos.

Lá em Mericó era comum se dizer, em relação aos que faziam questão de aparentar ter mais do que realmente tinham: “aquele ali tem espírito de rico”.  Em ralação aos que demonstravam habilidades para algum tipo de arte, diziam: “esse aí tem alma de artista”. E, assim como Dona Dodó era tida como detentora de um espírito de rica, Miguel de Dezinha, desde menino, era apontado como tendo uma alma de artista.

Gostava de se vestir como os artistas que via nas revistas, era fã de Fernando Mendes, de quem conhecia e cantava todas as músicas e adotara o cabelo black power que muito incomodava a mãe e os incomodados de Mericó. Obviamente, um rapazote agricultor não dispunha das possibilidades que o seu ídolo tinha para cuidar daquela cabeleira que mais parecia com a copa de uma árvore. Mas se o cabelo e o gosto eram dele, tinha-se mais era que respeitar.    

Morava com a mãe há algumas dezenas de metros da cidade, onde num pequeno pedaço de terra herdado do pai cultivavam alguns produtos de subsistência e criavam porcos, galinhas e uma cabra de leite.

Sabemos das dificuldades geradas, especialmente numa pequena cidade do interior, ao se colocar nomes como Manoel, Miguel e Samuel nos filhos. Esse “uel” parece exigir muito esforço físico dos músculos da língua e acaba virando Mané, Manel, Migué, Miga, Samué, Samuca... Foi de o caso de Miguel, conhecido como Migué de Dezinha ou Migué da Cabra, já que havia outros Miguéis. 

Quanto à Cabra, veio de um presente do padrinho quando ele tinha cinco anos. Era uma bela novilha, que cresceu com ele, pela qual tinha um cuidado e um carinho muito especial.  Além de fornecer-lhe filhotes e leite, o acompanhava quando ia buscar ração e até quando, criança, brincava no quintal da casa. Ele a tratava como gente. Só não a colocava para dormir ao lado da rede, porque a mãe não deixava. E por tanto andar em sua companhia, o menino acabou recebendo a alcunha de Migué da Cabra. Ele nunca ligou para isso, nem deixou de dispensar os cuidados de sempre ao animal que, desde pequeno, chamava de Pibita.  

Aquele ano marcara a sua maioridade, mas a vida em vez de lhe presentear, tirou-lhe o que lhe dera de mais precioso, a mãe. Sozinho, na lida com o pequeno roçado e os animais, percebeu que Pibita a cada dia comia menos, estava muito magra e sem disposição para andar. Conversando com pessoas mais experientes, descobriu que era velhice.  Com quatorze anos, um caprino já está muito velho, no fim da vida. E, assim, com a friagem de junho ela morreu e ele teve de enterrá-la no fundo do quintal, no mesmo lugar em que ficava deitada,  assistindo-o brincar quando criança.

Mas sua alma de artista lembrava-lhe o tempo todo que o espetáculo deve continuar. Se à noite, em casa, chegava a ficar horas na rede remoendo que rumo tomar na vida, na rua era só alegria.

Não se podia dizer que era um ótimo cantor, mas tinha uma habilidade de se auto-acompanhar que impressionava.  Na introdução, nos entremeios e no encerramento de cada música, emitia sons com as mãos, os pés e a boca, transformando-se numa verdadeira orquestra. Eram, de fato, extraordinárias a sua criatividade e musicalidade.

Suas apresentações aconteciam em qualquer hora, em qualquer lugar. Tinha a maior satisfação em atender alguém que num bar, numa barraca de feira, numa esquina, pedia:

- Migué da Cabra, canta aquela, prá nóis!

“Aquela” era a a sua música preferida: “a desconhecida” de Fernando Mendes.  A introdução, originalmente feita com um violão, ele transformara num rebuscado vocalise que, por si só, impressionava. Afora isso, havia toques de percussões e outros floreios permeando toda a música em seus intervalos.

Foi numa dessas apresentações, no intervalo de uma cantoria no Hotel de Dona Branca, que Mister Cook o conheceu e emocionou-se com o talento a pureza e a alegria daquele jovem contrastando de forma tão brutal com a notória miséria em que vivia. O americano rapidamente procurou inteirar-se acerca da sua história e, tão logo este encerrou a apresentação, além de aplaudi-lo de pé, elogiou sua performance e falou para que todos ouvissem:

- E agorra, de corraçon, eu querrer convidar a jovem Miguel parra ir ser artista na minha país, Estados Unidos.

Os presentes ficaram boquiabertos com aquela proposta vinda do primeiro estrangeiro a pisar nas terras de Mericó. Mister Cook era integrante do hospital flutuante Hope, ancorado em  Natal, e a convite do prefeito viera passar um fim de semana ali.

As semanas seguintes foram de conselhos, discussões e, sobretudo, de euforia para Miguel que se via diante da possibilidade de realização do seu sonho: ser artista de verdade.

Passado um mês, havia vendido o pedaço de terra com o casebre e a bicharada e, de maleta na mão e sob as orientações do seu benfeitor, embarcou num avião para os Estados Unidos.

Foram cinco anos sem notícias suas, até que, numa noite de agosto, ele desceu do ônibus da linha. Bem vestido e com a alegria de sempre, transformou o bar da parada, que funcionava como rodoviária, numa verdadeira festa.

- Mas, Migué, qui aligria, homi, vê você de vorta pra casa!

- De volta não, meu amigo. Vim passear, rever os amigos e, como não sou de ferro, dar uma boa farreada na festa de Agosto que está pertinho, né isso?

- Isso mesmo! Muito bem, Migué da Cabra.

- Homi, num me chame mais assim não que meu nome mudou, faz tempo.

O bar cada vez mais se enchia e Miguel falava da sua trajetória artística em bares e casas noturnas, cheia de dificuldades, mas que lhe rendiam o suficiente para viver bem. Alguém lembrando do prefeito, correu para avisá-lo da novidade e este, em poucos minutos chegou acompanhado de alguns dos correligionários. Abraçando e parabenizando o artista, ofereceram-lhe as melhores acomodações em suas casas, pelo tempo que desejasse. Contudo, antes de aceitar a oferta, o jovem dirigiu-se aos presentes:

- Mas me digam uma coisa: Zabé de Zé Pezim ainda mora ali, na saída da rua?

- Mora no mermo cantim, Migué!

- Pois agradeço muito a gentileza dos senhores, mas vou ficar hospedado lá.

- Mas meu caro Miguel, você há de convir que se trata de uma casa pequena, com muita gente, não há espaço suficiente para acomodá-lo bem.

- Mas que nada, senhor prefeito! Quando Deus levou a finada minha mãe, foi lá que dormi várias noites. Sei que o cantinho da minha rede ta lá. Mais do que meus amigos, aqueles ali são a minha família do coração.

A conversa se estendeu por mais de uma hora, regada a cerveja e refrigerantes. Vez por outra, mesmo sem se mostrar incomodado com a antiga alcunha, ao ser chamado de Migué da Cabra, ele, sem azedume, dizia que seu nome não era mais aquele, fazia tempo.

Em meio à festança chegou à porta e passou a olhá-lo um pouco sem jeito, Zezim de Zabé, seu amigo de infância. O jovem olhava o velho amigo, todo grã fino, sem coragem de se aproximar na sua simplicidade de cortador de agave. Já pensava em dar meia volta e ir para casa, quando Miguel o avistou e com efusiva alegria e olhos excessivamente brilhantes, abriu os braços e seguiu em sua direção:

- Zezim, meu irmãozim! Tava sentindo a sua falta, homi. Ainda dá pra armar a minha redinha naquele cantinho da sala da sua casa?

- Homi, tem umas tranquêra por lá, mas a gente limpa tudo e arma. – Falou abraçando o amigo e sustentando-se para não chorar.

- Pois vamo simbora, homi. Vamo deixá essa cabroeira aqui que essa “viagem dos Esteites me deixou, deveras, exausto”... Falou, deu uma boa gargalhada e colocando a mão no ombro do amigo, desceram rua abaixo.

Passada uma semana, chegara o dia tão esperado: a festa de agosto, anualmente organizada pela turma concluinte que, naquele ano, trazia pela primeira vez à Mericó a famosíssima banda Impacto Cinco. Começou até a correr um boato que Miguel iria fazer uma participação especial na festa.

- E aí, Migué da Cabra, tu vai mermo cantá cum a banda Impatos Cinco?

- Sei disso não, rapaz. E meu nome não é mais esse, faz tempo que mudou, homem.  – Falou, com ar de riso.

Mesmo tentando apagar da memória dos conterrâneos o antigo apelido, nunca dizia qual era o seu atual nome, nem tampouco ninguém perguntava.

Enfim, o mercado municipal estava lotado com pessoas de Mericó, das cidades vizinhas e até da capital para a grande festa. Acentuando o clima, a festa foi aberta com uns solos de guitarra e bateria, em meio a jatos de fumaça e luzes estroboscópicas, seguidos por um breve silêncio para a entrada, sobre aplausos, do vocalista principal que, após saudar os presentes e pedir um pouco de silêncio, falou:

- Agora, é com enorme emoção que convidamos para abrir a noite, diretamente dos Estados Unidos, o talentoso e internacional... Quem? Quem?

- Migué da Cabra! Miguel da Cabra! - Gritaram os presentes, alguns de forma estridente.

- Então, com vocês: O internacional! O inimitável! O grande... MICHAEL GOAT!

Em meio a efusivos aplausos, ouviu-se primeiro o já conhecido vocalise, introdução “daquela” música. Em seguida, intensificando os aplausos e a gritaria, surgiu o artista usando um terno colorido brilhante, gravata borboleta e, primorosamente acompanhado pela banda, cantando:

“ Numa tarde tão linda de sol, ela me apareceu...”
   


Para abrir a janela de comentarios, clique sobre o titulo do texto ou sobre o link de um comentario:
Adele
15 May 2016 14 30
Damit hatten Keynes und Churchill völlig Recht, und leider beging Clemenceau (von dem ich sonst sehr viel halte) den schlimmsten Fehler seines Lebens, indem er dort in Versailles die alte desnƒch-fratzÃs¶uische Feindschaft neu aufs Papier tun ließ http://rqfojjrrh.com [url=http://fbyvyx.com]fbyvyx[/url] [link=http://nvfkjlrnqlm.com]nvfkjlrnqlm[/link]
Adele
14 May 2016 13 32
Im no expert, but I imagine you just crafted the best point. You obviously fully untrasdend what youre speaking about, and I can truly get behind that. Thanks for staying so upfront and so sincere.
Nodin
11 May 2016 23 09
LA VERDAD ME EMOCIONE MUCHO AL LEER A MIS PAISANOS DE TRANZALANDIA (MEXICO) Y DE MI SEGUNDA PATRIA ESPAÑA COMENTAR SOBRE EL PECHO DE ANDY Y PUNTA GALEA, YO TAMBIEN GUARDO UN CASSETTE USADO CON ESTAS ROLAS Y LOS ESCUCHO SOLO EN MI CUMPLEAÑOS, SON MUY POCAS PERSONAS LAS QUE CONOZCO 2 O 3 QUE CONOCEN ESTOS GRUPOS Y ESTAMOS TRATANDO DE CONSEGUIR SUS CANCIONES POR TODOS LADOS YA ES VICIO, SI ALGUIEN TIENE EL ARROZAL O RASO Y SARTEN POR FAVOR PIEDAD!! AVISENME PONGAN LE PRECIO, MI COCHE, MI VIEJA, LO QUE SEP!MDESEAERADA!ENTE WUICHOUN ABRAZOTE COLEGAS DEL DOLOR.
Deixe um comentario
Seu nome
Comentarios