TRÊS HOMENS, UMA MULHER E UM GALO
Postado em22 Jun 2014 02 07 HISTORIAS DE MERICO



Hoje vos apresentarei três mericoenses de origem e cotidiano diversos envolvidos em um incidente que, por pouco, não transportou Mericó do Agreste Norteriograndense dos tempos do major Theodorico  para o velho Oeste Americano dos tempos das diligências.

O primeiro é Moacy, filho do prefeito, jovem de boa aparência, idolatrado pelas moças de Mericó e região. Com apenas dezoito anos já estava à frente da secretaria municipal de saúde e, frequentemente, era visto transitando pela cidade e redondezas num veículo tipo perua, da prefeitura.

Filhinho de papai, mergulhado no nepotismo e usando viatura para andar de um lado para outro às custas do erário municipal... Foi isso que você, leitor, pensou? Caso afirmativo, pelo menos desta vez, está enganado. Mesmo muito jovem, o rapaz era de uma seriedade admirável, comprometido com o seu trabalho, acessível a todos e, mesmo não tendo nenhum conhecimento na área, conduzia muito bem a Pasta da Saúde municipal, por dois motivos: preocupava-se, de fato, com os munícipes e sempre se aconselhava com profissionais da área.

E as suas andanças no carro da prefeitura eram transportando doentes das comunidades rurais para a cidade, ou de Mericó para uma cidade maior, quando o caso assim exigia. Tamanha era a seriedade do jovem Moacy que, vez por outra se falava mal do prefeito mas, do seu filho, só falavam mal os opositores cegos pelas relações de ódio e paixão que permeiam as disputas políticas em cidades como Mericó.

O segundo é José Florentino, conhecido como Zé Tino, um agricultor que mal aprendera a ler, nunca fora numa escola mas todos eram unânimes em dizer: “se tivesse tido a oportunidade de estudar, era um doutor, um professor, um inventor”. Isso porque na sua vida simples, frequentemente encontrava soluções para problemas do dia a dia, inventando coisas como, forno agregado ao fogão de lenha, filtro para água à base de areia, engenhocas para semear e colher, dentre outras. O próprio dizia que, quando passava mais de um mês sem inventar alguma coisa, ficava agoniado. E era para essa agonia que procurava alívio no álcool.

No dia a dia Zé Tino era calado, monossilábico, mas quando bebia, após a terceira dose o nó desatava-se e falava mais do que o homem da cobra. E não falava de qualquer jeito, falava bonito, difícil. O álcool, suprimindo os inibidores, permitia que revelasse sua paixão pelo padrão culto da língua e por nomes difíceis, inclusive, os estrangeiros. Mas, como além de analfabeto, sempre viveu na zona rural, era comum, nas suas falas, surgirem graves deslizes que o transformavam em motivo de graça. Tanto que, sempre que bebia, os colegas de mesa não paravam de puxar conversa para ouvi-lo tropeçar no léxico.

Por fim, apresento-vos uma cidadã conhecida como Zefa do Galeto. Segundo alguns conterrâneos seus, era a pessoa mais confuseira de Mericó. Bastava alguém olhá-la meio atravessado para explodir. Após intrigar-se com um grande número de pessoas, inclusive, com a maioria dos vizinhos, acabou transformando-se numa figura folclórica, referência em balbúrdia, chegando-se a dizer na cidade, com alguém que apresentasse esse tipo de comportamento: “vai ser confuseiro assim lá na casa de Zefa do Galeto!”.

Quanto ao apelido, na verdade, nunca nem vira um galeto. O que comercializava era galinha torrada num dos locais do mercado, aos domingos. Mas não ligava que a chamasse assim, fazia parte do marketing. Afinal, galeto, que os mericoenses só conheciam de nome, era produto chique, coisa da capital. Inaceitável seria se a chamassem de Zefa da Galinha.

Naquele domingo, a feira havia acabado, era finzinho de tarde e Zefa do Galeto, sentada na calçada, conversava com uns vizinhos. Zé Tino, encostado numa barraca no outro lado da rua, já bem calibrado no álcool, pedia a saídeira para tomar o caminho de casa, quando surgiu Moacy ao volante do veraneio da prefeitura.

Quem dirige há de concordar que, no trânsito, a galinha se mostra como detentora de uma parca inteligência. Quando o carro vem, ela fica à margem da estrada, mas quando este se aproxima, em vez de correr no sentido oposto, ela atravessa a pista, assustada. E foi assim que aconteceu com o galo de Zefa do Galeto. Um belíssimo galo, altaneiro, de plumagem cintilante, mas, como todos de sua espécie, de pouco pensar. O rapaz freou o carro, tentou livrar, mas não conseguiu evitar o atropelamento.
 
Para quem criava confusão até com o vento, ali estava um motivo gigantesco para explorar ao máximo aquele estranho prazer. E Zefa do Galeto não deixou barato. Disparou seu falatório fazendo com que, em poucos minutos, toda a vizinhança estivesse no local. Formou-se um círculo em torno do ocorrido, com o motorista tentando resolver o problema, mas sem poder falar, pois, somente ela falava. Mesmo sem a polícia haver sido acionada, o cabo que passava nas redondezas, vendo o ajuntamento de pessoas, dirigiu-se ao local.

Com a confusão generalizada, ninguém chegava a um entendimento. Zefa falava, os vizinhos, testemunhas oculares do acidente, falavam e o filho do prefeito, diante da impossibilidade de se fazer ouvir, encostou-se no carro e ficou esperando gastarem a munição de palavras para ver se lhe sobraria um espaço para resolver a pendenga.

A chegada do cabo não serviu de muita coisa, pois cada um queria contar a sua versão do fato gerando mais e mais desentendimento. Enquanto isso, Zefa não parava de vociferar frases como:

- É, ta pensano qui purquê é fí do prefeito é dono do mundo, é? Cumigo não, violão! Cumigo não! Eu tano nos meu direito, num tem medo de prefeito, nem de puliça, nem da gota serena! Só temo os castigo de Deus e nada mais.
 
- Senhores, senhoras, por obséquio. – Falou Zé Tino que, impacientando-se com a crescente confusão, veio contribuir para o esclarecimento do ocorrido.

E por mais incrível que possa parecer, até Zefa do Galeto calou-se para ouvir o recém chegado de olhos trocados devido à bebida, mas firme.

Percebendo que havia um bicho no boné do cabo, conhecido popularmente como Mané Mago, Zé Tino deixou a questão da galinha de lado por um instante para avisar sobre o inseto ao policial:

- Meretrício senhor policial, há um Manoel Magro no seu boné, senhor.

Mesmo em meio à tensão, o guarda conteve-se para não rir, tirou o boné, atirou fora o inseto e voltou-se para resolver o problema:

- Quem aqui, vai, finalmente me explicar que chafurdo disgraçado é esse?

- Explicar-te-ei, senhor. Explicar-te-ei. – Falou Zé Tino e sua fala, pelo caráter peculiar, acabava impondo silêncio aos demais.

- Apois fale logo, homem de Deus!

- Senhor, o ploblema é que estava este galinácio... – Começou falar, mas nem completou a primeira frase, interrompido por Zefa do Galeto:

- Oi aqui, seu Zé Tino! Aqui num tem nenhum galo Inácio, não, viu! Done o sinhô tirou essa idéia qui meu galo se chamava Inácio? Meu galo num é cristão, pra tê nome de gente!

- Então, senhores, senhoras, o fato é que, estava este animal transitando displicentemente em vias públicas, quando foi, barbaramente atropelado por este imóvel em movimento. Ele, por traficar sem observar os códigos e leis do trânsito mericoense, foi o próprio culpado por virar óbito esfacelado por um pneumático.

- E acabou o chafurdo! E vamos todos para casa! E Dona Zefa se aquiete porque se não, além de perder o galo, vai cantar de galo é lá na cadeia, por desacato. O rapaz já disse que paga o galo, e tá resolvido! – Falou o cabo, em seguida deu um tiro para o alto e todos correram para as suas casas.

Moacy, balançando a cabeça com o ar de riso, entrou no carro e já ia saindo quando, olhando para fora, gritou.

- Vamos, Zé Tino. Entre aqui que vou lhe deixar em casa. Do jeito que tu estás, vai acabar caindo pelo meio do caminho.

- Muito agradecido, senhor Moalcy – Falou Zé Tino, fazendo uma reverência para entrar no carro.



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Marilis
09 Jul 2014 09 13
O Zé Tino acaba assassinando a gramatica portuguesa,portanto promovendo um grande ruido de comunicação entre os morredores de Mericó. Assim gerando muitas risadas.
Marilis
09 Jul 2014 09 10
O Zé Tino acaba assinando a gramatica portuguesa promovendo um ruido de comunicação com os mirradores de Mericó. Assim só risadas.
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